Sempre que estou revirando minha biblioteca em busca de um livro que me roubaram, que desapareceu ou que nem sequer existe, penso em dois importantes escritores: Baudelaire (Paris, 1821-1867) e Euclides da Cunha (Rio de Janeiro, 1866-1909). Baudelaire, porque prevenia: um homem, quanto mais lê, menos fode! E Euclides da Cunha por ter escrito seu espetacular livro sobre os sertões, sobre Canudos, a destruição de Canudos, por ter levado chifre de sua mulher e, pior: ter ido a um duelo com o amante dela e perdido... Caralho! Que falta de pontaria! E que sucessão de desgraças!
A respeito de seu livro Os Sertões, fico indignado com o fato das escolas desde a creche até as pós graduações não o terem adotado, e não apenas pela maneira como descreve os tipos que povoavam (e que ainda povoam) aqueles cafundós de Minas Gerais, Goiás e Bahia, mas pela beleza e biologia de suas metáforas e da lealdade com que esmiuça o próprio sertão, (aquela ida a Canudos, quase como uma viagem à Ítaca), as terras, os truques de sobrevivência, a vegetação, as pequenas vertentes, o sol abrasador, a mitologia, a arqueologia e a miséria daquela bandidagem e daquela jagunçada da qual todos somos descendentes... Um realismo mais do que fantástico e que lembra, como ele próprio dizia, a um realejo bajulatório!
"As juremas, prediletas dos caboclos - o seu haxixe capitoso, fornecendo-lhes, grátis, inestimável beberagem, que os revigora depois das caminhadas longas, extinguindo-lhes as fadigas em momentos, feito de filtro mágico (...) Sucedem-se manhãs sem par, em que o irradiar do levante incendido retine a púrpura das eritrinas e destaca melhor, engrinaldando as umburanas de casca arroxeada, os festões multicores das bignônias (...) até que surdamente, imperceptivelmente, num ritmo maldito, se despeguem, a pouco e pouco, e caiam, as folhas e as flores, e a seca se desenhe outra vez nas ramagens mortas das árvores decíduas... (...) Patenteando sempre o mesmo cenário de uma monotonia acabrunhadora, com a variante única da cor: um oceano imóvel, sem vagas e praias. (p.p 42,43,44)
"A expedição era agora aquilo: um bolo de homens, animais, fardas e espingardas, entupindo uma dobra de montanha." (p. 266)
"O novo chefe não suportava as responsabilidades, que o oprimiam. Maldizia, talvez, mentalmente, o destino extravagante que o tornara herdeiro forçado de uma catástrofe..."(p. 267).
"Como um manequim terrivelmente lúgubre, o cadáver desaprumado, braços e pernas pendidos, oscilando à feição do vento no galho flexível e vergado, aparecia nos ermos feito uma visão demoníaca (...) renques de caveiras branqueando nas orlas do caminho, rodeadas de velhos trapos, esgarçados nos ramos dos arbustos e, de uma banda - mudo protagonista de um drama formidável -, o espectro do velho comandante..."(p. 275).
