quinta-feira, 23 de julho de 2026

terça-feira, 21 de julho de 2026

MARIA REMÉDIO DEL VALLE, a negra considerada mãe da pátria Argentina... (Uma aula espetacular sobre a história do genocídio dos negros naquele país...)

 




















FEMINICIDIO: (A pedagogia da desolação...) E a luta continua...



"... O carvão se ri da cinza, sem saber que lhe 

espera a mesma sorte..."

Provérbio Masai







Nesta manhã de terça-feira, a velhinha armênia, sem o tradicional lenço italiano na cabeça, estava inflamada ali no mercado de legumes. Discutia com outras mulheres e até com vendedores homens, além da noticia da mulher que ontem disparou um tiro na cabeça do marido, também sobre um "novo" programa de televisão que promete dedicar-se profundamente ao combate da misoginia e do feminicídio que, para vergonha da espécie, têm se tornado quase uma epidemia, não apenas aqui na cidade, mas no mundo. As opiniões, (coerentes, contraditórias, eruditas, analfabetas, malignas, beatas, policialescas e antropológicas, vingativas e amistosas, amorosas e odiosas), surgiam, angustiadas de todos os lados e de todos os tipos. Umas mães, descaradamente misóginas, defendiam as agressões de seus filhos contra suas esposas e amantes, outras lamentavam o dia-a-dia, as ameaças e as agressões sofridas por suas filhas, etc, etc., até que um velhinho vendedor de frangos entrou na discussão para indagar:

Como lutar contra essa matança doentia de mulheres sem dar uma única palavra sobre o livro que está em 99% das casas brasileiras? 

E insistia: Como? Apenas com moralismo e com boas intenções? Com a pedagogia do chicote, das algemas e das cadeias? Apenas com discursos? Apenas com a polícia? Mas como, se as próprias mulheres e os próprios policiais também cresceram ouvindo de seus pais e até de seus professores os mesmos trechos daquele livro que é um cardápio não só de misoginia mas também de infanticídios?

Os feirantes que o ouviam ficaram visivelmente boquiabertos e apesar de desconfiarem a quê livro o vendedor de galinhas estava fazendo referência, não se manifestaram. Até que ele, tirando o chapéu, continuou: Quem é de vocês que já leu em Gênesis, Cap. 20, a lenda do genocídio de Sodoma e Gomorra em que para poupar de um estupro coletivo aos anjos que Deus mandou para salvar Ló e sua família (da chuva de fogo e de enxofre que ele próprio havia provocado), Ló ofereceu aos estupradores suas duas filhas virgens?

E quem é de vocês que ainda não ouviu seus pastores mencionarem aquele mandado de Moisés a seus soldados para que matassem todas as mulheres de uma determinada aldeia que já haviam dormido com homens mas que poupassem as virgens e ficassem com elas?

E aquela ordem que está lá na carta do tal Paulo ao tal Timoteo, para que as mulheres fossem proibidas de ensinar e para que ficassem, o máximo possível, de boca fechada?

E aquela outra, do êxodo, cap 20, onde uma "ordem divina" decreta: não cobiçar os jumentos, as vacas, as mulheres e os escravos dos outros?

A feira inteira, menos as galinhas, parecia ter silenciado para ouvi-lo. Aos que tentaram convencê-lo de que aquilo era passado, que aquelas brochuras eram lixo de outros tempos e que nada mais daquilo tinha sentido, ele retrucou com veemência: Sim, mas o inconsciente é atemporal...









Enquanto isso, além, muito além da Plaza del Sol y de la Plaza del Obelisco...




























segunda-feira, 20 de julho de 2026

Acabou...E a depressão caiu como um raio sobre Buenos Ayres...





"Si me dejan escribir todas las baladas de una nación, no me importa quién escriba las leyes..."
J.L.Borges
(IN: Volume I, p. 164) 





Acabou-se a gritaria e a cachaceira nos botecos... 

Agora, os pobres deverão voltar às suas 10:00 horas diárias de escravidão, aos ônibus lotados e às suas pobrezas. Os machos e as fêmeas domésticas aos seus lares; as cortesãs retornar para o Setor de Oficinas Norte e os mais histéricos empreender novamente o caminho de volta para os cassinos, as igrejas ou para os sanatórios. Para os torcedores mais compulsivos e entusiasmados, só lhes resta agora voltar à torcida pela carnificina entre Ucrânia & Russia; entre Israel & Teherã; entre os USA & o Oriente Médio. Já, os torcedores do além, poderão seguir (até o fim dos tempos), entoando a lenga lenga celeste e o conflito de interesses entre Deus e o Diabo, sem precisar lembrar que, como dizia Papini, a cumplicidade e a cordialidade entre os dois é bem maior do que se pensa... 

Na verdade, aqui no Brasil, por sorte, as torcidas nem precisarão desmobilizar-se, já que daqui a trinta dias começarão as disputas eleitorais. As Bets! As pesquisas. Lula ou Bolsonaro? Caiado ou Flavio? Zema ou Tarciso? Michele ou Janja? Sem falar na variedade de disputas, de intrigas, de malandragens e das prosopopéias cotidianas no Congresso Nacional entre os apologistas das canetas emagrecedoras e os da obesidade; entre os que defendem os 6 dias de escravidão por 1 de repouso. Seis por Um ou três por 4? etc, e sem esquecer que a FIFA já começa a organizar a COPA FEMININA para o ano que vem. Sim! O ano que vem a festa será aqui! A mídia e o populacho estarão bem servidos. Entretenimentos? Não faltarão! Há corridas de automóveis e de cavalos; vaquejadas; jogos de vôlei; novelas; tiroteios; jogo do bicho e a SENA; aulas de culinária, cestas básicas; campeonatos de futsal nas favelas; viagra; cultos ecumênicos; casamentos coletivos; a vinda de dançarinas estrangeiras ao Rio de Janeiro para faturar, por duas horas, 1/5 do PIB; aulas de inglês por IA; promoções de viagens à Disney, ao Beto Carrero ou às peregrinações para Fatima e Aparecida; pornografia cibernética; o aumento de 3% sobre os salários (inclusive sobre as aposentadorias); temos terras raras para encher o rabo de gregos e troianos e as tarifas do império, com os subsídios do governo às industrias e ao latifúndio (+ ou -20 bilhões) só afetarão realmente aos plantadores de acácias e aos Zés Ninguém, da esquina... Somos ou não somos quase a cidade do Sol, do Campanella? E é ou não é um privilégio estar entre os vivos nestes momentos de jubilo? De ser Penta e com a ilusão de que daqui a quatro anos seremos hexacampeões? (Ora!!! Vão foder outro!!!)

2. O Mendigo K, que agora pela manhã, estava ali na padaria espanhola, só ouvindo os papos, quando foi convidado a opinar sobre o jogo de ontem, foi curto e grosso: uma pelada entre escravos e entre novos ricos para divertir milionários e para adormecer politicamente às multidões... E prosseguiu: o que mais me chamou atenção, nem foi o jogo, mas aquele show para retardados mentais que aconteceu no intervalo. Além disso, duas particularidades no ritual da entrega do troféu. Primeiro, o vacilo da CIA, do FBI e do Irã, pois poderiam ter facilmente esfaqueado o Trump enquanto ele condecorava os campeões... Tanto o Lamine Yamal (a futura divindade da bola) como o Pedro Porro (porros?) ou qualquer outro, com um simples canivete nas cuecas, poderiam ter cometido o homicídio do século (Até tu Yamal?! - Até tu Porros!?). E segundo, fiquei surpreso com a falta de cordialidade dos jogadores para com a simpática Claudia Sheinbaum, presidente do México que estava lá, distribuindo cumprimentos e cordialidades ao lado de gente que você jamais deverá ir ao encontro sem levar uma pistola no bolso. Observe. Veja as imagens. Nenhum daqueles jogadores que passaram por ela, apesar de sua demanda e de seu olhar maternal, a encararam de maneira afetiva e nem sequer a cumprimentaram com cordialidade. O que teria acontecido? Misoginia ou anti-semitismo?

Na padaria, um castiçal feito por mouros, duas estátuas de toureiros cercados por ciganos, um vitral decorado com sangue de touro, os churros recém fritos e o cheiro alucinógeno do açúcar derramado proposital e comercialmente sobre a chapa quente + a música espanhola que ia dominando tudo...












domingo, 19 de julho de 2026

Roberto Arlt e Manu Chao... Clandestinos...


"Madrid es una ciudad sin fábricas y casi sin obreros. Su población está compuesta de una equívoca clase media, que vive gloriosamente de sua raídas pensiones y escasos sueldos y que detenta el crédito con éxito provinciano. Se calculam em cien mil los funcionarios públicos, y en treinta mil los estudiantes. Estas cifras no involucran militares, eclesiásticos, periodistas, artistas, ni el cinco por ciento de la población de Madrid produce lo que Carlos Marx denomina "plusvalía".
De allí que el chupatintas oficial, el burocrata al servicio de la República, es uno de los hombres, no más felizes de Espana, sino del planeta. Si era un hombre melancólico, deviene jovial; el irritable, se transforma en ecuánime. Una vez que ha ingresado en la repartición, es casi imposible expulsarle. Comparado con su hermano el chupatintas porteño, el madrileno goza de los privilegios de un dios. Ignora el terrible drama del funcionario argentino: la posibilidad de la cesantía. Mientras que el burócrata porteño, el tinterillo de tercera categoría a cada cambio de "régimen sufre las consecuencias de una expulsión violenta, el burócráta  madrileno, nicotizado, cafeinizado, pedante de politicas, glorioso de enjundias, ignora los riesgos del la cesantía y se permite no ya el lujo de hablar mal del gobierno, sino de conspirar. Y el gobierno no puede echarle a la calle."

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EM TEMPO : Ao ver os jogadores espanhóis, depois de, naquela pelada, derrotarem a Argentina, levantando aquele trofeu de uns 40 centímetros em ouro puro, como não lembrar das toneladas daquele metal que eles e os portugueses roubaram aqui do Brasil, do Peru, da Bolivia, do México, da Guatemala e mesmo da Argentina? Como não lembrar que aqueles altares das igrejas, principalmente as de Toledo, foram todos edificados com o ouro e a prata que rapinavam aqui das Minas Gerais?


















sábado, 18 de julho de 2026

Enquanto isso, a Argentina e a Espanha preparam a arena para el TOREO Y LA CORRIDA DE TOROS de mañana...



Uma curiosidade: O jogo de hoje entre as seleções da Inglaterra e da França (que nem Joana D'arc livrou os franceses da derrota), tirando o juiz, foi um jogo praticamente entre negros. Dos 11 ingleses e dos 11 franceses em campo, (sem falar dos reservas), a maioria era de negros, e provenientes das colônias africanas.., tudo muito parecido ao que acontecia lá no Coliseu de Roma daqueles tempos. Lá também a maioria dos gladiadores que entravam na arena para divertir e alegrar a Nero e à burguesia romana, eram escravos negros provenientes de países africanos colonizados e explorados. Que bizarra e curiosa repetição! Como não voltar a pensar na velha máxima de Marx de que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa? Pero, no pasa nada!!! Olha o Gol... Olha o gol... Olha o goooollllll...

Enquanto isso, enquanto montam e preparam a arena para a corrida de toros de amanhã, entre Argentina e Espanha, o Oriente Médio vai se devastando e derretendo em chamas... Y tambien, no pasa nada!

E Trump, o anfitrião, já se prepara para, (no meio de pompas e ao lado daquela mulher com aquele chapéu preto lhe tapando os olhos, como nos tempos do Bill Kid), entregar a taça aos vencedores... E, aos vencidos? Bem, aos vencidos, as batatas... Que tenha que entregar o 'troféu' aos presumidos da colônia argentina ou aos da colônia espanhola, tanto faz, qualquer um poderá adivinhar que, durante a solenidade, naqueles seus costumeiros gestos quase delirantes, seguirá ruminando a frase de Racine : "Sem dinheiro a honra não passa de uma doença".


















sexta-feira, 17 de julho de 2026

Enquanto isso... Fragmentos da poética hipersônica dos iranianos...



"Um dia, quando for seguro, quando não houver consequências pessoais por chamar as coisas pelos nomes, quando for demasiado tarde para responsabilizar seja quem for, sempre teremos sido todos contra isto..."

Omar El Akkad
















quinta-feira, 16 de julho de 2026

CICLOSPORÍASE. Em vista da pesada onda de diarréia que assola os Estados Unidos, Trump, que é pragmático, excluiu o papel dos novos produtos brasileiros tarifados...


 



1. Argentina 2, Inglaterra 1. E o futebol, ali no coração do império, cumpre sua função: expõe o vazio, a solidão, o transtôrno bipolar, a mediocridade (ver o argentino Jose Ingenieros) e a histeria planetária. Na Argentina, a festa e as milongas parecem não ter fim. Logo logo, até com a colaboração dos mendigos e dos assassinos mencionados nas obras de Arlt, edificarão uma igreja também ao petit e singelo Messi, igual ou até maior da que levantaram em homenagem ao Maradona. E o fenômeno é tão ambulatorial que não apenas a turma cuja profissão é decorar nomes de jogadores e descrever o perfil dos meia-de-campo e dos centro-avantes, mas que até o vendedor de pamonha, aqui da esquina, está em pleno alucinio, como se os gols (de um lado ou de outro) fossem alterar uma vírgula de sua  miserável vida. Caralho!!! Como recuperar a sanidade??? E vendo aquela multidão enlouquecida no meio da madrugada, lá em Buenos Aires, impossível não lembrar do velho e cego Borges: "es saberse culpable de velar cuando los outros duermen, es querer hundirse en el sueño y no poder hundirse en el sueño, es el horror de ser y de seguir siendo, es el alba dudosa..."(Vol III, p. 301)

2. E a inveja brasileira, mesmo disfarçada, emerge. Não apenas quando ouvem a Madonna cantando 

nem apenas pela mítica (cretina e mundial) ao redor do Messi e do futebol (esse passatempo anímico de palhaços), mas porque sabemos que há lá mais livrarias do que botecos... Que tiveram um Borges, um Che Guevara, um Piazolla e um Arlt. Porque a psicanálise deles é referência... E porque lá, mesmo com um racismo enrustido, com um catolicismo de catacumbas, com uma política e uma moeda de merda, o saneamento básico funciona e a água é quase 100% potável...

3. E as tais Malvinas? No meio do jogo lá em Atlanta, dizem que um torcedor porteño em frenesi, jogou uma bandeira daquele arquipélago no meio do campo e que no final, depois dos 2/1, levantaram uma faixa dizendo que as Malvinas são deles... Bobagens! Convivi com muitos deles (professores e doutorandos), na Ciudad de Méjico durante a guerra da Argentina com os ingleses (2002). Frequentemente apareciam chorando na Praça de Coyoacan ao ver seus "hermanos" adolescentes, levados despreparados, por generais psicopatas, até de tênis, para lutar contra o império britânico e sendo destroçados. Perderam. O arquipélago, aqueles pedaços de gelo inúteis, perdidos no Atlântico Sul... com seus pinguins desajeitados e patéticos... ainda continuam sendo colonialmente conhecidos por Falkland... E não será pela habilidade de 11 patetas (mescla de italianos, ibéricos, indígenas e até africanos subsaarianos), correndo atrás de uma bola de couro de vaca e nem por milhares de clows gritando das arquibancadas de um circo que o conflito se resolverá...

A propósito: a endemia atual, de ciclosporíase lá nos USA, teria alguma coisa a ver com tudo isso? Ou seria, mais bem, pelos mísseis e pela pontaria de ontem, dos iranianos?


 













quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Mendigo K... entre dois tipos de ópio: o futebol & a literatura...



"Bah! Ahora no quiero pensar en nada más. Tampoco en Dios? No! Dios estará conmigo. Qué necesidad tengo de pensar en Él? Dios está con los que no piensan".

Robert Walser, Jakob von Gunten


Nesta quarta-feira de julho, com o Ministério da Saúde e as freiras da mídia recomendando obsessivamente que, os velhos, - se não quiserem ter uma síncope na fila do INSS e irem para o outro mundo sem assistir Argentina/Inglaterra-, devem beber muita, mas muita água, o Mendigo K apareceu ali nas galerias do shopping, meio afobado, buscando a melhor vitrine para, às 4 da tarde, assistir ao jogo. Quando me viu, não conseguiu esconder uma certa preocupação e um certo medo que eu fosse classificá-lo como mais um dos idiotas da bola e foi jurando que seu interesse por aquela babaquice, era puramente literário & antropológico. Para convencer a mim e aos que nos observavam, foi retirando de uma bolsa de couro e exibindo também aos que passavam umas cinco brochuras sobre o assunto, livros que dizia ter lido:

1. A bola não entra por acaso, de autoria de um tal Ferran Soriano.

2. Futebol & guerra, de Andy Dougan.

3. Entre os vândalos, de Bill Buford.

4. O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho.

5. Como o futebol explica o mundo, de Franklin Foer

E até um em inglês que ainda não foi traduzido: Football against the enemy, de Simon Kuper.

E, por último, mostrou-me um do mítico uruguaio, daquele que escreveu As veias abertas da América Latina, titulado: Futebol ao sol e à sombra. Deste, quase religioso e quase com lágrimas nos olhos, fez até questão de citar parte de um parágrafo, sobre Pelé:

 “Quando Pelé ia correndo, passava através dos adversários como um punhal. Quando parava, os adversários se perdiam nos labirintos que suas pernas desenhavam. Quando saltava, subia no ar como se o ar fosse uma escada. Quando cobrava uma falta, os adversários que formavam a barreira queriam ficar de costas, de cara para a meta, para não perder o golaço”.

Completamente derrotado, convicto de que a bola é o ópio do populacho, de que o rebanho é imbatível e de que o mundo jamais conseguirá livrar-se do aprisco, ziguezagueei abobalhado por entre aquelas geladeiras, televisões ligadas, vassouras, bandeirolas e máquinas de lavar, das Casas Bahia... E, como a única diversão que encontro no futebol é ver o árbitro apanhar (Pitigrilli), também estarei, hoje à tarde, beociamente, apostando todas as fichas, não no gol, mas na conhecida atuação afetiva dos Barras Bravas e dos Hooligans...

 










terça-feira, 14 de julho de 2026

Enquanto isso, por sobre e ao redor de Ormuz.., a tertúlia continua...



"... Quando a festa acaba, os elementos da arquitectura estão em farrapos, e a areia volta a devorar a rua. Não há mais nada a fazer a não ser retomar, com persistência, a reconstrução de elementos e instrumentos  na expectativa de outra festa..."
Diogo Seixas Lopes
(IN: Melancolia e arquitectura em Aldo Rossi, p. 166)



















E as mentiras, as poesias e os mísseis retornam ao encantador estreito de Ormuz...


[... El amor de una rata de biblioteca por esos enmohecidos folios antiguos bien podría ser mucho más cuerdo que el de muchos poetas por las playas soleadas. La inexplicable fijación de un viejo profesor por su sombrero puede ser un transtorno mucho menos vital que el de cualquier frívola dama de sociedad que pierde la cabeza por un vestido de Worth's...]
 Gilbert K. Chesterton, 
(IN: Lectura y locura, p. 9)

















quinta-feira, 9 de julho de 2026

Se sentes um vazio, coma, que é fome! (filosofia existencialista aqui em Portugal).








 1. Quem se atrever a passar o final de junho aqui em Lisboa, sob esse sol apocaliptico e sobre essas pedrinhas ensaboadas e deslizantes, quando chegar ao inferno sentirá a famosa e mítica sensação do déjà vu...

 2. Apesar de toda a pantomima humanista/cristã e da quantidade de catedrais que há por aqui, os portugueses parecem ainda albergar em suas vísceras aquele antigo transtorno xenófobo e racista que, com frequência, os faz migrar brusca e histericamente de uma explosão quase carbonária a uma singeleza semelhante à de Florbela Espanca...

3. E o Fernando Pessoa, com aquela sua imagem de babaca, continua sendo, cada vez mais, uma mercadoria nacional, decorando xícaras, guarda-chuvas, anáguas, cadernos, isqueiros e até cuecas...

4. E todos os serviços de "segunda" (para não dizer, de merda), seguem sendo executados por forasteiros indianos, árabes, filipinos e, claro, brasileiros... Que estranha e mística atração pela servidão voluntária.....

5. Quem quiser apreciar o maior índice de idiotas por metro quadrado (e de todas as nacionalidades), deverá postar-se lá pelas 11:00 horas, ali na rua Belém (pelos lados do Mosteiro de São Jerônimo), em frente à uma fabrica daqueles 'ovos moles de Aveiro' e dos quase sagrados pasteizinhos de nata, inventados por aquelas singelas e quase catatônicas freirinhas do medievo...

6. E lá em Braga, (Se você não é vegano e nem diabético), o que existe de mais transcendente é um sorvete de tangerina, produzido pela Casa Brasileira.

7. A psicopatia futebolística por aqui (como praticamente em toda Europa), é mais ou menos como a do Brasil. O fato de Portugal ter sido eliminado da tal Copa do Mundo, causou um colapso no delírio lusitano, principalmente naqueles que viam no jogador Cristiano Ronaldo, quase a reeencarnação de Dom Sebastião, aquele, (daqueles tempos), que foi enrabado heróica e bravamente pelos mouros... Ah! O futebol! Ah! A Copa do Mundo! Essa suposta confraternização entre palhaços! Esse entretenimento malicioso entre escravocratas e escravos, enquanto a Palestina ainda procura os ossos de seus cadáveres e enquanto 90% da humanidade ainda vive sem saneamento basico e sem papel para limpar-se o cu!

8. E nas ruas, a mendicância, a indigência e a filosofia da miséria prosperam, sem falar dos trocadinhos sempre demandados pelos taxistas e nem da turma que fica, à noite, ali na esquina do café...  negociando pó e aquelas pedrinhas que os suicidas queimam nos cachimbos... A mim, o que mais me está fazendo falta nesta viagem, são as ciganas, principalmente aquelas que, outrora, liam as mãos dos otários e vendiam castanhas ali no Rossio. Quem, e para onde as teriam expurgado? De vez em quando, uma ou outra apenas, nos portais das igrejas, com aquela coreografia mimética e odiosa de misericórdia... Nem sombra mais daquelas adolescentes e crianças fantásticas e heróicas que, no passado, (ao invés de passarem a vida enjauladas em escolinhas ridículas, decorando nomes de magnatas, de santos, de reis e de famílias de larápios), viviam nas ruas e se nos aproximavam com o álibi da Buona Fortuna e da Buena dicha, apenas para nos roubar e ludibriar...  Agora, quando aparecem, só o fazem para implorar 1 Euro! Ou 1 dólar!  - "S’il vous plaît, Monsieur. J’ai faim. Je viens de l’Alentejo, et mes grands-parents venaient de Roumanie — de la terre natale de Cioran…" Que perda de identidade...  e que decadência!

9. E... por todo o país, as labaredas avançam. Um "prato cheio" para o imaginário da confraria da terceira e quarta idades que foi domada e adestrada sob as balelas de Dante e, principalmente, sob a depressão do Eclesiastes...

10. Ali em frente à Igreja de São Jerônimo, sob uma oliveira estupenda, (ainda farei um ensaio sobre ela só para descobrir quem e quando a plantou...) e nos arredores do Hotel Nova Goa (onde ainda pretendo passar uma temporada...), um agrupamento de negros não deixa ninguém esquecer dos crimes e das canalhices da colonização. Todos, apesar de expulsos do mundo e explorados pelo ocidente, parecem, assim mesmo, estar além, bem além das infantilidades cretinas da burguesia e manterem-se saudáveis, fortes e até felizes, nem à espera de Cristo e nem de Godot. E não precisa ser profeta para adivinhar que, não apenas Portugal, mas a Europa toda, ainda será deles... A propósito, toda vez que passo por lá, lembro de Guerra Junqueiro que, certa vez, teria dito a Unamuno: "O Cristo espanhol nasceu em Tanger; é um Cristo africano e nunca se afasta da cruz, onde está cheio de sangue; já, o Cristo português brinca nos campos com os camponeses e merenda com eles e só a certas horas, quando tem de cumprir com os deveres do seu cargo, é que vai dependurar-se na cruz..."

11. Se lá em Caracas, o terremoto colocou em evidencia um bairro chamado Do Pau Grande, aqui em Lisboa já me deparei com várias Ruas dos Ovos Moles e Ruas da Pica. Até o poeta do Desassossego - dizem - além de fazer banners e propagandas  para a Coca Cola, trabalhou também para uma empresa que se chamava Lavado Pinto & Cia. Que bizarrice!

12. E, com a mala já pronta, aqui do alto de uma destas intermináveis ladeiras, com acordes de Fado surgindo de todos os lados, observo o vai-e-vem dessa gente e desse formosíssimo e desgraçado Portugal, que,  -  segundo o psicólogo espanhol - "desde o dia lúgubre de Alcácer-Quibir parece viver vagamente submergido em sonhos de grandezas passadas e que lembra uma  formosa e gentil rapariga do campo que, de costas para a Europa e sentada à beira-mar, junto à própria orla onde a espuma das ondas gemebundas lhe banha os pés descalços, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cara entre as mãos, olha o sol a pôr-se nas águas infinitas. Porque para Portugal o sol não nasce nunca: morre sempre no mar, que foi teatro  das suas proezas e berço e sepulcro das suas glórias". (ver: Unamuno, in: Portugal, povo de suicidas, p. 24) 


 












sábado, 20 de junho de 2026

O HAITI É AQUI... Outra aula fantástica do Eduardo Bueno...




"... O Haiti é um laboratório dos horrores do colonialismo e do imperialismo... Um laboratório de tudo o que deu errado nas tais veias abertas da América Latrina.... Se houvesse um pingo de decência no mundo, na FIFA e na Copa, o Haiti seria campeão do mundo..."
























De peladas em peladas... E de alarmes falsos em alarmes falsos... Asi se van los dias...





Depois de ver estampado nos jornais o salário dos treinadores (Ancelotti 59 milhões anuais; um tal Nagelsmann da Alemanha, 41 milhões, etc, etc), alguém, no limite de sua miséria, toxidez e tolerância, lá pela 1:25 da madrugada, raqueou o Sistema de alerta da defesa civil Nacional e confessou ao mundo sua misantropia. 

1:25 da madrugada! Caralho!

E os singelos torcedores que, depois daquela pelada haviam conseguido adormecer, despertaram sobressaltados com aquela sirene que lembrava uma penitenciária. Seria uma nova operação da PF? Eu, particularmente, pensei logo naquele meteorito que os schopenharianos juram que está girando desgovernado pelas galáxias e que, num belo dia (davvero Bello), resolverá a parada. Mas teve gente que pensou que poderia ser o Trump caçando terroristas e voltando a acusar o Lula de ser um homem volúvel; a chegada de um boêmio extra-terrestre; a volta de Godot ou do messias e até aquela profecia (não sei se do Raul Seixas ou do Conselheiro), de que o sertão viraria mar... E o que agravou ainda mais o fato, foi que 99% dos que receberam em seus smartphones a tal mensagem: ALERTA EXTREMO DEFESA CIVIL: MISANTROPIA4, não tinha a mínima ideia do que a palavra misantropia queria dizer. Se tratava de algum vendaval? De algum vírus? De algo relacionado à invasão atual de escorpiões na cidade? Alguma nova marca de cachaça? Alguma novidade sobre o caso Master? Algum demônio que ainda não havia sido catalogado nas brochuras sagradas? 

E o dicionário? Como achar o dicionário numa horas destas? Por fim, algum burocrata (ou o próprio hacker) desligou o tal sistema (ou a sirene parou por si só) e a madrugada prosseguiu, silenciosa, com os borrachos de sempre se arrastando ali pelos botecos com o celular sem bateria e sem ter tomado conhecimento de absolutamente nada. Já, os insones e machos domésticos, espiando temerosos pelas janelas, voltavam a ser atormentados pelas imagens dos salários dos vivaldinos e da pelada. A fantasia de palhaço do goleiro brasileiro dominava as memórias e também o nome de um jogador do Haiti: Pierrot. Pierrot? O que estaria perversamente insinuando a mãe e o juíz que lhe emplacaram esse nome? Como não pensar na Commedia dell'arte? Mas, e onde estaria a Colombina? Ah! Estava cacarejando lá entre os comentaristas (e os speakers) e se esforçava, em vão, para turbinar as ilusões, o entusiasmo e as esperanças dos 68 mil patetas das arquibancadas e, claro, da ensolarada, anímica e luxuriante América Latina, inteira. Um fiasco.