1. Argentina 2, Inglaterra 1. E o futebol, ali no coração do império, cumpre sua função: expõe o vazio, a solidão, o transtôrno bipolar, a mediocridade (ver o argentino Jose Ingenieros) e a histeria planetária. Na Argentina, a festa e as milongas parecem não ter fim. Logo logo, até com a colaboração dos mendigos e dos assassinos mencionados nas obras de Arlt, edificarão uma igreja também ao petit e singelo Messi, igual ou até maior da que levantaram em homenagem ao Maradona. E o fenômeno é tão ambulatorial que não apenas a turma cuja profissão é decorar nomes de jogadores e descrever o perfil dos meia-de-campo e dos centro-avantes, mas que até o vendedor de pamonha, aqui da esquina, está em pleno alucinio, como se os gols (de um lado ou de outro) fossem alterar uma vírgula de sua miserável vida. Caralho!!! Como recuperar a sanidade??? E vendo aquela multidão enlouquecida no meio da madrugada, lá em Buenos Aires, impossível não lembrar do velho e cego Borges: "es saberse culpable de velar cuando los outros duermen, es querer hundirse en el sueño y no poder hundirse en el sueño, es el horror de ser y de seguir siendo, es el alba dudosa..."(Vol III, p. 301)
2. E a inveja brasileira, mesmo disfarçada, emerge. Não apenas quando ouvem a Madonna cantando
Don't Cry For Me Argentina
nem apenas pela mítica ao redor do Messi e do futebol (esse passatempo anímico de palhaços), mas porque sabemos que há lá mais livrarias do que botecos... Que tiveram um Borges, um Che Guevara, um Piazolla e um Arlt. Porque a psicanálise deles é referência... E porque lá, mesmo com um racismo enrustido, com um catolicismo de catacumbas, com uma política e uma moeda de merda, o saneamento básico funciona e a água é quase 100% potável...
3. E as tais Malvinas? No meio do jogo lá em Atlanta, dizem que um torcedor porteño em frenesi, jogou uma bandeira daquele arquipélago no meio do campo e que no final, depois dos 2/1, levantaram uma faixa dizendo que as Malvinas são deles... Bobagens! Convivi com muitos deles (professores e doutorandos), na Ciudad de Méjico durante a guerra da Argentina com os ingleses (2002). Frequentemente apareciam chorando na Praça de Coyoacan ao ver seus "hermanos" adolescentes, levados despreparados, por generais psicopatas, até de tênis, para lutar contra o império britânico e sendo destroçados. Perderam. O arquipélago, aqueles pedaços de gelo inúteis, perdidos no Atlântico Sul... com seus pinguins desajeitados e patéticos... ainda continuam sendo colonialmente conhecidos por Falkland... E não será pela habilidade de 11 patetas (mescla de italianos, ibéricos, indígenas e até africanos subsaarianos), correndo atrás de uma bola de couro de vaca e nem por milhares de clows gritando das arquibancadas de um circo que o conflito se resolverá...
A propósito: a endemia atual, de ciclosporíase lá nos USA, teria alguma coisa a ver com tudo isso? Ou seria, mais bem, pelos mísseis e pela pontaria de ontem, dos iranianos?

