quarta-feira, 27 de maio de 2026

Enquanto isso...






















O Mendigo K e Onofre, o santo trans dos católicos...



"Não dês pontapés a um homem derrubado. Lembra-te de que ele pode levantar-se..." 

Fred Kasper


Nestes dias de "inverno", aqui na Capital da República, até os mendigos saem das tocas bem mais tarde, só quando percebem que o sol já fulmina os paredões de vidro fumê dos ministérios, dos escritórios lobistas, das agências de falsificações, dos bancos, das clínicas, das bancas de jornais, dos 200 e tantos "templos" e até as janelinhas com cortinas xadrez dos puteiros. O inverno (não o inferno!), é uma maravilha. Qualquer um se lembra daqueles dias, em sua "terra natal" quando, pelas manhãs, as ruas, as árvores e até os rios e os peixes amanheciam congelados...

O Mendigo K apareceu nesta hora + ou menos fria, exageradamente coberto por trapos de várias cores e tamanhos que alguma beata deve ter lançado do carro em frente a seu barraco. Comportamento comum da pequena burguesia, todos os anos, quando junho se aproxima. (A propósito, dia 12 de junho se comemora o dia do santo em questão).

Hoje, meio trêmulo, estava invocado com a história de um tal Onofre (das antigas), que, lá pelos lados da Turquia ou do Egito, teria sido uma esplêndida mulher que, pela graça de Deus, para fugir do assédio masculino, virou homem, depois eremita, e viveu no deserto até morrer, apenas com os genitais e o traseiro cobertos com os próprios cabelos e barba que Deus, onipotente, todo poderoso, prestidigitador e alquimista, além da metamorfose, lhe teria proporcionado, etc, etc. Por essa trajetória metafísica, tão exótica e tão surreal, virou mais um Santo do catolicismo...

Os três ou quatro outros mendigos, que o acompanhavam, uns se dizendo drag queens e um recém chegado de Goiás Velho, (da conhecida cidade da Cora Coralina), seguiam a história com um certo ar de orgulho e de regozijo... e lembravam, com entusiasmo, que na umbanda, Exu, é o equivalente a Onofre, e considerado o padroeiro da fortuna...

No desenrolar da história, foi retirando do bolso do casacão duas páginas de revista onde aparecia o tal Onofre, pintado, não se sabia por quem.




terça-feira, 26 de maio de 2026

A pedagogia & a lógica dos devassos...





Nesta manhã de segunda-feira, por casualidade, ouvi uma "baby-sitter" falando, cantarolando e distraindo a criança de + ou - uns cinco anos que estava sob seus cuidados, com aqueles recursos pedagógicos, meio de adestramento e de horror universal pelos quais todos passamos. Lembram dos famosos contos compilados pelos Irmãos Grims? Principalmente O Junipero? A criança arregalava os olhinhos e a tal baby-sitter insistia:

- Come, come, que mamãe foi ao trabalho e que senão o bicho vem...

- Criança obediente não vai ficar doente...

- Que criancinha linda! Comeu tudo e sem sujar o piso!

- Isso não se faz, senão os anjinhos choram... E o homem do saco vem...

- Tire a mão daí que isso é pecado e o Papai do Céu fica triste... 

 Depois passou para trechos das clássicas do Chapeuzinho Vermelho; da Bela Adormecida; do lobo mau, das fadas e das bruxas.., uma mais macabra do que a outra, e tudo meio de improviso, cantarolando, rindo e dramatizando...

Num determinado momento passou a ensinar-lhe a contar: 1, 2, 3, etc mas, de quando em quando, (não sei se por distração ou por método) ia saltando de 1 para 4 e de 4 para 6 e voltando para o zero e para o 1, etc.

Da criança, não se ouvia um pio, como se estivesse arrependida de ter nascido...

Segui ouvindo aquele horror de iniciação e pensando no texto sobre o sinistro, onde Freud, trata da historinha macabra do homem das areias que, lá na Alemanha (daqueles tempos), os pais costumavam contar a seus filhos para obrigá-los a dormir: "O homem das areias é um homem mau que vem visitar as crianças quando elas não querem dormir, joga-lhes punhados de areia nos olhos, fazendo-os saltar ensanguentados de suas órbitas; então guarda-os em uma bolsa e os leva como pasto para seus filhinhos, que estão sentados em um ninho e têm bicos curvos como as corujas, com os quais cortam a bicadas os olhos das crianças que não se portam bem..."

Que tal?

E depois fingem espanto quando percebem o sentimento reacionário e trágico do rebanho e seu fascínio pelas páginas do Eclesiastes...