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sábado, 24 de outubro de 2009

Mendigos: Párias ou heróis da cultura? II. (Reedição de livro, p. 45)

Estamos definitivamente numa estação de pau-a-pique em que as noites chegam sinistras, repletas de profecias e de relâmpagos, de lampiões moribundos prestes ao desaparecimento. Matilhas de famintos, a filharada de Caim, espectros e vultos fedorentos que se esgueiram sisudos sob as àrvores e junto às muralhas murmurando obsessivamente as duas últimas linhas do badalado verso de Baudelaire em favor de nosso errante diabólico:

“Race de Cain, ao ciel monte et sur la terre jette dieu!”[1]

Mas como todo verso é vão e toda poesia é narcisismo condensado e inútil, fica tudo por isso mesmo e tudo como está.[2]

Cheiro de querozene, piolhos e pele descamada. Trazendo um Caim, um Drácula e um Frankenstein sepultados dentro de si a escória vem marchando da escravidão do latifundio para as vilas e para as cidades em busca de restos de comida, de uma bala perdida ou de um Serial Killer. Gira em aspiral ao redor de si mesma, dos muros citadinos e pelas cercanias das magestosas catedrais e de seus campanários farejando um esconderijo onde cuspir, vomitar e cagar sua exclusão, sua lepra, sua esquistossomose e principalmente sua feiúra que nada neste mundo dissipará. Tudo infinitamente mais grave do que a velha e sectária idéia de luta de classes. Descobre as marquises e os fundos de terrenos baldios e se resigna sob o estigma da escória cainesca, da maldição metafísica transmutada em maldição social. Com a tatuagem de uma víbora na garganta é a autêntica obra divina arrastando as tripas de lá para cá enquanto, com olhar súplice, roe sua culpa e soleniza sua longevidade. Réplica e clone de tudo o que é abominável, de tanta miséria, penúria e escassez, não tem competência nem forças para, como sugere Baudelaire, pelo menos subir aos céus e enxotar de lá o Criador. A cada anoitecer se amontoa como pode a espera de que alguém da janela vizinha lhe aponte uma espingarda ou que alguma estrela vagabunda despenque sobre seu crânio e coloque um fim ao seu flagelo e ao seu único crime, o de haver resistido aos nove meses uterinos e o de haver nascido.

Mantendo a distancia conveniente, observo o traste que com seus olhinhos esverdeados de coruja descansa numa escada do jardim e apodrece – como diz Derrida – entregue à voracidade roedora, ruminante e silenciosa do animal-máquina com a sua lógica implacável.[3] De tempos em tempos beija uma cruz que leva amarrada ao pulso e resmunga uma oração breve, de apenas uma ou duas frases. De onde advém essa paixão humana pela ficção? Pobre diabo, não teve ainda a capacidade de compreender que um deus que coloca uma doença no corpo de um crente – parafraseando a Bret Harte – certamente não se comoverá com suplicas e com orações. A barba, os cabelos, as sobrancelhas e os pêlos que emergem de suas narinas e de seus ouvidos parecem ter a função de ocultar um teorema ou a tal “marca de Caim” que está em todas as partes desse corpo condenado, como um sifão, à precariedade.

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[1] Ver Abel e Caim, em Flores do Mal.
[2] Dizem que nos raros e nauseabundos soirèes poéticos onde Rimbaud marcava presença, sempre que alguém acabava de recitar um poema saia de sua boca o mesmo resmundo: merde!
[3] J.Derrida em O animal que logo sou, editora Unesp, p.73, SP, 2002.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

MENDIGOS: Párias ou heróis da cultura? (Reedição de livro)



Enquanto o Editor rabisca a nova capa, experimenta uma letra maior, modifica as cores, idealiza um lançamento especial só para mendigos, releio pela última vez a “Recapitulação”, na página 195, em busca de algum erro intolerável e/ou imperdoável.



RECAPITULAÇÃO


"Com aquilo que lhe serve para mijar os homens criam seus semelhantes."

Heine


Apesar da demagogia político social e da caridade vigente, da década de oitenta para cá, além de uma disneylandização do mundo, não aconteceu praticamente nada de novo no universo da mendicância e da vadiagem.Os discípulos da frugalidade continuam por aí, do Butão ao Chile, com suas lamparinas sob as árvores, com suas tralhas junto aos muros dos templos ou em plena alucinação nos semáforos, na mais autentica danação, muito além do paraíso e do inferno, cada dia com mais consciência de que o inimigo principal sempre foi e é o nosso imaginário.

Os mais velhos parece até que ainda estão vivendo a ressaca de Woodstock, como se tivessem tomado um ácido e nunca mais se recuperado. Os cabelos brancos, a barba chegando aos joelhos, um bastão, as feições cada vez mais andrógenas, esfomeados, e a senilidade comendo solta. Claro que a grande maioria enlouqueceu, foi parar num abrigo de dementes ou bateu as botas e foi enterrada nos cemitérios da periferia. Um punhado de terra para colocar um ponto final num punhado de misérias e de desgraças.

Nesse ínterim, derrubaram o muro de Berlim a marretadas, o capitalismo se alastrou e sufocou todas as ideologias, jogaram os “esquerdistas” numa latrina e um executivo delirante chegou até a declarar o fim da história. Os banqueiros assumiram descaradamente o comando do mundo e, juntos aos proxenetas das repúblicas, doaram celulares, computadores, carros, cartões de crédito, “cestas básicas” e outras porcarias a cada idiota do planeta, para acalmá-los.

Indiferentes e à margem de tudo, sem grandes inquietudes, os mendigos seguiram, em sua epopéia ortodoxa, ocupando os mesmos lugares de outrora, à margem não apenas dos banquetes, mas também das mentalidades da época. As praças, as igrejas, os viadutos, os portos, as casas abandonadas, as tocas de alguma ruína, os metrôs, as paradas de ônibus, os cemitérios, os circuitos turísticos e os lixões do planeta os acolhem diariamente. Aliás, quem é que ainda não viu as missas negras executadas por eles lá no meio dos lixões?

De vez em quando são culpabilizados por alguma desgraça social, por um estupro, uma psicopatia, um incêndio(1) . Sofrem calados o absurdo da existência, mas vingam-se sobre si mesmos deixando apodrecer solenemente o corpo, único capital.

Um promotor mais idealista e mais burguês querendo fazer média com os seus pares insinua que vai exterminar com essas trupes de pedintes, já que elas depõem contra a dignidade e que são a lepra da modernidade. Mas depois se acalma. Corrige o discurso e todo mundo é deixado em paz por mais uma ou duas décadas.

No Iraque, no auge da última guerra, os mendigos foram retirados das ruas pelos exércitos, com a justificativa de que estavam sendo usados para atentados suicidas. Cinco quilos de dinamite amarrados à cintura de um indigente, um endereço, a garantia de que minutos depois estaria no paraíso e a explosão. Na Índia tudo relacionado a eles fica cada dia mais insólito(2) . Os que ficam diariamente na Praça da Sé, em São Paulo, também foram recolhidos com a recente visita do papa Ratzinger. Ali também disseram que foi por medida de segurança, mas é bem provável que tenha sido por vergonha(3) . Aconteceu a mesma coisa na cidade de Marrakesh, às vésperas de um encontro internacional, só que lá, além dos mendigos, recolheram também os batedores de carteira, que não são poucos. Muitos administradores de cidades brasileiras são acusados de mandar clandestinamente seus mendigos para outras, como fazem comumente com cães. A população de indigentes em Recife, Salvador, Curitiba, São Paulo, Brasília, etc, triplicou. A Central do Brasil no Rio parece uma das Praças dos Milagres do século XV. Mulheres, crianças, velhos, sujeitos de todas as idades, cores e peso. Muitos rancorosos e violentos que mijam por todos os lados e que estão literalmente “cagando” para as idéias de estigma e de contravenção. Se a burguesia encolerizada grita-lhes: dane-se escória miserável!, eles lhe retrucam: foda-se elite de merda! O terrorismo dos padres e dos pastores com a ameaça do inferno não os abala nem um pouco. Ignoram o Velho Testamento, bem como a Divina Comédia e o Apocalipse. Só são fundamentalistas mesmo em sua miséria.

É verdade que alguns, numa tentativa desesperada chegam até a abrir minúsculos negócios, mas logo vão à falência. Outros trabalham para os comandos mafiosos, outros entregam trouxinhas de drogas, os mais delicados caem no boiolismo e servem de quatro na marra a seus iguais. Outros estão sempre fingindo ler um jornal ou com um livro aberto diante dos olhos(4) . Chegaram-me notícias de que em Londres há vários que empunham diariamente seus violinos pelos becos. Outros são alcagüetes da polícia e vivem de seus ardis. Uma fauna indescritível. Vi um deles sentado solenemente diante da BOVESPA, com sua estética macabra, como se esperasse que alguns centavos saíssem voando pelas janelas daquele ninho de ladrões e de bandidos. Outro admirava de longe um casamento, a noiva toda de branco, o noivo como um pingüim, as histerias de praxe dos respectivos familiares e toda a idiotice que circunscreve esse costume. Alguns já foram vistos até brincando com notebooks ou com laptops sob os viadutos e sobre suas carroças de papel. Nos países outrora comunistas, tanto eles, como as putas e os pregadores estiveram interditados por longo tempo. Mas foi só a comédia acabar para que as ruas se enchessem novamente de prostituição, de pregarias e de esmoleres. São sempre os mesmos. Irrecuperáveis e imprestáveis para o establishment desse imenso Guantánamo que é o mundo. Não votam, não abandonam o cigarro, não têm poupança, não escovam os dentes, não dirigem, não produzem e nem consomem. A cachaça e a solidão os fazem cada vez mais prolixos. Continuam odiados por todo mundo. Se cada sujeito da elite tem seu anjo da guarda, cada um dos mendigos tem seu demônio.

Apesar do blábláblá dos Direitos Humanos, do papo furado a respeito da Cidadania, das balelas Humanistas, da verborréia diária dos políticos e das sopas dos animistas, as classes sociais privilegiadas continuam olhando-os do alto de suas coberturas ou por detrás das cercas de suas mansões com um misto de pena, raiva e repugnância. Seguem alienadas e torpes, cada vez mais fúteis, mais gordinhas e mais pelegas, entretendo-se com seus brinquedos eletrônicos e com suas porcas presunções, sempre resmungando do umbral de suas janelas: “Descendez, descendez, lamentables victimes, / Descendez le chemin de l’enfer éternel”.


Brasília, 16 de outubro de 2009
Ezio Flavio Bazzo


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1. A semana passada foram acusados em Brasília de tocarem fogo na igrejinha da 307/308 sul, uma relíquia para os beatos e burocratas da quadra, uma das poucas que além dos mosaicos do Athos Bulcão, já teve em seu interior uma pintura do Alfredo Volpi. Passei por lá logo depois dos bombeiros, e os mosaicos ainda estavam chamuscados. Sete ou oito “filhos de Caim” se esparramavam arrogantes pelas escadarias e pelos arredores como cães em volta de uma cadela em cio. Sabem esperar, a experiência lhes ensinou que sempre haverá algum tipo de gratificação ou de luxúria, mesmo no interior de uma calúnia. Uma lambida, uma dentada, mas depois o completo ato copulatório. Uma moradora das mais tradicionais veio confidenciar-me que aquela gente, além de não crer em Deus, cagava por todos os lados. Que aqueles miseráveis se beijam depois de embriagados, que usam facas por debaixo dos farrapos e que até fazem sexo junto às paredes daquele patrimônio da humanidade, um sacrilégio não apenas contra Juscelino, mas contra Nossa Senhora de Fátima, a padroeira da igreja.

2. Recentemente, uns hindus fanáticos deram uma surra num pregador cristão que tentava converter um grupo de mendigos. Nesse mesmo país das crendices, durante os eclipses, muita gente sai de casa em busca de mendigos para oferecer-lhes alguma coisa, umas rúpias, um pão ou até mesmo uma ducha. Sabe-se que por lá não são poucos os que dão um jeito de amputar-se um braço ou uma perna para terem mais sucesso como mendigos.
3. Confúcio já lembrava ao pessoal de sua época que: “se um país é regido pelos princípios da razão, a pobreza e a miséria são objetos de vergonha. E que se um país não é regido pelos princípios da razão, as riquezas e as honras são objetos de vergonha”.

4. Já relatei em algum lugar, que em Tanger, no Marrocos, encontrei um mendigo lendo o Corão junto ao mar. De vez em quando tirava os olhos da Quinta Surata para lançá-los misticamente por sobre as ondas na direção do território espanhol. Naquela mesma cidade, numa feira de legumes, outro mendigo lia um dos mais importantes escritores do país, que agora não lembro o nome. Encontrei mendigos poetas e poetas mendigos por todos os lados do planeta. Até mendigos que já haviam sido livreiros ou bibliotecários e que levavam no meio de suas porcarias um pedaço de lápis e uma caderneta para anotar suas inspirações. Parece que não gostam de ler lamentos e maldições de outros desgraçados como eles, preferem os poetas românticos, cultos e ricos, toleram os acadêmicos, mas odeiam poetas diplomatas e funcionários públicos. Para eles a diplomacia e o serviço público são desprezíveis e os poetas que surgem naquele meio (com tanta freqüência) são sempre uns farsantes. Acredito que se entediariam lendo Fome – de Knut Hansum – ou as histórias de vagabundos de Jack London.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

You Stupid People! An Open Manifesto to Human Stupidity


The book bears the sanity, madness and strength of a document that challenges the times and the expectations of those who read it. The reader will soon recognise the stupidity of their colleagues, neighbours, parents, lovers and, inevitably, like an inverted Narcissus, of themselves. This is the point where many people close the book, throw it back on the shelf. But those that challenge themselves and persist in reading are rewarded with a clarity of thought and the sharp rhetoric of Bazzo.

By evoking fragments of the works of Nietzche, Cioran, Tzara, Malatesta, Marinetti and, also of Tostoi, Ibsen, Dostoievski, Thoreau, Cocteau and Canetti, a voice, with impetuousness and firmness, mockery and emotion, elegance and carelessness, rage and tenderness, Bazzo makes a warning against the fallacies that we all pursue and the intensity that we do not manage to have in our lives.



terça-feira, 26 de maio de 2009

Fragmentos do Manifesto aberto à estupidez humana 2



I. JÁ SENTISTE VONTADE DE NÃO LER MAIS JORNAIS E DE QUEBRAR EM MIL PEDAÇOS O TEU TELEVISOR?

Neste caso compreendeste que:


a) Os jornais, a rádio e a televisão são os veículos mais ridículos da mentira. Não apenas nos afastam dos verdadeiros problemas como empurram todos os indivíduos a identificarem-se com imagens feitas e a colocarem-se abstratamente no lugar de um chefe de Estado, de uma vedete, de um assassino, de uma vítima, enfim, a reagir como se fosse outro. As imagens que nos dominam são o triunfo do que nós não somos e daquilo que nos aliena de nós mesmos, daquilo que nos transforma em objetos a classificar, a etiquetar e a hierarquizar segundo o sistema de mercadorias universalizadas.

b) A educação de massas no Brasil é construída por sete ou oito apresentadoras de TV analfabetas e que existe uma linguagem subterrânea na boca dessas cretinas a serviço da moral vigente e do Poder. Essa bovinização não está apenas na informação, na publicidade, nas idéias feitas, nos hábitos e nos gestos condicionados. Está também em toda linguagem da vida cotidiana, isto é, em toda e qualquer linguagem que não está posta a serviço de nossa soberania pessoal e de nossos prazeres.

c) O sistema mercantilista impõe suas representações, suas imagens, e seus sentidos, cada vez que alguém trabalha para ele. Isto é dizer que se impõe a maior parte do tempo. Este conjunto de idéias, imagens, identificações e condutas determinadas pela necessidade de acumulação e de renovação de mercadorias formam o espetáculo onde cada um representa aquilo que não vive e onde cada um vive falsamente aquilo que não é. É por isso que na atualidade o papel e a função de cada um é a mais deslavada das mentiras e um mal estar sem fim.


d) O circo/espetáculo (ideologias, cultura, arte, papéis, imagens, representações, palavras-mercadoria, riqueza etc.) é o conjunto das condutas sociais pelas quais os homens, no sistema mercantilista, participam dele contra eles mesmos, convertendo-se em meros objetos de sobrevivência, renunciando ao prazer de viver realmente para si e de construir livremente sua vida.


e) Sobrevivemos em um conjunto de imagens com as quais somos empurrados a identificar-nos. Atuamos cada vez menos por nós mesmos e cada vez mais em função de abstrações que nos dirigem segundo as leis-de-cão do comércio e da fé.


f) Os papéis ou as ideologias podem ser favoráveis ou hostis ao sistema dominante, isso não importa muito, uma vez que permanecem no espetáculo. Apesar do blábláblá de muita gente por aí, só é revolucionário aquilo que destrói a mercadoria e seu sistema.
... e que vivemos numa realidade invertida, usando máscaras que imitam a vida verdadeira e que acabam por empobrecê-la. Já lutas, conscientemente ou não, por uma sociedade onde o direito à comunicação real pertença a todos, onde cada um possa dar a conhecer o que bem quiser, onde a construção de uma vida apaixonante liquide de uma vez por todas a necessidade de “representar” e de dar mais importância às aparências do que ao vivido autenticamente.

II. JÁ EXPERIMENTASTE A SENSAÇÃO DESAGRADÁVEL DE NÃO TE PERTENCER OU DE SER ESTRANHO A TI MESMO?


Neste caso compreendeste que:

a) Através de cada um de nossos gestos mecanizados, repetidos, separados uns dos outros, o tempo se desmantela e, pedaço a pedaço, nos arranca de nós mesmos. E estes tempos mortos se reproduzem e se acumulam trabalhando e fazendo-nos trabalhar para a reprodução e para a acumulação de mercadorias.


b) O envelhecimento não é outra coisa, hoje em dia, que o acréscimo dos tempos mortos, do tempo onde a vida se perde. É por isso que já não existem jovens nem velhos, apenas indivíduos mais ou menos vivos. Nossos inimigos são aqueles que acreditam e que fazem acreditar que uma mudança global é impossível. São os mortos que nos governam, e mortos os que se deixam governar.


c) Trabalhamos, comemos, lemos, dormimos, consumimos cultura, tiramos férias, recebemos cuidados e assim sobrevivemos para um sistema totalitário e desumano, para uma religião de coisas e de imagens que nos recupera quase em todas as partes e quase sempre para aumentar o lucro e para consumir as migalhas do Poder e da classe burocrática-burguesa.


d) Criando apaixonadamente as condições favoráveis ao desenvolvimento das paixões, queremos destruir o que nos destrói. A revolução é a paixão que permite todas as demais. Paixão sem revolução não é mais que a ruína do prazer.
...e que de fato, estás farto de arrastar tempos mortos em obrigações. Já lutas, conscientemente ou não, por uma sociedade cuja base não será nunca mais a profissão para o proveito do poder, mas sim para a busca de harmonia das paixões de viver.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 24 de maio de 2009

Fragmentos do Manifesto aberto à estupidez humana



I. JÁ SENTISTE, PELO MENOS UMA VEZ, O DESEJO DE CHEGAR TARDE A TEU TRABALHO E DELE SAIR O MAIS CEDO POSSÍVEL?

Neste caso compreendeste que:

a) O tempo de trabalho tem peso duplo, porque é tempo perdido duas vezes: como tempo que seria mais agradável se empregado no amor, no sonho, nos prazeres e nas paixões, por um lado, e como tempo de desgaste físico e mental, por outro.

b) O tempo de trabalho absorve a maior parte de nossa vida, uma vez que determina também o tempo chamado “livre”, o tempo de ócio, de transporte, de almoço, de distração. Desta maneira, atinge o conjunto da vida cotidiana de cada pessoa e tende a reduzi-la a uma sucessão de instantes e de lugares que possuem em comum a mesma repetição vazia e a mesma e crescente ausência de vida.

c) O tempo de trabalho “forçado” é uma mercadoria. Em qualquer parte onde exista mercadoria, existe trabalho forçado e quase todas as atividades, pouco a pouco, vão se aliando a ele: produzimos, consumimos, comemos e dormimos para um patrão, para um chefe, para o Estado, para o sistema da mercadoria generalizada. Sem falar que trabalhar mais é viver menos, etc.

...e já lutas, conscientemente ou não, por uma sociedade que assegure a cada um o direito de dispor por si mesmo do tempo e do espaço, de construir sua própria vida, como a desejar.



II. JÁ SENTISTE, PELO MENOS UMA VEZ, O DESEJO DE NÃO TRABALHAR MAIS, SEM QUERER FAZER COM QUE OUTROS TRABALHEM PARA TI?

Neste caso, compreendeste que:

a) Se o trabalho forçado produzisse apenas bens úteis, tais como vestidos, alimentos, técnica, etc., nem por isso seria menos opressor e menos desumano, porque o trabalhador seguiria sendo alienado de seu produto e submetido às mesmas leis trabalhistas em proveito do poder. O trabalhador continuaria passando no trabalho dez vezes mais do que o tempo necessário para uma organização atrativa e criativa, capaz de colocar à disposição de todos um número de bens cem vezes maior.

b) O objetivo do sistema mercantilista que domina em todas as partes, não é, como pretendem nos fazer crer, produzir bens úteis e agradáveis para todos... Sua finalidade é produzir mercadorias, independente do que estas possam ter de útil, inútil ou contaminante. As mercadorias não têm outra função além da de manter o lucro e o poder da classe dominante. Em um sistema como esse todos trabalham para nada e cada vez possuem mais consciência disso.

c) Acumulando e renovando as mercadorias, o trabalho aumenta o poder dos patrões, dos burocratas, dos chefes, dos ideólogos. Converte-se dessa forma, em desgosto dos trabalhadores. Toda interrupção do trabalho é uma maneira de voltarmos a ser nós mesmos e um desafio àqueles que nos escravizam.

d) O trabalho alienado produz apenas mercadorias e toda mercadoria é inseparável da mentira que representa. O trabalho alienado produz mentiras, produz um mundo de falsas representações, um mundo ao avesso, no qual a imagem ocupa o lugar da realidade. Neste sistema espetacular e mercantilista, o trabalho alienado produz duas mentiras importantes, relacionadas com ele: a primeira é que o trabalho é útil e necessário e que trabalhar é de interesse de todos; a segunda é pensar que os trabalhadores são incapazes de emancipar-se do trabalho e do salário, como se não pudessem edificar uma sociedade radicalmente nova, fundada na criação coletiva e atraente, e sobre a autogestão generalizada.

...e já lutas, conscientemente ou não, por uma sociedade onde o trabalho alienado deve dar lugar a uma criatividade coletiva, regulada pelos desejos de cada um e pela distribuição gratuita dos bens necessários para a construção da vida cotidiana. O fim do trabalho alienado significa o fim do sistema onde dominam o proveito pessoal, o poder hierarquizado e a mentira geral. Significa o fim do sistema mercantilista e o começo de uma mudança global de todas as preocupações e da harmonia das paixões, que, por fim liberadas e reconhecidas, vão substituir a corrida neurótica pelo dinheiro e pelas migalhas do Poder.


III. JÁ TE ACONTECEU SENTIR FORA DO LUGAR DO TRABALHO O MESMO DESGOSTO E A MESMA APATIA QUE SENTES NA EMPRESA?

Neste caso, compreendeste que:

a) A empresa está em todas as partes. É o amanhã, o metrô, o carro, a paisagem destruída, a maquina, os chefes, a casa, os jornais, a família, o sindicato, a rua, as compras, as imagens, o pagamento, a televisão, a linguagem, a escola, o matrimônio, a depressão, o hospital, a noite. É o tempo e os espaços da sobrevivência cotidiana. É o condicionamento aos gestos repetidos, às paixões reprimidas e vividas por procuração através de imagens.

b) Toda atividade reduzida à sobrevivência é um trabalho forçado. Todo trabalho forçado transforma o produto e o produtor em objeto de sobrevivência, em mercadoria.

...e já lutas, conscientemente ou não, por uma sociedade onde as paixões sejam tudo, o aborrecimento e o trabalho nada. Até hoje, a luta pela sobrevivência nos impediu de viver. Agora, a partir de agora, queremos inverter as coisas e desfrutar de uma felicidade real, do prazer soberano, o mais distante possível das mentiras instituídas.

Ezio Flavio Bazzo

sábado, 7 de março de 2009

Prostitutas, bruxas, donas de casa


Quando se aproxima o dia 08 de março a imprensa, a igreja, as congregações feministas, os comerciantes, as Delegacias de Mulheres, as Ongs etc, (todos movidos por suas respectivas culpas) se excitam e se apressam em trazer a tona (tendenciosamente) a velha lengalenga da mulher coitadinha, vítima, pobre coitada etc., colaborando, com essa choradeira tola e paroquial, para o aumento da distorção que já há entre o que verdadeiramente acontece nos bastidores, na penumbra e na vida privada entre os homens e as mulheres. Nós que trabalhamos com a saúde mental sabemos que a coisa não é bem como o populacho pensa e que:

"Escrever sobre as mulheres sempre foi e é uma das neuroses mais recorrentes, fúteis e antigas do mundo masculino. Uma via sofisticada e às vezes até eficiente para colocar-se a salvo. Para lidar com as frustrações interpessoais e com as mais variadas perversões ligadas sempre e sempre a um hipotético desejo, ao taboo universitário da equidade de gênero e aos frívolos catecismos sócios clericais institucionalizados. Em outras palavras: um intento de explicar-se a si mesmo num mundo cada vez mais cheio de escroques intelectuais, de misticismos esdrúxulos e de perversidades cívicas. Escrever sobre elas não passa de um ardil para justificar-se, para tentar colocar-se à altura destes últimos séculos descaradamente infames e bordelines onde se corre o risco de viver transitando alucinadamente da idolatria à misoginia e da bucetofilia para a bucetofobia. E como tudo neste mundo passa pelo lero-lero das palavras e da linguagem – vejam o martírio de Saussure, Freud, Lacan e de tantos outros que gastaram suas vidas batendo inutilmente nesta tecla - ofereço aos leitores este “Léxico adequado para a vida cotidiana das donzelas” escrito pelo pequeno marginal belga: Pierre Louys. Leiam-no atentamente como se fosse um prólogo, pois ele pode ser de grande utilidade aqui neste reino de trapaças e de falsa devoção onde vivemos:

[Não digas: “minha buceta”, digas: meu coração. Não digas: “tenho vontade de foder”, digas: estou nervosa. Não digas: “acabo de gozar como uma louca”, digas: sinto-me algo cansada. Não digas: “vou masturbar-me”, digas: volto em seguida. Não digas: “quando tenhas pêlos no cu”, digas: quando sejas adulto. Não digas: “prefiro a língua que o pau”, digas: só gosto dos prazeres delicados. Não digas: “entre as refeições só bebo esperma”, digas: faço um regime especial. Não digas: “as novelas moralistas me excitam”, digas: gostaria de ler algo interessante. Não digas: “goza como um cavalo que mija”, digas: é muito exaltado. Não digas: “quando lhe recomendo um pau fica zangada”, digas: é uma original. Não digas: “é uma moça que se masturba como louca”, digas: é uma sentimental. Não digas: “é a mulher mais puta que conheci”, digas: é uma garota encantadora. Não digas: “se deixa foder por todo mundo”, digas: é muito coquete. Não digas: “eu a vi fazendo frente e verso”, digas: é uma eclética. Não digas: “tem ereções como um cavalo”, digas: é um bom moço. Não digas: “tem um pau demasiado grande para minha boca”, digas: sinto-me como uma criança quando falo com ele. Não digas: “eu gozei na sua boca e ele na minha”, digas: tivemos um intercâmbio de impressões. Não digas: “quando o chupo ele goza rapidamente”, digas: é muito vivo e muito espontâneo. Não digas: “tenho doze consoladores em meu quarto”, digas: nunca me chateio estando sozinha. Não digas: “goza três vezes”, digas: tem um caráter muito forte. Enfim, evite comparações arriscadas. Não diga duro como um caralho, redondo como um ovo, molhado como uma xota, salgado como o esperma, do tamanho de minha concha e outras expressões não admitidas pela Academia]".

(Texto contido nas orelhas do livro Prostitutas, bruxas, donas de casa, de minha autoria, reeditado em 2009 pela Editora LGE)


18 Mandamentos da Mulher:



domingo, 25 de março de 2007

Dymphne: A Santa Protetora dos Loucos


Este é um livro sobre insanidade, demência e piração. Uma viagem nas pegadas do frenesi e no encalço da loucura, com suas mais variadas descrições populares, clínicas, preconceituosas, negadoras, medievais e até modernas. E não é uma história «formal» que pretendo, pelo contrário, anseio mais bem por uma história vagabunda e doméstica, desde as estradas perigosas de minha memória até o «paraíso» belga de Geel, o velho e quase mitológico shangri-la dos «dementes». Talvez no imaginário de todas as raças, a loucura seja percebida apenas como um berço em chamas, como o passo de caranguejos no interior das artérias ou como a silhueta de uma mãe esplendorosa que se recusa, a silhueta de uma mãe com tetas imensas mas vazias. Talvez apenas como um canyon com bebês berrando, a placenta sendo lançada numa imensa gamela de imbúia, como se tudo estivesse acontecendo num açougue clandestino do Distrito Federal ou numa caverna piauiense iluminada apenas pelos pingentes de estalactites e pelo brilho inocente dos olhos dos morcegos. Loucos, dementes, alucinados, pirados, insensatos... mas e quem não é? Quem não é, quando nem o grande Verlaine conseguiu burlar as suspeitas dos doutores? Quando Nietzsche mofou no hospício de Jena; quando Artaud apodreceu na clínica de Rodez; Nélligan no hospital quebequence de Saint-Jean-de-Dieu; Rawet na solidão de Sobradinho, e quando o Bandido da Luz Vermelha, durante décadas, fez doutrina no interior dos nossos manicômios? Me digam: quem não é, com todas aquelas caravelas chegando? E depois desses 500 anos? Quanto mais pesquisamos e quanto mais abrimos os olhos, mais vamos reconhecendo que o homem, na fantasia de tornar-se «civilizado», acabou construindo tanto interna como externamente, essa disposição mentirosa e esquizóide que faz da vida uma maratona de horrores. E é importante lembrar, neste momento crucial de nossa existência, que as Naves dos Loucos não navegaram apenas pelos rios da Alemanha, da Bélgica e da França, como se pensa. Elas cruzaram também os mares, em todas as direções, com os porões e as suites repletas e inclusive, com muito mais frequência do que certos «especialistas» gostam de afirmar.

Manifesto aberto à estupidez humana


Manifesto aberto à estupidez humana é um livro extremado. Tem a radicalidade da lucidez e da loucura e a contundência das obras que desafiam a expectativa de quem lê com um discurso inesperado e um cenário desconcer-tante. O uso provocativo da segunda pessoa, no inventário de atos, sentimentos, posições exem-plarmente estúpidas, estabelece relação intensa e pessoal entre quem fala e quem lê.

Com grande poder persuasivo, o discurso pode levar o leitor da estupefação à adesão. Convém estar atento a isso. É uma das armadilhas do texto. Se, em suas linhas, você passar a identificar a estupidez de colegas, vizinhos, parentes, amantes, cuidado! Pois desse modo estará negando ao texto sua principal qualidade: o de ser uma superfície refletora. Quando a imagem de tantos conhe-cidos emergirem dessas páginas, não se iluda e não se prive de participar da aventura de Narciso às avessas que o texto propicia. Este livro fala também de você e da vida que está lhe escapando.

Outra cilada se arma, se tentar descobrir quem fala. Não se trata de um censor nem de um mestre moralista. O livro foi composto por um discurso que a cultura – a despeito das religiões organizadas e das famílias, dos saberes e das autoridades constituídas – não conseguiu sufocar.
Em plena época dos relativismos que tudo legitimam, Ezio Flavio Bazzo expõe um modo insolente e apaixonado de pensar, movido pelo questionamento dos valores.

Evocando fragmentos das obras de Nietzsche, Cioran, Tzara, Malatesta, Marinetti e, também, de Tolstoi, Ibsen, Dostoievski, Thoreau, Cocteau e Canetti, uma voz, com arrebatamento e firmeza, deboche e emoção, elegância e desleixo, raiva e ternura, faz uma advertência contra as falácias que perseguimos e a inten-sidade que não conseguimos viver.


Ligia Cademartori

Trailer do Livro:

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Entre os gritos do Carcará e a Desfaçatez da Raça Humana


Neste instigante livro, Ezio Flávio Bazzo realiza um vôo espetacular sobre o fato de estar vivo, aqui, agora, em qualquer lugar, há qualquer hora, tendo como pano de fundo o sertão Sanfranciscano, num Brasil perdido de sua própria história. Através de uma narrativa que mescla pleno domínio das usuais formas acadêmicas de expressão com o conhecimento empírico da vida, usa palavras elaboradas e palavras "chulas" como se quisesse nos dizer que viver é essencialmente, transitar por entre as grandes e contraditórias dimensões da realidade, e apenas isto. Salpicando o texto de erótica sensualidade, Bazzo transita facilmente e com aparente despretenção pela cultura cristalizada destes rincões perdidos, atravessando sorrateiramente as questões ambientais, político-socias, éticas, morais e históricas deste pedaço de Brasil entregue à própria sorte. Trabalhando apenas com a realidade nua, desprovida de sentimentos, emoções e ideais, vai recheando a narrativa com estilhaços que doem e vai linkando às suas impressões descritas, teses que empalidecem rostos complacentes,esbofeteiam sorrisos, desnudam a credulidade cega e sobretudo, incendeiam qualquer resto de esperança.

Seu livro é essencialmente, um grande e articulado GRITO!!!

Maria Helena Sleutjes

sábado, 23 de julho de 2005

Memórias da guilhotina


"Visão, é a arte de ver as coisas invisíveis"
Jonathan Swift



Segundo as anotações dos velhos marceneiros da história, as duas vigas verticais dessa máquina vingativa mediam 4,50 metros, e a separação entre uma e outra era de 37 centímetros. A lâmina pesava 7 quilos, era fixada por três esferas, (pesando 1 quilo cada uma) e presa num cabeçalho que por sua vez pesava 30 quilos, constituindo assim, um conjunto de 40 quilos, que percorria uma queda de 2,25 metros antes de cortar o pescoço do condenado. A viga esquerda da máquina pesava 69 quilos, a da direita, por conter o mecanismo de liberação da queda da lâmina, 73 quilos, totalizando, com a máquina já montada uns 580 quilos. Quem já presenciou um ritual desses confessa que ele não era apenas uma deslealdade macabra, mas uma verdadeira convulsão e um alarido de horror. Poderia ser diferente? Não. Pois, como lembrava Alexandre Vialette, a morte, geralmente não tem amigos sinceros.

Por mais que você se espante, a guilhotina faz parte da história recente da França, de Paris e do Estado Judicial implantado em praticamente todo o planeta. Aqui neste país da igualdade, fraternidade e liberdade, até bem pouco tempo (1981) essas «máquinas» eram montadas aqui e acolá, transportadas para o interior do país, para as colônias, para o fundo sombrio e ameaçador das prefeituras, para o meio das praças em alvoroço, enfim, para qualquer lugar onde houvesse cabeças dignas de serem decapitadas.

Quem visitou este território antes de setembro de 1981, correu o risco de passar por ela, de ver seu pescoço colocado nesse umbral estatal criminoso. E o que é mais atordoante ainda neste assunto, é que quem se der ao luxo de pesquisar, de rastrear os abismos por onde a «justiça» trafegou nos últimos séculos, descobrirá que em quase todos os horrores da tortura e das execuções havia também vestígios de perversão e de gozo sexual mórbido. Que na maioria dos massacres coletivos e das execuções individuais havia, associada, uma tormenta libidinosa, a irrupção de uma tara e de uma sexualidade gêmea do crime. Sim, um condenado em seu desespero e em sua agonia era, de alguma maneira, também o objeto do desejo do torturador e do verdugo. E não só o verdugo desfrutava dessa luxúria secreta e desse êxtase, também as massas curiosas e sedentas que lotavam as praças gozavam com a execução e com aquele corpo decapitado, sangrento e morto. Historicamente, parece que o sangue e toda a agonia que acompanha o fim de nossos iguais sempre foi experimentada como ícone erótico-afrodisíaco e como signo religioso. Não é por acaso que a religião mais popular do planeta tem como logotipo, há dois mil anos, um homem pregado numa cruz. Uma espécie de fogueira fálica e de ilusão sanguinária que reduz as pretendidas "revoluções", as pretendidas "justiças" e a própria condenação a meros pretextos. Pretextos para, de uma forma ou de outra, gozar. Em outras palavras, identifica-se sob os pretextos da «justiça» e sob os clamores da turba, aquilo que escrevia V.Hugo: "as unhas do verdugo!", a ereção neurótica das massas, a malícia de um Estado opressor, substituto disfarçado das monarquias e sem legitimidade que continua fazendo do populacho e dos mais indefesos, pólvora para cartuchos, desforra, adubo para vinhas, espantalhos para dispersar pelo campo nas noites em que se precisa afugentar os demônios...

Ao refletir sobre a guilhotina, qualquer um tem a estranha sensação de estar se transmutando numa hiena. (…) Acredito que seria um espetáculo imenso se fosse possível ressuscitar suas vítimas, devolver-lhes o sangue e exibi-las ao lado do Arco do Triunfo sob o som da Marseillaise e tendo ao fundo, enfileiradas, as velhas guilhotinas que o governo francês mantém escondidas do público. Por mim, se não fosse um mísero estudante do Institut des Hautes Etudes de L'Amerique Latine, as exibiria como prova do mau caratismo humano com suas lâminas manchadas de sangue e de merda, com seus carrascos vestidos a rigor, os cestos cheios de crânios decepados, os olhos agressivos de Robespierre, os místicos de Saint-Just, os meigos de Marie Antoinette e os sinceros de Ravachol. Sim, os de Ravachol com a íris intacta, a barba crescida, a testa sem rugas. Depois levaria a todos para jantar lá no Marais, colocaria Edit Piaf na radiola e encheria seus estômagos de qualquer tipo de comida, sem deixá-los opinar e sem me importar com seus regimes alimentares, porque comida, como sabemos, é matéria prima do esterco. (…)

Mas não se deve esquecer que o projeto do Dr. Guillotin teve também razões "humanistas", -me previne um professor da Paris IV-. Dizem que ele só propôs a fabricação da máquina que, aliás, herdou seu nome, para "diminuir o sofrimento" dos executados. Antes da guilhotina mecânica, todos sabem, os condenados eram submetidos, a longos suplícios e a difíceis processos de morte. O sabre nem sempre era usado com precisão e as cabeças acabavam sendo destroçadas, amassadas, praticamente arrancadas antes que a vítima morresse. A guilhotina, neste sentido, como escreve Bessette, e eu o reconheço, foi a típica filha des Lumières. Ela marcou, além de uma inovação no oficio de matar, a aurora dos tempos industriais, a invenção técnica própria para controlar as cabeças em série, tornando cegos os homens: a cabeça de um lado e o resto do corpo de outro. Máquina de aparência eminentemente democrática - ela opera um nivelamento pelo alto-, já que não pode se mostrar egalitaire, se mostrará em todo caso, egalisatrice.

Paris, por mais que se negue e por menos que pareça, é uma cidade paradoxo! Uma espada com duas pontas! Uma tribo empoeirada e com penas de pombas que flutuam de um extremo a outro de suas pontes, de seus cafés, de seus "chambres de bonne"! Uma espécie de Portugal que deu economicamente certo! Algo que fascina e que intriga! Uma cidade que por um lado, exibe e se orgulha de seus esgotos (onde seus dejetos são tratados antes de serem lançados no Sena) e que por outro, gosta de colocar todo o mundo de joelhos diante da fineza de seus costumes alimentares. Uma cidade que pela manhã mostra os estandartes de sua democracia, e que pela tarde envia os imigrantes ilegais para a velha, famosa e temida Conciergerie, endereço que já foi a ante-sala para a guilhotina. Quem vai em romaria ao primeiro normalmente vai à segunda e vice versa. E aqueles que, além disso, tiverem a vontade mórbida de fazer uma excursão ou um tour pelos cemitérios do município e pelos sanitários de Goutte D'or, sairão da França quase com uma especialização em escatologia.

Consegui uma cópia do mapa geográfico das execuções, (Place de Grèves, Place da Révolution, etc, etc), mas não o tomo como referência porque é oficial, e porque grande parte das guilhotinas e das execuções que verdadeiramente me interessam foram invisíveis e sempre estiveram instaladas e funcionando no patíbulo cerebral dos homens, já que esse monstro erigido sobre duas vigas é apenas a materialização de um monstro mais antigo e mais devastador, de um monstro que de séculos em séculos se introduz numa forma nova de martírio e de sadismo, contra os seres.

Apesar dos ditos socialistas gostarem de lembrar que a guilhotina só foi abolida no governo de Mitterrand, é bom lembrar-lhes que nesta data, já havia sido construída a cadeira elétrica e que, por conseguinte, o velho frade poderia estar apenas se livrando de uma peça obsoleta e dando lugar amplo à modernidade. Sim, vemos que na América a modernidade judicial não se inibe e superando a máquina mecânica lança no mercado a máquina elétrica. Por outro lado, quando Mitterrand aposentou a máquina que, durante 200 anos aterrorizou o mundo, os nazis já haviam demonstrado que o gás e as Câmaras de gás também eram eficientes. Todos esses atos, (seja de extinção ou de inovação), podemos ver claramente, além de demagógicos, foram sempre inventos tiranos e covardes. Parafraseando e mesmo plagiando a Camus, é pertinente lembrar que os chamados legisladores, os assassinos legítimos, nunca gostaram de pensar e muito menos de admitir que a Lei é mais simples que a natureza, que quanto mais ela procura atuar nas regiões sombrias e cegas do Ser, mais ela corre o risco de ver aumentar sua impotência na redução da complexidade daquilo que ela quer ordenar. Por outro lado, e o que é mais mórbido, o Estado Judicial é a única entidade que informa a vítima com antecedência e em detalhes, do dia, da hora e da forma de sua sentença.

"Qual criminoso já reduziu sua vítima a uma condição de tão grande desespero e de tamanha impotência?"

Injeções venosas, choques, o azeite fervente, o pelourinho, o ferro em brasa, fuzilamentos, enforcamentos, esquartejamentos. A cicuta, a fogueira das paixões inquisitórias. O afogamento, o cianureto, a espada dos orientais na nuca dos traficantes, dos adversários e das mulheres adulteras.

A máquina da reprodução parece se mover sob o mesmo impulso que move a máquina da destruição. As mães engendram os corpos que o Estado ou a Lei fará em pedaços. Homens matam homens, a indústria da morte é como um escorpião ou como um vampiro que mantém em seu guarda-roupa mil disfarces e mil artimanhas, tudo porque os homens são mentirosos, geneticamente corruptos, arrivistas, exploradores, místicos, contadores de vantagens, uns dementes encurralados…

Em seu trabalho intitulado a História do Parlamento, Voltaire descreve algumas execuções de seu tempo, evidenciando como era canalizado e administrado o ódio sobre um determinado condenado e como se processava o ritual coletivo de sadismo. O espetáculo era, no mínimo, infame! O prisioneiro era amarrado pelos braços e pernas com grossas cordas que o ligavam a quatro cavalos irrequietos. Em seguida, o verdugo lhe queimava as mãos e o peito com azeite fervente, lhe arrancava a pele, os olhos, os dedos e por fim lhe enfiava um cabo de vassoura ou uma espada no cu. A turba estremecia ao mesmo tempo em que sentia um calafrio de êxtase,

O corpo do pobre desgraçado resistia às vezes, até por mais de uma hora. Os gritos de dor excitavam ainda mais tanto os cavalos como a platéia que havia dedicado o dia para assistir a tortura e o assassinato público. Tudo parecia durar bem mais tempo, mas o torturador tinha pressa e facilitava o trabalho dos cavalos dando um corte sutil de espada nos músculos do condenado: órgãos e sangue para todos os lados! Os membros do executado eram arrastados pela praça em festa, as tripas se abriam e a pasta fecal sujava a camisa dos mais curiosos. A justiça e seus lacaios, todos funcionários públicos, se sentia realizada, lavava as mãos, dava baixa de mais um nome nos cadernos contábeis e acreditava haver feito apenas o seu dever.

(Eu não sou mais que um instrumento é a justiça que mata).

O populacho assistia a barbárie como se estivesse na Sorbone assistindo uma aula inaugural ou como se estivesse no Cine Ritz assistindo a uma suruba no palco. (E é assim que se aprende a ter medo e tesão ao mesmo tempo). A repressão dança no fundo patético de sua córnea, e ele se surpreende, mais tarde, fazendo de tudo para ser um cidadão ambíguo, politicamente correto e perverso, já que acredita piamente que a honra aparente e a desonra secreta não conduz ninguém a guilhotina. Só que o pânico privado interfere no desempenho público. Só que as cabeças guilhotinadas não o deixam dormir, só que o medo se converte em ansiedade, em fobia que não se cura com a simples certeza de que o condenado será sempre o [outro].

Longos dias debruçado preguiçosamente sobre as toaletes e sobre as guilhotinas, mas de maneira nenhuma, como já disse, fazendo desses temas o assunto único de meus devaneios, nem o objeto de uma pesquisa acadêmica, onde o pesquisador precisa esgotar as fontes, colocar ordem, lógica, método, estilo e conclusão, além de trilhar um caminho domado por hipóteses e reprimido pela ciência, só porque precisa demonstrar uma idéia, defender uma tese, ser maior que sua obsessão e que sua cobiça. Só porque precisa seduzir um editor, ser recomendado por alguém, tornar-se substituto em alguma cátedra. Aqui não! Aqui tudo foi regido pela frouxidão de um pensamento anti metódico que não quer ter compromisso com absolutamente nada. Tudo foi engendrado no caminho entre a velha Casa do Brasil e as bibliotecas e sob o signo de uma liberdade inventiva e de um certo cinismo consciente, onde me permiti até a ver toaletes onde existia apenas um cofre, uma bússola ou uma caneca de gasolina, e vice-versa. Onde me permiti ver guilhotinas sob qualquer forma arquitetônica que aparecesse no meu caminho, fosse ela medieval, moderna ou futurista... Dois livros caídos na calçada da Gare de Lyon, por exemplo, me parecem duas comportas guardadas por cães sonolentos. Duas pilastras vindas de Côte D'Ivoir, me dão a impressão de ser uma caixa para proteger lentes de contacto ou mesmo um antigo diploma de pergaminho, porém, se vistas de lado, se subo num degrau das escadas para olhá-las do alto, então posso ver com clareza uma panela sem cabo, um tecido azul com manchas de sol ou uma mala usada e esquecida. A transmutação é tão interessante e variada, que se tivesse mais tempo e se buscasse outras posições, tenho certeza que poderia passar horas e horas vendo miragens e frivolidades como se tivesse ingerido um ácido ou queimado um pouco do tabaco marroquino. E é nesse "estado" que sigo sob a tirania imaginativa, meio ébrio, meio lúcido, como se estivesse num dos "fumódromos" da Belle Époque das drogas, cercado de princesas, de perfumes, de cachimbos e de prazeres. Gosto imensamente de rastrear os passos de uma determinada idéia, porque sei que logo a situação se inverte e é essa idéia que passa a colocar-se obsessiva, propositada e "magicamente" em meu caminho...

Paris! Uma das importantes redescobertas que se faz morando aqui, é que os grandes escritores, poetas, pintores, etc., que deram fama e notoriedade a esta cidade, viveram e escreveram suas melhores obras mergulhados na droga: vinho, ópio, éter, haschich, morfina, etc. Entre eles: Guillaume Apollinaire; Antonin Artaud; Charles Baudelaire; Jules Boissière; Paul Bonnetain; Jules Claretie; Jean Cocteau; Emile Cottinet; Charles Cros; René Dalize; Léon Daudet; René Daumal; Robert Desnos; Pierre Drieu La Rochelle; Edouard Dubus; Claude Farrère; Théophile Gautier; Alfred Jarry; Edmond Jaloux; Pierre Loti; Maurice Magre; Guy de Maupassant; Gérard de Nerval; Adolphe Rette; Marcel Schwob, e para que citar mais?

A cabeça do rei aparece sangrando e separada do corpo em diversas gravuras, o espetáculo é brutal, sanguinolento, cartesiano… Ícone máximo da anti-monarquia.

A Biblioteca Nacional guarda e cuida, minuciosamente, de todos os trabalhos sobre esse "período das lâminas", enquanto as edições modernas, os editores-abutres, voltam a explorar tudo de novo. Aqui se pode sentir que tanto a cultura como a vida são plágios repetitivos e descarados, uma reedição bastarda e absolutamente enjoativa...

Mas, além disso, uma coisa é certa: La machine, fille des Lumières, que havia, segundo Foucault, introduzido na França uma nova ética da morte legal, não está mais lá na praça da Revolução, nem nos fundos da casa da família Sanson. Agora retornou para o espírito de porco, podre e anêmico dos homens, do Estado republicano e da política universal em cujos bastidores se continua matando a coices e a socos, sempre para o bem-estar dos gerentes das Grandes Corporações, dos «laranjas» daquelas republiquetas que se orgulham publicamente de serem representantes da violência "legítima" e claro, das matronas dessa época melancólica e de prevaricações vergonhosas.

Voilá! Dizem os franceses.

De minha parte, enquanto me delicio diante da prateleira de História Medieval e desacredito cada vez mais da humanidade, vou pensando: pronto, eis aqui a prova de minha recaída, mais um pouco de meu stronzo, de minha vingança e de minhas imposturas.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 23 de junho de 2005

Assim Falou Vargas Vila


Foi num amontoado de livros desencapados e prestes a serem jogados no lixo que lá por 1968, focinhando numa loja de objetos usados, deparei-me, por primeira vez, com um exemplar do Rosal pensante, de autoria de um sujeito até então desconhecido e com um nome ridículo: José Maria de la Concepción Apolinar Vargas Vila Bonilla, nascido em 1860 na Colômbia e morto em 1933 em Barcelona. Só pensei em negociar o preço daquele verdadeiro restolho depois de ficar hipnotizado com a leitura destas duas linhas:

Curar-se de certas excentricidades, é fazer como os outros: cretinizar-se; a primeira condição de ser coletivo é ser abjeto.

Talvez hoje esta frase não tenha mais o efeito iconoclasta daquela época, quando tinha apenas dezenove anos, vivia no mundo da lua, confinado em casas estudantis, embriagado de idealismos, sem a mínima idéia de que o homem era um «animal méchant par excellence», e quando as veraneios chapas-frias do DOPS e do exército, em seu teatro ditatorial e burlesco subiam e desciam em alta velocidade, vinte e quatro horas por dia pelas ruas e becos gelados de Curitiba. O livro, além de ser um viveiro de traças, também fedia. De cócoras, fascinado, li e reli um segundo parágrafo:

"O escritor que fala por diminutivos, é porque pensa diminutamente; os heróis de Homero, não combatiam com alfinetes; quando leio versos cheios de «cabecinhas loiras», «virgenzinhas queridas», «manecitas liliales», penso instintivamente, em todos esses rimadores, com almas de costureiras sentimentais, que infestam nosso Parnaso..."

Foi meu primeiro e definitivo encontro com Vargas Vila, esse blasfemo furacão do verbo que não se assemelhava em nada aos da zoologia literária da época. Foi minha primeira leitura desse contemporâneo de Ruben Dario, autor de umas dezoito mil páginas, entre as quais as do famoso Íbis, texto que por ter levado diversas pessoas a se matarem ficou conhecido como a Bíblia do Suicídio.

Sem falar dos anarquistas e dos desvairados mexicanos que de 1979 a 1981 invadiam meu pequeno apartamento da calle Copilco a qualquer hora do dia e da noite para discutir os textos de Vargas Vila e nem da prostituta goiana que mantinha permanentemente sobre o criado mudo, ao lado de uma oração de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, um exemplar de seu Lírio Negro, foi o Jorge, do Armazém do livro usado de Taguatinga quem, em 1997, ligou para comunicar-me que havia comprado a obra vargasviliana completa da viúva de um dentista de Anápolis. Fechamos negócio por telefone. Nos dias seguintes, sob os estrondos da tempestade que caiu sobre a cidade, folhear um por um daqueles volumes publicados pela Sopena de Barcelona, e ainda por cima, rabiscados pelo dentista recém morto, foi uma viagem quase kardecista e quase nirvânica.

Estava lá, tudo lá o pouco que já sabia e tudo o que estava por saber da obra desse novelista militante, panfletário, jornalista, niilista, ateu, anticlerical e obsessivamente indignado com a palhaçada fastidiosa reinante na América Latina, principalmente com o carneirismo vergonhoso de sua política e de suas assembléias. Exageradamente ético, erótico e libertário, (apesar de ter vivido uma relação simbiótica e doentia com a mãe), V.V. odiava a velharia supersticiosa e os caudilhos criminosos que se sucediam por todos os países do continente, da mesma maneira que detestava a dominação imperialista dos yankees, contra quem escreveu Ante los bárbaros. Banido de sua terra natal viveu na Venezuela e em NY onde, em 1892, trabalhou como redator do jornal anticlerical Progresso e fundou as revistas Hispano-América e Némesis. Com sua mudança definitiva para a Europa, incluiu em sua agenda libertária a luta contra as conhecidas máfias intelectualistas, contra os fabricantes de filosofias para entregadores de pizza e contra os conhecidos PHDéspotas que só se valiam da escrita para ruminar e puxar o saco de quem estava no poder.

Apesar de toda sua erudição, Vargas Vila foi também um escritor popular, lido compulsivamente pelos marinheiros, pelos artesãos, pelos presidiários e marginais de todos os calibres. Contemporâneo de Freud, admirador de Ibsen, amigo de Pompeyo Gener e leitor de Stirner, deve ter navegado exaustivamente tanto pela psicanálise como pelo anarquismo individualista e ter arrancado daí não apenas o sentimento negativo com o qual construiu seu niilismo, mas também a sacação subterrânea do Ser, através da qual deu realidade e vigor tanto à sua filosofia como à sua análise dos homens, do mundo e da política latino americana, dessa parte quase maldita do continente, com seus sucessivos ladinos e empedernidos governantes de turno.

Com seus livros, sua vida e seu discurso radical, não apenas contra a ignorância e a bestialização social, mas também contra o absurdo da existência e contra todas as hipóteses divinas (Deus não me expulsou do céu, eu sim expulsei Deus de meus céus interiores. Nisso fui maior que Satã), era previsível que fosse abrir frentes de indignação, de ódio e de inimizades por todos os lados, mas, principalmente, entre os apóstolos da demagogia. Se nunca se rendeu a elas, foi porque era doentiamente convicto de que

"a verdadeira eloqüência deve produzir sobre os povos o efeito do furacão sobre as ondas, o efeito das chamas sobre o feno seco, da chispa sobre a pólvora, isto é, deve produzir a tormenta, o incêndio, a explosão e a tragédia irremediável".

E mais:

"Que aquele que põe fé nos outros, perde a única fé que salva: a fé em si mesmo".

Na Espanha de Franco seus livros foram marcados com o ponto vermelho da censura e na Colômbia a igreja ameaçava excomungar quem lesse suas novelas. Seus textos e fotos chegaram a ser queimadas em praça pública. "Em suas obras não é apenas o erotismo sensualista do naturalismo o que se respira, -dizia o padre Jesús M Ruano- ali se faz apoteose do pecado, a incitação aos crimes mais repugnantes. Ali brota como emanação pútrida o ódio sistemático à pureza dos costumes, à dignidade, à generosidade e à racionalidade do homem". Além dos padres e dos déspotas políticos, também os escritores que sempre florescem em abundância nos quartinhos de fundo dos palácios, das paróquias, da imprensa oficial e dos antros diplomáticos não se cansavam de tentar desqualificá-lo.

Não escrevo para deleitar, escrevo para combater, contestava–lhes Vargas Vila, em Prosas-laudes.

Em 1952, dezenove anos após sua morte, o crítico José J. Guerra afirmava em um artigo que em todos os livros de Vargas Vila "desde a primeira até a última página só se encontrava gritos satânicos de rebelião e de insultos contra tudo o que existe de mais nobre e mais sagrado para o homem".Até o velho Borges, o ilustre, cego e erudito diretor da Biblioteca Nacional Argentina, na única vez que fez referência a Vargas Vila, em Historia de la Eternidad, publicada no ano da morte de Vargas Vila (1933), no capítulo intitulado Arte de injuriar, referindo-se a uma crítica deste a Santos Chocano, tentou eclipsá-lo.

E é exatamente por isso, por Vargas Vila ter sido proibido por Franco, excomungado pela igreja colombiana e por ter causado tanta indignação entre a canalha detratora que o estamos revisitando e republicando.

Ressuscitá-lo no Brasil, principalmente em Brasília, nesta cidadela de caixotes, de burocratas errantes, de botecos, de novos ricos delirantes, de filhinhos e netinhos de agentes da ordem, de escritorzinhos engravatados e de shoping centers, neste momento histórico e político broxante, com a América Latina ainda mergulhada em seus esgotos e ainda de joelhos diante da mesma quadrilha de sua época, é quase um dever de quem pensa e de quem tem desprezo pela pobreza mental generalizada do cotidiano. É quase uma obrigação de quem tem horror a esses magotes ainda não nascidos plenamente que além da televisão e das feijoadas só conseguem dialogar sobre os ângulos e os pregos da cruz. Dever de quem se sente asfixiado no meio de toda essa ignorância instituída, desse atraso social incurável onde todos os projetos pretensamente revolucionários foram para a merda, e onde a vida se resume em falar mal dos outros, em ir às soirées, ter um emprego, uma casa, uma falsificação de Picasso, um carro e o certificado de filiação a uma das tantas e nefastas agremiações idólatras, idealistas e teológicas que, apesar do poder difamatório que dispõem, não são mais do que prostíbulos de infâmia.

Sim, é oportuno reeditá-lo neste momento, quando os capuchinhos da crítica literária nacional não conseguem fazer outra coisa além de bajular os vivaldinos do momento ou de reincensar Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano e outros vaselinas. Ah, será um gozo imenso fazer Vargas Vila circular pela cidade e por sua periferia onde a ralé desiludida se despedaça todos os dias a tiros, facadas e pauladas depois de ouvir os pastores, os padres e os gurus mentindo descaradamente nos palanques, nas dioceses ou nos programas de televisão! Acreditem: será um gozo imenso trazê-lo para o cenário, principalmente hoje, quando os mercenários, as matronas e os religiosos ocupam praticamente 90% das cadeiras no Parlamento. Quando os banqueiros, os donos de terras, os políticos, os representantes da imprensa, dos sindicatos, das igrejas e das indústrias (todo esse espectro vil das antigas monarquias) estão cada vez mais íntimos e próximos uns dos outros e quando são vistos juntos, enchendo a cara nos mesmos banquetes e fazendo pouco caso das desgraças que se abatem sobre cinqüenta ou sessenta milhões de pessoas. Quando são vistos abraçados tramando publicidades enganosas, ludibriando aos adolescentes com esportismos e porcarias tecnológicas, aos velhos com uma compaixão burocrática e com medicamentos falsificados e, às mulheres, com o modismo homomaníaco, obsessivo e burro de sempre.

Será mais do que oportuno republicar Vargas Vila agora, em português (esse idioma de pescadores), quando os estelionatários de todas as classes estão afinados e irmanados nos assuntos do agiotismo internacional, usando os mesmos ternos, as mesmas cuecas, as mesmas máscaras, as mesmas loções e a mesma linguagem. Quando a bandidagem republicana está silenciosamente rateando os fundos do Tesouro Nacional, devastando as matas nativas para plantar soja, loteando e explorando comercialmente os míseros prazeres e as míseras possibilidades de lazer acessíveis a uma multidão moribunda e deprimida que, por sua vez, não sabe fazer outra coisa além de competir, perseguir e infernizar-se mutuamente a vida, seja no confinamento doméstico ou nas arquibancadas desse prodigioso e olímpico circo. (y, ellos, se embriagan con el humo de la adulación, que la prosa mística de los conservadores, y la retórica plebeya de los jacobinos, les administran a alta dosis, y se creen eternos…). Delírio e desatino que realmente ninguém sabe quando terá fim, uma vez que os setores ditos cultos da atualidade –da literatura ao cinema, da tecnologia ao turismo e à sociologia etc, etc-, conspiram descaradamente para o engrandecimento da putaria política e para o aprofundamento da idiotia coletiva.

Por fim, este resgate da obra de Vargas Vila representa a realização máxima de minha vida de leitor. Considero esta releitura e esta publicação de seus textos como a mais importante de minhas contribuições na tarefa insólita de diagnóstico e de desmascaramento dessa opereta fajuta e desse music-hall pseudo-civilizatório em que nos atordoamos. Desse picadeiro patético onde até a pequenez própria –parafraseando Otto Fenichel- pode ser motivo de gozo quando serve para dar ao idiota a ilusão de que participa da grandeza do outro. Além de um maremoto nas consciências dos leitores, desejo que este livro também estremeça as estruturas frígidas e canônicas do palavrório irracional vigente e da língua.

Ezio Flavio Bazzo
Num café da Mouraria (Lisboa)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

A Passagem de Samuel Rawet por Brasília


Sete anos depois da primeira incursão pelos rastros e pegadas de Rawet, pelo Plano Piloto, pelas veredas periféricas, por Sobradinho, Haifa, Núcleo Bandeirantes e Tel-aviv, encontro-me outra vez diante da singela sepultura 162, da quadra 219, no cemitério em forma de caracol, engendrado por Niemayer.

Mesmo vacinado contra todos os misticismos, sinto que se olho muito tempo para o fundo da cova vazia, o vazio me retribui impiedosamente o olhar… Impossível negar que a essência do Rawet, não do Rawet defunto, mas do Rawet escritor, engenheiro, voyeur vagabundo das madrugadas brasilienses, ainda está, de alguma maneira, inscrita neste lugar… Corpo ausente que anima reminiscências de uma narrativa, de um diálogo e de uma história já demolida pelo tempo… Ocaso da idolatria pelas palavras… da paixão pelas letras, que agora, uma a uma, se desgarram do papel putrefeito, colocando um ponto final no passado. Diante deste espetáculo, é necessário reconhecer que tanto a morte como a lápide, desonram e humilham… "… devia ser humilde, e foi humilde até à anulação. Devia ser justo, e foi justo até o desespero. Em essa sucessão de devia, tornou-se plasma informe nas mãos do mestre. E sobrava-lhe ainda a lição do orgulho quando descobriu o charlatanismo da humildade".(Viagens de Ahasverus, 1970, p.38).

Impacientes e sabedores de que as mais poderosas influências nos chegam quase sempre através dos mortos, os vivos se empenham, outra vez, em exumar a opereta de signos e de conjunções rawetianas, bem como sua artilharia verbal voltada para a idiotia do mundo… História que, por Rawet, mesmo ensoberbecido com todos os elogios e com todas as teses a seu favor, talvez, desse tudo por absolutamente concluído, acabado e perdido… Não se disporia a sair da solidão e do isolamento em que se encontra há vinte anos, para retomar a mesmice dos cálculos matemáticos na edificação desta promíscua solidão urbana, pelas mesmas razões que não se debruçaria mais sobre seu antigo projeto literário… A reedição das novelas, dos contos e das Obras Completas, para quê? se já nada pode interferir no mais absoluto de todos os exílios? Como judeu, conhecia muito bem o provérbio de sua raça, segundo o qual, um tolo pode jogar uma pedra na água que dez sábios não conseguem recuperar. Por isso, talvez, se limitasse apenas a lembrar que, na existência, tudo se resume a um sonho provisório e que, seja qual for nosso estilo de vida,"morre-se só, sempre só, morre-se a própria morte. Vive-se só, sempre só, vive-se a própria vida. Em qualquer circunstância…"

… Sim, é possível que a escrita não lhe provocasse mais nenhuma forma de êxtase, nenhum arrebatamento, nenhuma das antigas obsessões. Isto porque não havendo mais libido, já não há mais culpa, nem necessidade de vingar-se, de esclarecer o impossível, de alimentar a aleivosia que, comumente, nos faz aguardar séculos, esperar uma eternidade, para o momento de uma mísera e inútil vingança… Digo isto, porque, tanto para o Rawet de infância suburbana e aparentemente desfigurada, como para o Rawet dos últimos tempos, parecia não sobrar muito, além de uma grave letargia depressiva e de algumas escassas e fugidias memórias, ou de Klimontov, ou dos subúrbios cariocas, lembranças mixadas às imagens do velho Cristo, com os braços já exaustos e decrépitos, encurralando diariamente a canalha… Rawet lobo… Rawet corvo de Torga, Rawet Ahasverus, Rawet bordeline… Rawet desvairado e trágico com um texto em iídiche no bolso… Se não frequentava as soirées nos arredores do Palácio, e se mantinha à margem, era porquê, como Céline, sabia que a experiência é uma lâmpada fraca que só ilumina aquele que a carrega. Indignado com a mediocridade humana, ia driblando sua loucura e resmungando: "… a dupla experiência, a da burrice, e de quem escreve sobre a burrice, nunca me abandonou. Ao contrário, e por motivos diversos, tomou conta de mim, do meu corpo, e se transformou numa espécie de lente que me ajudou, e me ajuda, a procurar compreender o mundo… ". (Consciência e valor, 1970)

Duas décadas depois de ter sido encontrado morto em Sobradinho, com uma tigela de sopa Knorr nas mãos, e no mais absoluto desamparo, não apenas Brasília, mas o país inteiro parace querer colocá-lo num pedestal e queimar incenso à sua irreverência. Mas, como insistir em enquadrá-lo num lugar-comum, sabendo, por um lado – como pregava Saussure-, que não somos, em nenhum sentido, os autores daquilo que fazemos e nem dos significados que expressamos na nossa escrita? E por outro, que por debaixo de todos os estilos, disfarces e performances que as pessoas de letras cultivam com tanto esmero, há sempre um oculto arsenal de substâncias e de aromas narcíseos para o futuro auto-embalsamamento? Indiferente a qualquer tipo de especulação, o Cristo de concreto do imaginário rawetiano continua lá, com seus braços descerrados sobre a balburdia sensual e culpígena de todas as cidades portuárias, indicando o óbvio aos rebanhos…

"… É o homem culpado pelo fato de viver? Interrogou o crucifixo. (…) Não insistiu ao perceber o rosto imóvel e sereno do crucificado…"[1]

Diante da cova que aos poucos vai sendo desfigurada pela erosão, insisto numa associação de idéias pouco espontânea… ela, desde sua trincheira natural, sempre que pode, retribue-me maliciosamente um olhar de ausência e também o consolo de que a espontaneidade não é lá grande coisa, já que qualquer imbecil pode tê-la. Um olhar de ausência! Ausência desse personagem que na roupa e nos gestos, encarnava o homem do iluminismo, mas que quando abria a boca ou quando escrevia, evidenciava o sujeito da pós-modernidade, com a identidade despedaçada: judeu branco, num universo mestiço; libertário, mas funcionário público de um vilarejo periférico; sujeito ora cartesiano e ora wildeano; freqüentador da alta burocracia estatal, mas também da galeria Alasca; macho, mas nem tanto; ateu, mas ainda preso às orações rezadas nas sinagogas polonesas.

A tarde vai se inclinando lentamente sobre Brasília e com mais vagarosidade ainda sobre os retângulos das tumbas… Um cão curioso ziguezagueia por entre as azaléias, dois vasos japoneses quebrados e uma sombra móvel sobre um amontoado de granito. A lua, semelhante a uma foice, começa a ganhar brilho na cobertura das construções frenéticas e ordinárias desta urbe… Utopia que virou realidade… Alguns desses prédios foram calculados pelo autor de Alienação e Realidade… Quem o viu comendo de sua marmita, assentado no meio fio dos becos de Sobradinho, jamais adivinharia ou descobriria ali o Rawet calculista… engenheiro e homem de concreto que, desde 1957, aos 28 anos, já fazia parte da construção desta cidade. É só em meio às circunstâncias particulares da sua vida –lembrava Foster- que um homem é ele mesmo. De seus cálculos e dos de seu colega Joaquim Cardoso… será que um dia, ainda não testemunharemos uma hecatombe…? Um horror de ruínas…? Ainda ralhando sobre a questão da estupidez, insistia com os personagens de seu delírio: "… ampliada um pouco invadiu o domínio da idiotice, da vigarice, e se metamorfoseou em especulação e matéria para especulação…".(Consciência e valor, 1970)[2]

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 25 de março de 2004

A Lógica dos Devassos: No Circo da Pedofilia e da Crueldade

À margem dos sermões melancólicos, da empáfia histriônica dos discursos e da persistente simulação de civilidade — tanto dos governos, como das religiões e das famílias — fervilham massacres infantis por todos os lados. A escravidão, o abuso sexual e o assassinato de crianças nunca estiveram tão evidentes, e a história, essa cloaca de mentiras, construída sobre infâmias e infanticídios, teima em permanecer falsa e petrificada no cérebro da humanidade...

Atenção: dependendo de tua trajetória, este livro pode provocar-te uma taquicardia e até tirar-te o fôlego. Se estás em busca de uma leitura afável, morna, escrita por um DAS-5, por alguém da troupe arquiconhecida ou por outro dos badalados bufões da atualidade, se estás em busca de uma leitura que te faça conciliar o sono depois das novelas, desista. Aqui não há nenhuma influência e nenhuma cumplicidade com os bandidos da política, com os espertalhões pós-graduados, nem com o mercado editorial e muito menos com as elites esclerosadas. Foi escrito para quem tem no mínimo, a grandeza de colocar-se à altura da nojeira e da miserabilidade humana... E que não sirva outra vez apenas para «refletir» ou para «meditar», pois já é tempo de dizer como Rousseau que o homem que só reflete e que só medita é um sujeito depravado.

sábado, 31 de maio de 2003

A lábia encantadora de João do Rio


Nascido em 1881 à rua do Hospício, e fulminado por um colapso cardíaco 39 anos depois, no Catete, João do Rio conseguiu, mesmo neste curto período, construir uma obra densa e admirável.

Mergulhando deliberadamente nas ''sombras cúmplices da madrugada urbana'', no ''mundo opaco e indeciso'' e no ''mar alto da depravação'', onde sempre fervilha ''gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias dos pedaços mais esconsos da rua'', engendrou, à revelia dos sedentários e dos invejosos, uma literatura magnífica e diabólica, uma (quase) antropologia laica, uma sociologia selvagem, empírica e anárquica... livre tanto das algemas escolásticas como das pretensões da gramática ortodoxa... que, como uma ''Górgona de vício, à beira das igrejas, abria a fauce tragando as flores da ralé''. Que só tenha descoberto sua existência agora, depois de uns 35 anos de leitura e de freqüência obsessiva em sebos, alfarrábios e feiras de livros, é uma evidência, não só da gravidade de minha cegueira, mas de quão tendenciosa, parcial, falsa e fútil tem sido tanto nossa cultura literária como nosso mercado editorial.

Seu interesse pelo âmago das cidades, pela histeria permanente das ruas, pela vida mundana e conseqüentemente pelos seus atores: fanáticos religiosos, azeiteiros, cabotinos, pedófilos, cínicos, mendigos, pervertidos, larápios, presos, criminosos, imigrantes, charlatães, poetas, músicos, variolosos, em suma, pelo ''sistema social podre'', lhe renderam não só calúnias, mas socos, bombas e acusações literárias como esta, de Elisio de Albuquerque: ''É um temperamento doentio, sensibilidade exacerbada, usa de uma psicologia mórbida, atormentado pela preocupação do raro, do horripilante e até do sórdido''.

É evidente que os pobres moralistas tinham dificuldades para suportar um sujeito que, além do talento inegável, seguia afirmando que ''Toda a vida é luxúria. Que sentir é gozar, e que gozar é sentir até o espasmo. Nós todos vivemos na alucinação de gozar, de fundir desejos, na raiva de possuir. É uma doença? Talvez. Mas é também verdade. Basta que vejamos o povo para ver o cio que ruge, um cio vago, impalpável, exasperante. Um deus morto é a convulsão, é como um sinal de pornéia. As turbas estrebucham. Todas as vesânias anônimas, todas as hiperestesias ignoradas, as obsessões ocultas, as denegerações escondidas, as loucuras mascaradas, inversões e vícios, taras e podridões desafivelam-se, escancaram, rebolam, sobem na maré desse oceano. Há histéricas batendo nos peitos ao lado de carnações ardentes ao beliscão dos machos; há nevropatas místicas junto a invertidos em que os círios, os altares, os panos negros dos templos acendem o braseiro, o incêndio, o vulcão das paixões perversas.''

Dizem os jornais da época que seu funeral mobilizou cem mil pessoas. Que os taxistas, emocionados, se prontificavam a transportar, de graça, quem quisesse seguir o féretro daquele homem que, sabia-se, ''amava o horror das coisas inacreditáveis''. Qual o autor nacional, por mais vaselina e plantador de vaidades que tenha sido, que já teve tamanho privilégio? Bobagem? Sim. Mas impressionante! Mesmo que essa multidão quisesse, morbidamente, apenas certificar-se de que havia realmente morrido (um veado e um filho de puta a menos no mundo!), mesmo assim é um número que impressiona. E insisto nisso porque a grande maioria dos escritores que morrem hoje em dia — mesmo os que se faziam passar por ícones da sapiência, os que passaram a vida lançando confetes aqui, serpentinas acolá, fazendo conchavos na academia, cumplicidade nas universidades e puxando o saco à torto e à direita de quem quer que fosse, mas principalmente dos endinheirados — além dos herdeiros e dos credores, só têm recebido ''postumamente'' a visita oportunista dos abutres da funerária.

João do Rio (Paulo Barreto), que chamou atenção para a vida encantadora das ruas, que não teve medo de acanalhar-se e nem de enlamear-se nos becos onde ''os corpos movem-se como as larvas de um pesadelo'', morreu de forma inusitada aos 39 anos, num táxi. Num velho táxi que circulava pelas ruas do Catete. Deixou uma obra fascinante, curiosa, lúdica, saborosa, nômade e, mais do que tudo, vagabunda... construída na clandestinidade, nos esgotos periféricos, à beira dos cortiços, na penumbra das antigas salas de redação dos jornais... e, inclusive, nos festins colonialistas das elites da época... onde ''as caras continuam emplastradas pelo mesmo sorriso de susto e de súplica, multiplicado em quinze beiços amarelos, em quinze dentaduras nojentas, em quinze olhos de tormento!'' Paradoxalmente, foi também um membro da Academia Brasileira de Letras... O primeiro a entrar naquele covil envergando o fardão vampiresco, aquela capa negra que mais desqualifica e que mais mumifica do que engrandece... ''A luz elétrica, muito fraca, espalhava-se como um sudário de angústias.'' Teve sérios conflitos com a vaidade estabelecida daqueles ''literatos'' que, por não terem nada que dizer e por não possuirem um mundo próprio, só falavam de literatura. Viu-se envolvido com a hipocrisia dos escritorzinhos... e com o rancor incurável que se prolifera à sombra das ''pocilgas literárias''... entre a turma das unhas pintadas e dos cuecões de seda... Entre os da laia narcísea dos conhecidos ''textos-super-limpos'', ''burilados'', ''impecáveis'', otimistas e estóicos... escritos sempre para os jurados de concursos, para as grandes editoras, para o clero e para os chefetes de turno no Congresso Nacional... instâncias onde ainda predomina intacta a mesmice secular, o tédio reacionário, o discurso prolixo, a metamorfose do caráter, a corrupção endêmica, a frouxidão genital indisfarçável e a necessidade histórica de perpetuar, miseravelmente, o jogo da burrice e de submissão entre o populacho... Que lástima a sobrevivência desse circo!... ''o clamor da súplica enche o quarto na névoa parda estrelejada de hóstias sangrentas''.

O que me atrai em sua obra, independente da beleza natural dos troteadores e dos ''rueiros'' é basicamente seu cinismo e seu deboche. A forma ora sutil e ora escrachada como cospe sobre a rabugice e a infâmia humana... Vibro com a tormenta de metáforas que inventa para descrever, não só a cloaca e o lupemproletariado mantido à margem (depravados, escravos, sádicos, jogadores, maxixes ordinários, coristas, putas, desempregados opiômanos) mas também a cloaca de colarinho branco (barões, condes, atrizes, políticos, charlatães, damas da recém-instalada república). Se foi um plagiador — como dizem —, um entreguista político, um ''portuguesófilo'', um decadente moral, um fresco e um dândi... isto, aqui, não tem a mais mínima importância. Se fez subliteratura, se foi, como outros, um ''pavão simbólico do Vício Triunfal'', se fez confusão entre um gênero e outro, se seu texto, além de ''empolado'' estava cheio de delitos gramaticais... isto tampouco diminui ou compromete seu fascínio e sua beleza. Não altera em nada o ângulo privilegiado através do qual ''escutava'' e fitava a urbe enfurecida e em delírio... Principalmente porque ele mais do que ninguém, sabia e afirmava que a ''literatura é o mirífico agente do vício''.

Ezio Flavio Bazzo