E o fiasco ficava ainda maior quando se ouviam as análises e os comentários dos especialistas carnavalescos. E ainda mais ridículo, com os comentários e adjetivos dos jornalistas, que, para não perderem o emprego, iam fazendo de tudo para emplacar nos neófitos e nos bobalhões uma alegria patética (pelo menos um simulacro de alegria) e para não deixar que os telespectadores dormissem no sofá. Um horror! Seria o resultado de 500 anos de mediocridade!
E a tal ancestralidade? Não se fala em outra coisa! Trata-se de quê, afinal? Os movimentos negros, se é que já tiveram notícias do Frantz Fanon, deveriam tomar providências... Digo isto, apenas por dizer. Pois sei que não há solução. Já que o problema está no cerne do imaginário, a ponto de até o PCO chamar isso de cultura e de brasilidade... Um horror! Data vênia aos operários, aos proletários e a toda a gente que, ano trás ano, com sangue, suor, lágrimas e cesta básica, montam e desmontam essas sucatas para revitalizar essa pandega.... Como poderiam livrar-se dessa escravidão, quase voluntária?
Mas, não vou negar, houve - dois pontos máximos - ou, como cacarejam os acadêmicos - de inflexão, nas festas. Um, ali na Marquês de Sapucaí, (Se não fosse gaúcho, o Brizola, ao invés do Marquês de Sapucaí teria dado o crédito ao Marquês de Sade...) quando um gay, famoso e gorduchinho, ao cortar com uma tesoura a fita que interditava o ambiente que estava sendo inaugurado, pronunciou várias vezes, olhando com ironia para os comparsas da mídia: Sou hétero... sou hétero... sou hétero...
E a outra, ainda mais fantástica, foi quando, lá na terra de Gregório de Matos, um grupo de balzaquianas disfarçadas de semi adolescentes, cantava fingindo alegria, emoção e até desejo, a música da moda: Me chupa! Me chupa, Me chupa... As mesmas que, amanhã, bem cedo, antes dos galos cantarem ali pelos arredores do Mercado modelo, ao invés de estarem embarcando para a Ilha de Lesbos (lá no Mar Egeu), estarão subindo a montanha sagrada para pedir perdão e benção...
O mendigo K que assistia a tudo, mandou-me dizer que, apesar da teatralidade, há muita trovoada mas pouca, bem pouca chuva... por lá...
Enfim, hoje à noite teremos mais. Até os ateus, os cínicos e os hereges estão ávidos para que chegue a tal quarta-feira de Cinzas... Aleluia!
Sorte que ainda se pode ouvir, mesmo na voz de um gringo, o Orfeu Negro...




