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quinta-feira, 3 de março de 2011

OS FILHOS DO OCASO / OU O CAJE É NOSSA TREBLINKA...


Entender porque os duzentos e tantos internos que estão confinados no CAJE cometeram tais e quais crimes e transgressões sociais não é difícil, o problema mesmo é compreender como é que uma sociedade que se diz religiosa, trabalhadora, democrata, moderna e altruísta (até socialista!!!) consegue seguir respirando e cagando ao redor de uma instituição dessas que, nos moldes de Treblinka, mantém enjauladas tantas crianças.
Não se agite funcionariozinho público ou comerciantezinho de bagatelas que vai se confessar todos os domingos, pois já sei tua opinião sobre esse assunto:

- Deviam era fuzilar esses bandidos! Não é verdade?

Pensas assim por ignorância e porque não consegues admitir que se teus filhos tivessem nascido no inferno onde nasceram esses “pequenos prisioneiros” estariam todos, como eles, atrás das grades e mais, pelos mesmos delitos. Ou segues acreditando que o problema deles é genético??? Que pode ser explicado pelo espiritismo???

Há décadas os políticos juram que vão dar um jeito nesse aborto prisional e nada. Nos finais de semana as mesmas mães estão lá junto às cercas de arame farpado para, pelo menos, dar um abraço semanal em seus pequenos heróis. E saibam: os crimes daquelas crianças, quase sempre são expressões do desejo até de seus bisavós que, como elas, passaram e suportaram infernos semelhantes... Apesar de todas as demagogias fascistas em contrário, manter um homem numa jaula é um crime. E um crime muito pior que qualquer outro, já que ele é sempre consciente, planejado, vingativo e arquitetado pelo Estado e por seus lacáios...

Somos um povo lesado e atrasado, não conseguimos fazer nada objetivamente. Perdemos nossas vidas em reuniões inúteis e presunçosas e precisamos de anos para mudar uma mesa ou uma janela de lugar. O CAJE (e a escada rolante da rodoviária) são os exemplos mais estapafúrdios. Com o dinheiro que (supostamente) já jogaram ali naqueles calabouços daria para terem instalado água potável, saneamento básico e orquestras sinfônicas em todas as bibocas nacionais de onde é procedente a maioria desses pobres infratores.

domingo, 19 de julho de 2009

E nós que apostávamos e que amávamos tanto a juventude

Sempre que acontece algum evento nacional aqui na cidade, vou para lá com minha mala de 1840, repleta de livros, vender ou pelo menos exibir “minha obra”. Fiquei viciado nessa prática de camelô ainda nos anos 80, quando vivia na Cidade do México. La Plaza de Coyoacan nos finais de semana e la UNAM nos outros dias, depois das aulas, às vezes com meus filhos amarrados às costas como as índias astecas.

Durante três dias estiveram aqui uns sete ou oito mil jovens estudantes num encontro da UNE. Apesar de todos os discursos, dos revolucionarismos e das fantasias (iguaizinhas e melancólicas como às dos anos setenta) continuam muito mais interessados numa lata de Skol e num baseado do que num livro. Talvez até tenham razão! Mas o que me chamou verdadeiramente atenção (principalmente nas meninas) foi o excesso de banhas e a estatura da maioria, próxima ao nanismo. O que parece uma contradição, pois se há excessos de gorduras, açúcares, levedos etc., nas comidas diárias porque crescem para os lados e não para cima? Posso estar idealizando e distorcendo a história, mas em meu tempo, as meninas (mesmo as Lolitas neuróticas e militantes dos DCEs) eram bem mais charmosas e elegantes.

Outra curiosidade: só havia gente de “esquerda”. Os jovens da classe média e alta não vieram porque, com certeza, devem estar se adestrando para entrar no STJ, na Procuradoria da República ou no Ministério Público, porque é lá onde trabalham seus padrinhos e familiares, onde estão as grandes mamatas, os salários sigilosos e o Poder. De quando em quando um bando saia pulando e gritando slogans de lá para cá, com bandeiras, camisetas, e bonés etc., como se estivesse rivalizando com outro bando ou com algum partido imaginário. Sinto que há neles um não-sei-quê de submissão que me intriga. Meia hora depois era a vez de outro grupo, com camisetas e bandeiras diferentes e assim por diante. Tudo lembrava um encontro ecumênico. Hare Krisnas por um lado, Filhos de Jeová por outro. Aqui os Adventistas, acolá os Cristãos dos últimos Dias. Numa barraca os Carismáticos, na outra os Netos de Xangô etc. Exibiam-se uns para os outros porque, evidentemente, devem existir rivalidades infanto juvenis entre eles, rivalidades que se prolongarão até que chegue o dia de lançarem suas candidaturas e de se elegerem para o Senado ou para a Câmara. Lugar onde, sabemos muito bem, tudo se concilia e se harmoniza. Muitos bumbos e muita música. O conteúdo dos discursos era praticamente idêntico aos discursos da época miserável em que os militares estiveram no poder, quando reuniões como estas estavam sempre cheias de dedos-duros e de alcagüetes. Que porra é essa? Surpreendi-me pensando.

Eu sou PT – dizia uma morena da Bahia. Ah... Eu sou PSOL - replicava uma loira do RS. Mas tudo indicava que se entrasse na roda alguém do PTB, do PSDB, do PRB, do PDT, do MDB, do DEM ou da PQP, o impacto seria o mesmo: Nenhum. Uma replica precoce do cinismo e da hipocrisia do Congresso Nacional? Liga tal! Corrente tal! Célula tal! Cada um com um crachá de DELEGADO no pescoço. Delegado? Porra, não havia uma designação menos policialesca? – Perguntei a um deles. Puro blá blá blá. De vez em quando falavam do Pré Sal como se falassem da pré menstruação ou do pré orgasmo. Alguns até olhavam curiosamente para minha mala (aberta sobre o capô do carro de um vendedor de cachorro quente), mas quando percebiam que não se tratava da obra do Che, do Lênin, do Trotsky, do Stalin ou dos folhetos dos deputados oportunistas de plantão, faziam meia volta e desapareciam com ares de incendiários.

Voilá! Serão eles, irremediavelmente, que amanhã nos comandarão desde os pedestais da República.


Ezio Flavio Bazzo