quarta-feira, 26 de maio de 2021

Enquanto o Papa chamava os brasileiros de "cachaceiros sem salvação", ali na Colombia, os manifestantes tocavam fogo no Palácio da Justiça...




"Mas o que é horrível é o sentimento de ter perdido tanto tempo e ter feito toneladas de esforços por esse bando horroroso e diabólico de bêbados, filhos da putas e puxa sacos..."

Céline (Norte)

Neste começo de noite, o assunto ali na esquina, entre paus d'água, gardênias e boleros, era a brincadeira que o Papa argentino fez hoje, lá no Vaticano, a respeito do povo brasileiro, ao dar uma benção a um padre da Paraíba. 

-Ah, vocês no Brasil não terão salvação!  Fez uma cruz com o dedo polegar na testa do padre paraibano e concluiu: Muita cachaça e pouca reza!

Foi uma brincadeira simpática. Mas o que todo mundo queria saber era o que o teria levado a fazê-la?? O que, realmente, o teria motivado? Lembranças das noites de tango nos arredores de Buenos Aires? Teria sentido o bafo de nosso reverendo? Ou foram as noticias que lhe chegam sistematicamente através da imensa rede de espionagem que são os confessionários? Estaria mentalmente revendo o pensamento de Celine?

Não, não dá ainda para saber o que motivou a fala do pontífice. Mas os clientes do bar estavam um pouco desgostosos com a piada. Com toda a sensibilidade que conhecemos nos bêbados e com toda a compulsão por encrencas que o álcool provoca, diziam-se magoados e ofendidos. Um deles declarou em voz alta: o que mais me enfureceu nem foi a brincadeira do Papa, mas a submissão do padre paraibano ao pedir-lhe que rezasse para o povo brasileiro. Um vira lata sem testosterona! Um outro, até, para fazer um contraponto ao Principe dos apóstolos, tirou do bolso um rosário que, segundo ele, sua mãe havia trazido de lá e o colocou sobre a mesa, no meio dos copos vazios e ensalivados. E jurava rezar, bêbado ou não, todos os dias antes de ir para a cama e até mesmo antes de fornicar e brincar libidinosamente com sua mulher.... Os outros riam. Lançavam impropérios contra o representante de Deus no ocidente e até fizeram um brinde em sua homenagem. O cheiro da cachaça nos remetia aos alambiques lá no meio dos canaviais de Salinas... O mais tímido deles, que dizia estar em tratamento (complicações de Wernicke) e que só bebia de vez em quando, retirou do bolso interno de um casacão tipo aqueles dos militares russos um livro em péssimo estado e o colocou sobre o rosário e a mesa molhada. Tratava-se do livro Carta a uma nação cristã, de Sam Harris, com prefácio de Richard Dawkins.

Conhecem? Foi perguntando aos demais. Ninguém respondeu. Todos deveriam lê-lo, recomendou. 

Em seguida, meio irritado, abriu o livro e leu teatralmente estas seis ou sete linhas  que estavam sublinhadas e que, segundo ele,  estavam lá em Provérbios; lá no Levítico; no Êxodo; no Deuteronômio; em Marcos; e em Mateus:... "Sempre que os filhos saem da linha, devemos bater neles com uma vara. Se eles tiverem a pouca-vergonha de nos responder com insolência devemos matá-los. Também devemos apedrejar pessoas até a morte por heresia, adultério, homossexualismo, por trabalhar no sábado, adorar imagens, praticar feitiçaria e etc."

Os colegas de mesa riam em total embriaguês sem saber exatamente a razão. O dono do livro, depois de voltar a colocá-lo no bolso interno do casaco, levantando a garrafa, parafraseou de Marx, sua velha e conhecida frase: a religião é a cachaça do povo!

Todos gargalharam prazerosamente.

E de lá do meio da noite ainda chegavam até o bar, o rufar impressionante dos tambores imaginários e de alguns boleros impregnados de melancolia e de religiosidade... Sem falar das labaredas queimando o Palácio da Justiça lá na Colombia...



Um comentário:

  1. Bazzo, e se admitimos os dizeres de que cu de bêbado não tem dono, a piada do PAPA foi também homo-fóbica

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