Georges Didi-Huberman
(IN: Sobrevivência dos vagalumes, p. 13)
1. Depois que a polícia divulgou ter disparatado aqui em Brasília, um grupo de adolescentes, - sete ou oito, quase todos provenientes dos estados do sul do país -, que pretendiam, durante as eleições, 'tocar o terror' na cidade, os preconceitos, já existentes, mas velados, contra o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, (principalmente contra os catarinenses e os + albinos), se escancararam, passando a região a ser mencionada quase como uma espécie de ninho de fascistas, para não dizer de nazistas, e isto, até pelos que papagueiam que é importante fomentar o amor fraterno e a diversidade, seja de gênero, de gosto, de cor, de crença, de ideologia e principalmente de etnia... E justificam com o argumento de que por lá, há bandeiras do Brasil em todas as janelas e varandas porque são todos bolsonaristas e que para lá aportaram tanto os nazistas de Hitler, como os judeus de Sion, os italianos de Mussolini, os lusitanos dos Açores, os espanhóis de Franco e outras escórias européias... Sem falar das albinas cortesãs polacas, as mesmas que deram vida aos primeiros puteiros tanto da Lapa (no RJ) como aos lá de Manaus (aqueles que 'serviam' aos patrões e aos escravos dos garimpos). Lembram? Enfim, quase não escapa ninguém... E nós, como ficamos nós, que nascemos por lá, numa região inesquecível de colinas e pinheirais radiantes, que em junho ou julho amanheciam sempre cobertos de geada? Seríamos todos, como dizem, uns fascistas filhos de putas? Teriam razão?
Realmente, ainda lembro que na minha casa, ao lado de uma escada que levava para o sótão, havia, na parede, bem junto aos primeiros degraus, ao lado de uma imagem da Virgem Maria, uma notícia dos partigiani e uma foto da Clara Petassi, a última amante do Mussolini (o Duce), com seus 26 anos e chamada carinhosamente de Clareta!.. Sim, lembro que sempre via na mesa da cozinha, ao lado dos ingredientes para o fabrico de cerveja e da panela onde se fazia a polenta, o livro: As ervas que curam e que, praticamente atrás da porta de cada quarto havia uma sacola com cartuchos e uma espingarda dependurada, sem falar dos momentos em que, minha mãe, tocava, especialmente para mim, numa gaita de boca, aquela canção folclórica cantada pelas mulheres do norte da Itália, durante a colheita do arroz: Bella Ciao... Algumas vezes, sem cerimônia, se ainda tinha fôlego, passava de Bella Ciao para la Verdinela... E dançava...
Mas, e daí? Pelo fato de ter nascido por lá, no meio daqueles pinheirais encantadores, daquelas montanhas de pedras e daquela solidão do caralho, por ter tido uma mãe que tocava, além de Bella Ciao, La Verdinela, numa gaita de boca, o que isto tem a ver com Mussolini ou com Hitler, com o fascismo, com o nazismo e com a gangue presa ontem e que - segundo a polícia - pretendia 'tocar o terror' aqui na capital da república???
Ora! Vão foder outro!