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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Novos esclarecimento sobre nossas origens... Ou, no Princípio não era o Verbo como queria João, mas sim o porco!!!


Eugene Mc Carthy, geneticista da Universidade da Geórgia, com um pós doutoramento na área de hibridização de animais, acaba de declarar em um site científico algo que, por intuição, sempre acreditei: "os humanos são frutos do acasalamento entre o chimpanzé e o porco".
Sinceramente, quem é que 
olhando-se com calma no espelho, de costas, de lado e de cócoras, não identifica lá, no meio dos disfarces, muitas características suínas?
Além de todas nossas conhecidas semelhanças com os chimpanzés, observem como a pele sem pelos, nossa espessa camada de gordura subcutânea, os olhos claros, os narizes protuberantes e os cílios pesados são genuínos atributos dos porcos... 
Essa notícia, que pode até assustar e decepcionar muitos narcisistas, traz um alívio para os filósofos, pois finalmente se começa a entender as razões de todas as nossas insistentes tentativas de transformar o mundo numa pocilga...
A curiosidade maior, agora, está em saber se foi o porco que comeu uma macaca ou se foi um chimpanzé que papou uma porca...

terça-feira, 9 de julho de 2013

Somos o único país do mundo a ter um muquifo chamado Favela da rola...

Encontrei o mendigo K. no meio de milhares de prefeitos que estão na cidade reclamando seu quinhão. E não estava mendigando e nem querendo comover a terra com suas lágrimas, pelo contrário, estava mais do que eufórico. Já percebi que para quem vive a solidão da indigência e que está habituado a um silêncio povoado de misérias qualquer manifestação dá a ilusão de uma tomada da Bastille ou de um festim dionisíaco. Quando nos vimos estava em frente ao Congresso Nacional falando com o prefeito de um dos tantos municípios mambembes que há por esses cafundós afora. Fez questão de apresentar-me e anunciou: estava, aqui em frente a essa casa de penhores, dizendo ao doutor (referia-se ao prefeito) que nosso país é o único do mundo a ter um muquifo chamado Favela da rola... e explodiu numa gargalhada, uma explosão daquelas cuja insalubridade bucal fica completamente exposta. E antes mesmo de recuperarmos o fôlego foi metralhando: 
 E os bagulhos apreendidos!? As campanhas em contrário, não têm servido para coisa nenhuma... parecem até estar incentivando o consumo... Só neste domingo foram duas toneladas de maconha e trezentos quilos de cocaína, bem aqui sob as pupilas do establishment republicano e de um policiamento pra lá de exagerado. Duas toneladas de canabis e trezentos quilos de pó! Se eu não fumo, vocês também não, nossos vizinhos idem, os burocratas nem pensar, os ministros e parlamentares nem conhecem o cheiro, os pais de família são abstêmios, as moças de família só bebem Martini branco, doce e sensacional... quem é, afinal, que queima todo esse fumo e que cheira todo esse pó? Duas toneladas, vocês sabem, são dois mil quilos... De onde advém essa necessidade de volúpia alucinatória e de embriagues? Quem foi o primeiro a descobrir que o cérebro fica como uma cortesã quando sente o cheiro da fumaça ou a leveza do pó? 
Ah.., mais injustiçada que a plantinha da maconha só mesmo a papoula do ópio! Duas singelas relíquias do mundo da botânica que viram literalmente o mundo de pernas para o ar... Sabiam que o elixir paregorico de nossa infância tinha algumas centelhas de ópio? Por pouco nossas velhas avós não trataram nossas cólicas  com heroína..! O dr. conhece o famoso Triângulo do ouro? Pergunta ao prefeito. Sem mostrar nenhum interesse pela resposta foi logo agregando, com uma indisfarçável chispa de cinismo: vale a pena desviar o dinheiro de mais uma ou duas pontes e ir passar uma semana lá na fronteira entre a Tailândia, a Birmânia e o Laos... 

quinta-feira, 10 de março de 2011

ENTRE MIM E O QUE SOU HÁ A ESCURIDÃO (Fernando Pessoa)

Agora que as cinzas estão baixando, que cada um voltou para sua escravidão e para sua miséria cotidiana, mais doente, mais pobre, mais impotente, mas alienado, mais bovinizado, vale a pena assistir os cinco capítulos da "novela" que lhes exibirei abaixo. Acomodem-se bem em suas poltronas, degustem um chá de camomila e tomem consciência de como tudo isso em nossas vidas  é intenso e abominável...



sexta-feira, 23 de julho de 2010

Odiar-nos a nós mesmos como odiamos a nosso próximo...

Acabo de receber mais um convite para filiar-me a um partido, em anexo, veio o nome de dois candidatos, as metas e a tal plataforma de campanha. A primeira pergunta que me veio em mente foi: Quê porra é essa de Plataforma de Campanha? Depois, com calma, fui ver as promessas político/sociais desse partido, de seus respectivos candidatos e de mais meia dúzia que estão no páreo. Nada, absolutamente nada transcendente, tudo rasteiro, tudo relacionado ao estômago e as neuroses do rebanho. Desde que nasci os ouço divagar sobre o mesmo mar morto, isto é, sobre a mesma trilogia: educação/saúde/trabalho. Entretanto, a educação continua uma miséria, a saúde continua uma miséria e meia e o trabalho segue sendo uma semi-escravidão. Penso que talvez eu até me dispusesse a votar num sujeito que tivesse como objetivo único e absoluto, o controle da natalidade. Há muita gente na cidade, no continente e no mundo. E pior, gente estranha, bizarra, que nunca vi, que se olha atravessado e que se esquarteja por qualquer ambigüidade ou por qualquer rixa e que quer, antes de tudo, foder-se mutuamente. Os presídios, os bordéis e as igrejas já funcionam a quatro turnos. Os ônibus vão entulhados, os aviões passam por cima de minha casa com gente dependurada nas asas, as filas dos mercados chegam às calçadas, centenas de pessoas esperam semanas e meses nas filas dos ambulatórios, há milhares apodrecendo nas ruas, há que se copular e os motéis funcionam com lotação máxima 24 horas por dia e as maternidades, mesmo com a “cesariana” popularizada não dão conta de tantos descendentes... Na confeitaria da esquina faltam mesas e os viciados em açúcar se aglomeram como moscas, os esgotos entopem, falta água e a pressa vai agindo malignamente sobre os nervos do formigueiro. Somos uns duzentos milhões só do lado de cá das fronteiras, se um dia voltarmos a ser uns trinta, quem sabe, poderemos até idealizar novamente alguma forma, mesmo que esdrúxula, de felicidade... 

Ezio Flavio Bazzo

sábado, 17 de julho de 2010

O goleiro bruno cercado de piranhas vorazes por todos os lados e o velho Giacomo Casanova...

Pelo que noticiam sobre as aventuras sexuais e a vida íntima do ex-goleiro do flamengo, somos obrigados a admitir que o famoso veneziano Giacomo Casanova que jurou ter “comido” 122 em toda sua longa existência, se comparado a nosso guarda-redes e "herói" de tantos energumenos, não passou de um pobre panaca. E por falar em goleiro, como é possível que exista a profissão de “goleiro”? De centroavante? De ponta esquerda? De volante? Zagueiro? De juiz de futebol? Prestem atenção. E mais, como é possível que esses cretinos analfabetos, junto às “modelos”, faturem salários mensais que, de tão colossais, nenhum outro profissional (cientista, profeta ou gênio) jamais se atreveu a idealizar para si? E isso, com a cumplicidade rasteira e sórdida do resto do rebanho este, mergulhado no mais absoluto mutismo enquanto rumina suas migalhas. Em algum lugar Fernando Pessoa escreveu sobre a miséria interior de seus patrícios algo que serve também para a nossa: 

[Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma «revolução» foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchamos uma revolução com a brandura com que tratamos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficamos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e de fingimento...]

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Jezabel, Elisa e os Rottweilers...

Enquanto a policia confinava os Rottweilers e procurava pelos ossos de Elisa, dizem que o goleiro do flamengo, já preso, pediu uma bíblia e fez uma oração antes de repousar. O que existiria nesse livro que todos os condenados e os encarcerados pedem imediatamente um exemplar? E mais, como é que os carcereiros sempre arranjam um por lá e com tanta rapidez? Duvido que se pedissem 120 dias de Sodoma ou A Cabala – por exemplo - suas demandas seriam atendidas com tanta presteza. No caso desse crime, dá até para desconfiar que a bíblia tenha servido como inspiração aos assassinos, já que numa de suas estórias Jezabel (princesa fenícia) também é assassinada, defenestrada e comida pelos cachorros. O autor, lamentavelmente, não faz nenhuma referencia ao pedegree dos animais.

Obs: No que se refere a crimes hediondos, aqueles que quiserem se manter atualizados devem andar sempre com o Velho Testamento em baixo do braço.

 Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 5 de julho de 2010

NÓS NÃO TEMOS NADA CONTRA O PECADO, NOSSA CISMA É CONTRA OS PECADORES...

Para encher lingüiça em sua programação fajuta de todos os dias e para tentar manter o rebanho conectado a mídia tem convocado especialistas de todos os matizes para explicar as razões que levaram “nossa seleção” a se escafeder depois do primeiro gol e na eminência da derrota. Consultaram neurologistas, psicanalistas, mães de santo, psiquiatras, antropólogos etc, estranho que não tenham querido saber a opinião dos veterinarios e muito menos dos pedagogos. Ora, um sóbrio jogador alemão já havia feito o diagnóstico do caráter dos jogadores sul americanos três dias antes da derrota fatal tanto do Brasil, como da Argentina e do Paraguai: basta um obstáculo – dizia ele - e pronto, se desorganizam mentalmente. O pior é que é verdade e que essa fragilidade não se resume apenas ao universo dos esportes. A falta de ”substância”, a “mediocridade generalizada”, o abismo entre a pose-do-sujeito e o sujeito-da-pose têm tudo a ver com essa realidade de quarta categoria com a qual os latino americanos em geral e os brasileiros em particular se digladiam cotidianamente. É evidente que as origens desse transtorno e desse complexo de cagão estão lá no Primeiro Grau. Muita reza, muita lengalenga, titia pra cá e titia pra lá e nada de Descartes. Até nossos jogos que deveriam ser laicos parecem retiros de macumbeiros, evangélicos ou de seminaristas! Ver aqueles ignorantes agradecendo a deus depois de um chute ou de uma cabeçada é mesmo para sentir ânsias.. Ah, mas e o Segundo Grau? O segundo grau? Pesquisas recentes demonstraram que é apenas o aperfeiçoamento da farsa e do vazio do Primeiro.
 
E as evidências de que lá na Argentina e lá no Paraguai, neste particular, as coisas não são diferentes foram as promessas tanto do Maradona como de uma badalada modelo paraguaia de que iriam desfilar pelados pelas ruas se suas respectivas seleções vencessem. Sinceramente, alguem sabe o que tem a ver o rabo e a xota com uma copa do mundo? E depois, aqui entre nós, a paraguaia ainda vai, mas aquele monstrengo...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

COME TUDO SUA CACHORRA...

Independente de ela ser realmente adepta de uma seita de Satã – como dizem - o caso da madame de Ipanema que torturava a menina adotiva está ganhando magnitude surrealista e estratosférica num país infestado por um falso moralismo, por bacharelices emergentes e de todo tipo, e principalmente onde a grande maioria das crianças é secretamente indesejada, rejeitada, humilhada, xingada e tratada como estorvo em suas casas. Se as domésticas passassem a abrir o bico sobre aquilo que testemunham nas mansões dos grãfinos, nas residências da classe média e mesmo lá na solidão tenebrosa  dos cortiços, a sociedade, desmascarada, entraria rapidamente em colapso. 

E depois, qualquer um sabe que a história da humanidade foi alicerçada também sobre inúmeros e incontáveis infanticídios. Aqui mesmo, nestes inconseqüentes e infelizes trópicos, já no final da Guerra do Paraguai, nossos heróicos soldados degolaram mais de três mil crianças paraguaias. Corpos que o eminente Conde D’Eu deu um fim mandando tocar fogo nas macegas. Dia 16 de agosto é comemorado El dia del nino no Paraguay, em memória a essa ignomínia.

obs: Se você quer saber mais sobre infanticídios e filicídios leia meu livro: A lógica dos devassos (no circo da pedofilia e da crueldade)

quarta-feira, 10 de março de 2010

A PUBLICIDADE É UM CADÁVER QUE NOS SORRI...

Neste momento em que as hienas da política e os chacais da propaganda estão reaparecendo para vender suas merdas mentais e para comprar seu voto, vale a pena reler A publicidade é um cadáver que nos sorri, de Oliviero Toscanini.

“Os nazistas - escreve ele - inventaram a propaganda publicitária da alegria ariana com filmes e série de fotos que louvavam um estilo de felicidade escoteira, corpo esculpido e desnudo, beleza loura, alegria de fazer parte de um grupo, grandes emoções simples, culto do natural e do autêntico, céu sem nuvens, veículos poderosos. Era necessário assemelhar-se a essas imagens idílicas. A propaganda encarregava-se de difundi-las por toda a parte, cinema, revistas, cartazes, prospectos, a mesma coisa que a publicidade faz em nossos dias. Um logotipo sombrio e gráfico simbolizava todo esse universo fascista – a suástica. Um símbolo gráfico.”
“Acho apavorante que todo esse imenso espaço de expressão, de exposição e de afixação de cartazes, esses milhares de quilômetros quadrados de cartazes mostrados no mundo inteiro, esses painéis gigantes, esses slogans pintados, essas centenas de milhares de páginas de jornal impressas, esses milhões de horas de televisão, de mensagens radiofônicas, fiquem reservados a esse paradisíaco mundo de imagens imbecil, irreal e mentiroso. Uma comunicação sem qualquer utilidade social. Sem força. Sem impacto. Sem sentido”.
Enfim, “a publicidade não vende felicidade, ela gera depressão e angústia. Cólera e frustração”.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A criação foi um engano e quem quer que tenha dito [Haja luz], um bufão.

Nesta semana o mundo foi pródigo em desvarios e em obscuridades exasperantes. São Paulo viu uma esportista estúpida ter um bebê sem saber que estava grávida. No interior da Bahia, três pobres miseráveis introduziram dezenas de agulhas no corpo de uma criança. Copenhague hospedou milhares de politiqueiros hipócritas com o pretexto farsesco de salvar o planeta. Um romano indignado acertou uma réplica da catedral de Milão no nariz de Berlusconi. A Câmara Legislativa do DF, atolada num lamaçal fedorento, declarou-se em recesso para dar tempo aos colegas gatunos escaparem. A OAB e a CNBB manifestaram-se indignadas com o andamento da carruagem corruptiva, o que parece uma evidente contradição, uma vez que os advogados jamais se negam a “defender” corruptos confessos e os padres, além de fazerem cumplicidade com os larápios no confessionário ainda aceitam prazerosamente seus dízimos. Há uma paralisia geral no planeta. Para cada cinco ou seis sujeitos que pensam, produzem, movem a roda da existência, há milhões e milhões na inércia e na inutilidade, preocupados apenas com suas tripas e fazendo unicamente o papel de trituradores. É alarmante e inacreditável, por um lado, que os alagados da periferia de São Paulo não marchem sobre a Av. Paulista com machados e dinamites e por outro, que em Copenhague nenhum daqueles farsantes engravatados tenha dado um pio a respeito da urgência do controle da natalidade.

Nos Evangelhos Gnósticos existe uma frase que cada dia passa a ser mais verdadeira: “a criação foi um engano e quem quer que tenha dito [Haja luz], um bufão”.

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O futebol e a reunião de Copenhague

Bandeiraços, tiros, gritos, trombetas, hinos e buzinas. Sujeitos extremamente jovens e sujeitos extremamente velhos, sujeitos esclarecidos e sujeitos analfabetos igualmente alucinados nas esquinas sacudindo o esqueleto, a camisa de seu time ou a foto de seu herói. A demência foi geral. Aliás, a demência é geral. O que deve acontecer verdadeiramente no cérebro dessa gente? Quem realmente compreender um desses fanáticos fará mais pela psicopatologia do que Kraepelin. Da varanda, meu cachorro assistia apavorado àquela gritaria e aquele tiroteio descabido. Sentei-me a seu lado e cochiche-lhe no ouvido a frase dos velhos moralistas roubada - como todo mundo sabe - dos textos orientais pelo cristianismo: “esses coitados não sabem o que fazem!”

Seria oportuno que a reunião de Copenhague não ficasse apenas nos banquetes e no blábláblá das emissões de carbono, dos peidos das vacas do Mato Grosso, das motos-serra do Amazonas, das chaminés das fábricas, dos agrotóxicos, do lixo hospitalar, da poluição dos carros etc., mas que incluísse o futebol entre os venenos que acabarão imbecilizando ainda mais e degradando gravemente o planeta e a espécie.

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Atenção: "brechó" não tem nada a ver com "brecha" e nem com "brochô"

Sabemos que são antigos, mas parecem ter ficado verdadeiramente visíveis só lá pelos anos 60, depois da guerra do Vietnã. Aqueles uniformes imundos, coturnos sujos de sangue e casacões furados por balas usados pelos hippies etc. Grife da morte! Fashion lixo! No Brasil, um dos primeiros bricabraques foi instalado no RJ (séc.19) por um fulano chamado Belchior. Dizem que a palavra brechó vem de Belchior. Hoje é uma epidemia pelo mundo. E não são apenas sujeitos arruinados os seus clientes, há gente grã fina se acotovelando no meio daquelas porcarias. O casacão que me abrigou durante longos invernos pelo mundo afora – por exemplo – foi comprado por setenta ou oitenta francos na Braderie da Rue de Bretagne numa dessas lojas que Balzac classificava como as mais sinistras de Paris. “Nelas – escrevia o melhor escritor de todos os tempos – vêem-se os espólios que a morte ali jogou com sua mão descarnada. Nelas, pode-se ouvir o estertor de uma tísica sob um xale, bem como adivinhar a agonia da miséria sob um vestido de lamê dourado. Os debates atrozes entre o luxo e a fome estão escritos ali, sobre rendas levíssimas. Ali se encontra a fisionomia de uma Rainha sob um turbante de plumas cuja pose lembra e quase restabelece a figura ausente”.

Machado de Assis, em seu conto Idéias de Canário, também descreveu um desses negócios: “A loja era escura, - rabiscou o Bruxo de Cosme Velho - atulhada das coisas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas, que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio”.

As justificativas dos clientes que focinham alucinados por detrás dos cabides e que chafurdam naquela rouparia anônima vão das mais tolas e pueris às pura e simplesmente mercantilistas. Claro que não se poderia esperar deles nenhuma menção ou insinuação ao clima mórbido e escatológico que sempre predomina tanto na essência dos seres como no interior desses sarcófagos.

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O sacrifício de cachorros na periferia de SP e a cachorrada humana

Difícil entender por que a mesma população que se arquejou de espanto e em vômitos com a descoberta de um matadouro clandestino de cães e de gatos na periferia de SP não está nem aí para os abatedouros públicos de vacas, cabras, porcos, galinhas, rãs, coelhos, faisões etc. Paradoxalmente, esses mesmos hipócritas que se escandalizaram com a natureza do negócio e com o tipo de carnificina são os mesmos que estão todos os dias em fila diante dos mercados e dos açougues para comprar peles, sangue e tripas de porcos, costelas de bezerros, coxas e corações de galinhas, miolos, fígado e língua de bois. Repito: para comprar pele, fígado e língua de bois! Ora! E, além disso, foi exatamente essa gentalha que fez escárnio e escândalo sobre o cardápio e sobre o canibalismo dos tupinambás! Outra hipocrisia, pois é evidente que quem come um pato laqueado seria capaz de comer uma criança laqueada. Que quem come um bode ou um porco no espeto, dependendo das circunstâncias, seria capaz de fazer um churrasco com um irmão, um primo, o pai ou um vizinho. Então, em quê os coreanos e os outros orientais que encomendavam e consumiam as carnes e as vísceras de cães e de gatos capturados nas ruas e assassinados, seriam mais bárbaros e mais desprezíveis do que os que devoram uma ou duas vacas por ano? Dez ou doze frangos por mês? Meio porco a cada fim de semana? Quilos e mais quilos de caranguejos a cada veraneio e dois ou três perus a cada natal? Até uma criança de cinco anos seria capaz de perceber que a voracidade patológica, a ausência de ética e o mau caráter desses personagens são exatamente os mesmos. Um idiota com quem conversava sobre o assunto me dizia: Mas não comer cachorro e nem gato é lei! Lei? A lei é mais desprezível ainda. Vejam o que diz o texto da tal lei: [Animais domésticos, aqueles de convívio do ser humano, dele dependentes, e que não repelem o jugo humano (e que não repelem o jugo humano) não podem ser criados para o consumo]. Ou seja: aquilo que não for domesticável pode ser devorado!

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A medicina, como fábrica e mercado de angústia

E aí? Já tomou suas vacinas? Já checou seu colesterol? A glicose? Os triglicerídios?

Cuidado com a tireóide! O fígado, os rins, os intestinos, a bílis negra, os corrimentos, as veias do reto. Tantos por cento morrem com câncer nas tripas! Cuidado! As piores doenças são silenciosas! Vá regularmente ao dentista. Um dente podre pode afetar seu coração! Existem mil tipos de aritmias! E os olhos? Cheque frequentemente a pressão de seus olhos. Olha o glaucoma aí gente! Todo mundo é diabético! Há uma propensão ao alcoolismo e à depressão na espécie. A depressão será o Grande Mal do Mundo! Comece a tomar remédio desde já. Vá verificar o estado de seus ossos. Lembre que você não é uma minhoca. Os exames que eram qüinqüenais passaram a ser semestrais. O status médico não pode ir para o buraco! Não dá para ficar com equipamentos parados. Vamos fazer exames, passar a vida fazendo exames até encontrar as raízes da morte em nossas entranhas. Ninguém o curará de nada, mas pelo menos você ficou sabendo. Apalpe seu corpo, você pode descobrir alguma anomalia: um caroço, uma espinha, uma veia pulsante, um chip. Mesmo que não seja nada grave, pelo menos lhe dará a experiência da angústia e a angústia, você sabe, é sinal de que você está vivo. Lambuze-se diariamente com protetor solar. O mais caro é sempre o melhor. E a próstata? Olha lá! Olha lá! A próstata é uma glândula de fácil desarranjo, como praticamente todo o corpo, foi um erro estúpido na evolução, mas os médicos, por dez ou doze mil poderão remediar ou mesmo extirpar esse mal. Vá ao geriatra. Mantenha-se lúcido como uma pantera até aos noventa anos! Não dê ouvidos àqueles que acham que a longevidade é um projeto tolo da burguesia e um truque das multinacionais dos medicamentos. Arraste-se pela vida, nem que seja como um verme, até o FIM. Mas resista. Esteja sempre entre as caravanas que vão mensalmente à Aparecida ou a Juazeiro do norte! Se sua aposentadoria não for suficiente para comprar remédios, vá ao banco, faça empréstimos. Quase sempre os banqueiros, que são acionistas também dos planos de saúde e das importadoras de medicamentos, transbordam de compaixão para com os da quinta idade. E as tetas? A indústria da mamografia só não cresceu mais que a indústria imobiliária e a indústria da cocaína. Comece a fazer seus exames a partir dos vinte anos. Você só tem quinze? Vá assim mesmo. Se você não quer parar de comer suas afrodisíacas feijoadas com cachaça e leite condensado, faça redução de estômago. Corte-se! Quanto mais cicatriz tiver, mais dará a impressão de ter vivido. Seja um homem ou uma mulher de seu tempo, pois tanto as vidas, como as guerras, acabarão sempre no cemitério.

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Tornados, vendavais, tempestades, ventanias: apenas uma resposta à infâmia

Quando fui criança lá no sul do país, além dos estradões de terra batida e de barro, praticamente tudo era floresta. De Curitiba à Foz do Iguaçú se ia ziguezagueando por entre Pinheirais intermináveis! Perobais! Capoeirões! Palmitais! Erva Mate! Cedros imensos e por todos os lados a conhecida Canela-fedorenta que os cientistas, cada um com seus sotaque, chamavam pomposamente de Nectadra Megapotamica. Quase tudo foi para o saco! Milhares de hectares, com suas duas ou três mil espécies de plantas, foram devastados. De um extremo a outro daquela região só restou, na verdade, o Parque Nacional do Iguaçú que Getúlio, num surto de lucidez, salvou com um mísero Decreto assinado em 1939. Hoje toda aquela exuberante composição floristica virou pastagem ou vilarejos suburbanos atrasados. Tudo foi convertido perversamente em fazendas de soja (esse grão abjeto que vai empanturrar as vacas dos americanos e os porcos dos chineses) nas mãos de colonos ignorantes ou de especuladores infames atentos apenas às próprias barrigas e aos próprios bolsos. Agora, todo mundo com cara de coitadinho chora ao lado dos telhados e dos barracos despedaçados, se queixa dos seguidos vendavais, das frequentes tempestades, dos tufões, tornados e redemoínhos que se armam satanicamente sobre aquelas terras assoladas. Fingem não saber o que está acontecendo. Ao invés de aumentar a consciência, aumentam o misticismo e as pregarias. Mandam rezar mais missas, penduram escapulários nas cercas e nos telhados, questionam a indiferênça divina, culpam satanás, as meninas da zona, os hereges, os vícios da humanidade. Tudo trapaceria vã. Deveriam sim, abrir os olhos, conscientizar-se da burrice praticada ou autorizada durante décadas e ir apresentar a conta aos gorduchos fazendeiros, aos gigolôs das vacas, aos comerciantes de agrotóxicos e a outros larápios cínicos que com suas idiotices, tratores, foices, venenos e moto-serras, se não forem interditados a tempo, poderão aumentar ainda mais a desolação e o desastre.

Ezio Flavio Bazzo

sábado, 15 de agosto de 2009

Não aponte esse dedo sujo em minha direção!

Mesmo com o risco de que venha a reduzir a população do planeta pela metade, a gripe suína vem desencadeando pelo menos um benefício ao processo civilizatório: o costume de se lavar as mãos. A certeza de que nos restaurantes, nos bares, nos hospitais, nas bibliotecas haverá, daqui para diante, um fio de água e uma gota de sabão para essa prática será um legado imenso para aqueles que sobreviverem.

Que estranha afinidade essa espécie parece ter com a imundice! Qual é, afinal, a dificuldade de limpar-se essa dezena de dedos se até o pernóstico Pilatos, lavou os seus antes de autorizar que pendurassem o nazareno?

- Não aponte esse dedo sujo em minha direção!

Gritou o nobre senador X para o nobre senador Y. Sujo de quê? Foi o que todos os ingênuos eleitores ficaram pensando. E essa frase parece ter sido tão dolorosa e tão implacável que o apontador sentiu-se na obrigação de retrucar qualificando o apontado de cangaceiro de terceira categoria. Uma nação de mãos sujas?

Mas como mantê-las limpas se estão fuçando o tempo todo por buracos, regiões e por territórios obscuros? Trate-se das delicadas e inúteis dos padres e dos intelectuais, das calejadas e escravas dos trabalhadores ou das esquivas e rápidas dos batedores de carteira, todas parecem ter sujeiras, movimentos e curiosidades próprias. Também parecem ter olhos, sentimentos, intestinos, voz e estômago. Não é por acaso que incorporam porcarias de todos os gêneros e de todos os tipos em suas porosidades. Os antigos feiticeiros identificavam nelas pontos análogos a cada um dos outros órgãos do corpo e a cigana, em seu oráculo, insiste que pode perscrutar o destino de cada um através de suas linhas.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O infanticídio é um privilégio só nosso

Se por engano, desespero ou por ignorância você resolver passar férias em Panamá City, azar seu. Mas estando lá, no meio daquele ruído idiotizador, tendo que entupir os ouvidos com algodão para poder dormir, se alguém tentar convencê-lo a fazer um tour pelo famoso Arquipélago caribenho conhecido por Bocas del Toro, (principalmente para Isla Colon) aceite. Lá, pelo menos, reina um silêncio mais grave que o de todos os cemitérios juntos. Foi lá que fiz a foto (ao lado). Imagem tola e pueril, mas que pode condensar e até simbolizar (muito mais do que todo o lero-lero e de que todas as estatísticas anuais do UNICEF) o cotidiano macabro de nossas crianças.

Apesar do teatro encenado nos Relatórios Anuais (melhoramos, mas precisamos melhorar mais) a situação da infância no Brasil é pra lá de catastrófica. Se não fica tão visível é por causa de nossa cegueira e porque a catástrofe envolve praticamente a todos.

- Ah, mas agora não se vê mais tantas crianças nas ruas!!!
Pior. Isto significa que foram executadas, levadas para alguma FEBEM, para alguma prisão ou mesmo de volta para os ranchos insalubres de seus familiares, lugares infectos e mil vezes piores que o inferno.
- Ah, mas agora as crianças estão na escola!!!
Pior. Pois nossas escolas são umas fraudes onde além de não se ensinar nada ainda se cronifica a ignorância, são lugares com estrutura igual ou semelhante a das piores prisões e com setenta por cento dos professores incompetentes e mal humorados.
- Ah, mas agora mudamos o enfoque e sustentamos que nossas crianças são o presente e não o futuro de uma nação!!!

Pior. Pois a partir de agora não haverá mais nem mesmo a fútil esperança no porvir.

Propaga-se que tantos mil pré-adolescentes morrerão assassinados no país até o ano tal, com a mesma estultícia e com o mesmo cinismo com que se tagarela sobre uma corrida de cavalos ou sobre um jogo de futebol. Deixa-se morrer dezenas de crianças numa única maternidade, mostra-se o horror da vida cotidiana de crianças nas periferias, os cemitérios infanto juvenis lotados, crianças desfiguradas e assassinadas cotidianamente, passivos e boquiabertos como se se tratasse de uma força e de um destino imutável.

Nas universidades, no Congresso, nas concorridas soirées dos sibaritas, nenhum pio sobre Educação e Controle de Natalidade. Pelo contrário, qualquer membro dos AA, pastor ou padre de fundo de quintal tem carta branca do clero e do Estado para incentivar a reprodução, isto quando não chegam a ser eles próprios os atores do engravidamento. E as mulheres, apesar de toda a farsa feminista das últimas décadas, parecem seguir impávidas sob os efeitos de um retardo, deixando-se engravidar pelo primeiro imbecil que lhe oferece uma pensão e uma cesta básica para toda a vida. Observem: há barrigudas por todos os lados, pouco se importando para o fato de que seus filhos estejam previamente condenados à ignorância suprema, a um cachimbo de crack, a uma rajada de fuzil ou às enfermidades mentais. Há quem afirme que em se tratando de seres humanos (independente do status e da classe social) quanto mais mentalmente miseráveis mais férteis! Hoje mesmo deparei-me com duas senhoras mendigas no semáforo da 702 Norte, levavam meia garrafa de cachaça na bolsa e dois fetos nas entranhas.

Enfim, mesmo atolados nessa roubalheira sem fim, nesse lamaçal de incompetência e de moralismos paralisantes, se quisermos interromper essa matança vil de crianças, não teremos outra saída a não ser começarmos a indagar com o professor Julio Cabrera: [se “tirar a vida” coloca em questão problemas morais, por que “dar a vida” não poderia colocá-los da mesma maneira?]

Ezio Flavio Bazzo