"Bah! Ahora no quiero pensar en nada más. Tampoco en Dios? No! Dios estará conmigo. Qué necesidad tengo de pensar en Él? Dios está con los que no piensan".
Robert Walser, Jakob von Gunten
Nesta quarta-feira de julho, com o Ministério da Saúde e as freiras da mídia recomendando obsessivamente que, os velhos, - se não quiserem ter uma síncope na fila do INSS e irem para o outro mundo sem assistir Argentina/Inglaterra-, devem beber muita, mas muita água, o Mendigo K apareceu ali nas galerias do shopping, meio afobado, buscando a melhor vitrine para, às 4 da tarde, assistir ao jogo. Quando me viu, não conseguiu esconder uma certa preocupação e um certo medo que eu fosse classificá-lo como mais um dos idiotas da bola e foi jurando que seu interesse por aquela babaquice, era puramente literário & antropológico. Para convencer a mim e aos que nos observavam, foi retirando de uma bolsa de couro e exibindo também aos que passavam umas cinco brochuras sobre o assunto, livros que dizia ter lido:
1. A bola não entra por acaso, de autoria de um tal Ferran Soriano.
2. Futebol & guerra, de Andy Dougan.
3. Entre os vândalos, de Bill Buford.
4. O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho.
5. Como o futebol explica o mundo, de Franklin Foer
E até um em inglês que ainda não foi traduzido: Football against the enemy, de Simon Kuper.
E, por último, mostrou-me um do mítico uruguaio, daquele que escreveu As veias abertas da América Latina, titulado: Futebol ao sol e à sombra. Deste, quase religioso e quase com lágrimas nos olhos, fez até questão de citar parte de um parágrafo, sobre Pelé:
“Quando Pelé ia correndo, passava através dos adversários como um punhal. Quando parava, os adversários se perdiam nos labirintos que suas pernas desenhavam. Quando saltava, subia no ar como se o ar fosse uma escada. Quando cobrava uma falta, os adversários que formavam a barreira queriam ficar de costas, de cara para a meta, para não perder o golaço”.
Completamente derrotado, convicto de que a bola é o ópio do populacho, de que o rebanho é imbatível e de que o mundo jamais conseguirá livrar-se do aprisco, ziguezagueei abobalhado por entre aquelas geladeiras, televisões ligadas, vassouras, bandeirolas e máquinas de lavar, das Casas Bahia... E, como a única diversão que encontro no futebol é ver o árbitro apanhar (Pitigrilli), também estarei, hoje à tarde, beociamente, apostando todas as fichas, não no gol, mas na conhecida atuação afetiva dos Barras Bravas e dos Hooligans...
"... Quando a festa acaba, os elementos da arquitectura estão em farrapos, e a areia volta a devorar a rua. Não há mais nada a fazer a não ser retomar, com persistência, a reconstrução de elementos e instrumentos na expectativa de outra festa..."
Diogo Seixas Lopes
(IN: Melancolia e arquitectura em Aldo Rossi, p. 166)
[... El amor de una rata de biblioteca por esos enmohecidos folios antiguos bien podría ser mucho más cuerdo que el de muchos poetas por las playas soleadas. La inexplicable fijación de un viejo profesor por su sombrero puede ser un transtorno mucho menos vital que el de cualquier frívola dama de sociedad que pierde la cabeza por un vestido de Worth's...]
1. Quem se atrever a passar o final de junho aqui em Lisboa, sob esse sol apocaliptico e sobre essas pedrinhas ensaboadas e deslizantes, quando chegar ao inferno sentirá a famosa e mítica sensação do déjà vu...
2. Apesar de toda a pantomima humanista/cristã e da quantidade de catedrais que há por aqui, os portugueses parecem ainda albergar em suas vísceras aquele antigo transtorno xenófobo e racista que, com frequência, os faz migrar brusca e histericamente de uma explosão quase carbonária a uma singeleza semelhante à de Florbela Espanca...
3. E o Fernando Pessoa, com aquela sua imagem de babaca, continua sendo, cada vez mais, uma mercadoria nacional, decorando xícaras, guarda-chuvas, anáguas, cadernos, isqueiros e até cuecas...
4. E todos os serviços de "segunda" (para não dizer, de merda), seguem sendo executados por forasteiros indianos, árabes, filipinos e, claro, brasileiros... Que estranha e mística atração pela servidão voluntária.....
5. Quem quiser apreciar o maior índice de idiotas por metro quadrado (e de todas as nacionalidades), deverá postar-se lá pelas 11:00 horas, ali na rua Belém (pelos lados do Mosteiro de São Jerônimo), em frente à uma fabrica daqueles 'ovos moles de Aveiro' e dos quase sagrados pasteizinhos de nata, inventados por aquelas singelas e quase catatônicas freirinhas do medievo...
6. E lá em Braga, (Se você não é vegano e nem diabético), o que existe de mais transcendente é um sorvete de tangerina, produzido pela Casa Brasileira.
7. A psicopatia futebolística por aqui (como praticamente em toda Europa), é mais ou menos como a do Brasil. O fato de Portugal ter sido eliminado da tal Copa do Mundo, causou um colapso no delírio lusitano, principalmente naqueles que viam no jogador Cristiano Ronaldo, quase a reeencarnação de Dom Sebastião, aquele, (daqueles tempos), que foi enrabado heróica e bravamente pelos mouros... Ah! O futebol! Ah! A Copa do Mundo! Essa suposta confraternização entre palhaços! Esse entretenimento malicioso entre escravocratas e escravos, enquanto a Palestina ainda procura os ossos de seus cadáveres e enquanto 90% da humanidade ainda vive sem saneamento basico e sem papel para limpar-se o cu!
8. E nas ruas, a mendicância, a indigência e a filosofia da miséria prosperam, sem falar dos trocadinhos sempre demandados pelos taxistas e nem da turma que fica, à noite, ali na esquina do café... negociando pó e aquelas pedrinhas que os suicidas queimam nos cachimbos... A mim, o que mais me está fazendo falta nesta viagem, são as ciganas, principalmente aquelas que, outrora, liam as mãos dos otários e vendiam castanhas ali no Rossio. Quem, e para onde as teriam expurgado? De vez em quando, uma ou outra apenas, nos portais das igrejas, com aquela coreografia mimética e odiosa de misericórdia... Nem sombra mais daquelas adolescentes e crianças fantásticas e heróicas que, no passado, (ao invés de passarem a vida enjauladas em escolinhas ridículas, decorando nomes de magnatas, de santos, de reis e de famílias de larápios), viviam nas ruas e se nos aproximavam com o álibi da Buona Fortuna e da Buena dicha, apenas para nos roubar e ludibriar... Agora, quando aparecem, só o fazem para implorar 1 Euro! Ou 1 dólar! - "S’il vous plaît, Monsieur. J’ai faim. Je viens de l’Alentejo, et mes grands-parents venaient de Roumanie — de la terre natale de Cioran…" Que perda de identidade... e que decadência!
9. E... por todo o país, as labaredas avançam. Um "prato cheio" para o imaginário da confraria da terceira e quarta idades que foi domada e adestrada sob as balelas de Dante e, principalmente, sob a depressão do Eclesiastes...
10. Ali em frente à Igreja de São Jerônimo, sob uma oliveira estupenda, (ainda farei um ensaio sobre ela só para descobrir quem e quando a plantou...) e nos arredores do Hotel Nova Goa (onde ainda pretendo passar uma temporada...), um agrupamento de negros não deixa ninguém esquecer dos crimes e das canalhices da colonização. Todos, apesar de expulsos do mundo e explorados pelo ocidente, parecem, assim mesmo, estar além, bem além das infantilidades cretinas da burguesia e manterem-se saudáveis, fortes e até felizes, nem à espera de Cristo e nem de Godot. E não precisa ser profeta para adivinhar que, não apenas Portugal, mas a Europa toda, ainda será deles... A propósito, toda vez que passo por lá, lembro de Guerra Junqueiro que, certa vez, teria dito a Unamuno: "O Cristo espanhol nasceu em Tanger; é um Cristo africano e nunca se afasta da cruz, onde está cheio de sangue; já, o Cristo português brinca nos campos com os camponeses e merenda com eles e só a certas horas, quando tem de cumprir com os deveres do seu cargo, é que vai dependurar-se na cruz..."
11. Se lá em Caracas, o terremoto colocou em evidencia um bairro chamado Do Pau Grande, aqui em Lisboa já me deparei com várias Ruas dos Ovos Moles e Ruas da Pica. Até o poeta do Desassossego - dizem - além de fazer banners e propagandas para a Coca Cola, trabalhou também para uma empresa que se chamava Lavado Pinto & Cia. Que bizarrice!
12. E, com a mala já pronta, aqui do alto de uma destas intermináveis ladeiras, com acordes de Fado surgindo de todos os lados, observo o vai-e-vem dessa gente e desse formosíssimo e desgraçado Portugal, que, - segundo o psicólogo espanhol - "desde o dia lúgubre de Alcácer-Quibir parece viver vagamente submergido em sonhos de grandezas passadas e que lembra uma formosa e gentil rapariga do campo que, de costas para a Europa e sentada à beira-mar, junto à própria orla onde a espuma das ondas gemebundas lhe banha os pés descalços, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cara entre as mãos, olha o sol a pôr-se nas águas infinitas. Porque para Portugal o sol não nasce nunca: morre sempre no mar, que foi teatro das suas proezas e berço e sepulcro das suas glórias". (ver: Unamuno, in: Portugal, povo de suicidas, p. 24)