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domingo, 27 de fevereiro de 2011

MÃE É MÃE... VACA É VACA...

Depois de terem enlouquecido suas vacas (lembram das vacas loucas?) agora os ingleses inauguram uma sorveteria a base de leite materno. Como aqui no Brasil onde lá pelos anos 70/80 os mendigos faziam fila diante dos bancos de sangue para trocarem um ou dois litros de plasma por cachaça, muitas mulheres de lá, para ganhar uns trocados, estão esvaziando suas tetas nas geladeiras do The Icecreamists ali pelos lados do Covent Garden. É natural que os moralistas fiquem chocados com esse tipo de negócio, mas é só até lembrarem que os miseráveis sempre venderam e os mercenários sempre compraram de tudo por aí e a preços módicos: córneas, himens, rins, sêmen, cabelos, óvulos, órgãos, corações, medula, ossos, habeas corpus, cordão umbilical, crianças e até mesmo a "alma". Você que não foi amamentado na infância e que costuma passear por lá, tem agora a chance de compensar e até mesmo de ressignificar essa falta. Por umas dez Libras uma garçonete fantasiada de Lady Gaga lhe servirá uma taça na cor e no sabor desejado. Veja o video abaixo produzido pelos sempre melodramáticos descendentes de Dante...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

ROMA: HOJE PODE SER O FIM DE BERLUSCONI (Non ho mai visto un porco diventare vecchio, ma ho visto un vecchio diventare porco!» )


Réplica: «Le donne che scendono in piazza sono figlie di quelle che nel '68 invitavano a fare l'amore e non la guerra. Oggi fanno la guerra a chi fa l'amore. E una sinistra disperata». (palavras de Francesco Storace, Secretario Nacional da direita italiana)




quinta-feira, 2 de abril de 2009

A felicidade e a corja do G20


Enquanto você está aí comendo seu churrasquinho de gato no fundo de um barracão, na fila da CEF tentando comprar um cortiço (em trinta anos) onde enfiar tua família ou simplesmente gastando a vida para ganhar a vida, a corja do G20 está novamente em sessão extraordinária. Agora em Londres, mas ontem foi em Roma, antes de ontem em Paris, NY, etc. Alguns estudiosos que conheço gostam de assistir e de analisar a premiação do Oscar na busca de uma explicação para a cretinice do mundo. Eu, sinceramente, prefiro essas reuniões do G20; as do Grupo dos 8; as do Mercosul; as dos Países Emergentes, dos Alinhados, dos Desalinhados etc. Sinto que ali posso identificar com mais facilidade os DNAS da gatunagem, da mentira, da hipocrisia, do poder delirante e mesmo do monarquismo travestido. E a canalhice não se resume no sujeito que aparece lá, enfileirado, sorridente e de braços dados com os outros 19. Não. O verdadeiro festim acontece com o pessoal que está na retaguarda. Cada um desses “estadistas” leva atrás de si uma corja, um exército, um batalhão de bajuladores, carregadores de malas, limpadores de botas, lavadores de cuecas etc. No mínimo trinta funcionários da diplomacia, parentes, amigos, lobistas, esposas, amantes, histéricos voluntários, médicos, psicólogos, uma mídia particular, massagistas, policiais, adidos disto e adidos daquilo e até padres. Muitos desses políticos gananciosos e salafrários têm horror só em pensar na hipótese de bater as botas sem receber a extrema-unção e sem tempo para pedir perdão. Lotam os hotéis cinco estrelas, os restaurantes e os cafés mais chiques, Fingem que estão sempre apressados, que são importantes que vão mudar as bases desta sociedade infame... E enquanto os que correm pra lá e pra cá com seus crachás, celulares e com seus computadores dão sustentabilidade ao teatro da sobriedade internacional, as madames deste ou daquele executivo vivaldino que conseguiu infiltrar-se na comitiva, chamam um táxi e vão à Oxford Street fazer compras. Os homens preferem ir à Jermyn Street e desbundam em gravatas, paletós, perfumes e lencinhos para a intimidade... Só voltam para o hotel quando a noite começa a cair sobre os arranha-céus e sobre o Tamisa, hora em que os lamentos do Big Ben se fazem mais audíveis.

Nas suítes, banhos, massagens, elogios mútuos, puxa-saquismo. Um champanhe para comemorar a fala de nosso chefe! Cumpliciam-se no engodo, no engano na adulação astuciosa e na mentira para amenizar a culpa pela gatunagem. Daqui a pouco é hora de cair na noite. Uns gabam-se de já serem freqüentadores antigos da boate Neighbourhood. Outros vão à Turnmills. A grande maioria bota um brinquinho e vai rebolando para a Egg. Um punhado de Euros no interior do paletó e o Cartão Corporativo embaixo de um copo.

Pois é, e você que está aí palitando os dentes depois de devorar teu churrasquinho de gato, não adianta espernear. Estes são os jogos legítimos e as manobras clássicas da República ou, se preferires, dessa monarquia dissimulada. Sim, a revolução francesa serviu para isto: travestir aquele circo neste.

Amanhece. Todo mundo está visivelmente feliz e encontram-se no café antes de reiniciarem o teatro lá no auditório do G20. Uma das madames com olheiras imensas recita para seu acompanhante esta frase de Samuel Johnson: - Acorda meu bem... “Quando um homem está cansado de Londres, está cansado da vida”.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O exotismo delirante do mundo


O mundo está realmente cada vez mais exótico, fascinante, estressante, delirante, com o pulso cada vez mais acelerado e idêntico aos tenebrosos nosocômios do passado. A ruína do sistema financeiro internacional – por exemplo - que sempre foi um sonho de todos os libertários dos anos setenta acaba de acontecer. O Senador Jarbas Vasconcelos acaba de descobrir, estupefato, que seu partido é um ninho de víboras interesseiras e de corruptos. O primeiro ministro das finanças do Japão apareceu cheio de tragos para a reunião do G7. Uma brasileira em Zurich se tatuou o corpo com um estilete e tentou culpabilizar os carecas Nazis, trazendo à tona as discussões seculares sobre os rituais e os mistérios da histeria tão exaustivamente descritos pelo velho Charchot e pelo Monsieur Freud. Um professor é despedido na periferia de Brasília porque deixou seus alunos ouvirem uma música que insinuava o lesbianismo da cantora. Um apartamento de bosta custa trezentos mil euros no DF. O veterinário da esquina quer fazer um exame de sangue em meu cachorro antes de prescrever-lhe um carrapaticida. Os funcionários públicos continuam digladiando-se por uma mesa e por duas folhas de papel; alguns corvos derrubaram um avião nos EEUU; O Sr. Chaves poderá manter-se no poder até a eternidade... Os três mil prefeitos que estiveram fazendo demagogia na cidade, na semana passada, inflacionaram não apenas o mercado de táxis, mas também o da prostituição. Vargas Vila estava correto. Viver é prostituir-se! A vida mancha!


Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Será possível seguir fazendo poesia depois de Gaza?


O massacre consentido que Israel vem promovendo na Faixa de Gaza nesses últimos vinte dias, têm servido para reafirmar, além do espírito vil da espécie, duas questões importantes: uma, que os grandes carrascos geralmente são sobreviventes de uma chacina e outra, que o caráter que rege os organismos reguladores internacionais é o mesmo caráter frouxo e embusteiro das cortesãs. Verborréia para cá e verborragia para lá, a verdade é que todo mundo se caga de medo de criticar Israel e de ser considerado antissemita. É curioso que o silêncio a embromação e a demora de intervenção das nações diante dessa carnificina miserável em Gaza foram exatamente os mesmos durante o período em que os soldados do III Reich humilhavam, matavam e queimavam judeus e ciganos em seus fornos. Lá todo mundo se cagava de medo de Hitler e postergaram a intervenção até que as estatísticas registrassem seis milhões de cadáveres, aqui, o pacto diplomático é que chegue pelo menos a mil e quinhentos. A indiferença é generalizada. Os professores seguem dando suas aulinhas, os gestores rebolando e gastando seus vinte mil nos shoppings, os padres fazendo suas "prédicas" caducas e os poetinhas indo perfumados e onanisticamente as soirées. A propósito, foi Adorno que, em sua época lançou a pergunta: será possível fazer poesia depois de Auchuwitz? Será que no meio dessa alienação decadente e dessa submissão ignóbil alguém se perguntará se será possível fazer poesia depois de Gaza?

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A democracia dos babacas


Curiosa e maligna a insistência da mídia a respeito das "estrições democráticas" e das "censuras" vigentes no Estado chinês. E não faço esta observação movido por algum tipo de nostalgia ou de romantismo maoísta, mas por compreender que essas opiniões e essas críticas, mais libertinas que liberais, a respeito daquele país, estão fundamentadas num mal entendido. Baseadas numa crença equivocada e pueril de que nossa democracia sim é que é plena e verdadeiramente transparente e, que, portanto, pode servir de modelo para alguém. Ora, que demonstração de ignorância! Os arroubos de autopromoção a respeito da nossa suposta liberdade, os panegíricos em torno da pretensa visibilidade social, da presunção de que nossas políticas são plenamente republicanas etc., são bobagens e miopias que não convencem praticamente a ninguém, uma vez que vivemos em plena guerra fratricida e em descarada liberdade condicional. Uma vez que a tal transparência acaba no guichê do primeiro órgão público, na mesa de qualquer gerentezinho de banco ou no balcão de qualquer delegacia de polícia. E depois, todos somos testemunhas de que as últimas décadas foram pródigas em obscurantismos e em transações veladas neste país, e que o Estado, com seus respectivos poderes, tem sido mais um esconderijo, uma caixa preta e um bunker de segredos ideológicos e mercantis do que outra coisa.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O veneno público e a eutanasia


Finalmente o Tribunal de Milão colocou fim à grotesca situação da mulher que vinha sendo mantida em estado vegetativo há 16 anos. É curioso que o Vaticano continue insistindo em seus argumentos teocráticos e que a eutanásia ainda seja um tabu, logo na Itália, onde sabemos, já no ano 200 o romano Claudius Aelianus mencionava o veneno público que era distribuído pelo senado de Marseille àqueles que, por uma razão convincente, desejassem morrer e o solicitassem. Por outro lado a Cúria Papal tem obrigação de conhecer a tese de Lucaine, segundo a qual, para tornar os homens presos à vida, os deuses lhes ocultam o prazer e as delicias da morte.


Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 28 de agosto de 2007

As razões dos incendiários


Se desde Dionísio e de Sócrates já se desconfiava que os gregos não eram lá muito normais, agora, com a onda de piromaníacos querendo incendiar a Grécia inteira, ninguém tem mais dúvidas. Um milhão de Euros para quem caçar um piromaníaco e sua caixa de fósforos. Não será fácil. E os motivos que movem esses incendiários são sempre os mais diversos.

Os advogados e as polícias têm hipóteses semelhantes; os psicanalistas continuam insistindo que é a libido bloqueada provocando faíscas; os psiquiatras juram que umas gotas de rivotril teriam prevenido o desastre; os cínicos afirmam que é Prometeu devolvendo o fogo aos deuses; os crentes lembram Nero e Roma e dizem que são as profecias saídas da caverna de Patmos e o prólogo do fim dos tempos; os sociólogos repetem a lengalenga da alienação, das lutas de classes e do Reichstag na Alemanha; os ecologistas associam o gesto dos piromaníacos às suas teorias catastrofistas; os ricos dizem que é pura obra da marginalia, enquanto a marginalia acusa os ricos de estarem usando o fogo para tentar livrar-se da plebe suburbana etc.

Sim, há hipóteses e crendices para tudo neste mundo. Existem até aqueles que decepcionados com o andar da carruagem afirmam descaradamente que se o planeta inteiro pegasse fogo, salvariam imediatamente o fogo.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

As pernas semi-abertas da América Latina


"Que alguien haya nacido, haya vivido, haya muerto, haya desaparecido sin dejar más direcciones que la del cementerio, es ahí donde reside para mí la esperanza".[1]

Jankélévitch

Diablo Rojo, Ciudad de Panamá, 2006. Por mais idealista, otimista, guevarista, fidelista,.gandhista, revolucionário etc, que alguém possa ser, quando tira os cotovelos da janela e o traseiro do sofá para perambular pela América Latina, não terá outra alternativa senão concluir, desolado (e enojado) que tudo isto aqui, apesar do histrionismo e das mentiras dos caudilhos, das estatísticas dos carecas do BID, e das esperanças dos bispos de Cuernavaca, continua sendo uma cloaca amorfa onde a vida foi e é cotidianamente sucatada e onde as populações, aos pedaços, não sabem o que fazer para interromper o processo doentio de autoflagelo e de auto-destruição em que estão mergulhadas. O barulho, o trânsito, a desordem, a insalubridade, a hipocondria, a indigência generalizada, as intrigas interpessoais, a reeleição secular de corruptos, o delírio de ser algo não sendo nada, a fúria, a gatunagem e a crença na República e no sobrenatural são os instrumentos mais comuns desse autoaniquilamento e dessa Idade Média que insiste em não acabar.

Santo Dios, eso no es verdad... es un odioso concepto burgués! Esbraveja um sindicalista decadente (aliado ao governo) com o bigodaço de Stalin e que não quer abrir mão dos privilégios clandestinos e da mamata do ofício.

Dios mio! Resmunga também indignado e ofendido um Zapatista desempregado e formado em filosofia que, aliás, já foi funcionário de uma multinacional e que só virou "revolucionário" depois que foi demitido. A filosofia acadêmica? Talvez por causa dela Rousseau chegou a dizer que odiava os livros, "só ensinam a falar daquilo que não se sabe".

Virgem de Guadalupe! exclama uma beata ignorante que idolatra abertamente a família Bush, os norte americanos e os estrangeiros em geral e que acredita piamente que a Santíssima Trindade é Colombiana e que a América Latina só não é um paraíso por causa dos pecadores. Quando percebeu minha descrença citou esta frase de Gustave Thibon: "No se escapa a Dios. Quien rehúsa ser su hijo sera eternamente su símio".[2]

Santo Jesus! Exclama um outro sectário, este, Boliviano, direitista, nacionalista, que sempre odiou a K. Marx e que é amante incurável das "eleições democráticas", do subdesenvolvimento e dos dejetos que correm sob as nuvens desde a Tierra del Fuego até as mais longínquas e caóticas províncias mexicanas. A uma de minhas indagações sobre como combater a indigência instituída secularmente na América Latina, respondeu-me, curiosamente, com este pensamento de Artaud: "Cuando veo em Karl Marx o en Lenin la palabra espíritu, yo me digo que hay mugre y revoltijo inmundo y que Dios le há chupado el culo a Lenin y que es así como há pasado siempre..." Os personagens de esquerda e de direita que até os anos 80 eram identificados de longe, agora não são facilmente distinguidos. Um chavão aqui, um fanatismo ali, uma insinuação xiita acolá, idéias ambíguas por todos os lados, revisionismos incompreensíveis e irreais etc, que, na verdade do dia-a-dia os iguala e os confunde como se fossem os mesmos tipos de cães, apenas com coleiras diferentes.

Ciudad de Colón, 2006 (foto do autor)Sorte que encontrei também um cético. Estava no hall principal do cassino que fica junto ao Hotel César Park olhando para centenas de jogadores diante dos caça-níqueis ou das roletas. Aproximou-se de meu ouvido e proferiu:

- Queres saber por que a América Latina está a merda que está? Olhe para esse bando de idiotas. Todos corruptos aqui ou lá em seus países que vêm tratar suas contas clandestinas neste paraíso fiscal e aproveitam para se divertir com o dinheiro rapinado... Aquele chinês ali, que parece um Lhasa Apso, é traficante de meninas da Colômbia, da Nicarágua, da Costa Rica etc, para a prostituição daqui. Aquele mulato ao seu lado é chefe de uma gang que traz ônibus velhos dos EEUU para cá. Aquela mulher gorducha é a chefe de uma quadrilha de colarinho branco que cobra propina dos navios que entram no canal. Aquele outro é alto funcionário de um ministério brasileiro, aquele outro é ministro argentino, aquele outro é chefe de uma Ong Colombiana, aquele magricela engravatado é pastor e deputado no Equador etc, etc. Todo o dinheiro que é injetado pelo BID, pela UNESCO, pela ONU, pelo UNICEF etc nos governos, nas Ongs e em outros organismos públicos da América Latina é sistematicamente desviado para partidos, famílias, gestores, executivos, lideres religiosos etc... E é por isso que na América Latina inteira as escolas são um lixo, os hospitais são um lixo, as condições de trabalho e de moradia são um lixo, a vida na caserna é um lixo, os açougues são um lixo, o judiciário é um lixo, a vida privada é um lixo, as prisões são um lixo, o parlamento é um lixo, a burocracia é um lixo, o caráter das pessoas é um lixo... Só se salvam as zonas "nobres", as agências de mármore das financeiras, das multinacionais e as famílias dos executivos que nelas atuam, vivendo como paxás em suas vilas e com seus carros blindados, rapinando mão de obra quase gratuita, servindo de testas de ferro para os corruptos da América inteira, seduzindo e prostituindo as filhas da plebe e comercializando porcarias desnecessárias com os autóctones. Zona Franca? A única zona franca que conheço é a zona de meretrício! Setenta e seis bancos para quê? Vinte e uma universidades para quê, se o chocolate, o chá, os biscoitos, o fio dental, o rum, o cigarro e até o papel com que as mães de família nativas limpam o cu, o próprio e o de seus filhos, ainda é produzido por multinacionais alemãs, gringas, belgas, francesas, espanholas...? Mesmo assim, nesse frenesi neurótico, as mil e uma Ongs e associações revolucionárias com seus impostores, (supostos voluntários e heróis) acreditam estarem semeando franciscanamente os grãos de uma política social libertária, quando na verdade estão apenas ganhando seus trocados, fazendo teatro e religião. E o religioso –não podemos esquecer – é aquele sujeito cínico que, por ter consciência de sua deslealdade para consigo e para com os outros, tem que inventar sistematicamente um deus para prostrar-se e para desculpar-se.

Já na rua, fico pensando o que diria o homem de Neandertal se entrasse num destes ônibus conhecidos por "diablos rojos", (trazidos como sucatas dos EEUU) com sessenta ou setenta idiotas se sufocando e se acotovelando mutuamente e por nada?

Aliás, os cassinos não mudaram em nada suas programações em função do incêndio de um deles, ontem, a uns mil metros do famoso Crawn. Já são dezoito os mortos. Morreram queimados. Não havia porta de emergência.... O ar condicionado é novamente o vilão. Acreditem, não é só burrice o que massacra e tortura a América Latina, é ódio inconsciente contra si mesmo. Todo latino sonha com seu próprio aniquilamento e com sua própria incineração, de preferência vivo, os olhos virados como os de Santa Tereza, e com um padre lhe administrando a extrema-unção. Parece um horror? São as pernas semi-abertas da América Latina. Vejam os filmes, vejam os livros, vejam as músicas, vejam os governantes, vejam a idolatria popular pelos prevaricadores, vejam os tipos que circulam por aí boxeando, rebolando, gatunando, rezando, discursando, futebolando, emigrando ou se doutorando...

Também já são uns cinqüenta os mortos por envenenamento aqui no Panamá. Foram envenenados por um xarope contaminado por dietilenglycol que é distribuído gratuitamente pelo Seguro Social Panamenho... Não seria esta a verdadeira, macabra e secreta função do Estado?

Dios mio! Desculpam-se os médicos, os químicos e os burocratas responsáveis com suas caras de eternas vítimas. Yo no he visto alma más dolorosa que esa grande y dolorosa alma española, toda la tristeza árida de sus campos castellanos se conglomera en ella. Aun su carcajada es triste[3], dizia vargas Vila.

Obesidade, fumaceira, loteria, casas de penhora, touradas, construção de mais cassinos, a luta e o sonho de ir "vencer" nos EEUU ou na Espanha, a businadinha clássica dos taxistas, os shoppings lotados e o ar condicionado quase a zero graus que ainda será usado, como o dietilenglycol para eliminar os rebanhos... Mas nada que aflija verdadeiramente, pois por aqui há um pensamento que diz: "el que se aflige, se afloja".[4]

Parte antiga da Ciudad de Colón (foto do autor)É notícia de primeira página a santificação Papal de um bispo mexicano... Ninguém se dá conta que, comicamente, a relíquia apresentada foi um osso. Por menos que se queira, tudo isto lembra a catadores de papel corrompidos pela escravidão e tudo huele a muchedumbre.

Fizeram um plebiscito para saber se aumentam ou não o Canal que une o Atlântico ao Pacífico. Como isso só beneficiará realmente os grandes armadores, comerciantes e milionários, setenta por cento da população, ingênua e impotente, se absteve de ir às urnas. Mas como o projeto foi aprovado assim mesmo, serão eles, esses pobres eleitores que amanhã estarão lá trabalhando como escravos para os magnatas. Pouca gente sabe que o pintor Paul Gauguin, antes de ir para o Taiti (sempre confundo Taiti com Haiti) trabalhou na construção do Canal do Panamá. Por pouco não foi fisgado pela malária. Viveu ali na Ilha de Taboga.

Disfarçado de cupido negro o vendedor de rosas aparece novamente no mesmo restaurante e faz a mesma mise-en-scène de ontem. A moça a quem oferece uma rosa abre abobalhadamente os maxilares e seu acompanhante deposita na mão do ladino uma nota de um dólar. Só agora percebo que tem vários dentes de ouro. Ele próprio me relata que os povos antigos da mesoamérica incrustavam jade em suas arcadas e que isso dava um poder oculto aos seus dentes.

A sacralização e a mistificação das mães nesta pobre e ensolarada América Latina. Por que latina e não hispânica? As loterias, a sorte, a esperança, a fé, o otimismo, as fábulas, o barulho, o calor, a malária, a dengue, o artesanato nas calçadas, a corrida interminável atrás do dinheiro, do sexo, da rumba, do matrimônio... Na mesma catedral em frente ao cassino Crown, com seus sóbrios mosaicos, uma seqüência de casamentos, crismas, batismos e até exéquias... "Esas pompas de jabon – diria Nizan - que inflan los viejos pensadores estallan al soplo del viento que atraviesa los pátios de las fábricas e los bulevares desolados de los Barrios obreros..." [5]

Um arroz con pollo, tamal e tajada. Lá longe uma dúzia de arranha-céus sendo construído pelos gringos. O capital de construção é gringo o capital hoteleiro é espanhol. E algumas pessoas falam da colonização como se fosse coisa do passado.

Escolares engravatados, um pastor vendendo gel bento do Egito, frases moralistas na fachada dos ônibus, o maior boxeador panamenho desfilando sorridente em carro aberto pelas avenidas esfumaçadas. Como é que esses analfabetos não enrubescem? Pierrot crucificado e furioso que faz caretas de riso para não explodir em soluços, diria Vargas Vila. Americanos aposentados, uma mulher chamada Clistel, canhões que lembram mais a miséria humana do que alguma eventual honraria. Espantalhos. Nada é mais chocante do que ver um índio engravatado, fardado ou de batina, e nas avenidas, os "diablos rojos" soltando fuligem por suas robustas chaminés. Por mais nacionalista que o sujeito seja, toda essa desolação meio paraguaia faz qualquer um preferir viver num chambre de bonne[6] em Paris, com setecentos euros por mês, do que viver como um magnata por aqui.

Que tal a Playa Gorgona? Que tal as Cabañas de las Hadas? Que tal o final de semana no Resort Decameron? Por todos os lados charlatanismo e acefalia intelectual. As índias kunas vendendo as tais molas (trajes) na calçada. No passado andavam nuas com esses desenhos pintados no corpo. Foi em 1700 que os huguenotes franceses as obrigaram a cobrirem as partes.

Notícias dos Nukak Makú, lá na Colômbia, o último grupo aborígine nômade do mundo. Os bêbados estrangeiros em pé, no bar dos hotéis, com suas meretrizes grudadas em seus bolsos e nos botecos mais fuleros, os mendigos, lúcidos como hienas estendendo-me seus braços ociosos e quase sem veias. Hay que suprimir a los mendigos – dizia a parte infame de Nietzsche – porque uno se irrita de darles y se irrita de no darles...[7]

Ezio Flavio Bazzo