sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Dos Apaches a Bachelard. (Kiev e a psicanálise do fogo..)




"Ah! O fogo!
"Se tudo o que muda lentamente se explica pela vida, tudo o que muda rapidamente se explica pelo fogo (...)
Ele brilha no paraíso e queima no inferno. Ele é doçura e tortura. Ele é cozinha e apocalipse. Um deus tutelar e terrível, bom e malvado. Um bem e um mal! Ele pode se contradizer. Enfim, é um dos princípios da explicação universal..."

Gaston Bachelard
(IN: La psychanalyse du feu, p. 25).


















 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O racismo folclórico e infanto-juvenil contra os catarinenses... ( e La Verdinela...)


"Plinio, o Antigo, inquietou-se outrora, com uma espécie de mosca chamada pyrallis ou pyrotocon, que só podia voar no fogo: 'enquanto ela está no fogo, ela vive; quando seu voo a afasta dele um pouco mais, ela morre'"

Georges Didi-Huberman

(IN: Sobrevivência dos vagalumes, p. 13)


 


1. Depois que a polícia divulgou ter disparatado aqui em Brasília, um grupo de adolescentes, - sete ou oito, quase todos provenientes dos estados do sul do país -, que pretendiam, durante as eleições, 'tocar o terror' na cidade, os preconceitos, já existentes, mas velados, contra o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, (principalmente contra os catarinenses e os + albinos), se escancararam, passando a região a ser mencionada quase como uma espécie de ninho de fascistas, para não dizer de nazistas, e isto, até por aqueles que gostam de papaguear que é importante fomentar o amor fraterno e a diversidade, seja de gênero, de gosto, de cor, de crença, de pilantragem, de ideologia e principalmente de etnia... E justificam com o argumento de que por lá, há bandeiras do Brasil em todas as janelas e varandas porque são todos bolsonaristas e que para lá aportaram tanto os nazistas de Hitler, como os judeus de Sion, os italianos de Mussolini, os lusitanos dos Açores, os espanhóis de Franco e outras escórias européias... Sem falar das 'polacas', daquelas albinas cortesãs, as mesmas que deram vida aos primeiros puteiros tanto da Lapa (no RJ) como aos lá de Manaus (e que 'serviam' (inclusive, com os mesmos gemidos), tanto aos patrões como aos escravos dos garimpos)... Ah! Os gemidos da floresta! As pétalas da Vitória Régia e as serpentes, serpenteando! Lembram? Como não pensar na serpente do Éden? Enfim, quase não escapa ninguém... E nós, como ficamos nós, que nascemos por lá, numa região inesquecível de colinas e pinheirais radiantes, que em junho ou julho amanheciam sempre cobertos de geada? Seríamos todos, como dizem, uns fascistas filhos de putas? Teriam razão? 

Realmente, ainda lembro que na minha casa, ao lado de uma escada que levava para o sótão, havia, na parede, bem junto aos primeiros degraus, ao lado de uma imagem da Virgem Maria, uma notícia dos partigiani e uma foto da Clara Petassi, a última amante do Mussolini (o Duce), com seus 26 anos e chamada carinhosamente de Clareta!.. Sim, lembro que sempre via na mesa da cozinha, ao lado dos ingredientes para o fabrico de cerveja e da panela de ferro onde se fazia a polenta, o livro: As ervas que curam e que, praticamente atrás da porta de cada quarto havia uma sacola com cartuchos e uma espingarda dependurada, sem falar dos momentos em que, minha mãe, tocava, especialmente para mim, numa gaita de boca, aquela canção folclórica cantada pelas mulheres do norte da Itália, durante a colheita do arroz: Bella Ciao... Algumas vezes, sem cerimônia, se ainda tinha fôlego, passava de Bella Ciao para la Verdinela... E dançava...

Mas, e daí? Pelo fato de ter nascido por lá, no meio daqueles pinheirais encantadores, daquelas montanhas de pedras e daquela solidão do caralho, por ter tido uma mãe que tocava, numa gaita de boca, além de Bella CiaoLa Verdinela, o que isto tem a ver com Mussolini ou com Hitler, com o fascismo, com o nazismo e com a gangue presa ontem, que - segundo a polícia - pretendia 'tocar o terror' aqui na capital da república???

Ora! Vão foder outro!



quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O PAÍS DO FUTURO e os horrores da propaganda eleitoral...


"Pero el simbolismo animal no desapareció. Los sacerdotes, en ocasiones, llevaban puestas las máscaras de los animales. El tótem animal - el toro, el cerdo, la cabra, o la serpiente - permaneció como algo sagrado..."

Pennethorne Hughes

(IN: La brujería, p. 26)





A mídia está radiante e excitada com a programação dos próximos dois meses, quando pretende turbinar suas publicidades e seus anunciantes promovendo nos palanques (outra vez), as inúteis e fúteis discussões entre os cinco ou seis candidatos à Presidência da República. 

Apesar dos 5 bilhões destinados a esses meses de lero-lero, as promessas e os programas dos tais candidatos, são domésticas, patéticas e risíveis. Uma típica discussão entre palhaços!

Um horror!

Um bla bla blá que ronda à demência.

E, o mais curioso dessa epopéia, é que na prática, depois de eleitos, em seus quatro ou cinco anos de "governo" (veja-se a história), não pretendem ou não conseguem sequer, mudar o telhado de um pronto-socorro; substituir o diretor corrupto de um hospital ou de uma escola;  treinar os funcionários de uma garagem; tapar os buracos de uma vía; ordenar o trânsito; disponibilizar o Canabidiol, evitar que os esgotos deslizem a céu aberto; controlar a proliferação canalha de farmácias e de igrejas... Nada! E sempre com suas madames, gorduchinhas e felizes, passeando no natal e no fim de ano lá pelas boutiques da Champs Élisées...

Enfim, quem está no poder há mais de trinta anos, obviamente, não quer entregar os cartões corporativos e nem as chaves dos cofres e quem pretende obtê-las, jura que dará até sua mãe, filhas e filhos por amor à pátria, a deus  à família e, claro, pela liberdade... Balelas. Meio século de mentiras. E, pior: das mesmas mentiras. Sempre com a mesma e teatral obsessão por: segurança, educação, saúde, moradia, saneamento básico, repartição dos motins, compaixão para com os fodidos e para com os aposentados... (e... nada!)

Segurança? Ora! Não sejamos cretinos! Apesar do blábláblá de sempre, sair de casa e voltar vivo é quase um milagre!

Saúde? Ora! O país continua sendo uma imensa enfermaria! Cada casa um mini ambulatório... E com as multinacionais dos medicamentos e seus lacaios locais, fazendo a festa...

Educação? Mas como, se as escolinhas continuam com a arquitetura de campos de concentração? Protegidas por arame farpado, com soldados nas portas e com as "tias" semi alfabetizadas? E se não se consegue colocar J.L.Borges no lugar do Menino Maluquinho, e nem substituir Monteiro Lobato (com seu Pica-pau-amarelo), por Frantz Fanon?

Moradia? Com exceção de meia dúzia de ladrões, o restante segue se amontoando e se trucidando em cortiços. 

Repartir riquezas???? 

Saneamento básico? Ora! Como se atrevem a falar sobre saneamento básico?, quando 80% do país ainda vive à l'intérieur et en bordure des égouts? (Dentro e à margem dos esgotos?)... a propósito, lembrem-se das exuberantes espumas ali do exuberante Rio Tietê... E do rio Iguaçu, lá no Paraná; e do rio Ipojuca, em Pernambuco; e, se preferirem, pensem no rio Guandu, lá no Rio de Janeiro para onde desemboca grande parte da merda da urbe e para onde, na década de 60 os governantes jogavam os moradores de rua... Lembrem-se também dos venenos embutidos no pimentão, nos tomates, nos brócolis, nas maçãs e nos legumes em geral e também dos hormônios injetados nos frangos, nas vacas e até nos peixes... Pensem nos cigarros, nas bebidas e nos medicamentos falsificados... ( na caneta milagrosa para livrar-se das banhas...) e na dificuldade de fazer os enfermeiros e os cozinheiros se lavarem as mãos (com sabão), antes, durante e depois do trabalho... Pensem nos matrimônios neuróticos e ridículos, que vão acabar em feminicídios...  em homicídios ou em algo ainda pior...Tudo fora de controle...Tudo patogênico e iatrogênico! Uma cultura verborréica, que, secreta e misteriosamente, se odeia, que age contra si-mesma e que está domada e rendida pela obesidade e pelo cinismo.

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EM TEMPO  

Prova de que propaganda é tudo: O populacho está mobilizado. Todo mundo, além de atualizar o título de eleitor, quer, neste final de semana, ir ao cinema ver a badalada Odisséia... e vão com o mesmo entusiasmo da vez em que foram ver OS DEZ MANDAMENTOS e A PAIXÃO DE CRISTO.

E nas livrarias, os livreiros acordaram mais cedo para colocar nas vitrines a famosa obra de Homero e, com um detalhe: bem ao lado da Bíblia e do Antigo Testamento... (aqui entre nós, preste atenção: todos os que estão papagueando e se vangloriando de terem lido, desde a adolescência, umas cinquenta vezes essa xaropada de Homero, têm, no mínimo, um pequeno retardo...)

E la nave va...

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O Mendigo K, Ceuta e a APOROfobia... (O repúdio aos pobres)



"Existem dois tipos de compaixão. Uma covarde e sentimental que, na verdade, não é mais do que a impaciência do coração por livrar-se o quanto antes possível da emoção incomoda que causa a desgraça alheia, aquela compaixão que não é compaixão verdadeira, senão uma forma instintiva de afugentar o sofrimento alheio da própria alma. A outra, a única que importa é a compaixão não sentimental mas produtiva, a que sabe o que quer e está disposta a compartilhar um sofrimento até o limite de suas forças e até para além desse limite..." 

Stefan Zweig 

(IN: Impaciência do coração) Citação de Adela Cortina


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A manhã de segunda-feira já está pela metade e a mendigada em seus postos! Um mais surrealista do que o outro e todos famintos. A ânsia frustrada de voracidade! Ah! e a famosa hipoglicemia! Responsável por todo tipo de síncopes, desmaios, e de escravidão, voluntária ou não...

Quando não encontram com urgência, um pedaço de pão ou uma manga caída pelo caminho, sabiamente, se deitam na calçada ou se encostam numa parede e esperam até que a maldição da fraqueza, do estômago e das tripas passe. (Terás que comer cinco vezes por dia, como um búfalo! Teria determinado o sádico criador de todas as misérias e de todas as coisas...) A rua é uma verdadeira enfermaria onde o CID 10, com todas suas bobagens, já não consegue particularizar suas desgraças. E focinham as lixeiras, examinam todo e qualquer pacote jogado no meio fio, mastigam qualquer coisa, folhas e ramalhetes de flores e abordam (meio enojados e sem esperanças) aos aposentados e às velhinhas que mais ou menos como eles, correm às farmácias e às padarias também em busca de suas próprias drogas, (o pão, o Dorflex e a losartana). Um horror! E os mais jovens, seus filhos, netos, bisnetos e etc, passam apressados fingindo que não os conhecem e dentro de seus uniformes vão em direção às pequenas e falidas empresas, aos sombrios escritórios, agências de empregos e claro, na direção de seus serviços públicos... E vão ansiosos porque se atrasarem um minuto e forem descartados dessa máquina escravocrata estariam perdidos... Quando podem, até olham com sarcasmo e riem dos mendigos, dos velhos e das velhas, (dessa multidão caquética que vive apavorada numa espécie de "faixa de gaza"), riso e sarcasmo que nos lembra, daquele adágio vingativo e popular que diz: é o carvão rindo das cinzas, sem perceber que é o que o espera...

O Mendigo K, fingindo uma certa soberba e procurando diferenciar-se do bando, estava entre eles e quando me viu, veio logo fazer uma observação exibiocinista e antropológica sobre a invasão dos marroquinos lá em Celta, dizendo: 

- Bazzo, vendo a reação dos espanhóis à invasão dos marroquinos lá em Celta, é o momento ideal para se voltar a ler o livro de Adela Cortina: APOROFOBIA, El rechazo al pobre. Disse isso é recitou: "Y lo más sensible en este caso es que hay muchos racistas y xenófobos, pero aporófobos, casi todos (...) E prosseguiu: O que produz repudio não é o fato que venham de fora, que sejam de outra raça, ou etnia, o estrangeiro não incomoda pelo fato de ser estrangeiro, mas por ser pobre. (...) São mostras palpáveis de aporofobia, de repúdio, aversão, temor e desprezo ao pobre, ao desamparado que, pela aparência, não pode nos dar nada em troca."