"Existem dois tipos de compaixão. Uma covarde e sentimental que, na verdade, não é mais do que a impaciência do coração por livrar-se o quanto antes possível da emoção incomoda que causa a desgraça alheia, aquela compaixão que não é compaixão verdadeira, senão uma forma instintiva de afugentar o sofrimento alheio da própria alma. A outra, a única que importa é a compaixão não sentimental mas produtiva, a que sabe o que quer e está disposta a compartilhar um sofrimento até o limite de suas forças e até para além desse limite..."
Stefan Zweig
(IN: Impaciência do coração) Citação de Adela Cortina
A manhã de segunda-feira já está pela metade e a mendigada em seus postos! Um mais surrealista do que o outro e todos famintos. A ânsia frustrada de voracidade! Ah! e a famosa hipoglicemia! Responsável por todo tipo de síncopes, desmaios, e de escravidão, voluntária ou não...
Quando não encontram com urgência, um pedaço de pão ou uma manga caída pelo caminho, sabiamente, se deitam na calçada ou se encostam numa parede e esperam até que a maldição da fraqueza, do estômago e das tripas passe. (Terás que comer cinco vezes por dia, como um búfalo! Teria determinado o sádico criador de todas as misérias e de todas as coisas...) A rua é uma verdadeira enfermaria onde o CID 10, com todas suas bobagens, já não consegue particularizar suas desgraças. E focinham as lixeiras, examinam todo e qualquer pacote jogado no meio fio, mastigam qualquer coisa, folhas e ramalhetes de flores e abordam (meio enojados e sem esperanças) aos aposentados e às velhinhas que mais ou menos como eles, correm às farmácias e às padarias também em busca de suas próprias drogas, (o pão, o Dorflex e a losartana). Um horror! E os mais jovens, seus filhos, netos, bisnetos e etc, passam apressados fingindo que não os conhecem e dentro de seus uniformes vão em direção às pequenas e falidas empresas, aos sombrios escritórios, agências de empregos e claro, na direção de seus serviços públicos... E vão ansiosos porque se atrasarem um minuto e forem descartados dessa máquina escravocrata estariam perdidos... Quando podem, até olham com sarcasmo e riem dos mendigos, dos velhos e das velhas, (dessa multidão caquética que vive apavorada numa espécie de "faixa de gaza"), riso e sarcasmo que nos lembra, daquele adágio vingativo e popular que diz: é o carvão rindo das cinzas, sem perceber que é o que o espera...
O Mendigo K, fingindo uma certa soberba e procurando diferenciar-se do bando, estava entre eles e quando me viu, veio logo fazer uma observação exibiocinista e antropológica sobre a invasão dos marroquinos lá em Celta, dizendo:
- Bazzo, vendo a reação dos espanhóis à invasão dos marroquinos lá em Celta, é o momento ideal para se voltar a ler o livro de Adela Cortina: APOROFOBIA, El rechazo al pobre. Disse isso é recitou: "Y lo más sensible en este caso es que hay muchos racistas y xenófobos, pero aporófobos, casi todos (...) E prosseguiu: O que produz repudio não é o fato que venham de fora, que sejam de outra raça, ou etnia, o estrangeiro não incomoda pelo fato de ser estrangeiro, mas por ser pobre. (...) São mostras palpáveis de aporofobia, de repúdio, aversão, temor e desprezo ao pobre, ao desamparado que, pela aparência, não pode nos dar nada em troca."