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terça-feira, 30 de julho de 2002

A Praga emocional


Acaba de ser lançada em Paris uma reedição do livro de Jean-Marie Brohm e Marc Perelman, intitulado Le Football ‹ Une Peste Émotionnelle (Les Éditions de la Passion). Com menos de 40 páginas, esse livreto constitui uma preciosidade, um texto admirável e de rara lucidez que aborda a questão do fanatismo, da alienação, da cretinização e de outras patologias sociais intrínsecas aos esportes em geral mas em particular à ŒŒorgia populista¹¹ do futebol. Como estamos no fim de mais uma Copa de Mundo, com os serviços públicos praticamente desativados, com muitos torcedores em surto e com o planeta inteiro estressado diante da televisão, parece oportuno selecionar algumas idéias e colocar em pauta as mais importantes reflexões nele contidas.

1 - Ideologia
Em nome de um pretendido ŒŒideal esportivo¹¹, todos os adeptos do culto da performance minimizam ou até ocultam sistematicamente as realidades efetivas do esporte de competição contemporâneo, singularmente do futebol que eles, contra todas as evidências, insistem em apresentar como um universo de ŒŒfraternidade¹¹, de ŒŒpaz¹¹, de ŒŒencontros amigáveis¹¹, de ŒŒpaixões igualitárias¹¹ e mesmo de ŒŒdemocracia¹¹ e de ŒŒcultura¹¹. Todos esses zeladores da macrosseita da bola fecham os olhos para a mentira, para a má-fé, para a falsa consciência, para a prática do doping, da corrupção mercantil, dos interesses mafiosos, das explosões de violência, do racismo e do ódio do outro que gangrenam o espetáculo multinacional do futebol. (...) Os ideólogos do futebol que consagram a maior parte de seu tempo incensando o amor pelo futebol, a festa, o sonho, a alegria, a cultura e outros slogans da mistificação esportiva, evidentemente não se preocupam em condenar o escândalo desses mercenários transnacionais pagos a preço de ouro enquanto os desempregados e grande parte dos trabalhadores vegetam na precariedade, na miséria e na pobreza. Nessa vasta legião familiar que reagrupa todas as tendências da esquerda e da direita, todas as tribos do jet-set, todos os devotos da sociedade do espetáculo, a gente reconhece sem dificuldade os farsantes ordinários do ópio do povo. (...) O ŒŒEspetáculo Total¹¹ de que fala Bromberger não é na verdade mais do que o espetáculo da violência social, aquele que leva centenas de milhares de torcedores a aclamar os gladiadores dopados do gramado. Quanto à ŒŒficção lúdica¹¹ do futebol, ela tem um gosto de sangue, de ódio e de xenofobia...

2 - Cultura & Arte
Pretender que o futebol participe da cultura é não apenas zombar do mundo, mas ter uma visão medíocre da cultura ‹ aquela do prêt-à-penser, do fast-thinking e do zapping ‹ que predomina hoje em dia nos meios de comunicação onde atuam os novos cães de guarda. (...) Contrariamente ao futebol, as obras de arte, estejam sob nossos olhos ou não, levam a pensar. Se uma partida de futebol que leva a turba ao delírio impossibilita o sujeito de pensar, a obra de arte ‹ por sua vez ‹ faz a pessoa refletir, participa do imaginário, se instala como alteridade à sombra do cotidiano; ela nos mergulha na fantasia e no sonho. O futebol não. Pensar no futebol é parar de pensar ou pensar só nele, isto é, não pensar mais. O projeto do futebol não é outro senão ele mesmo, um projeto sem projeto. Se com o futebol a percepção e o olhar lançados aos jogadores não constituem mais que um ritual unilateral, em vez de uma dialética com a obra, qual é a experiência de liberdade que se experimenta com esse esporte quando não existe mais do que a liberdade de uma experiência coisificada? (...) Se por um lado o artista cria seu espaço mesmo quando é limitado por um quadro, (...) a inteligibilidade do futebol não pode se ligar a uma história que não chega a ser mais do que uma coleção de cifras abstratas e a neurose social da estatística e dos resultados...

3 -Intelectuais
Este dogma pós-moderno ‹ que vai da esquerda ŒŒbranchée¹¹ à direira liberal ŒŒcarnassière¹¹ ‹ encontrou hoje em dia seu terreno de eleição na apologia cínica do esporte em geral e do futebol em particular. A Copa do Mundo de 1998 foi, nesse sentido, um bom revelador da amplitude da lobotomização que tomou conta dos intelectuais, dos ŒŒlíderes de opinião¹¹, particularmente os jornalistas de esquerda e, principalmente, das legiões de pensamento único esportivo onde se cruzam vedetes do showbiz, estrelas multimídia, ŒŒgrandes pensadores de nosso tempo¹¹, publicitários, apresentadores servis do prêt-à-penser e outros artistas do ŒŒrealismo¹¹. Todos torcedores apaixonados, fetichistas e loucos pelo futebol, fanáticos do couro e do gramado. (...) A esquerda plural e seus companheiros de rota esquecem que o futebol, como todas as outras realidades sociais de massa, é marcado pelas clivagens políticas e pelas opções ideológicas. Longe de ser neutro, por cima dos conflitos sociais, o futebol representa o mesmo tipo de doutrinamento totalitário que impede mesmo os espíritos mais lúcidos de permanecer críticos ou até mesmo simplesmente lúcidos. (...) A unanimidade com a qual os intelectuais de hoje se negam a criticar o futebol, deleitando-se com as delícias da vibração passional, é uma coisa inquietante, pois a fusão populista com a embriaguês popular por diversas vezes acabou num destino trágico, seja na aclamação do Führer, do realismo socialista, dos tribunais do povo ou da revolução cultural. (...) Os ditadores sabem muito bem por que eles são sempre e em todos os casos a favor do esporte. Quem apóia os esportes tem as massas a seu lado. É por isso que atualmente todos os governos são a favor dos esportes e contra a cultura... (...) A estetização da política que praticavam o fascismo ou o nazismo é substituída pela esportivização da estética que praticam todas as formas de totalitarismo, inclusive as democracias mais brandas...

4 - Sexo
É ao redor da sexualidade, como estrutura de comportamento violento e mesmo guerreiro, assim como do sadomasoquismo da grande maioria dos jogadores, que se afirma, em toda a sua plenitude, a economia futebolística. (...) Para Theodor Adorno e Max Horkheimer, a gente assiste mais ainda na sociedade atual a uma ŒŒhomossexualização inconsciente¹¹ de uma estrutura infantil. O ideal erótico se torna infantil, e isto é perceptível nas situações em que os jogadores se abraçam, se dão tapinhas na bunda, se jogam no chão uns sobre os outros, dão piruetas, gritam entre eles (...) A sexualidade ligada aos esportes, ao futebol, constitui uma degradação da vida erótica assimilada a um treinamento prévio, ao ato profissional, ao novo tipo de trabalho que constitui o jogo. A libido investida no processo esportivo é orientada para atos vulgares e compulsivos (cuspidas, palavrões, gestos obscenos) e para manifestações de violência sobre o outro. Em seguida e ao mesmo tempo, a tendência pulsional inerente ao futebol é o desenvolvimento de comportamentos homossexuais latentes entre os jogadores, sobre a base de uma cumplicidade, não amorosa mas de violência compartilhada entre vencidos e vencedores, na guerra do jogo.

5 - Corrupção
As redes de corrupção, os jogos marcados, os árbitros comprados, os jogadores ŒŒcontactados¹¹, os resultados predeterminados, tudo isto não é uma invenção de qualquer sociólogo ŒŒesquerdista¹¹. Sócrates, antiga estrela do time brasileiro, dizia em abril de 2001 na França, ao jornal Libération: ŒŒQualquer jogador da Terceira Divisão deve dividir seu salário com um agente, seu treinador e os dirigentes do clube. É a mesma coisa em todos os níveis. O futebol brasileiro se transformou num ambiente completamente prostituído. Hoje em dia, uma meia dúzia de pessoas à frente da federação paulista e da CBF sugam toda a riqueza do futebol brasileiro¹¹. (...) Os jogos trucados do Campeonato da Inglaterra ilustram a mundialização da corrupção no futebol. (...) O secretário grego dos esportes afirmava em novembro de 2000 ao Libération: ŒŒA arbitragem do futebol está submetida a uma gangue¹¹. (...) O futebol da Malásia está impregnado de corrupção. Oitenta e cinco por cento dos jogos da liga nacional foram trucados (...) Corrupção no futebol belga (...) Escândalo e corrupção generalizada no futebol chinês (...) Escândalo no futebol turco (...) A corrupção vai a galope no futebol francês (...).

6 - Violência
Àqueles que pensam que a violência do futebol não é mais do que um epifenômeno passageiro ou um ŒŒdetalhe¹¹ de sua maravilhosa legenda, basta mostrar a lista interminável de vítimas desse esporte: sufocamentos, pisoteamentos, explosões, cassetetes e punhaladas, tanto dentro como fora dos estádios. (...) Na Inglaterra, Alemanha e Holanda os hooligans, na Argentina os barrabravas, na Itália os teppisti (...) A Fifa indenizou os parentes das 78 vítimas de 1996 no estádio Mateos-Flores da Guatemala. (...) De 1976 para cá, os incidentes ligados ao futebol fizeram 53 mortos na Argentina. (...) Por detrás da tela de sonho se dissimula a maquinaria do futebol com seu impiedoso princípio de realidade saturado de ódios, de violências, de destruição e de mortos. (...)

Ainda não publicado no Brasil, o trabalho desses dois sociólogos franceses é mais do que tudo um chamado de alerta e de reflexão para com a velocidade com que a máquina esportiva, sob os mais diversos disfarces, tem interferido nos aspectos mais importantes da sociedade atual, favorecendo, principalmente entre a juventude, a alienação e até mesmo uma espécie de cretinização.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 11 de abril de 2002

O mito do escritor marginal


Palestra feita na Universidade de Brasília
a convite dos alunos de psicologia


"Não existe um grupo de jovens pelas ruas que não possa ser um grupo de criminosos. Não têm nenhuma luz nos olhos: seus traços são traços imitados de autômatos, sem que nada de pessoal os caracterize de dentro. A estereotipia torna-os pérfidos. Seu silêncio pode preceder um trépido pedido de ajuda ou uma facada. Os filhos que não se liberam das culpas dos pais são infelizes; e não existe signo mais decisivo e imperdoável de culpabilidade do que a infelicidade".

P. P. Pasolini



O convite para participar deste evento detonou inesperadamente em mim um surto de mau caratismo, uma neurose antiga e abominável, muito bem conhecida nos guetos acadêmicos e intelectuais, cujo principal sintoma é sempre o mesmo: a disputa pedante com uma platéia imaginária e por um Poder fictício.

Vi-me diante da tentação de assumir uma postura que não me pertence, de exibir um Texto e um Saber que não tenho, de armar-me até os dentes e de colocar-me num lugar de onde poderia derrotar facilmente as possíveis objeções contra minhas idéias e até mesmo contra meus desejos. Surpreendi-me várias vezes arquitetando um truque para parecer mais hábil e até mesmo MAIOR que qualquer um dos interlocutores, mesmo que para isto fosse necessário falsificar argumentos, burlar estatísticas, inventar referências e arrancar de minhas entranhas a lábia imbatível que os intimidasse para sempre e que os mantivesse imóveis e mudos aí em baixo, um metro e meio abaixo deste púlpito que, histórica e sabiamente, a tradição eclesiástica concedeu aos padres, aos professores e aos políticos. A esses irmãos siameses, empenhados há séculos em dar legitimidade às três clássicas e conhecidas profissões impossíveis: a de EDUCAR, a de CURAR e a de GOVERNAR.

Falaria espontaneamente? Mesmo correndo o risco de ser traído por meus instintos, de dizer um montão de bobagens infundadas e de ser ridicularizado pelo espírito maligno e justo que sempre atiça as platéias? Ou, matreiramente, ordenaria minhas idéias num roteiro em forma de jaula (como fazem os professores), para assim preservar minha integridade intelectual e garantir a imagem que quero que tenham de mim?

Sempre tive preconceitos com os palestradores que não palestram e com os vivaldinos das metodologias pós-modernas. Entretanto, depois que vi o próprio Chomsky, o Edgar Morin e outros pequenos deuses da atualidade, neste mesmo estrado, agarrados à duas ou três laudas, com os joelhos trêmulos e apertados um ao outro, fui relaxando e sendo mais condescendente com meus fantasmas e com minhas antigas exigências, baseadas muito mais numa idealização semi-religiosa e boçal do mundo, e muito mais num superego vil, do que no bom senso. Claro que se estivessemos numa Bolonha medieval ou numa Sorbone do século XIII, onde os professores eram escolhidos pelos próprios alunos, por sua sapiência e não por sua astúcia, uma postura destas me custaria não apenas a cátedra, mas também a honra. Aliás, quero lembrar que só concordei em vir expor-me aqui, deste jeito, porque o convite partiu dos alunos. Não porque acredite que eles sejam menos viperinos que seus mestres, mas por saber que ainda não precisam defender o Espaço Universitário nem a Práxis acadêmica com a obsessão de quem defende um dogma. Por outro lado, porque identifiquei na lógica desse convite, uma prática correta e saudável da Idade Média. Seria fascinante se voltassem a ser eles, os alunos, que escolhessem rigorosamente seus palestrantes, seus professores, seus peritos, seus orientadores, etc, como o era naquele tempo. E que não fossem, claro, recrutá-los apenas lá no interior das mesmas confrarias financiadas por organismos estatais ou multinacionais, nem que se deixassem impressionar pelos títulos ou pela quantidade das Cartas de Recomendação, memorandos, "pistolões" bilhetinhos, exibidas pelos pretendentes, mas sim pela maneira como dançam a vida, como saltam de uma corda à outra do trapézio em movimento e de como driblam as paranóias inevitáveis deste circo neurótico e de quinta qualidade que é a vida.

Quando tento entrar de vez no assunto que aqui interessa, me deparo com minhas limitações e com a dificuldade de esboçar até um simples retrato tanto do suposto "sujeito marginal", como da produção "supostamente naldita". E digo suposto propositalmente para insinuar desde já que, talvez, nem seja possivel ser MARGINAL, essa pecha pejorativa que os editores do século XVIII lançaram, com fins estritamente econômicos, contra àqueles autores que preferiam publicar eles próprios as suas obras. E digo suposto, - repito - porque qualquer um de vocês conhece a dificuldade de permanecer sem nenhum estatuto, à margem, do outro lado do arame farpado, além de um período curto e idílico, já que tudo neste planeta beato conspira para que sejamos, ou jogados terminantemente no lixo ou cooptados pela máquina da cultura.

E se por milagre o sujeito conseguir resistir a esse assédio por toda a vida (o que é quase impossível, uma vez que - como dizia Foucault - o anonimato literário não lhe é suportável), assim que bate as botas é rapidamente resgatado e reabilitado pelos abutres da literatura: um padre, um professor, um mestrando ou um mecenas qualquer. Então se torna lenda, folclore, um santo, um espírito benéfico ou maléfico que renderá dinheiro para alguém, mesmo quando constava em seu curricullum o diagnóstico de ateu, anarquista, anti-social, corsário, vagabundo, perverso sexual, mendigo, boêmio, cachaceiro, louco por xotas, delinqüente, autodidata, etc.

Pelo que já vimos até agora, tanto neste como em outros países, o tal "marginal" não é necessariamente um sujeito que diz NÃO para sempre ao Contrato Social, e tampouco aquele que cospe de forma irretroativa sobre os cânones principais do Estado, da Família, da Igreja e das outras imbecilidades estabelecidas. Sua marginalia (como tudo nesta sociedade presidida por rebanhos) é efêmera. Pensem em Rimbaut, se quiserem, ou em Baudelaire (que fingia querer dinamitar todos os pilares morais e sentimentalóides da época, mas que bastou adoecer, para voltar em frenesi para os braços da mãe). Pensem até no alquimista Paulo Coelho, se isto não lhes dá náuseas, que travestiu-se de marginal até que pode e que agora, de uns anos para cá, vem insinuando poderes sobrenaturais e acaba de ser agregado ao bando da Academia Brasileira de Letras.

Sim, o "marginal das letras" é um personagem que ganha visibilidade apenas num tempo determinado e limitado de sua trajetória. De um dia para outro, ou some naturalmente do mapa, sem deixar rastro, ou é absorvido e enrabado pela melancolia democrática.

Como todo farsante, descobre - ­como escrevia Pasolini - que é muito melhor ser inimigo do povo do que inimigo da realidade. Vai mudando de pele como uma serpente, ou como um calango, racionalizando seu retrocesso e sua metamorfose até que se deixa seduzir definitivamente por uma editora, por uma seita, por uma viúva, por um contracheque, por uma vaga num Departamento de universidade ou de Ministério, ou pelos elogios de um pederasta da mídia. Sucumbe à própria vaidade escamoteada e ao narcisismo que há décadas espreitava do fundo de seus complexos. Começa adocicar as palavras, preocupar-se com a gramática, fazer concessões, mudar o penteado, aparecer engravatado nas saturnais dos corruptos emergentes e pleitear uma cadeira entre a troupe senil que comanda há séculos a maioria dos banquetes. De Balzac a Lima Barreto. De Gregório de Matos a Leminsky. De Jean Genet e Samuel Rawet a Plinio Marcos, etc sempre a mesma ambigüidade e o mesmo flerte esquizóide com o Lixo e com o Luxo, como se trilhar à "margem" e na "contramão" da comédia social não fosse uma opção consciente nem um destino irrevogável, mas apenas um esnobismo neurótico experimental.

Mesmo assim, seria ridículo negar que produziram melhores obras aqueles que, por uma razão qualquer, foram banidos do sistema, cuspidos para fora da família, amaldiçoados por uma mãe histérica e por um pai asselvajado, excomungados, algemados, barrados na porta das universidades, rejeitados pelo mundo editorial, possuídos por uma ou outra forma de loucura. Sim produziram melhores trabalhos aqueles que encontraram na própria bílis a maneira mais cruel de exercer a denúncia, por um lado, contra a espécie abominável que é o homem e por outro, contra um mundo tão frívolo e tão pérfido.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 23 de janeiro de 1997

Intelectuais e o truque da mistificação mutua


"Não é o homem que é desprezível,

mas aquilo que ele pensa"


(Cioran)


Num planeta praticamente dominado por brutamontes e especialmente num país cuja população básica é de analfabetos, ninguém deve se horrorizar ao perceber que aqueles sujeitos que possuem um conhecimento mediano, que falam idiomas e que sabem recitar Adam Smith, Marx ou Santo Agostinho sejam considerados pequenas divindades, gênios, estadistas, intelectuais etc. Foi assim nos tempos das cavernas, no período negro do medievalismo, nos séculos mais recentes e, o pior, o é ainda hoje e com a mesma ingenuidade.



Um caso clássico e exemplificador do que escrevo, pode ser o daquele simpático senhor e ex-presidente que, apesar de ser um caso típico de inteligência mediana, continua sendo exibido por seu staf como sendo um superdotado, como um herói do poliglotismo e como um honoris causa das principais universidades modernas do mundo. Para que esse espetáculo tenha êxito, todos sabemos, basta dispor de um ator com boa memória, da cumplicidade dos meios de comunicação e, lógico, das chaves do poder. 

Se entre os gangsters regionais e internacionais existe uma visível conivência, um corporativismo militante e uma cumplicidade incondicional, no mundo intelectualóide da política e principalmente do politicismo, existe algo ainda pior: um pacto de promoção mútua. O presidente da Argentina, por exemplo, queima incenso ao presidente da Venezuela; o da Venezuela, por sua vez, faz panegírico ao da Bolívia; o da Colômbia diz que o do Brasil tem um passado honrado e que é um sábio, enquanto este reverencia submisso o da Alemanha ou o dos EE.UU. etc, etc. Filósofos elogiam filósofos; governadores aplaudem governadores; doutores defendem doutores, bispos santificam outros bispos e assim se eterniza o espetáculo nas esferas da diplomacia-vaselina e da politicagem mais vomitiva, enquanto o populacho e a manada, destruídos pelo inferno da ignorância, ruminam utopias ou despencam na depressão.


Quem tem a mínima vivência acadêmica internacional sabe muito bem como funciona esse marketing e como os intelectuais-políticos ou os políticos-intelectuais agem para mistificarem-se mutuamente. 


-Fulano de tal da Sorbonne convida o Sicrano de tal da USP para «dar uma conferência», para que logo em seguida o Sicrano da USP convide o fulano da Sorbone para um «simpósio». Nos tais eventos artificiais ou fictícios, como era de se esperar, não aparece ninguém, mas como o que importa para os dois lados é o «teatro em sí», o curricullum Lattes e o folclore do saber, tudo é devidamente vivenciado como se fosse algo sério, uma praxis ética e até revolucionária... 


Beltrano de tal do centro X de pesquisa publica uma resenha do fulano de tal do Instituto Y, para logo em seguida receber deste uma bolsa de pesquisa, honorários, títulos, promoções, passagens etc. Se não produzem praticamente nada de aproveitável para a ciência, para seus países e muito menos para as manadas silenciosas, pelo menos passam bons momentos nos melhores hotéis, restaurantes e aviões do mundo, faturando em Euros e sempre fazendo de conta que estão dedicando a vida a um projeto humanista. 


Um filósofo escreve no Le Monde que outro filósofo é uma genialidade e logo em seguida o Outro lhe retribui com gratidão na "Folha de São Paulo" afirmando que aquele é a revelação do século... 


E assim, numa espécie de ping-pong pederástico, esses sabichões vão driblando as massas distraídas e sugando até o último centavo dos cofres nacionais e internacionais, supostamente destinados aos programas científicos e culturais. E depois, quando se cansam dessa mamata, então se aposentam: um pé na igreja e outro na universidade; uma nádega num ministério e outra numa multinacional. Com um capital suculento e com aposentadorias compatíveis com a deslealdade exercida durante tanto tempo, é evidente que não ficam vivendo aqui. Vão imediatamente viver em Genebra ou em Washington. Abandonam a África, o Leste Europeu, a Ásia ou a América Latina que lhes pagou ou que pelo menos justificou seus privilégios e vão viver no frescor suíço ou na viadagem de Nova Iorque, certos de que "cumpriram com sua missão". E o pior: nos jornais dessas nações pobres, míopes e miseráveis que sustentaram esses gatunos, os articulistas-filósofos da ativa, numa demonstração clara de corporativismo e de fidelidade classista, de vez em quando ainda usam uma página de seus jornais para clamar devotamente:


-No tempo do Fulano de tal!

-Que barbaridade! O Brasil continua perdendo seus melhores talentos!

-Estamos indignados! O terceiro mundo não valoriza os seus mais bem dotados cidadãos!

-Meu Deus! Que triste é ver o êxodo de todas essas genialidades! etc, etc.

E as massas de leitores semi-analfabetos deliram! Amam o cinismo posto em prática. Admiram essa troupe facínora que cita de cor tanto o velho Golbery como o Papa Pio XII e que enquanto embolsa propinas ou comunga, jura que dedicará toda sua vida à emancipação cultural e econômica dos fodidos e dos alucinados da terra.


Sim, a classe média, os assalariados e os licenciados se identificam com esses furúnculos da sapiência, se prostram ao ouvir uma frase em inglês, um versículo em hebraico ou uma citação de Hegel em alemão. Adoram as gravatas coloridas, os topetes grisalhos, os gestos teatrais do covil.


E o pior, é que ainda em pleno século XXI, o que se observa verdadeiramente na praxis de todo esse circo de quinta qualidade é, por um lado, que nenhuma força parece ser suficiente para coibir essa farsa generalizada, esse blefe sobre a sociedade e sobre si mesmo, e por outro, que o mundo, esse planeta desvairado, vai rapidamente tomando a forma de um imenso e lúgubre sanatório, que se distrai apenas com o cacarejar insano de seus dementes.

Ezio Flavio Bazzo