terça-feira, 30 de junho de 2020

O Mendigo K e a literatura Védica...

Cruzei apressadamente com o Mendigo K, aqui nos arredores da república. Como já lhes disse, ele está aproveitando a pandemia para dar um mergulho na literatura Védica, mais como um profano do que como um devoto mas, mesmo assim, já estava com aquela roupa dos sadhus que se encontra pelas ruas desertas de Benares. Já foi a Benares? Não? Então vá! 
Também usava uma máscara contra o vírus, destas que lembram os lutadores de esgrima. 
Como fiz questão de manter-me a uns dois metros dele, ironizou-me perguntando se eu estava temeroso de ir para o cemitério. Não respondi e ouvi que ele resmungava por detrás de sua máscara: Bazzo, deixe de ser cagão!, 'para os hindus, a morte não existe. Morrer é como trocar de roupa. E depois, Brahmã vive cem anos, e um de seus dias é calculado em 4.300.000.000 de nossos anos terrestres. Sua noite tem a mesma duração. Seu mês consiste em trinta de tais dias e noites, e seu ano, de doze meses. Depois de cem de tais anos, quando Brahmã morre, ocorre a devastação ou aniquilação; isto quer dizer que a energia manifestada pelo Senhor Supremo se retrai n'Ele Mesmo novamente. Então outra vez, quando há necessidade de manifestar o mundo cósmico, isto se faz por Sua vontade: Embora Eu seja um, converter-Me-ei em muitos.
Fez um breve silêncio e concluiu: Este é o aforismo védico.
 Ele se expande nesta energia material, e toda a manifestação cósmica acontece outra vez...'
Fez outro silêncio e, vendo minha cara de espanto, desculpou-se: Bazzo, desconsidere, cheirei além da medida!

segunda-feira, 29 de junho de 2020

A ficção da pós-modernidade...

"Os semideuses e seus adoradores são bolhas no oceano cósmico..."
Bhagavad-Gita, p. 182

Entre todas as desgraças cotidianamente escancaradas pelo vírus, está a revelação de que, longe da tal pós-modernidade,  (cantada em versos e em prosa pelos professores) estamos ainda mergulhados na pré-modernidade, numa sociedade cabotina e cheia de transtornos psico-físicos que se sustenta só pela bajulação. SOCIEDADE DA BAJULAÇÃO! Nem mais do Espetáculo, como queria G. Debord, mas do puxa-saquismo e da bajulação. Só a bajulação nos une e progride! E o que existe de mais cretino do que a bajulação? Um idiota frita um ovo e se você não declara, de imediato e publicamente, que aquele é o ovo frito mais estupendo do mundo, você logo é taxado de invejoso e de desumano. Um professor dá a mesma aula que vem dando há quinze anos e se os alunos não o reverenciam de joelhos, correm o risco de serem reprovados. Um petômano solta um petardo no elevador e a sociedade da bajulação exige que você declare que aquele foi o peido mais perfumado e harmônico que se soltou pelas galáxias, em todos os tempos! Caso contrário, o petômano se sentira  humilhado, acossado moralmente e recorrerá à Justiça para ser indenizado. Sim, a bajulação se tornou um valor moral. Uma virtude. Um sintoma da miséria reinante. Uma Odisséia de subalternos e de cretinos. Uma idiotice sistêmica. Sinal de boa educação!
E o pior, é que tudo indica que na pós-epidemia, as coisas estarão ainda piores. O cativeiro, todo mundo sabe, aflora, tanto nos ratos como nos sujeitos, todo tipo de misérias latentes. Misérias que na vida ordinária, até poderiam passar desapercebidas.
E talvez, seja exatamente por isso, por saber o que nos espera depois dessa mortandade estupida, que a grande maioria não consegue cumprir com os protocolos do isolamento social e sai por aí, (contrafobicamente) e de cara limpa, fingindo ate uma certa soberba, em busca do vírus... Quê beco sem saída! & quê miséria!

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Os condenados da terra... e o juízo final!!?

"Absoluto, significa que 1 + 1 é igual a 1, e que 1 - 1 também é igual a 1..."
(IN: delírios do Baghavad-Gita)

Nesta semana os demiurgos tentaram turbinar o planeta inteiro com cinco ou seis novos exotismos, um mais bizarro do que o outro; com os gafanhotos da Argentina no topo. Seguido pela tempestade de poeira vinda do Saara, depois pelo terremoto do México, pelo Objeto não Identificado no Japão e agora, a menos de meia hora, pelo terremoto na California. Sem falar do coronavírus, que continua comendo pelas beiradas!
E enquanto isso, os 8 bilhões de terráqueos, (Condenados da Terra!, como diria o psiquiatra da Martinica, Frantz Fanon) com seus computadores, com seus celulares, com seus cartões de crédito, suas espingardas, seus chinelos, seus protocolos científicos, seus amuletos/patuás e com seus pós-doutorados, seguem zanzando no interior de suas gaiolas, diante de suas bibliotecas e de seus títulos, meio em pânico, meio em broma, tendo  unicamente como 'defesa' as grades da prisão e o chá de camomila, essa ervazinha vagabunda e sonífera que bebericam na varanda, com os olhos para alem das fronteiras e certos de que estamos à beira do Juízo Final. O que, convenhamos: tanto para a espécie como para os outros animais, seria um suntuoso, estrondoso e vergonhoso fracasso e um fim pra lá de melancólico! 

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Ideologias e espiritualismos de fachada...


Ontem aconteceram novamente manifestações pelo Brasil afora. Umas em defesa do governo passado, outras em defesa do governo atual. A maioria dos cartazes, slogans e dizeres, eram idênticos. Os tipos de manifestantes também. A diferença mais visível que se podia perceber entre eles, é que um bando acusava o outro de "comunismo" enquanto que este, por sua vez, retrucava acusando seu acusador de "fascismo". Que pensariam Lênin e Mussolini? E iam a vinham gritando Palavras de Ordem, vociferando, bufando, levantando os punhos, fazendo rezas e ameaças transcendentais, uns aos outros e com aqueles passinhos curtos de quem esqueceu de tomar luftal, ou de quem está precisando ir à toalete... E, o mais grave é que, tanto numa tropa como na outra, não se identificava nenhum vestígio de libido. Vi até uma senhora, nem lembro de que bando, que se ajoelhou sobre a passarela, onde havia uma espécie de bandeira e, de joelhos, encenou uma prece. A que Deus teria se dirigido? Perguntou-me o Mendigo K. Sabe-se lá! Dizem que são mais de nove mil! De qualquer forma, foi bizarro porque, todos sabemos, o deus dos ladrões que invadem uma casa é sempre o mesmo deus dos donos da casa. E que tudo não passa de um folclore místico. De uma papagaiada comercial de dar pena.
Prestei atenção tanto nos manifestantes que defendiam o governo anterior, como nos que defendiam o governo atual, com a esperança de ver que algum deles estivesse levando um cartaz, uma bandeira, uma foto, alguma coisa pedindo a construção imediata de saneamento básico e das estradas de ferro, no país... mas não havia nada. Só malabarismos cretinos e de cretinices em nome de Deus e dos Partidos! Quem perdeu as "tetas", porque as perdeu.., quem ainda não as conquistou, porque precisa conquistá-las... 
A uma pobre mulher, que tremulava e que chorava quando pronunciava o nome de seu chefe político, o Mendigo K. que - segundo ele - continua mergulhado na literatura védica, colocando-lhe a mão no ombro, consolou-a com esta frase: minha senhora, cale essa boca! Não percebes que "os sentimentos são como serpentes venenosas? Que  querem agir muito à vontade e sem restrições".
A gritaria, os tiros, os alto-falantes e os chavões, ainda dos tempos de Villegagnon, de Getulio, de Plinio Corrêa e de Trotski, continuavam.
Senti muita falta de meu cachorro que, em circunstâncias como estas, sempre que me via bocejando, me sugeria sábios aconselhamentos...



sexta-feira, 19 de junho de 2020

A queda para cima, do Ministro da Educação...

Nesta sexta-feira de junho, dia de sol aberto, muita gente está passando por um surto de inveja com a "queda para o alto" do Ministro da Educação.  
Ser demitido do Ministério da Educação, num momento em que o país beira ao precipício, para ser alojado no Banco Mundial, em Washington, e ainda por cima, para ganhar uns trinta mil dólares por mês, é o summum bonum de qualquer um. E isto, sem falar das passagens em primeira classe, das mamatas de moradia, dos favores dos subalternos, dos horários especiais e, finalmente, do dolce far niente que a nova ocupação promete.
Mas, atenção:  invejar, todos sabemos, é mais ou menos como beber um copo de veneno acreditando que quem morrerá envenenado será o outro.
É uma doença, que veio pelos séculos afora sendo transmitida de pai para filhos e de mães para filhas, mais ou menos de forma inconsciente. 
Uma curiosidade: Na base de quase todas as neuroses e de todos os transtornos mentais está ela, a inveja, conhecida em todos os idiomas: envidia, lhasad, der nerd, envy.....
Sobre o assunto,  o livro do rabino Nilton Bonder é o que há de mais interessante: A cabala da inveja.