terça-feira, 14 de julho de 2026

E as mentiras, as poesias e os mísseis retornam ao encantador estreito de Ormuz...


[... El amor de una rata de biblioteca por esos enmohecidos folios antiguos bien podría ser mucho más cuerdo que el de muchos poetas por las playas soleadas. La inexplicable fijación de un viejo profesor por su sombrero puede ser un transtorno mucho menos vital que el de cualquier frívola dama de sociedad que pierde la cabeza por un vestido de Worth's...]
 Gilbert K. Chesterton, 
(IN: Lectura y locura, p. 9)

















quinta-feira, 9 de julho de 2026

Se sentes um vazio, coma, que é fome! (filosofia existencialista aqui em Portugal).








 1. Quem se atrever a passar o final de junho aqui em Lisboa, sob esse sol apocaliptico e sobre essas pedrinhas ensaboadas e deslizantes, quando chegar ao inferno sentirá a famosa e mítica sensação do déjà vu...

 2. Apesar de toda a pantomima humanista/cristã e da quantidade de catedrais que há por aqui, os portugueses parecem ainda albergar em suas vísceras aquele antigo transtorno xenófobo e racista que, com frequência, os faz migrar brusca e histericamente de uma explosão quase carbonária a uma singeleza semelhante à de Florbela Espanca...

3. E o Fernando Pessoa, com aquela sua imagem de babaca, continua sendo, cada vez mais, uma mercadoria nacional, decorando xícaras, guarda-chuvas, anáguas, cadernos, isqueiros e até cuecas...

4. E todos os serviços de "segunda" (para não dizer, de merda), seguem sendo executados por forasteiros indianos, árabes, filipinos e, claro, brasileiros... Que estranha e mística atração pela servidão voluntária.....

5. Quem quiser apreciar o maior índice de idiotas por metro quadrado (e de todas as nacionalidades), deverá postar-se lá pelas 11:00 horas, ali na rua Belém (pelos lados do Mosteiro de São Jerônimo), em frente à uma fabrica daqueles 'ovos moles de Aveiro' e dos quase sagrados pasteizinhos de nata, inventados por aquelas singelas e quase catatônicas freirinhas do medievo...

6. E lá em Braga, (Se você não é vegano e nem diabético), o que existe de mais transcendente é um sorvete de tangerina, produzido pela Casa Brasileira.

7. A psicopatia futebolística por aqui (como praticamente em toda Europa), é mais ou menos como a do Brasil. O fato de Portugal ter sido eliminado da tal Copa do Mundo, causou um colapso no delírio lusitano, principalmente naqueles que viam no jogador Cristiano Ronaldo, quase a reeencarnação de Dom Sebastião, aquele, (daqueles tempos), que foi enrabado heróica e bravamente pelos mouros... Ah! O futebol! Ah! A Copa do Mundo! Essa suposta confraternização entre palhaços! Esse entretenimento malicioso entre escravocratas e escravos, enquanto a Palestina ainda procura os ossos de seus cadáveres e enquanto 90% da humanidade ainda vive sem saneamento basico e sem papel para limpar-se o cu!

8. E nas ruas, a mendicância, a indigência e a filosofia da miséria prosperam, sem falar dos trocadinhos sempre demandados pelos taxistas e nem da turma que fica, à noite, ali na esquina do café...  negociando pó e aquelas pedrinhas que os suicidas queimam nos cachimbos... A mim, o que mais me está fazendo falta nesta viagem, são as ciganas, principalmente aquelas que, outrora, liam as mãos dos otários e vendiam castanhas ali no Rossio. Quem, e para onde as teriam expurgado? De vez em quando, uma ou outra apenas, nos portais das igrejas, com aquela coreografia mimética e odiosa de misericórdia... Nem sombra mais daquelas adolescentes e crianças fantásticas e heróicas que, no passado, (ao invés de passarem a vida enjauladas em escolinhas ridículas, decorando nomes de magnatas, de santos, de reis e de famílias de larápios), viviam nas ruas e se nos aproximavam com o álibi da Buona Fortuna e da Buena dicha, apenas para nos roubar e ludibriar...  Agora, quando aparecem, só o fazem para implorar 1 Euro! Ou 1 dólar!  - "S’il vous plaît, Monsieur. J’ai faim. Je viens de l’Alentejo, et mes grands-parents venaient de Roumanie — de la terre natale de Cioran…" Que perda de identidade...  e que decadência!

9. E... por todo o país, as labaredas avançam. Um "prato cheio" para o imaginário da confraria da terceira e quarta idades que foi domada e adestrada sob as balelas de Dante e, principalmente, sob a depressão do Eclesiastes...

10. Ali em frente à Igreja de São Jerônimo, sob uma oliveira estupenda, (ainda farei um ensaio sobre ela só para descobrir quem e quando a plantou...) e nos arredores do Hotel Nova Goa (onde ainda pretendo passar uma temporada...), um agrupamento de negros não deixa ninguém esquecer dos crimes e das canalhices da colonização. Todos, apesar de expulsos do mundo e explorados pelo ocidente, parecem, assim mesmo, estar além, bem além das infantilidades cretinas da burguesia e manterem-se saudáveis, fortes e até felizes, nem à espera de Cristo e nem de Godot. E não precisa ser profeta para adivinhar que, não apenas Portugal, mas a Europa toda, ainda será deles... A propósito, toda vez que passo por lá, lembro de Guerra Junqueiro que, certa vez, teria dito a Unamuno: "O Cristo espanhol nasceu em Tanger; é um Cristo africano e nunca se afasta da cruz, onde está cheio de sangue; já, o Cristo português brinca nos campos com os camponeses e merenda com eles e só a certas horas, quando tem de cumprir com os deveres do seu cargo, é que vai dependurar-se na cruz..."

11. Se lá em Caracas, o terremoto colocou em evidencia um bairro chamado Do Pau Grande, aqui em Lisboa já me deparei com várias Ruas dos Ovos Moles e Ruas da Pica. Até o poeta do Desassossego - dizem - além de fazer banners e propagandas  para a Coca Cola, trabalhou também para uma empresa que se chamava Lavado Pinto & Cia. Que bizarrice!

12. E, com a mala já pronta, aqui do alto de uma destas intermináveis ladeiras, com acordes de Fado surgindo de todos os lados, observo o vai-e-vem dessa gente e desse formosíssimo e desgraçado Portugal, que,  -  segundo o psicólogo espanhol - "desde o dia lúgubre de Alcácer-Quibir parece viver vagamente submergido em sonhos de grandezas passadas e que lembra uma  formosa e gentil rapariga do campo que, de costas para a Europa e sentada à beira-mar, junto à própria orla onde a espuma das ondas gemebundas lhe banha os pés descalços, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cara entre as mãos, olha o sol a pôr-se nas águas infinitas. Porque para Portugal o sol não nasce nunca: morre sempre no mar, que foi teatro  das suas proezas e berço e sepulcro das suas glórias". (ver: Unamuno, in: Portugal, povo de suicidas, p. 24)