A primavera, quando chega aqui pelo Planalto Central, parece diferente de quando chega em outros estados e em outras províncias, como se tivesse um apreço especial por essa gente forasteira que veio para cá, ninguém sabe bem de onde, no intuíto de enfiar-se num ministério, num dos três poderes, numa embaixada, num puteiro, numa das trezentas e tantas seitas espalhadas por aí (todas com alvará) e travestir-se ou, pelo menos, borrar a história de suas origens... Mas tudo numa boa! Sem grandes traumas, nem grandes paixões e sem perder a ternura... Todo mundo querendo 'crescer', 'vencer', ser 'chefe', mesmo que, para tal, seja necessário puxar o saco de um tiranete qualquer, que cresceu fazendo a mesma coisa... mas... emancipar-se. A meta, ninguém nega, é chegar a fazer parte da petite burguesia.
Brasília, apesar de ser quase um vilarejo, tem todos os lances metropolitanos e até planetários que se anseia. O padeiro da esquina - por exemplo -, veio de Braga, em Portugal. O livreiro que costuma censurar meus livros, veio de Madrid. O carro que capotou quase na portaria de meu prédio, era dirigido por um asiático bêbado de Bombaim e transportava o número dois de sua embaixada. Há judeus, (tipo Samuel Rawet, o judeu errante, que escreveu Viagens de ahasverus, árabes, gregos e troianos, hindus, hare krisnas, ateus aos montes e beatos para dar com um pau... mendigos, aposentados e gente em liberdade condicional, com tornozeleira eletrônica... todos misturados, em comunhão ecumênica, e todos (tirando um ou outro assassinato) vivendo em relativa paz, tanto por terem alcançado a iluminação como por terem tomado consciência de que a fé é uma burla... Os viciados em chucrute e em salsichas vão todas as noites ao bar do Hans, cuja mulher e prole vivem em Leipzig. O padre que frequentemente vem aliciar velhinhas aqui na quadra tem um sotaque de Parma e, quando são pastores, logo se percebe que são da Venezuela... As novinhas da suíça (que quase nunca são da Suíça) também costumam fazer ponte aérea por aqui. Ah! Brasília, - cochicham as forasteiras -, apesar de parecer um autódromo Stalinista, é linda! As partituras mais raras se pode comprar ali na loja de um Tcheco. E há espias e policia secreta, além dos nossos, de praticamente todos os países. A CIA e o pessoal do Mousad já são brothers de todo mundo e estão sempre jantando por aí. São uma 'simpatia', falam vários idiomas, acham o Brezil algo estupendo! Quando você vier para cá, lembre-se que o motorista não é apenas um motorista! A camareira não é apenas uma camareira! A menina de programa não é apenas uma menina de programa. O travesti é muito mais do que um travesti! O lobista é muito mais do que um lobista! E que você jamais conhecerá a verdadeira identidade e nem o verdadeiro contracheque de um assessor. O repórter que te entrevista tem sempre contratos com mais de uma fonte! O entregador de gás, o agente de saúde, a dupla mórmon, os que vendem pó e baseados por aí... não são apenas o que parecem... Ha gente de 'famiglias' importantes do Piauí, da Bahia, de Pernambuco, de Santa Catarina, do Rio Grande e do Paraná... e até de São Paulo, e os negócios endogâmicos são mais do que naturais... e o nepotismo é quase um protocolo moral. Sem falar das enxurradas de prefeitos, governadores, vereadores e gente agregada e de outras profissões que vem frequentemente para cá em busca dos euros e dos dólares que eventualmente sobram das viagens internacionais e das campanhas políticas... E na chamada Feira dos Importados (Feira do Paraguay), se pode comprar desde um cachorrinho lhasa, vacinado e com pedigree, até a última Canon e as mais minúsculas e sofisticadas câmeras secretas: atenção, você está sendo vigiado!
Mas, voltando à abolição das bets, levada a cabo basicamente para agradar os chefões das igrejas e com o pretexto de que elas, além de empobrecer, levam em si coisas do demônio, penso em Dostoiévski. Esse louco que que passou a vida inteira escrevendo, indo de uma Sibéria a outra e de um cassino a outro apostando não só o que ganhava dos editores, mas inclusive até algumas de suas mulheres... É provável que se não houvesse Bets e cassinos na Rússia miserável daqueles tempos e se não fosse por sua obsessão (e possessão) pelos jogos, nem teria produzido a obra estupenda que produziu. Obra que até mereceu uma página inteira no Jornal de Brasília, em 1999.