Mostrando postagens com marcador Brasília. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasília. Mostrar todas as postagens
domingo, 1 de dezembro de 2013
domingo, 9 de janeiro de 2011
Maria Sabina y nuestros hongos...
Os longos dias de chuva por aqui na capital da república não infestaram a cidade apenas com matagais, carrapatos e ratos brotaram também e por todos os lados os misteriosos e sinistros cogumelos… Nas paredes das bancas de jornais – por exemplo - nos jardins da UnB, na boca dos esgotos, nos barrancos enlameados e nos troncos podres das superquadras explodiram centenas de um dia para outro e nas cores mais inesperadas. Num dia aqueles pequenos guarda-chuvas estavam brancos, no outro já eram escuros, no outro pareciam cinza, depois marrons, azulados etc. Como saber quais são comestíveis, quais são venenosos e com quais se pode embarcar numa viagem alucinógena? Lá pela década de 80 vivia nas montanhas mexicanas de Huautla de Jimenez uma velha índia conhecida por Maria Sabina (la hechicera de los hongos) a qual recorriam psicólogos, psiquiatras, antropólogos, poetas e outros pirados famosos do mundo inteiro para fazer uma viagem com os psilocybe cubensis que ela cultivava nas terras sombrias e férteis das margens dos córregos. As fogueiras que duravam noites inteiras, os luares, os tiroteios entre campesinos e os grunhidos dos animais noturnos mixando-se aos cânticos xamânicos... Os demônios circundantes, os insetos da noite, a diversidade de línguas e a imagem daquela mulher secular cruzando as labaredas e cochichando segredos e bobagens àqueles pobres alienados retornam em blocos agora quando me inclino com cuidado sobre esse tronco para melhor fazer esse registro...
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
ARQUEOLOGIA DE NOSSO DESCASO ou os 4 painéis de Burle Marx esquecidos no hall de entrada de um prédio...
Nos últimos tempos foram inúmeras as teses e os trabalhos sobre a vida e a obra de Burle Marx (o paisagista) mas, curiosamente, em nenhum deles se fez menção aos 04 painéis imensos de sua autoria e em cerâmica que dão charme e beleza à entrada do bloco C da 107 Norte que, aliás também leva seu nome: Burle Marx Habitat. Quem quiser conferir, além das fotos ao lado e abaixo, pode visitar o local. São 02 painéis na parte externa e dois internamente junto aos elevadores que foram produzidos em 1989, ano em que Burle Marx projetou também um jardim para o Parque Estadual de Goiânia; um para o The International Garden and Greenery para uma exposição em Osaka; o jardim da empresa Britânica Eletrodoméstico S/A em Curitiba e o da Cactus House Long Wood Garden, na Pensilvania.
Tendo em vista, por um lado, que alguns de seus painéis (2,30X2m.) estão sendo leiloados até por R$ 90.000,00 e por outro, a quantidade de gatunos à solta por aí, é hora dos burocratas do IPHAN colocarem um guardião de plantão aqui junto a essas preciosidades.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
ORDEM, PROGRESSO, SEXO & PHODER... II
Com a recente comemoração dos 50 anos de Brasília não foram poucos os confetes e as serpentinas lançados sobre a efígie de JK. Entre os mais acalorados e subservientes elogios estava sempre a anedota do “sedutor”, do “mulherengo”, “comedor” etc. Sabemos que quando esses adjetivos são atribuídos a um fodido qualquer, logo se lhe imputa também a pecha de tarado, perverso sexual, assediador barato e até mesmo de estuprador, mas, que quando se trata de uma autoridade, alguém que controla as chaves de algum cofre, todo mundo acha o “maior barato”, inclusive “as vítimas”. Mas isto não é novidade. Até lá na solidão das tribos foi sempre assim, ao “chefe” cabia o direito até de providenciar o defloramento das meninas e das noivas. Voltando a falar dos “estadistas”, Idi Amin Dada – por exemplo – não apenas “comia” a mulher de seu país que quisesse, mais inclusive devorava literalmente as mais apetitosas. Mobuto, o presidente do Zaire virou até folclore pelo significado de seu nome: Mobuto Sese Seko Kuku Ngbendu Waza Banda, que quer dizer: “O galo que vai de galinha em galinha sem cansar-se”. E até o Papa sabe que na época em que il Signore Berlusconi ainda nem havia perdido o cabaço, o ditador Mussolini (Il Duce) já “comia” uma mulher diferente por dia lá no Palazzo Venezia di Roma. Durante os 14 anos em que esteve no poder, o garanhão fascista teria enrabado umas cinco mil, mulheres que escolhia a dedo nas ruas enquanto passeava em seu Alfa Romeu vermelho. Era conhecido como “O falo em chefe”. John F. Kennedy, o presidente norte americano que quase foi canonizado nos quartéis e nos parlamentos desvairados da América latina, e que quando criança era masturbado por Marlene Dietrich e quando presidente papava secretamente a Marylin Monroe, também gostava de exibir-se como um papa-néctar, apesar da loira tê-lo acusado de ejacular precocemente. Depois de sua morte, sua mulher correu para os braços de outro poderoso, colecionador de amantes e dono de ilhas gregas etc, etc, etc. Y asi se van los dias en este mundo peniscêntrico, sem falar daquele infeliz presidente francês (Françoise Faire) que em 1899 morreu engatado a uma mulher de bordel. Dizem que foi necessária uma cirurgia para retirar o órgão petrificado do presidente preso no interior da xota contraída da mademoiselle.
Enfim, apesar de todas as opiniões em contrário, a vida masculina (da ralé à elite) se reduz ao seguinte: como fazer para melhor descarregar os sessenta e quatro litros de sêmen que produzirá durante sua vida. Curiosamente, a quantidade exata para encher o tanque de um Passat...
Enfim, apesar de todas as opiniões em contrário, a vida masculina (da ralé à elite) se reduz ao seguinte: como fazer para melhor descarregar os sessenta e quatro litros de sêmen que produzirá durante sua vida. Curiosamente, a quantidade exata para encher o tanque de um Passat...
quarta-feira, 9 de junho de 2010
ORDEM, PROGRESSO, SEXO & PHODER...
Nós últimos dias a testosterona (ou o viagra) parece ter transbordado nas artérias nacionais. Primeiro, o Ministro da Saúde prescreveu sexo como truque preventivo na hipertensão. Depois, o treinador da Seleção liberou os jogadores para licenciosidades nos intervalos e no início da semana um deputado propôs no Congresso Nacional que se institua o Dia do Sexo. Só faltou algum padre no confessionário prescrever umas sessões de onanismo como penitencia. Isto, sem falar da Parada Gay do domingo que aglutinou alguns milhões nas ruas de SP (praticamente só homens) onde se fazia abertamente apologia dos mais variados tipos de “intercâmbios” libidinosos. Um forasteiro que por acaso assistisse a essa aparente liberação nacional talvez sentisse medo de ser estuprado ou, até mesmo de ser obrigado a estuprar alguem. Mas não é bem assim. Apesar do blábláblá e da verborragia dos garanhões, sabemos que a sexualidade e a obsessão por phoder, apesar de ainda continuar sendo um assunto exclusivamente masculino está na base de quase todos os conflitos e de quase todos os transtornos psicossomáticos, fazendo com que a grande maioria continue por aí transitando neuroticamente da negação à compulsão.
Além disso, uma curiosidade: mesmo o clitóris sendo o único órgão com função EXCLUSIVA de prazer, as mulheres continuam mudas e na sombra a respeito dessa temática. Tentem imaginar uma “ministra”, uma “técnica” ou uma “deputada” fazendo as proposições acima mencionadas, ou mesmo imaginem uma passeata com 3 milhões só de lésbicas. O moralismo e a angústia vigentes não dariam conta e o mundo viria literalmente abaixo.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
MINHAS MAIS VERDADEIRAS CONDOLÊNCIAS ÀS COBRAS DO BUTANTAN... (2)
Enquanto os últimos bispos já arrumavam as malas e partiam para o aeroporto; enquanto a marcha dos dois mil homossexuais chegava entre cólera e euforia em frente aos ministérios, enquanto os prefeitos, - bebericando no luxuoso Golden Tulip - ouviam as promessas vãs dos "presidenciáveis", índios de várias etnias - que estão há meses acampados frente ao Congresso, quase em baixo das cachoeiras do Ministério da Justiça - pelejavam corajosamente com a Polícia Legislativa da Câmara. Socos, coices, maldições, arranhões, gravatas, cusparadas, gritos, covardias, pontapés. Uma senhora índia desmaiada, um índio com a perna quebrada, outro tonto depois de ser agredido com um cassetete elétrico, um polícia só de cuecas, outro abobalhado depois de levar um cruzado de um manifestante e a índia Munduruku agarrada ao pescoço do representante do CNPI. Só não lhe deu uma joelhada no saco porque a confusão foi demais. Pauta dos índios: revogar o Decreto Presidencial 7.056 que praticamente privatiza a FUNAI. Pauta dos governantes: ganhar os índios pelo cansaço. Deixá-los mais alguns meses humilhados e pisoteados ali em suas improvisadas choupanas de plástico expostos aos DAS 6 que passam de nariz empinado e de cuequinhas de seda no banco traseiro dos carros oficiais.
Mas isto foi ontem. Hoje de manhã tudo já parecia estar Zen na “aldeia”. Às seis horas já havia um índio tocando seu violão de cara para o sol, um velho estendendo uns trapos num varal e uma mulher sorridente banhando seu filho enquanto um tufo de fumaça subia em direção às vidraças do Ministério da Justiça.
Mas isto foi ontem. Hoje de manhã tudo já parecia estar Zen na “aldeia”. Às seis horas já havia um índio tocando seu violão de cara para o sol, um velho estendendo uns trapos num varal e uma mulher sorridente banhando seu filho enquanto um tufo de fumaça subia em direção às vidraças do Ministério da Justiça.
Independente de qualquer frescura romântica ou rousseauniana, é difícil encará-los sem experimentar uma espécie de vergonha. Mesmo que não tenham consciência ou que não o digam, devem pensar de nós o mesmo que pensavam outrora daqueles fazendeiros brutais e estúpidos que os contaminavam deliberadamente com o vírus da varíola ou do sarampo e que depois, quando a febre chegava a níveis insuportáveis, deixavam que, para escapar ao sofrimento, se matassem entre eles, uns aos outros, afogando-se nos riachos ou se destroçando o crânio com pedaços de pau e de pedras...
terça-feira, 18 de maio de 2010
MINHAS MAIS VERDADEIRAS CONDOLÊNCIAS ÀS COBRAS DO BUTANTAN...
Voltar ao Brasil e principalmente para Brasília é sempre embarcar na possibilidade de inúmeras surpresas, uma mais exótica que a outra. Tocaram fogo no Butantan e sapecaram milhares de répteis em SP - por exemplo. Aqui, em frente ao Congresso Nacional esteve montada até ontem uma espécie de igreja aonde mais de 300 bispos vieram participar da 48ª Assembléia Geral dos Bispos do Brasil e também do Congresso Eucarístico Nacional. De tantas freirinhas, padrecos e beatos, quem passava pela Esplanada dos Ministérios tinha a nítida impressão de estar na Praça do Vaticano numa Quinta-feira de Ramos. Em pauta o excesso de testosterona nas artérias dos representantes de Deus e os recorrentes enrabamentos de coroinhas e de seminaristas. Nesta semana também chegaram a Brasília milhares de lésbicas, gays, travestis, bissexuais, transexuais etc, para o VII Seminário que está acontecendo no Auditório Nereu Ramos do Congresso Nacional. Amanhã uns 2000 membros sairão de frente da Catedral (ainda em reforma) para a I Grande Marcha Nacional. Em pauta: a mudança de nome dos transexuais; a legalização do casamento entre pessoas de mesma genitália (e nós que tanto lutamos para que o casamento em si fosse considerado a pior das aberrações); e a aprovação da lei que torna crime a "fobia" ao homossexualismo etc. Também está marcada para amanhã a 23a Marcha Dos Prefeitos de todo o país. Em pauta: a defesa dos municípios e a “troca de experiências” que, em outras palavras significa: a socialização dos truques para apropriar-se das mamatas e das tetas do Estado nestas vésperas de eleições. Quem fica realmente fascinadas com a vinda e com as "diárias" desses "executivos" são as nossas "meninas da noite".
Sinceramente, é por essa e por outras coisas do gênero que Brasília se torna suportável. O espetáculo desta semana não poderia ser mais transcendente, metafísico e nem mais emocionante. Pena que as três confrarias não tiveram a idéia de desfilarem juntas numa GRANDE MARCHA...
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Brasília 50 anos: A urbe e o chouvinismo 2.
Por escassez de gente honrada no aqui e no agora, costuma-se ir lá nos cemitérios do ontem desenterrar cadáveres aos quais se atribuiu falsa e interesseiramente algum tipo de heroísmo... Malabarismo melancólico!
A festa continua. São inúmeras as igrejas que instalaram suas sacristias e seus oráculos por aqui. Os coroínhas e os pastores gritam para evitar a dispersão do rebanho. E pelo que se ve a turba comendo e bebendo por aí, somado ao sol demoníaco de quarenta graus e à secura, amanhã os ambulatórios e as clínicas estarão congestionadas... E, claro, faltarão agulhas, seringas, aspirinas, talão de receitas, recepcionistas, médicos...
Brasília 50 anos: A urbe e o chouvinismo 1.
As caixas de som estremecem os ministérios.
Quem vai na lábia das mídias e dos espertalhões acaba acreditando que a festança é mesmo uma genuína manifestação popular de gratidão e de afeto para com a urbe, para com a vila, para com a cidade e sua gente.
Quem vai na lábia das mídias e dos espertalhões acaba acreditando que a festança é mesmo uma genuína manifestação popular de gratidão e de afeto para com a urbe, para com a vila, para com a cidade e sua gente.
Pura propaganda e pura manipulação das massas.
No meio dessa pajelança chouvinista locupletam-se secretamente - e muito - as mesmas panelinhas e os mesmos puxa-sacos.
Talvez realmente falte um índio no poder...
sábado, 13 de março de 2010
POBRES NOCHES DE RONDA...
As noites de Brasília ainda não são como as de Sodoma e Gomorra, mas quase. Já são visivelmente férteis em perversidades. Os bares palpitam. Três ou quatro em cada esquina. Bocas de fumo, reuniões secretas, homicídios encomendados, festas de arromba, inferninhos, cassinos, gerontofilia, espias do Estado e espias das quadrilhas, negócios da China, rituais macabros, missas negras, várias legiões de sodomitas e de niilistas... Lá vem um vendedor de livros por entre as mesas, outro que negocia incensos, rosas, panos de prato, baseados. Uma menina transporta um cesto com chocolates, outra exibe anéis, outros desenham mapas astrais para os boêmios ali mesmo entre as pilhas de garrafas... Uma ida ao banheiro para cheirar um pó. A lua ausente, uma música de fundo, os joelhos de um crápula enfiados entre as coxas de uma funcionária pública e os garçons que riem de duas meninas que se mordiscam as orelhas e de dois bigodudos que aparecem euforicos e vestidos de colombina... Alguém pensou em falar do PIB e acabou falando inadvertidamente do PUBIS. Aliás, o PIB já alterou alguma vez a sua vida? Viva o vandalismo econômico e aritmético de nossos bandidos! E nos arredores do Plano Piloto as chacinas continuam em alta. Essa será a sina dessa gente? Ninguém está disposto a pinçar uma por uma as mentiras de dentro de si? Mas há novidades: uma nova lei sobre gorjetas, eis aí a legalização de uma fraude. Eis aí a semente da propina, dos 10% que levaram o Arruda para o xilindró... A madrugada começa engatinhar e há muita gente bêbada com o suicídio estampado nas faces. Se passasse por ali, Chamfort resmungaria com desprezo: “são pobres que ficaram ricos mendigando...”
http://www.youtube.com/watch?v=y73_l1CZ15k&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=y73_l1CZ15k&feature=related
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
BRASÍLIA - CINQUENTA ANOS DE PODRIDÃO...
A luta generalizada dos políticos, dos empresários e das instituições afins para que não seja decretada uma intervenção no GDF, apesar dos argumentos democratóides, é pura e simplesmente - porque temem que o interventor, como Pandora, volte a abrir o caixote e deixe escapulir o último e mais temido de todos os males que não tem nada a ver com "esperança", mas sim com o mapa completo, colorido e detalhado da bandidagem, podridão que vai muito além do que o populacho otimista e votante pensa. Mas não tenham ilusão! Não há solução. Com interventor ou sem interventor, não haverá solução. A “metastase” – mencionada por um dos ministros de plantão – chegou a tal ponto que só a morte do paciente pode eliminar o mal. E você aí, que passou esse meio século mamando, palitando os dentes e coçando o rabo na varanda, não adianta vir agora querer fazer-se de "indignado", de "vítima" ou mesmo de "guardião da dignidade"...
Ezio Flavio Bazzo
Ezio Flavio Bazzo
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Nem tudo está perdido, Brasília ainda engendrará o seu Nero...
Alguém tocou fogo no cronômetro (foto) que marcava os dias faltantes para Brasília completar cinqüenta anos. O incendiário deixou um pneu queimando na base do negócio e as labaredas fizeram a geringonça entrar em pane. Não apenas a polícia, mas também os “gestores” de turno estão curiosos para saber que mensagens metafísicas e misteriosas podem estar contidas nesse simples gesto... Mas ninguém precisa ficar angustiado por isso, pois a festa estará garantida. Já se gastou uma fortuna com esse propósito, e no dia vinte e um de abril, chova ou faça sol, haverá entretenimentos, pipocas, cantores, metrô gratuito, fogos, desfiles, aviões dando rasantes sobre o lago, orquestras, filmes, exposições, alegrias e teatros para todos os gostos.
Mesmo que alguns “transviados” sigam achando uma bobagem e uma hipocrisia todo esse teatro festivo, é compreensível que aqueles que vieram para cá no princípio, aqueles que até foram lacaios do JK, do Jânio, dos Generais etc., se emocionem com o aniversário da cidade, com os pisca-piscas do palácio, com os sinos da catedral, com o exibicionismo espúrio das elites, com os prédios que cutucam as nuvens, com os paredões de vidro que ofuscam a canalha e com os chapadões estonteantes e imensos de concreto com os quais Niemayer sufocou a terra vermelha do cerrado.
E é sabido que os novos ricos não trocam a cidade por nada, até se ofendem quando alguém a desqualifica, e com razão, pois foi aqui, em tempo recorde, que saltaram da indigência para os bilhões de dólares e do analfabetismo para o pedantismo.
Ah, mas é uma ingenuidade achar que a corrupção é a maior das desgraças desta urbe. Existem outras. O dinheiro é apenas um papel sujo e nojento que burila e infecta os bolsos e as mentes da manada insana. Ainda virão outras, cada uma mais violenta e degradante que a anterior e afetarão mesmo aqueles que não enxergam nada além do garfo.
Ezio Flavio Bazzo
domingo, 9 de agosto de 2009
Há sábados e domingos também na Capital da República
Quando chega a quinta-feira e os políticos voam para suas “bases” Brasília não fica jogada às traças e às moscas, como se pensa. Entram em cena outros sujeitos que, como aqueles, ludibriam, locupletam, enganam e distraem as massas. Há bebedeiras, fumaceira, shows, comilanças, rezas e putarias para todos os gostos. Neste sábado – por exemplo -, montaram na Esplanada dos Ministérios, bem em frente ao Museu da República, uma tenda da Igreja Mundial do Poder de Deus. Quem não foi lá para ouvir o pastor e ver a multidão perdeu a chance de vivenciar as Praças dos Milagres da época tenebrosa de Brueghel. A fala do pastor foi perfeita. Com um fundo musical melancólico e um texto melhor que o de Cioran e que o de Schopenhauer juntos, fez aquele rebanho de humildes, desgraçados e de desconfiados, com os braços levantados e os olhos fechados vislumbrarem uma centelha de esperança. Não no hoje e no agora, lógico, mas no amanhã e lá no Reino dos Céus. Fez literalmente cegos enxergarem, paralíticos saltarem de suas cadeiras, pessoas com tumores curarem-se na hora, bêbados amaldiçoarem a cachaça, surdos ouvirem etc. Desafiou o demônio por várias vezes (ouvi o Demo rugindo no interior de alguns devotos), falou do deserto espiritual (o qual todos haveremos de cruzar um dia) e implorou em lágrimas, ao Senhor para que curasse os diabéticos, os cancerosos, os deprimidos, os viciados, os despossuídos, os loucos e demais infelizes que ali estavam naquela manhã estupenda e ensolarada de sábado. Foi um show para divindade nenhuma colocar defeito. Entrementes, no Museu da República, um pouco mais tarde, houve um festival internacional de bonecos e lá no Templo Budista, além de umas adolescentes esqueléticas dançando música japonesa, uma concorrida soirée de glutoneria. Comer quatro Gyozas mergulhados no shoyu, com a lua atravessando o orbe, não lhes parece o maior dos luxos?Ezio Flavio Bazzo
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Um Réquien ao Cine Ritz de Brasília
Na última quarta-feira a polícia e o judiciário baixaram as portas do quase legendário Cine Ritz de Brasília que vinha funcionando há umas três décadas nas entranhas do Conic. Foi lá que o livro: Prostitutas, bruxas, donas de casa foi lançado pela primeira vez, em 1990. Um barril de chope livre no balcão, uma fila imensa de senhores e de madames no portal de entrada, música, strip-tease e sexo ao vivo no palco. Foi um verdadeiro show. Aqueles que participaram dizem que aquela noite foi a noite mor de suas vidas...Parece que no Brasil há uma maldição rondando o Cine Ritz. Não faz muito fecharam as portas do que ficava no calçadão da Rua XV em Curitiba. O mesmo destino teve o que funcionava na Avenida São João e o que ficava entre a Ipiranga e a Dom José de Barros, em São Paulo. Muitos pelo país a fora tiveram a mesma sina, e a todos se acusou de serem antros de marginais, de putas, bandidos, desempregados, viciados em xotas, pederastas, voyeristas, anticidadãos, cheiradores de pó, ateus, apátridas, loucos, delinqüentes, em uma palavra: seres de hábitos crepusculares. Puro moralismo! Uns, simplesmente viraram esqueletos abandonados, outros se transformaram em igrejas, templos, shoppings, confeitarias etc. Sabe-se que o nome vem do francês César Ritz, dono do famoso Hotel Ritz da Place Vendôme, número 15, em Paris, construído ainda no século XVIII.
É verdadeiramente uma pena que esses locais folclóricos e esses antros bestiais desapareçam de um dia para outro, pela simples ideologia ou pela simples culpabilidade de um ou dois brutamontes. Enfim, parafraseando F. Wheen, o ritual sistemático de acasalamento entre a Justiça, a Igreja e os Falsos Moralistas serviu sempre para confirmar o velho e conhecido provérbio: post coitum omne animal triste est.segunda-feira, 6 de julho de 2009
Brasília: Registros da hora crepuscular
Não é novidade que uma câmera fotográfica pode salvar-nos do tédio dominical em qualquer lugar do planeta. Aqui em Brasília, principalmente, onde a natureza e o próprio universo, apesar dos pesares, têm sido pródigos em coreografias, luzes e imagens. Enquanto o corpo do M. Jackson espera pelo espetáculo ignóbil que os abutres lhe reservam; enquanto o vírus da gripe suína se infiltra nas vísceras dos rebanhos; enquanto o Senado aguarda pela síntese e pelo esquecimento das aleivosias e das infâmias, o mendigo que dorme nos fundos do Ministério da Educação continua repetindo a todos que passam por ele esta dúvida de Montaigne: “haverá algo mais enfático, resoluto, desdenhoso, contemplativo, grave e sério do que um burro?” O domingo já está em fase terminal com o sol e a lua que marcham juntos e indiferentes por cima de nossas cabeças como se estivessem realmente cagando para nossas picuínhas e para o nosso mau caráter. O vento, as nuvens, as sombras, os brilhos, as folhagens, os reflexos, o concreto armado, a luz e tudo o que é visível conspiraram juntos na construção destas imagens que consegui capturar já em pleno crepúsculo.
Ezio Flavio Bazzo




Ezio Flavio Bazzo




quinta-feira, 14 de maio de 2009
Em Brasília, a longa espera do demônio
A parada de ônibus onde um anônimo pintou o demônio (da foto ao lado) fica a uns trezentos metros do local onde funciona uma seita (ou uma nova igreja?) nomeada A Cova de Jacó. Fui à Bíblia - por pura curiosidade - e vi que esse personagem (Jacó) é uma das principais estrelas do Gênesis. Posso estar distorcendo os fatos, mas depois que apareceu esse desenho ali, a parada está sempre vazia. Os frentistas do posto que fica ao lado passaram a levar um patuá ao pescoço e se benzem antes de encostar as mãos na gasolina. Os lixeiros baixam os olhos quando passam pelo local e as velhinhas da quadra só saem de casa para comprar pão e remédios, e ainda assim, sempre com um vidrinho de água benta ou com um escapulário na bolsa. Todo mundodos arredores está ansioso para saber se o governador irá, finalmente, despachar um assessor, a tropa de choque ou os bombeiros para apagar aquela imagem. Mas como todo mundo é esotérico por aqui e todo mundo tem cu, vão deixando o Demo lá, olhando soberbamente para a desgraça cotidiana, certo de que Ele sim é o Cara.É compreensível que o resto do país pense que Brasília é uma urbe da estepe e naturalmente ateísta, mas não há engano maior. Aqui, em cada esquina existe uma seita, uma congregação, um Centro, uma paróquia, algum retirante iluminado que construiu um barracão e passou a vender ingressos para o Reino Dos Céus. Até nos fundos, nas garagens, nos gabinetes, nos banheiros etc., do Congresso Nacional sempre se pode encontrar grupos de oito ou dez pessoas de mãos dadas, em círculo, rezando em voz alta ou dizendo bobagens incompreensíveis uns para os outros. Na Lista Telefônica desta cidade, da página 270 até 272 - para que se veja - são só telefones de igrejas, e cada uma com nomes mais lunáticos e incríveis que as outras. Vejam algumas com nomes mais significativos: Congregação dos Religiosos Terciários; Vale da Benção; Manancial de vida; Evangelho Quadrangular; Vale do Amanhecer; Exército de Salvação; Igreja Santo Cura D’ars; Igreja da Vinha; Perfect Liberty; Lectorium Rosicrucianum; Lumen Dei; Ministério Cristão da Restauração; Mitra arquidiocesana; Movimento Eureka; Oratório Soldado; Padres Estigmatinos; Nossa Senhora Consolata; Sukyo Mahikari; Pronto Socorro Espiritual; Igreja Maanaim; Menino Jesus de Praga; Centro Espírita Cantinho da Fé; Santos dos Últimos Dias; Comunidade Evangélica Boa Semente; Nossa Senhora das Dores; Nova Canaã; Maranata; Sociedade Maçônica Filhos de Salomão; Sindicato dos teólogos confederativos; Shalon; Amor sem fronteiras; Sarca Ardente; Assembléia dos primogênitos; Nossa Senhora da Medalha Milagrosa; Apocalipse Pentecostal; Sara nossa terra; Centro Budista Tibetano; Bom Jesus dos migrantes; Maná Novo; Mil vezes Imaculada etc etc etc.
Parece evidente que se houvesse alguma alternativa depois da morte, qualquer sujeito lúcido apostaria todas suas fichas e suas esperanças no inferno para não correr o risco de ter que cruzar novamente com esses dementes em outro mundo.
Ezio Flavio Bazzo
Recomendo vídeo no endereço:
http://www.youtube.com/watch?v=CF1-IS0yDCs
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Brasília é uma festa
Você que mora aí nos confins do país tem razão sim em seguir acreditando que Brasília é uma Ilha de fantasia. O que você não sabe e precisa saber com urgência é que além das megalomanias explícitas do baronato local, existe também um rebuliço infernal de almas em desespero por aqui, desespero que interliga funcionários fantasmas à imprensa, às cirurgias criminosas, às inundações, ao viagra, às negociatas no Congresso, aos seqüestros relâmpagos e à cocaína, esse pó inocente que além de corroer o nariz da turba lota os ambulatórios de saúde mental. Também é bom saber que a dengue, a tuberculose e a lepra estão mais resistentes do que nunca aqui na Capital da República. Apesar da espionagem institucional sistemática e do policiamento abusivo há tiroteios, assaltos e homicídios praticamente na varanda do Judiciário e nas barbas da Lei. O Primeiro, o Segundo e o Terceiro graus competem entre si em fajutismo, as escolas são cortiços desconfortáveis e se cultua a ignorância por todos os lados, principalmente nas periferias que em nada se diferem das da Idade Média. Demências, aloprações e a inquietude hipocondríaca do rebanho diante da vida e das bactérias hospitalares… Na ante-sala dos médicos o poder das descaradas e demoníacas indústrias de medicamentos…
A máquina pública cada dia mais sonolenta… Covil e usina de melancolia… Uma grande família entediada pelo ócio burro e pela necessidade compulsória de cumplicidade entre os membros. Encubro-te e me encobres OK? Abraços, elogios, cochichos, troca de arranjos e de gratificações. Por mais modesto e suburbano que o sujeito pareça ser sempre têm um tio no Supremo, uma prima no Congresso, um familiar na Procuradoria Geral da República. Os carros impecáveis lotam os estacionamentos e as garagens. O aeroporto está sempre agitado e febril. Os vôos saem lotados todos os dias e para todas as direções. No saguão sempre se ouve alguém gritando no celular e se exibindo:
-Aqui é o assessor do Ministro tal! A secretária do Senador Y! O irmão do Líder do Partido K! O Coordenador do Programa Z!
Vão engravatados buscar um ofício ou um memorando no outro lado do país ou até no exterior. Ocultam-se nas desculpas das velhas e conhecidas “reuniões”, na balela das “consultorias” e nas famosas “supervisões” do nada.
A cidade está repleta de novos personagens. Cada governo traz os militantes de seu Estado e lhes dá uma chefia, um cargo, uma gerencia, uma aposentadoria, um DAS7. Já assisti esse ritual uma meia dúzia de vezes. Vieram os mineiros com o JK, os gaúchos com o Geisel, os cariocas com o Figueiredo, os maranhenses com o Sarney, os alagoanos com o Collor, voltaram os mineiros com o Itamar, os paulistas vieram em massa com o Fernando Henrique etc.
O Lula foi o mais eclético, trouxe gente de todo o país. E é engraçado ver esses neófitos apelidados de “gestores” chegando cheios de empáfia, arrogantes, repletos de sonhos, de autoridade e de pose, com a ilusão de que salvarão a pátria ou, pelo menos, a si mesmos, isto se souberem fazer “um pé de meia” enquanto dure o mandato de seu protetor. Alugam casas cinematográficas, camionetes, fazem academia, mudam o visual, fazem questão de conservar o sotaque, adaptam-se rapidamente aos novos salários, quase sempre cinco vezes maiores daqueles que ganhavam em suas províncias. Congestionam os cafés e os restaurantes caros e pagam por alguns pratos bem mais do que se pagaria por um similar em Paris. E não pensem que vão embora quando o governo muda. Não. Tornaram-se funcionários “estáveis” e chefões influentes. Nos quatro ou oito anos do governo que os trouxe, ganharam notoriedade e muito dinheiro, aprenderam o “caminho das pedras” e não saberiam mais viver lá no meio de seus iguais. Ficam por aqui, viciados ao poder, às grandes reuniões, às bajulações gratuitas e até juram amar esta cidade. Montam um negócio para suas mulheres e nos finais de semana vão aos Estados de origem visitar seus correligionários, fingir cidadania e honradez.
-Onde está o professor tal?
-Foi a Londres fazer pós-graduação…
-E a professora Y?
-Está em Genebra concluindo o doutoramento…
-E o diretor X?
-Está no exterior na reunião do J.16…
-Cadê o motorista do Ministro?
-Está estressado e foi à Caldas Novas repousar...
No trajeto que vai da Reitoria ao Restaurante Universitário duas ciganas com vestidos amarelos, sandálias armênias e lenços vermelhos na cabeça me propõem “la lectura de las manos”. Quase sucumbi à curiosidade de postar-me diante de um oráculo. Mas segui meu caminho como um samurai desvairado, logo atrás de um casal de estudantes de biologia que juravam e demonstravam um para o outro, em total deslumbre, que Brasília é uma grande festa.
Ezio Flavio Bazzo
sábado, 4 de abril de 2009
Il barbiere di Siviglia, Niemeyer e Gulliver
A longevidade do Oscar Niemeyer é uma prova cabal de que as pragas e as maldições não servem para nada... Do contrário, já não teríamos mais notícias nem de suas cinzas e muito menos de seus ossos.
Faço essa reflexão ao sair do Teatro Nacional Cláudio Santoro projetado, como quase tudo nesta cidade, pelo ilustre arquiteto Niemeyer. Pretendia ver Il barbiere di Siviglia até o fim nesta noite chuvosa de sexta-feira, mas não foi possível. O espaço entre uma cadeira e outra parece ter sido projetado para anões ou mesmo para os liliputianos. E nem precisa ser um ancião para sentir o sangue se coagulando nas curvas do joelho ou nas artérias que descem pelos calcanhares e nem para sentir as pernas inteiras amortecendo. Só uma múmia conseguiria estar ali quieta por mais de vinte minutos. A precária circulação sanguínea pelos pés faz a pessoa ficar procurando uma posição mais confortável e mais adequada durante a ópera inteira. Ou colocam-se os sapatos sobre o veludo da poltrona do lado ou se enfia o joelho na nuca do sujeito que está a nossa frente. Não dá para entender porque idiotices desse tipo ainda são edificadas. Tenho certeza que já em 1816, quando esta peça foi encenada por primeira vez, os romanos a assistiram num teatro muito mais espaçoso e em cadeiras muito mais confortáveis.
Qualquer camponês que tivesse sido consultado teria dito ao genioso arquiteto: Que as cadeiras possam ser inclinadas suavemente e que seu ocupante possa espichar ou cruzar as pernas, tirar os sapatos e ficar realmente à vontade. Do contrário, como vai concentrar-se no violino, na flauta e na mise-en-scene do maestro, doutor Niemeyer? Com a sensação de uma eminente trombose na altura das panturrilhas ou de que suas pernas já foram amputadas, como vai prestar atenção às flautas, aos oboés, aos clarinetes aos fagotes e ao violoncelo, senhor arquiteto? Como fará a tradução simultânea do canto de Rosina ou das intrigas do Fígaro, ilustre mestre do proletariado? Não, não é possível submeter-se gratuitamente a uma idiotice dessas, uma vez que cinqüenta por cento do prazer do espetáculo está perdido de antemão e uma boa parte da libido, até dos menos exigentes é contaminada por essa cólera legitima que explode em nossos nervos contra o sádico que orquestrou e executou essa câmara de tortura.
Por coincidência, o primeiro ato termina com alguém cantarolando fredda ed immobile... fredda ed immobile, como se estivesse fazendo referência às minhas e às frias e imóveis pernas da platéia. Poder levantar-se e sair cambaleante no meio da chuva foi a glória e a maior de todas as apoteoses.
Ezio Flavio Bazzo
Ezio Flavio Bazzo
domingo, 22 de março de 2009
A saga das candangas invisíveis
Fui ao Museu Vivo da Memória Candanga – lá pelos lados dos motéis – para assistir ao curta metragem: A saga das candangas invisíveis, documentário sobre as mulheres que, supostamente, teriam sido “mulheres da vida” ou putas, no princípio da construção de Brasília. Foi um dos melhores programas que poderia ter feito neste sábado. O auditório estava lotado. Quase só mulheres e de todas as estirpes. Havia professoras, historiadoras, Secretárias de governo, jornalistas, cineastas, psicólogas, feministas, especialistas em gênero, antropólogas, chefes de Ongs, curiosas e até senhoras sem nenhum atributo. Do lado masculino, também havia historiadores, arquivistas, escritores, pioneiros, estudantes, gays, senhores mudos e bem comportados etc. todos dispostos a dar sua contribuição para a construção da história daquelas “pobres coitadas” que teriam vindo à cidade lá pela década de 50 para saciar os instintos perversos, animalescos e macabros dos peões de obra e até mesmo de alguns políticos grãfinos. O filme foi singelo, mas a discussão foi estupenda. Comparado, o samba do crioulo doido seria pouco. Mas mesmo assim, no final, todos foram unânimes em afirmar que é com esses monólogos neuróticos e com essa verborréia intelectualóide que se construirá a história e o saber. Cada um que tomava a palavra lançava logo seu clichê. E sabemos que cada profissional tem o seu. Conhece-se de olhos fechados quando o sujeito que fala é jornalista, historiador, antropólogo, médico ou o que quer que seja. Como as “profissionais do sexo” eram poucas naquela época (segundo o filme) enfatizou-se as filas imensas de “bestas feras” a espera de sua vez. Todo mundo da platéia se horroriza ao ouvir as intelectuais e feministas relatando e repetindo que algumas mulheres tinham que trepar com até cinqüenta homens numa só noitada. Que as camas se despedaçavam, que havia sêmen nas paredes, que apesar do arame farpado para proteger a honra das casadas, assim mesmo alguém sempre pulava a cerca. A mulher esperneava, gritava, mas cedia... O barulho dos martelos e dos tratores sufocava seus gritos, de pavor, lógico. A médica que se intitulou feminista fez o relato de uma sua paciente ou confidente que mencionou uma pomada para aliviar as dores. Disse que chegou a ver as “partes íntimas” da prostituta e que realmente estava tudo inchado e ferido. Passava a pomada, respirava, descansava uns quarenta minutos e voltava à luta, porque lá fora a fila andava devagar e a peãozada já estava de pica dura. Faziam horas extras como os pobres operários lá nos prédios recém iniciados – lembrou a antropóloga. Uma das ex-putas do documentário afirmou que o próprio Juscelino ia com freqüência na tal de ZBM (Zona de Baixo Meretrício). A platéia, mesmo os idólatras engoliu em silêncio essa revelação da carne, menos um Diretor de Arquivo que quando tomou a palavra desqualificou as palestrantes e o filme, jogando cinzas sobre a tal de história oral. Não disse explicitamente que as putas haviam mentido, mas insinuou que as discussões estavam sendo feitas sobre bobagens e ignorância a respeito da história e mesmo dos bordéis. Ele que conheceu tudo de perto fez uma descrição topográfica interessante. Disse que nos puteiros X e Y as putas só faziam Papai/Mamãe, mas que nos puteiros Y e Z havia sodomia e até outra coisa que não consegui entender. O circo quase pegou fogo nesse momento. Alguém - como era de se esperar - lembrou que a sociedade é patriarcal. O senhor se acalma e as palestristas fazem pose. Um outro senhor que disse ser surdo tomou a palavra e fez uma homenagem às putas. Invisíveis não foram as putas, mas as donas de casa! Disse que sem elas a cidade não teria sido construída, que ele próprio foi cliente (porque precisava de mulher e ainda precisa apesar de seus 75 anos). Foi aplaudido por cinco ou seis pessoas que já o conhecem. Vendo as chamas ameaçando o evento, uma senhorita que se apresenta como historiadora faz uma rápida síntese do que estava acontecendo para logo em seguida exibir sua sapiência em forma de pergunta. A diretora do filme toma a palavra e aproveita para tentar explicar o inexplicável. Outra professora toma o microfone e diz o óbvio. A Secretária faz um pequeno discurso ideológico. Uma das palestristas, a que fez uma tese de mestrado sobre as putas e que disse ter nojo de pensar naquele bando de homens enfiando o sêmen numa mesma mulher, estava acabrunhada. Deve ter identificado na fala de alguma das raposas mais velhas alguma crítica intolerável para suas pretensões acadêmicas ou coisa parecida. O clima está ótimo. O sujeito que escreveu um livro sobre cafetinas (e que vai autografá-lo depois do evento) tomou a palavra para relatar sua epopéia pelos bordéis e o quanto foi difícil e extenuante o acesso às tais empresárias do sexo. O que, aliás, é crime lembrou ele, mencionando o nosso honroso Código Penal. Elogiou a todas as palestrantes como um perfeito homem intimidado e cordial e voltou para seu canto. A psicanalista faz sua parte. Como as outras senhoras defende as pobres mulheres da noite. Lembra que todos temos as nossas perversões secretas e que em questões sexuais ninguém é santo. Praticamente todas parecem defender a causa das putas. Citam a Holanda, a Dinamarca etc, onde elas são profissionais iguais às das fábricas, das lojas de cosméticos, dos ministérios, das universidades etc. Sinto que lutam com unhas e dentes para ocultar e para não desbundar no viés feminista, mas sempre que mencionam o tesão e a sexualidade masculina o fazem como se ela fosse uma distorção cultural ou então gerada pelo mundo capitalista. A vontade masculina de foder parece ser para elas uma anomalia, uma tara fora de controle que deve ser manietada e constrangida – nos mesmos moldes que foi a feminina durante séculos. Os homens presentes estão de joelhos e de cu apertados. Há alguma prostituta presente? Perguntou a coordenadora do evento. Ninguém levantou a mão. Uma menina bem jovem e nitidamente neurastênica caminha de um lado para outro esbravejando contra o sujeito careca que disse ter chegado recentemente de Nova Iorque e que estava assustado com o discurso feminista vigente e com a ingenuidade das declarações das palestrantes. O circo pegou fogo. Resmungos, impropérios, histerias. Uma professora palestrante tomou a palavra e lançou contra o sujeito o discurso clássico e falacioso dos anos 60. E a platéia aplaudiu. As chamas se espalham. Os bombeiros aparecem. Bom gente... Vamos ficar por aqui hoje??? A Secretária tomou a palavra novamente para fazer o clássico e burocrático “fechamento” e aproveitou para relatar que esteve na Nicarágua, que trabalhou com as putas de lá que se regeneraram após a revolução etc. Disse também que mulheres de países nórdicos, (loiras como ela) costumam ir para uma determinada ilha do Caribe para prostituir rapazes morenos etc, etc. Aí as feministas engoliram em seco, mas enquanto buscavam no adestramento acadêmico alguma teoria pós conceitual que justificasse aquela "imoralidade", muita gente já estava em pé. O sujeito sentado ao meu lado estava louco para lembrar a teoria de Engels de que a puta da rua só se difere da puta do lar porque vende seu corpo a muitos por instantes, enquanto que a puta do lar o vende a um só para toda a vida. Também gostaria de lembrar que muitas daquelas putas que o filme mencionava enriqueceram às custas de apropriarem-se dos míseros salários daqueles pobres e desamparados trabalhadores. Cochichou-me que na atualidade as putas vão aos garimpos e em troca de uma trepada mixuruca, em pé ou atrás de uma árvore arrancam do garimpeiro a única pepita que ele precisou um ano para encontrar... Mas o tempo havia acabado. Em síntese, foi um show. De todos aqueles umbigos enrolados uns aos outros se constatou novamente que tanto a repressão sexual como a distorção intelectual de nossos pensadores é muito mais grave do que se imagina. Que o diálogo não é coisa fácil e que a tendência é o mundo morrer sufocado e atormentado por monólogos intermináveis, quase todos fundamentados nas neuroses, nos medos e nos transtornos de personalidade de cada um dos bem intencionados (ou não) monologantes.
Ezio Flavio Bazzo
Assinar:
Postagens (Atom)








