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domingo, 7 de novembro de 2010

LETIV PTACHOK...

Nestes dias de outono aqueles que por necessidade ou pelo simples prazer de vagabundear descerem aos subterrâneos do metro de Montmartre e vagarem sem compromisso por aqueles túneis e labirintos, uma hora ou outra se depararão com o casal Lhor e Dariya Kuhaykevych - ele com um acordeão e ela com sua voz - interpretando umas 19 musicas ucranianas. Entre elas, a de número sete, titulada Letiv Ptachok é estupenda. (Você pode ouví-la agora no link abaixo). No meio da pequena platéia que se aglomerou ao redor dos músicos havia três ou quatro ciganos, dois negros das guinés, um chinês e pelo menos um clochard, este, já entrando na velhice, com aquele aspecto quase medieval de europeu do Leste e com aquela embriagues misteriosa nos olhos que sempre os diferenciam do rebanho. Todos que passavam sentiam que havia algo de especial na voz daquela mulher e especialmente ele parecia atordoado e chocado pela força e pelo poder misterioso daquela musica. Mas, pelo menos durante o tempo que permaneci ali, não expressou nenhum gesto de "fraqueza" e nem deixou vazar nenhuma lágrima de silicone. Apenas se lhe via nas faces a lividez e a soberba de um chacal de rua, como se Paris, o  frio e o exilio lhe tivessem ensinado que "en toutes choses, nous devons savoir souffrir en silence...  Já, os ciganos, olhavam para todo aquele "romantismo"  dramático com uma certa desconfiança, como se lembrassem da frase de Madame de Stael: "L'amour est le tout de la vie d'une femme, il n'est qu'une saison dans la vie des hommes"...

domingo, 6 de dezembro de 2009

ALFONSINA Y EL MAR...

Ontem foi a terceira vez que ouvi o carteiro de minha quadra passar assoviando a música de Ariel Ramirez e Félix Luna: Alfonsina y el mar. Vinha por debaixo dos blocos com um pacote de cartas nas mãos, uma bolsa imensa a tiracolo e ar melancólico. Parecia mais do que distante. Quis perguntar-lhe alguma coisa sobre a música, mas ele dobrou bruscamente para a esquerda e sumiu. Quase todos os poetas e literatos da cidade conhecem a história de Alfonsina Storni, a poetisa argentina que se suicidou no Mar Del Plata em 1938. A música que o carteiro assoviava foi uma homenagem a ela. No endereço abaixo, uma das inúmeras e melhores versões.

http://www.youtube.com/watch?v=M_3Xcym37fE&feature=fvw


Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Heitor Villa Lobos


Não foi muito concorrida a homenagem a Heitor Villa Lobos nesta noite morna de novembro, aqui na Capital Federal, entre a Catedral e o Museu da República. Com certeza muitos jogos deveriam estar acontecendo pelo país a fora, e aí, sabe como que é, o populacho enche o rabo de cerveja vagabunda e fica levitando como se estivesse em outra galáxia.... Regida pelo maestro Iran Levin, a Orquestra do Teatro Nacional deu um show, principalmente no caso da Ária Cantilena número 1/Bachiana número 5. Até o cachorro que uma senhora de olhar sombrio mantinha confinado entre as pernas parecia deslumbrado. Não deve ter sido fácil para Villa Lobos, naquela época, misturar Bach e outros supostos eruditos com nossas profanidades tropicais. Casado pela segunda vez com uma ex-aluna, Villa Lobos, como Borges, Dali, Machado de Assis, Cioran, Vargas Vila etc, não teve filhos. Deixou apenas centenas de obras e de partituras para o gozo futuro da horda. Morto, não teve como impedir que, em 1986, colocassem sua efígie numa nota de quinhentos cruzados.

Ver: http://www.youtube.com/watch?v=8ZCq42RbEUM

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

ARANJUEZ: ali onde os rios Jarame e Tejo se cruzam



Quase todo mundo que conheço acredita que o Tejo é um rio genuinamente lusitano, que nasce e desaba no Atlântico transitando apenas por território português. Equivoco. Nasce na Serra de Albaracin, na Espanha e faz confluência com o Jarame a uns quarenta quilômetros de Toledo, na cidadela de Aranjuez. Aranjuez é uma típica cidade espanhola cheia de palácios, de fontes, de casas e de velhinhas seculares que só ficou mundialmente conhecida depois que Joaquim Rodrigo (cego desde criança) compôs o estupendo Concierto de Aranjuez (1940). Quem já passou por lá deve lembrar, além dos piqueniques às margens do Tejo e das sopas de espargos, também dos suculentos morangos com nata. No video acima, quem quiser pode ver e ouvir a estonteante música que leva seu nome, interpretada pela violinista Kawai Ikuko.

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O afiador de facas e de tesouras que ouvia Charles Aznavour


Todos os sábados, religiosamente, o senhor que aparece na foto (ao lado) passa por debaixo de minha janela empurrando seu carrinho repleto de panelas, facas, frigideiras, espumadeiras, canecos de alumínio e mil e uma outras geringonças, quase sempre ouvindo uma cantiga milenarista evangélica. No último sábado, não foi diferente, apenas a música não era a mesma. Sob o sol das 14h00min horas, depois de afiar duas tesouras a uma mulher extremamente magra e com uma coreografia nada serena, caminhava sem pressa e pensativo junto ao meio fio balançando suas tralhas e ouvindo uma música de Charles Aznavour. Charles Aznavour? Retirei uma de minhas espadas tailandesas da parede e desci correndo pela escada até alcançá-lo já lá na saída da quadra. Enquanto ele passava sua pedra esmeril naqueles noventa centímetros de aço puro e pontiagudo, comprado numa feira ao lado da Estação ferroviária Hualampong, em Bangkok, do meio daquelas chaleiras, espatulas, bules e açucareiros restaurados emergia um fundo musical de profunda melancolia. O ritual de afiação não deve ter demorado mais de sete ou oito minutos, mas aquela música me fez ter a sensação de que havia se passado pelo menos quatro décadas. (quem quiser pode ver o vídeo no endereço abaixo)


http://www.youtube.com/watch?v=x0Y1NUishlY&feature=related


Ezio Flavio Bazzo