A turma acostumada há décadas às novelas da Globo, do SBT, da Record, da Band, da vida doméstica e etc, está eufórica com os capítulos da Odisséia, uma nova adaptação da peça de Homero, onde, curiosamente, Helena (a sequestrada) até aparece como sendo uma mulher negra... O que pensaria Frantz Fanon, dessa falsificação e dessa peleguice?
Aí pelos mercados, aí pelas filas do SUS e até na porta das igrejas, só se fala nisso.. E Homero, (o poeta/autor dessa chatice, precursora da Disney e escrita praticamente para o mundo pré adolescente), está sendo visto quase com o mesmo olhar que a turma tem para com Moisés e, a Odisséia, como uma fábula que lembra ao Antigo Testamento, para não dizer à Bíblia. A propósito, o Mendigo K apareceu ali na padaria para lembrar que tanto o Antigo como o Novo Testamento foram traduzidos do hebraico para o grego, sabem por quem? Pelos gregos. Homero, VIII a.C. Antigo Testamento, 500 a.C. A Bíblia hebraica traduzida no século III a.C... Sem falar dos Jardins de Epicuro, das incursões pedófilas e pederásticas de Sócrates, de Heráclito, de Platão... e de toda aquela turma de lunáticos...
Nela, as fábulas, as lendas, as aventuras divinas, os oráculos, a feitiçaria, os mares, os desastres naturais, as caravelas, os milagres, as ajudas, trapaças e os castigos divinos, as memórias das pauladas e das matanças recentes em Tróia, tudo pela tara por Helena, (prova de que todas as guerras do mundo foram ginecológicas!), aquele cavalo, a obsessão pela morte e pela honra, tudo é demasiadamente esotérico, celestial, metafisico, cristão e grego... (Só faltou algum marinheiro daquelas barcaças, depois de um baseado, citando a Pitágoras (570 a.C) insistindo na balela de que o universo é feito de pura geometria e de pura música...).
Ah! As sereias! Ah! O canto das sereias! Os bois! Os porcos! O heroísmo! As feitiçarias de Circe! As intervenções cretinas dos deuses! Aquele homenzarrão de um só olho! E Ulisses! Que homem! A fidelidade e a espera de Penélope lá na ilha de Ítaca! Aquilo sim que era mulher de verdade! Tudo o que as donas de casa e seus rebentos mais desejam, admiram e adoram!
- Estamos apaixonadas por Ulisses, por Penépole e por Homero! Ouvi duas trocando idéias com um pároco enciumado, ali na esquina.
Eu, que acho os 24 Cantos, daquela espécie de Pentateuco, de uma puerilidade, de uma sub-normalidade e de uma tolice de dar pena (só não sendo pior que os 10 Cantos dos Lusíadas), não nego que me emociono ao ler que quando Ulisses (enfim de volta), se apresenta à sua amada, ela, desolada, sente que aquele não era o homem que ela tanto esperava... Também me emociono ao ler que seu cachorro, ao reconhecê-lo depois de tanto tempo de espera, teve uma síncope e morreu... Sim, eu sei, eu sei, trata-se da mais singela e da mais pura malandragem poética de Homero (se é que existiu).