quinta-feira, 10 de março de 2011
ENTRE MIM E O QUE SOU HÁ A ESCURIDÃO (Fernando Pessoa)
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
FUMER C'EST ÊTRE L'ESCLAVE DU TABAC...
Ezio Flavio Bazzo
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
O PERIGO QUE A "TERCEIRA IDADE" REPRESENTA, PARA OS "OUTROS" ...
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Gretchem leva coronhadas na Bahia...
sexta-feira, 20 de março de 2009
O boi atropelado e a horda sanguinária
Segundo notícia de um jornal regional de Pernambuco, na última quarta-feira um grupo de anônimos protagonizou uma cena de arrepiar os cabelos numa rodovia próxima a Jaboatão dos Guararapes. Convocados pela polícia rodoviária para ajudar a retirar debaixo de um caminhão o boi que havia sido atropelado, aqueles pobres miseráveis arrastaram o animal ainda vivo e agonizante para o acostamento e ali mesmo, com suas peixeiras, começaram a retaliá-lo e a esquartejá-lo. No meio de todo aquele rio de sangue a cabeça deve ter ido para um, a paleta e o pescoço para outro, o patinho e a alcatra para um terceiro, a fraldinha e o filé mignon ficado com os policiais, a picanha ido para o motorista e o contrafilé dividido entre os curiosos que enquanto assistiam àquele festim macabro e fúnebre lambiam os beiços. Triste, enfezado e lastimoso destino o dessa raça! Diante de uma loucura desse porte só nos resta reconhecer – como dizia Jean Genet – a imunda fraternidade dos crocodilos sorridentes.
Ezio Flavio Bazzo
terça-feira, 17 de março de 2009
A modernidade e nossos Pátios dos Milagres
O que é a cidadania? É a compulsão por vomitar sempre que se está diante de um dos tais “homens públicos”.
Ezio Flavio Bazzo
segunda-feira, 16 de março de 2009
A kent´annos! (Que você viva cem anos!)
São Paulo, 15 de março de 2009. Já nos muros do Cemitério, os que ficam pelo lado da Consolação, duas pichações emblemáticas. Uma exigindo a legalização do aborto e a outra literalmente assim: “o amor é importante, porra!”.
Nos degraus de entrada três punks em postura meditativa, dois caras e uma mulher. Atravesso as vias principais, entro pela esquerda, faço umas manobras em ziguezague até chegar aqui em frente ao suntuoso mausoléu da família Siniscalchi, bem na esquina da Rua 35 com a 37. O monumento em mármore gelo e vitrais azuis é a réplica de uma catedral européia – provavelmente da Notre Dame. No alto de seus dez ou doze metros, duas torres góticas (góticas?). Leio a placa que fica no rodapé onde diz que foi feita ou importada pela marmoraria J. Savoia. Nos fundos dela, por ironia, um frango preto, com fitas também pretas amarradas às pernas cisca tranquilamente como se estivesse lá na chácara da mãe Joana. Avanço mais uns cem metros até chegar ao exagerado e também suntuoso monumento erigido para abrigar os ossos do Comm. (esse Comm deve ser de comendador) Ermelino Matarazzo. O Comm e o Conde seriam a mesma pessoa? Lembro do frivolamente do Conde de Lautrèamont. Construído quase na esquina do cemitério esse soberbo bloco de concreto, mármore e bronze é um signo da soberba e da afronta secular dos estrangeiros contra os tupiniquins. Silencio. Parece não haver ninguém vivo por aqui. Mas só parece. De repente, uns suspiros vindos detrás de umas lápides. Tem alguém trepando por aí? – tive o ímpeto de gritar. Logo apareceu a cabeça de um homem, depois a de uma mulher. Um casal jovem de mendigos. Ela com uma saia vermelha e com as banhas das tetas e da barriga para fora. Ele, com um calção também vermelho veio agressivamente pedir-me um cigarro. Não acreditou que não fumo. Coçou o saco e moveu-se de maneira suspeita. Vi nos seus olhos uma longa ficha policial. A mulher veio até ele com uma garrafa na mão. Pressenti o perigo. Minha única defesa seria a caneta Bic. Assumi a postura clínica. Recuei sem deixar visível minha ansiedade. Meti-me por entre as tumbas e os mausoléus. Desapareci. Só fui relaxar quando já estava lá pelos lados do Cemitério Protestante e o do Carmo. (Aqui, pouca gente sabe, são 3 cemitérios em 1).
Túmulos de todos os tamanhos, cores, formatos. Não pode ser comparado ao Père Lachaise, mas em termos de arte funerária é respeitável. Os nordestinos e os portugueses que trabalham aqui deixam tudo impecável. Duvido que os inquilinos tenham alguma queixa. São inúmeras as estátuas e esculturas em bronze sobre as lápides, cada uma com seu significado explicito ou secreto. Uma mãe segurando o filho morto nos braços - por exemplo. As asas de um anjo fraturadas; diversas estatuas com a mão na face, o gesto clássico da melancolia; uma moça elegante debruçada sobre um caixão; o Cristo com o dedo em riste; cenas mórbidas do calvário; uma escultura de homem onde não há ventre; os cinco anjos femininos no jazigo da família Simonsen. Jazigos perpétuos! Descanso eterno! Aqui jazem as cinzas do fulano de tal! Que palavreado esquisito. Os pés das esculturas. Sempre avalio a competência dos escultores pelos pés e pelas mãos de suas obras. Não é fácil reproduzir as antigas garras dessa espécie.
Um enxame de mosquitos levantou vôo de um castiçal apodrecido. Um deles já me envenenou as costas. Bem que poderia ter trazido repelente. Se a dengue comum já é um perigo, a de cemitérios deve ser fatal. Muros com arame farpado em espiral, tipo aquele dos campos de concentração ou da Embaixada Americana em Brasília. Seriam para conter os vivos ou os mortos? Pequenos e sutis sinais de macumba aqui e acolá que só são percebidos e notados por um expert – me explicou o coveiro. Fotografo uma estátua de mulher em mármore branco, numa posição similar à do Pensador de Rhoden. Pensaria em que? O português prolixo que trabalha há mais de meio século aqui dentro relatou-me o caso recente da florista – sua colega – que meteu bala de 38 na barriga de um homem. Nunca mais a viu. Está presa. Vale a analogia entre o presídio e o cemitério. De vez em quando um susto. Um pássaro ou um necrófilo surge do nada. Um beija-flor lambe a flor deixada por um anônimo entre os dedos de uma madona em mármore. Sobrevoa como um raio outros mausoléus e volta em seguida, voraz e decidido a saciar-se. Silêncio sepulcral. Leio os sobrenomes nos monumentos: Domenico, D´andratta, Gurzoni, Mascaro, Capasso, Gagliotti, Monegaglia... Estou no Brasil ou na Itália, porca madonna?
A escultura enigmática no túmulo da Família Botti. Um tapete de musgos naturais e verdes ao lado da muralha. O bloco de mármore e granito sóbrio abriga os restos mortais e editoriais do senhor José Bento Monteiro Lobato. Mais acima o da Tarsila do Amaral. O da família Curry é uma obra prima. Há por aqueles lados um Jesus morto, com as feridas visíveis e sua mãe debruçada sobre ele num gesto contra e anti-édipo. Uma moça em postura zen no mausoléu da família Abdalla Azem. E na tumba do Dr. José Vieira Couto Magalhães, um quadro em alto relevo, também em bronze leva o título: O selvagem. Nele aparece um indígena remando solitário seu barco.
Identifiquei uma única escultura repetida em todo o acervo deste cemitério. Trata-se de uma mulher com algo nos braços que de longe parece ser um violino, mas que de perto se constata ser um crucifixo. Pelas datas dos nascimentos inscritas nos jazigos aqui há gente de todos os signos. Da hora que entrei aqui, até agora, os sons e os barulhos foram mudando. Vejo chapéus se movendo lá longe entre símbolos sacros e mortuários, o ruído dos ônibus lá fora, das rodas do carrinho dos coveiros e o cochichar de uma oração interminável que alguém faz para seu morto. Dou por terminada esta visita e tomo o rumo da saída recitando para mim mesmo a conhecida saudação comum lá na velha Sardenha: A kent´annos! (que você viva cem anos!)
Ezio Flavio Bazzo
domingo, 8 de março de 2009
Engravidai-vos uns aos outros
Nos finais de semana até o chamado Jardim Zoológico de Brasília fica com mais gente de que bichos. Já pela manhã uma longa fila de automóveis, bicicletas e carroças vai se formando ao longo do asfalto, cada um com dois ou três congêneres a bordo que vão passar o dia lá sob as árvores, ao lado da jaula dos leões, das serpentes ou do borboletário. Mesmo aos domingos há filas para tudo nesta cidade que, segundo o próprio Ministro da Justiça, se parece a um autorama stalinista. Nos caixas eletrônicos, nos sanitários, nos restaurantes, nos motéis, nos mercados, nos centros espíritas, na maternidade dos hospitais, nos postos de gasolina, nos açougues, nas casas lotéricas e nas sorveterias, para comungar-se, para autógrafo, para visitar o Congresso Nacional ou o monumento erigido em homenagem ao velho Tancredo etc. é necessário ficar lá atrás de outros dez ou quarenta sujeitos enfileirados... Fico impressionado ao deparar-me com essas multidões desvairadas, multirraciais e multiétnicas que até ontem não sabia que existiam e que por onde passam vão deixando um rastro de odores e de dejetos. Onde moram? De onde vieram? Para onde irão? Ninguém sabe. É a superpopulação descarada. O engravidai-vos uns aos outros. A cidadania em progressão geométrica. Os filhos de Deus. Bandos, manadas, multidões analfabetas e famintas, ricas, pobres, vorazes, esnobes, arruinadas, felizes, esperançosas e libidinosas. Malthus se preocupava com a falta de alimentos, nós nos preocupamos com a falta de oxigênio, de grandeza pessoal, de espaço e de transcendência. Sorte que em 2050, quando a terra terá que haver-se com o horror de 10 bilhões dessa espécie esquisita e desse homo obesus, já estarei bem “pra lá de Marrakech”.
Ezio Flavio Bazzo
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Do Self Service ao carnaval de bactérias
Para nós a quem a simples obrigação de ingerir outros seres ou coisas sempre nos pareceu um defeito grave e injustificável da natureza, a necessidade de comer três ou mais vezes numa única jornada sempre foi vista como uma verdadeira desgraça para a humanidade, um ritual compulsório e fútil que com a propagação dos tais self service e suas devidas bactérias tem transformado a sobrevivência quase num milagre.
Idealizado pelos comerciantes e pelo capitalismo para dispensar funcionários e para incrementar os lucros, o self service se foi um avanço em se tratando de postos de gasolina, de agências bancárias, de banheiros públicos, estações ferroviárias etc., foi um desastre para a saúde pública. Quem é que por mais suíno que seja já não sentiu nojo diante daquelas comidas expostas, daquelas panelas respingadas, remexidas e coaguladas onde se misturam cabelos, salivas e salmonelas das mais variadas origens? Como as pias e os banheiros estão quase sempre situados nos fundos dos restaurantes, os clientes chegam vorazes e famintos da rua, do trabalho, do motel, da privada e vão logo avançando sobre aquelas carnes já em putrefação, aqueles brotos, aquelas folhas, aquelas raízes, molhos, caldas, sementes, farinhas, ostras, pescados, rabos de porco e laranjas descascadas. O Cury causa expiro
Ezio Flavio Bazzo
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Quando andar de ônibus é uma espécie de eutanasia
São inumeráveis os intelectuais, os estudiosos e os especialistas no processo civilizatório que afirmam sem pestanejar que um país e um povo se conhecem basicamente por suas bibliotecas, por seus rios e por seu judiciário. Eu agregaria mais um elemento: por seus ônibus. Quem viu ontem aquela carcaça velha tombada, enferrujada, ensanguentada e aos pedaços nas proximidades do aeroporto sabe de que estou falando. De rodas para o ar, corroído pela ferrugem, fora do prumo, com as rodas empenadas, os pneus carecas, o motor vazando, o escapamento furado etc., o esqueleto daquele ônibus parecia um imenso espelho refletindo nossa nefasta negligência e nossa confusa personalidade. Ao invés de querer fazer do motorista um bode expiatório, o Ministério Público deveria exigir tanto da empresa como do Estado uma indenização milionária a favor daquele homem que, por razões conhecidas por todos, era obrigado a circular todos os dias, durante décadas e de maneira suicida no interior daquele traste e daquela lataria velha. Com os olhos fixos no gotejar do combustível daquela carroça desfigurada lembrei-me da frase que Crates disse a seu filho quando o levou pela primeira vez a um bordel: foi assim, filho, que se pai se casou.
Ezio Flavio Bazzo
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Viver faz mal para a saúde
Não é novidade para ninguém que uma das obsessões de nosso tempo é a longevidade. Mesmo aqueles que não sabem o que fazer num simples sábado à tarde e que são o tédio ambulante, mesmo eles lutam com todas as forças para durar. Mas são muitos os obstáculos e as conspirações em contrário. A última notícia que recebi foi me prevenindo de que o bacon e o presunto podem provocar leucemia. Ontem me mandaram uma nota demonstrando que o leite provoca câncer na próstata, e na semana passada uma tese que demonstrava ser a garrafa plástica da água mineral um veneno mortífero. Já me alertaram de que o uso dos adoçantes artificiais está relacionado às demências, o café aos distúrbios do sono e o vinho à pressão alta e às tremedeiras do Parkinson. O chá verde dispara o coração de qualquer um, o cigarro apodrece o pulmão, a cachaça destrói o sistema nervoso central, os tomates são autênticas cápsulas de inseticidas, a pasta de dentes é pura química, o chocolate é basicamente manteiga e tem uma fórmula monstruosa, sem falar da cadaverina presente em todas as carnes e que leva os carnívoros à idiotia. Consumir açúcar, sal, refrigerantes, ovos, gorduras, farinhas etc. é obesidade, diabete e impotência certa. E o pior é que eu, do alto de meus 59 anos, acredito em tudo isso. E não só acredito como tenho certeza que quase tudo o que ingerimos no nosso dia-a-dia é impróprio, maléfico, quase putrefato e mais, que até mesmo viver faz mal para a saúde. Talvez só o jejum absoluto nos poupasse temporariamente da ruína e da devassidão física e mental. Esse tema: trágico e cômico - lembra a observação de Cioran, para quem os transtornos da velhice são uma espécie de autocrítica da natureza.
Ezio Flavio Bazzo
quarta-feira, 23 de janeiro de 2002
O acosso moral no Trabalho
Aproveitando a obsessão dos candidatos em prometer emprego aos eleitores, é importante lembrar que tão ou até mais grave que o desemprego em nosso país é o acosso moral no trabalho, sobre o qual nenhum dos ilustres postulantes tem dado uma única palavra. O acosso moral, um tema recente que vem sendo tratado com rigor pelos organismos internacionais do trabalho, se refere ao abuso de poder, à pressão, à perseguição, à desqualificação, ao amedrontamento e às ameaças que os trabalhadores sofrem no ambiente de trabalho, tanto no âmbito dos serviços públicos e das universidades como no das empresas privadas, problema que tem causado diversas doenças psicossomáticas nas vítimas e inclusive suicídios.
A revista nº 43 da OIT, tratando dessa questão, menciona o livro recentemente publicado no Canadá, intitulado Un collègue veut votre peau (Um colega quer tua cabeça), onde são descritos três tipos desses agressores:
1. A besta — Uma pessoa brutal e alheia a toda redenção, que desde a infância desfruta destruindo a dignidade dos demais (elege objetivos fáceis, pessoas emocionalmente frágeis e que não podem permitir-se deixar o trabalho);
2. O político — Um empregado ambicioso que acossa um companheiro e se apropria das idéias dele, com o fim de conseguir uma ascensão ou ser reconhecido diante da direção (acossa os funcionários que considera rivais e que deseja eliminar);
3. O impostor — Um empregado incompetente que oculta seus erros difamando os outros (desacredita seus antigos companheiros para proteger-se). No Brasil, onde apesar do blablablá estéril dos administradores, não existe critério nenhum para a ocupação de cargos de chefia e onde quase 90% dos funcionários estão desviados de função, esse tipo de conflito, tanto entre chefes como entre chefes e subalternos e entre os funcionários em geral, tem transformado os ambientes de trabalho em pequenos focos de neurose e de destruição mútua, comprometendo, além da saúde e da realização pessoal, os próprios serviços. O silêncio, a negligência e quase sempre a participação ativa dos próprios setores de recursos humanos nessa patologia a têm tornado cada vez mais grave e cada vez mais fora de controle.
Por isso, seria importante se os candidatos, no meio de tanto palavreado inútil, conseguissem lançar o olhar para bem mais longe quando se referem ao emprego, pois o problema não está apenas no desemprego, mas também no emprego onde o sujeito, em troca de uma remuneração miserável, terá que se submeter a condições irracionais e destrutivas. Recentemente, em seu livro Mal-estar no trabalho: acosso moral; separação entre o real e o fictício, a psicanalista francesa Marie-France Hirigoyen propôs que ''os governos estabeleçam programas de prevenção frente a esse problema, que, na realidade, não constitui uma debilidade apenas pessoal, mas uma enfermidade coletiva''. Caso contrário, seria até melhor que as pessoas. parafraseando Rimbaud, gritassem nos comícios a esses oportunistas: Trabalhar? Jamais, jamais. Nós estamos em greve!
Ezio Flavio Bazzo

