segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Do coração e de suas trapaças...




"Em  meio da preleção, um conferencista perguntou:

- Quem ousaria negar a verdade de minhas afirmações?

- Eu! ... - Bradou um do público.

- Não me interrompa, cavalheiro - replicou o orador.

E continuou a falar..."

Mario Luis Descotte



Aqui na cidade, e mesmo na periferia, tanto entre as "elites" como entre os "pés de chinelo", não se fala em outra coisa (e com uma certa malignidade) senão, no transplante de coração sofrido por um famoso animador de palermas. Teria havido privilégios? Há realmente diferenças entre Lista de Espera e Fila?  E, mesmo sendo ocultistas e beatos, falam sem a mínima compaixão, nem pelo paciente, nem pelos  operadores e nem para com o idolatrado SUS... Cheios de fé no dinheiro, colocam tudo sob suspeição...  Tudo bem..., tudo bem... o dinheiro salva! Resmungam os papagaios de Marx, (mas tudo em off, porquê a doença e a morte são tabus)... Falam em capitalismo selvagem, em imperialismo e em plusvalia..., mas e os outros, - reflete uma mocinha mais frágil que um beija-flor - e o lumpemproletariado e os milhares de cardiopatas fodidos e sem esperanças, que rastejam por aí, como é que ficam? Curiosamente, nenhuma palavra sobre o defunto doador...

Outros, que leram Althusser (La filosofia como arma de la revolución) e Cioran (Syllogismes de l'amertume), e que acreditam que querer 'viver mais' é uma espécie de perversidade ao mesmo tempo tirânica e masoquista, fazem discursos escatológicos contra o coração, contra esse músculo vagabundo que pode falhar a qualquer momento, tanto no topo do Himalaia como no meio de uma trepada.

Uma chuva estupenda acaba de despencar sobre a cidade. Um velhinho gagá e meio trêmulo que se protege sob uma marquise faz questão de dizer-me que ela (a chuva) é uma prova de que deus é bom... E arremata, lembrando a Jó: "apesar de todas as desgraças, obrigado Senhor!!!"

Não tenho + paciência para com esse tipo de babaquice e me embrenho no meio da torrente e dos raios... Os pingos estão gelados. Estariam impregnados de material radioativo? Há trovões lá pelo lado norte. Um raio desliza sobre as telhas de zinco de uma garagem, mas não acerta ninguém. Dois cachorros vão felizes e indiferentes pelos terrenos baldios e encharcados, nos rastros de uma cadela narcisista e em cio...

A respeito do tal transplante, lembro que Platão gostava de prevenir seus lacaios, capachos e subalternos: que só os ingênuos confiam em seu coração!




domingo, 27 de agosto de 2023

O ministro Zanin e a Maconha... A favor ou contra, é evidente que estamos todos alucinados, em busca da Terra Prometida e dos Paraísos artificiais... (pobres filhos de uma noitada de embriaguês...)


"La terre est polypharmaque et polygène des produits les plus terribles..."

(De natura animalium, IX,15)





 E os comentários, as criticas, as opiniões, as maldições, os louvores, não param de surgir contra e a favor do Ministro Zanin, a respeito de seus últimos votos em assuntos que dizem respeito à população trans e, principalmente, à maconha. Homem ou mulher? Libera ou não libera? Vinte gramas ou vinte baseados? É quase transcendente ver o tal Zanin, com toda aquela assepsia e aparência de pároco, (aquela batina, uma ou outra palavra em Latin e atrás, na discreta parede, aquele crucifixo...) opinando sobre os 'pecados capitais' e sobre dois assuntos tão antigos como o mundo. Lembram dos transviados? E das vovós, queimando a erva em seus cachimbos estilizados? Tudo numa boa!

Para o Mendigo K, que é historiador dos alucinógenos, a humanidade não suportaria a mediocridade da existência sem estar, de uma maneira ou de outra, (química ou espiritual) embriagada. E mais: sustenta, com uma vasta bibliografia que inclusive as religiões, das mais fuleras até as mais sofisticadas, todas foram edificadas por feiticeiros alucinados sob o efeito de narcóticos e seus alcalóides... Preste atenção: Daí as tantas "passagens misteriosas e incompreensíveis dos textos sagrados..." (ivresses dionysiaques et délires prophétiques transformados em dogmas!!!)

Se essa discussão sobre a maconha parece não ter fim, fico imaginando como será quando os ilustres ministros tiverem que decidir sobre o uso ou não das sementes de mandrágora, do ópio, da heroína, da morfina até mesmo da Kawa-Kawa... E quando descobrirem, enfim, a fórmula química e a história do uso do café, do tabaco, do chocolate, da erva mate (d'Ilex paraguayensis) e do chimarrão, do chá preto com os biscoitinhos suíços da 17:00 horas;, do bétel, do guaraná, etc, etc, etc, todos alucinatórios e alguns deles, inclusive, com mais alcalóides que outras drogas proibidas e todos capazes de provocar toxicomania...

 O famoso poeta persa Firdusi, relata a cesariana de uma menina "Belle comme un cyprès", usando álcool como anestésico e chanvre indien (maconha) como cicatrizante... É curioso que a Suprema Corte, ao invés de ficar perdendo tempo treinando cachorros para perseguir jardineiros e usuários, ainda não tenha tido a idéia de perguntar: Por que essa necessidade de drogar-se? De onde vem esse fascínio dos homens por essa farmacopeia 'satânica?' E essa obsessão por um paraíso?

Leio: "... L'odyssée (IV-5) nous raconte la venue de Télématique à Sparte à la cour de Ménélas.Pendant le banquet qui suit son arrivée, on évoque le destin d'Ulysse e tous les participants sombrent dans la plus profonde mélancolie. Hélène ordonne alors à ses servantes de verser dans les coupes le népenthés, 'un breuvage donnant l'oubli de la douleur et de malheur... (...) Rachel, désespérée d'être stérile, épia sa soeur Léa, femme de Jacob et la vit manger des fruits de mandragore cueillis par son fils Ruben. Rachel, après l'avoir initié, fut remarquée para Jacob et, l'ayant connu, dit la bible, en conçut Joseph..." (ver: Jean Louis Brau, in: généalogie de la drogue). 

E é bom saber que não é só nossa espécie que é vidrada por narcóticos e que passa a vida inteira sonhando com paraísos artificiais e com a Terra Prometida. Muitos outros animais (de insetos a cavalos e búfalos) passam suas breves vidas viciados, alucinados e dependentes. Sabe-se, por exemplo, que as casas de fumadores de ópio, frequentemente eram visitadas por abelhas, aranhas e ratos já dominados pelo vício. Que muitas espécies de formigas cultivam pulgões em suas colônias dos quais sugam licores  inebriantes. Que na Australia, no México e nos EEUU, tropas de cavalos, búfalos e ovelhas andam quilômetros e mais quilômetros para deliciar-se com as folhas alucinógenas do Astragalus spicatus... E qual o fumador de cachimbo que ainda não presenciou o pouso e a "viagem" de uma abelha (dessas fazedoras de mel) sobre sua piteira? etc, etc... Enfim - indaga a esposa do mendigo K - se é assim, lá na lenda de Adão e Eva, nos confins do shangri-la, a tal árvore proibida, teria sido realmente uma macieira, ou uma "maconheira"? ( O Zanin daqueles tempos, foi implacável, expulsou o casal do paraíso...) E por falar em embriaguês e psicodelismo, qual é o beato que não se lembra dos porres de Salomon e que o próprio Cristo, chegando numa festa de casamento onde não havia droga nenhuma, apressou-se em transformar um barril de água em vinho? E quem é que ainda não ouviu falar dos fiéis da Christian Peyote Church, lá em Oklahoma? Dizem aqueles índios alucinados pelo peyotl: "O homem branco vai à igreja e fala DE Jesus, mas nós, vamos à nossa, falar A jesus..." (A propósito, apesar da mesquinha competitividade, o transtorno alucinatório é o mesmo!)

E daquelas mulheres que drogaram o pai (Ló) para transar com ele? E quem é que tendo entrado numa pulqueria de Cuauhtémoc (na Ciudad de Méjico), não lembra de ter visto lá, no meio das garrafas, uma estatueta de Macuil-Tochtli, o deus da ebriedade? E quem é que não se lembra daquele famoso happening de 1967, no Central Park de NY, com aquela multidão de adolescentes beatniks, mergulhados numa embriaguês mística enquanto fumavam cascas de bananas secas? E daquele jovem negro do Harlem que declarava: "Le Seul moyen pour foi d'être dans le vent, c'est la schnouf" (heroína).

A propósito, já ouviram falar da Hyoscyamus niger? Que os alemães conhecem por Hühnrtod?

Sinceramente, quando ouço esses párocos laicos falando sobre a maconha, a Belladona, a mandrágora ou outro 'estupefaciente' qualquer, além de perder as esperanças numa nação vigorosa e num porvir soberbo, menos envenenado por superstições, penso imediatamente na Hyoscyamus niger, nela que é conhecida por droga das galinhas. Explico: dizem que os ciganos e outros ladrões de galinhas semeiam essa planta em seus acampamentos e que antes de assaltarem os galinheiros jogam suas sementes no interior dos quintais. Quinze minutos depois, as galinhas e o galinheiro inteiro estão mergulhadas num sono idílico e no auge de uma viagem astral... e sem despencar dos poleiros... Também em algumas regiões da Ásia os ladrões de porcos usam os cogumelos Ganoderma lucidum, conhecidos por "nâmlin", para adormecer as vítimas... E la nave va, finché non si scontra con una stella...



quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Depois das 100 mil margaridas, agora chegam as sucupiras e outras e exóticas espécies, de outros gêneros...


[...Que grande romântica
eras!
Bebias vinagre às escondidas
de tua avó.
Toda te enfeitaste como um
arbusto de primavera...] 

Garcia Lorca


Aproveitando o verso de Pablo Neruda (a respeito da primavera), dele que parafraseou o Che Guevara que, por sua vez, se inspirou em Brecht e este em Maiakovsk..., e a fala do Lula que, na semana passada, num só golpe, plagiou os quatro, o Mendigo K saiu pela cidade, que é praticamente um Horto Florestal, registrando a explosão do floreio... Até as plantas carnívoras estão floridas. Quem é, afinal, que ainda não entendeu que a primavera, apesar das cores, dos perfumes e dos poetas é uma força perversa e misteriosa movida por uma compulsão sádica e tirânica? 








































quarta-feira, 23 de agosto de 2023

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Queste persone non valgono nulla!!!








Chega a sexta, o sábado, o domingo, a segunda, e não acontece nada... Além do rosário de queixas e de lamentos da turba, não acontece nada... Cada um, palitando os dentes, permanece sentado sobre seus centavos, seus rabos, suas mentiras, suas crenças, seus álibis e seus delírios, na vã espera por Godot...

Na padaria da esquina, nesta manhã mais seca que o deserto de Merzouga, até o Mendigo K olhava para o nada, parecendo estar navegando no éter.

Depois, ao mesmo tempo em que os sinos da igreja mais próxima badalavam e sentavam-se ao seu lado outros indigentes, ouvi que, num tom de blasfêmia, lançou esta pérola no ar:

Sempre que ouço um sino penso do padreco Vieira. Aquele que, estando em Roma, enquanto os portugueses dizimavam os índios por aqui, caguetou: "não só no Maranhão, mas na colônia inteira, a fé está degenerando em loucura..."

Todos riram e um deles, chegado recente do Alto Xingú, em tom sóbrio, completou: Já que estamos falando de tempos pretéritos, eu, que sinto arrepios quando ouço os burocratas falando em 'salvar' e em 'catequizar' meus parentes, penso no desabafo de um dos inúmeros matadores daqueles tempos, um tal Duquay-Troin: "sob o pretexto de instruir a América, degolamos ali milhões de homens, na chaga mais cruel que já foi feita ao gênero humano..."

A velhinha armênia que apareceu casualmente por lá, fantasiada de bruxa, vinda de um cosplay, ao ouvir aquela declaração, resmungou, num italiano tropical: Quegli invasori erano criminali e senza valore... 

E em seguida completou: "Os perros, como os portugueses eram tratados pelos nativos, chegaram a ser malquistos até entre crianças, tendo cabido a um curumim de cinco anos de idade assassinar, em Porto-Seguro, o donatário Pereira Coutinho, opressor dos nativos e mandante de morte de um dos irmãos do pequeno assassino..."

Ninguém mais abriu a boca e a frase: quegli invasori erano criminali e senza valore..., parecia ter ficado suspensa no ar.







segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Yo soy Maria de Buenos Ayres...







"Proclamo em altas vozes a liberdade de pensamento; e morra quem não pensar como eu..." (Anônimo)


Buenos Ayres, ao invés de espantada, parece estar confusa e eufórica com os 70% de intenção de votos dados a Javier Milei... O Clarin de hoje, além de lamentar o êxodo de médicos argentinos para o Chile, tece com calma a colcha de retalhos que, acredita, novamente se alastrará sobre os portenhos... Onde foi parar aquela Buenos Ayres dos anos 80, onde quase todos (inclusive o lumpemproletariado) estudavam psicanálise e Trotski? Um olhar rápido pelo mundo comprova: a esquerda endireitou a maioria dos países que governou. O que teria acontecido?
Meu correspondente, lá do Bodegon, diante de meia dúzia de livros e de uma garrafa de vinho, sabedor de que a suposta esquerda e a suposta direita fumam na mesma pipa, lembra da histórica e trágica semana de janeiro de 1919, quando os militantes anarcosindicalistas da federação Operária Regional da Argentina promoveram uma greve geral, (reivindicando jornada de trabalho de 8:00 horas) que depois, infiltrada por bandos anti-semitas invadiram e destruiram o bairro judeu de Buenos Ayres, o conhecido de Once.... redações de jornais, sindicatos, comércios, bibliotecas e sinagogas.., tudo foi pisoteado. Balanço geral: uns mil mortos...
Só bem depois, muito tempo depois, se poderia ouvir Fatma Said interpretando a estupenda música de Piazzolla: Yo sou Maria de Buenos Ayres...
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sábado, 19 de agosto de 2023

Que tal enfiar os Rolex e os Patek Philippe no rabo...


"Von Martius não foi o único a observá-lo. Já Francis Drake, muito antes dele, viu, entre nós, índios que acendiam fogueiras e faziam sacrifícios aos demônios..."

Abelardo Romero IN: Origem da imoralidade no Brasil, p. 30



EU, que estou no auge de uma pesquisa sobre a clepsidra e que estou prestes a viajar para o Cairo: sim, para o National Museum of Egyptian Civilization, onde está a primeira do mundo, engendrada pelos egípcios, estou de saco cheio com a putaria infantil que está se desenrolando ao redor do tal "Rolex" que os malandros sheiks presentearam ao malandro Bolsonaro e que ele, naturalmente, ao invés de jogá-lo no saco sem fundo da república, preferiu passá-lo nos cobres. Aqui entre nós: quem é que não faria a mesma coisa? Você aí, moralistazinho de merda, trapaceiro disfarçado... quantas vezes já não fez a mesma coisa? Seja com um lápis lá no ginásio; com um rolo de papel higiênico aí nos ministérios; ou com uma pedra preciosa em tuas turnês ecumênicas e patrióticas pelos bordéis, pelos garimpos e pelo planeta? Lembram daquele rei português que presenteou o Papa com um elefante, vivo, trazido do Índia? Sim, e não precisa ser um gênio para entender que, historicamente, só a imoralidade tem nos unido, tanto religiosa, como amorosa e politicamente...

A propósito, não dá para entender porquê, até hoje, os livros de Abelardo Romero (Origem da imoralidade no Brasil) não tenham sido incluídos no Curriculum das escolas...

É quase uma desgraça ver o país inteiro: a mídia, a policia, os padres, o judiciário, os alcaguetes, as putas, os colecionadores, as freirinhas laicas e até os mendigos, numa penúria de dar pena, enredados nessa boçalidade e só falando no tal Patek Philippe do Bolsonaro e dos Rolex de outros cinco ou seis boçais e ladinos que garganteiam que os seus valem mais de 7 milhões... Ora! Isso lembra a famosa flor de esterco! E é comportamento de colonizados, de dândis, de ex indigentes fascinados pelas luzinhas de natal e pelos colonizadores pós modernos, que em troca de favores ocultos lhes dão brinquedos. Lembra do privilégio do jus prima noctis... E dos marujos de Cabral que distribuíam espelhinhos e canivetes nas aldeias para que os caciques os deixassem trepar com suas mulheres? Sim, isso tudo é ridículo e vergonhoso. Nada é mais abominável do que um trapaceiro fingindo que foi convertido! Assunto que não deveria ter ocupado nem uma nota de pé de pauta... Portanto, que esse bando de noviciadas enfiem seus Rolex e principalmente o tal Patek Philippe no rabo, que calem a boca e que comecem a perguntar aos presenteadores  por que estão tão bonzinhos e distribuindo tantos presentes? 

O Mendigo K, que também gosta de exibir seu Patek Philippe cravejado de submissão, de crimes e de pedrinhas falsas, gosta de lembrar-me que até o santo Tancredo por, em sua época, ter liberado a briga de galos, teria recebido dos compatriotas mineiros um galinho de ouro. E daí? Qual é o problema? Afinal, o galo, com seu canto, - como a clepsidra e o relógio - também lembra as horas, as horas que faltam para que os palhaços sejam apedrejados e para que  o circo baixe suas lonas... E mais: que apesar dos cacarejos de Pablo Neruda, é possível sim, que vinte ou trinta bobalhões, de uma hora para outra, interditem a primavera...


 




sexta-feira, 18 de agosto de 2023

As Margaridas e o fim da festa...


"La institución  del matrimonio convierte a la mujer en un parasito y la obliga a depender completamente de otra persona. La incapacita para la lucha por la vida, aniquila su conciencia social, paraliza su imaginación y le impone después, graciosamente su protección, que es en realidad una trampa, una parodia del caráter humano..."
Emma Goldman
IN:  Los anarquistas, Alianza Editorial, p.327



















A apoteose, como é de costume, se deu nos arredores da Praça dos Três Poderes. Elas estão visivelmente exaustas. 3 ou 4 dias amontoadas por aí, em condições nada salubres e, naturalmente, sem "ir ao banheiro". Todo mundo sabe que elas, desde Lilith e Eva, sofrem de Prisão de Ventre. (Lembram da Lei do Ventre livre, dos monarcas portugueses?). Depois da aspirina, é o Sal Amargo a droga mais consumida no universo feminino. Se já não conseguem fazer o intestino funcionar com regularidade lá em suas casas, imaginem aí nessas privadas que são uma nojeira! Ah! se se pudesse usar a toilette dos ministérios! Mas há um guarda lá na porta (sim, a serviço do patriarcado) que as impede...

Segundo uma delas, preferem explodir antes de usar de cócoras, um desses  cagatórios instalados ali no meio da turba... Vão ficando tristes, desatentas e caminham com dificuldade. Trepar, nem pensar. Segundo o Mendigo K, que é ginecologista, a recusa secular da maioria delas ao sexo com homens, está associada à prisão de ventre...

Enfim, estão cansadas! Exaustas! Já fizeram o teatro revolucionário para inflar o ego dos cafetões, para garantir a cesta básica, as fraldas para seus filhos, os absorventes para suas meninas, os sub-empregos dos maridos e agora só querem voltar para casa. Ah! o Ventre Livre! Mas antes são obrigadas a ouvir os derradeiros discursos de quem lhes pagou o passeio e as fantasias... Verborréias e discursos não faltam. Qualquer um que os ouve percebe que foram elaborados especialmente para elas... Para elas que só estão pensando em sentar-se numa privada e aliviarem-se... Ufa! E depois, todo mundo está enojado desses discursos (de) e (para) clowns e mendigos... Nada é mais abjeto, cretino, falso e supersticiosos do que esses discursos baseados na caridade... Lembram de Nietzche, quando escreveu que o cristianismo era uma religião ou uma seita de mendigos? (Até hoje é um mistério o fato de Roma a ter oficializado) Sim, há uma certa similaridade... Já que tanto o Cristianismo como a República foram edificados sobre as sobras platônicas, aristotélicas e mefistotélicas de toda aquela viadagem peripatética grega... Um apátrida árabe que habitava os arredores da Maison du Brasil, em Paris, estava convicto de que se Cristo voltasse, e visse a desgraceira generalizada da América Latina e do resto do mundo, se converteria ao islamismo... Ufa!!!

Quando é, afinal, que nos livraremos dessa filosofia da miséria? Quando é que se conseguirá fazer um discurso potente, soberbo, de pé, não de joelhos e menos senil? Quando é que se substituirá as escolas de Assistência Social por escolas de Física Nuclear e de astrofísica? E quando é que se conseguirá sair da Teologia para a Antropologia? Da alquimia para a química e libertar-se dessa lógica e dessas crendices esotéricas de colonizados? 500 anos de enrolação e de manutenção eleitoreira dessas hordas de indigentes, com 20 ou 30 famílias roubando tudo para si, em troca de elogios cabotinos às massas em desgraça??? 

As margaridas fingem ouvir aquelas baboseiras cretinas que já ouviram de outras bocas e de outras confrarias... Sabem que é tudo teatro, pantomima, protocolos mesmerianos, hipnose vagabunda... Estão visivelmente nervosas. Se agridem entre elas por qualquer esbarrão, por qualquer coisa e por qualquer mal entendido... E quando ouvem os discursantes falando que vão protegê-las da misoginia, ocultam um riso cínico por debaixo dos chapéus, porque sabem que ninguém é mais misógino do que elas próprias. Elas que não se toleram entre si... E misoginia aqui, bem entendido, não deve remeter ninguém ao mundo da sociologia, (como querem alguns trapaceiros intelectuais) mas sim ao mundo da biologia...








quarta-feira, 16 de agosto de 2023

AS MARGARIDAS e a marcha quase maior que a de Mao Tsé Tung... (2)



[Talvez ainda mais do que a autoridade constituída, é a uniformidade social e a mesmice que mais oprime o indivíduo].

Emma Goldman






Brasília nunca viu uma marcha tão impressionante como a de hoje. Realmente, as margaridas vieram do país inteiro para dizer que não estão moribundas e que com elas, o buraco é mais em baixo... Repito: foi impressionante! Cada Estado mandou as suas. Havia, sim, alguns poucos homens e alguns escassos travestis no meio da turba, mas que diante do delírio de "empoderamento" delas, permaneciam discretos e retraídos como crianças de nove anos...

Desceram pela Esplanada aos gritos, pelo mesmo caminho daquele pessoal do dia 8 de janeiro, mas agora, sem a fantasia de quebrar e tocar fogo nos TRES poderes, apenas desejosas de queimar incenso ao Lula e à Janja. Apesar da mesmice de sempre e dos clichês revolucionários, das menções à Simone de Beauvoir e até à Emma Goldman, muitas não conseguiam esconder os sinais da tosquia, nem a fidelidade e a paixão pela Madre Teresa de Calcutá... Enquanto ia clicando, pensava: se cada uma delas portasse uma espingarda, uma pistola ou mesmo uma foice, nós que mamamos e parasitamos há décadas aqui nos salões da República, estaríamos perdidos...

Depois, lá na beirada dos palácios, como se fosse a apoteose na Marquês de Sapucaí, começaram aparecer no palco os trapaceiros profissionais, que olhavam para a multidão sob essa secura de deserto e choravam, faziam promessas mil, juravam que nunca viram maravilha igual, que sempre amaram as mulheres acima de qualquer coisa, que não podem nem imaginar como os feminicídios estão aumentando, e que já amanhã iriam assinar as portarias e criar as leis que lhes restituirá o desejo perdido; que lhes garantirá um gozo infinito, além de poupá-las, a partir de agora, de coabitar com energúmenos e mais: que as protegerá do canibalismo amoroso e da misoginia; assim como do papel de vacas parideiras e de escravas do lar...

Duas marisqueiras que estavam a meu lado, a cada frase que ouviam cochichavam: esses merdas ainda não sabem nada de nossas vontades e nem de nossos desejos. Apenas querem é nosso voto, o de nossos filhos e o de nossos maridos que ficaram bêbados, deprimidos e vendo futebol em casa. Ora! Quando é que esses babacas compreenderão que nunca pretendemos ser "Chefes de família" e que, pelo contrário, desejamos ardentemente a extinção desse agrupamento de hienas e de otários... e mais: que nosso gozo e que nosso reino não são deste mundo??? E querem enfiar-nos mais e mais comida... Que merda é essa? Será que não estão vendo que já não cabemos dentro de nossas calças e que estamos nos sentindo pesadas como antas?

A multidão, encharcada de suor, de lágrimas, de idolatria, de sedativos e de odores, como se estivesse na Ilha de Marajó, gritava: Meu coração é vermelho... (na Ilha de Marajó, todo mundo sabe, a população de búfalos é quase maior que a de gente...)

Enquanto isso, nos céus de Brasília, nenhuma nuvem e, evidentemente, nenhuma esperança...