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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Humberto Eco (autor do livro O nome da rosa) discursando numa manifestação contra Berlusconi em Milão...

Estes poucos segundos da fala e da figura de Humberto Eco são 
mais do que suficientes para provar a tese de que não conhecer os autores das obras que admiramos é uma precaução necessária.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

ESCRITOR CHILENO MIJA SOBRE A COVA DE BORGES...

Com 72 anos o escritor chileno Eduardo Labarca que está lançando em Buenos Aires o livro El enigma de los módulos causa alvoroço entre os argentinos por ter “mijado” sobre a tumba de Borges lá num cemitério de Genebra. Entre as explicações para o irreverente gesto Eduardo diz que quis apenas homenagear e também dar uma lição ao cidadão Borges, entre outras coisas, por ele ter ido ao Chile em determinada epoca quando a repressão politica estava no auge, só para saudar e apoiar o ditador Pinochet. Apesar de debitar a Borges seu entusiasmo pela literatura, Labarca afirma que o autor de A QUIEN YA NO ES JOVEN (ver texto abaixo) foi um cidadão lamentável.

Mas Borges está morto. Nem sequer quis ser enterrado aqui nesta América de falastrões. Deve ter desconfiado que se fosse colocado lá no La Recoleta, um belo dia, por um motivo ou outro, os chacais ainda iriam revirar seus ossos...


Na página 273, Vol. II de suas Obras Completas, pode-se ler:


Ya puedes ver el trágico escenario / Y cada cosa en el lugar debido; La espada y la ceniza para Dido / Y la moneda para Belisario.  A que sigues buscando en el brumoso / Bronce de los hexâmetros la guerra / Si están aqui los siete pies de tierra, / La brusca sangre y el abierto foso?  Aquí te ececha el insondable espejo / Que soñará y olvidará el reflejo / De tus postrimerías y agonías. / Ya te cerca lo último. Es la casa / Donde tu lenta y breve tarde pasa / Y la calle que ves todos los días.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

PAULO COELHO, LULA & ZOROASTRO...

A suposta proibição dos livros de Paulo Coelho no Irã (estaria desbancando a Zoroastro?) tem provocado ironias e discussões tanto nas academias como nos botecos fazendo reaparecer o desprezo temperado com inveja e mágoa que os escritores em geral alimentam por ele. Como já disse em outras ocasiões, tanto ele com seu sucesso literário, como o Lula, com sua popularidade política, são perversões de massa que apontam para a cegueira e para a sinistrose mental em que se está mergulhando. Claro que existe a possibilidade tanto das estatísticas terem sido burladas (no caso do Lula) como da tal censura no Irã ser apenas mais uma peça de marketing do referido escritor, mas, seja como for, nada minimiza a pasmaceira fastidiosa e o retardamento mental que essa unanimidade representa e nem o visível embotamento psíquico que está em curso desde a terra do fogo até as geleiras siberianas. Que os escritos do Paulo Coelho venham a ser proibidos por alguém e que o Lula, no passado, tenha sido considerado um perigo para a democracia são questões difíceis de entender, já que os textos do primeiro poderiam muito bem ser de autoria de alguma noviça cínica e deslumbrada e as idéias revolucionárias do segundo atribuídas a qualquer cândido gerente de banco...

Não, não adianta se indignar! A vida é essa baboseira que todos conhecemos algo como um puzzle cuja forma não é definida, onde o desenho é abstrato e onde sempre há peças defeituosas demais ou de menos...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Ao leitor.... As flores do mal...


A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso corpo e o espírito viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.
Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.
Na almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade estão se evoca
Por obra deste sábio que age sem ser visto.
É o diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo que repugna, uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.
Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.
Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.
Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vício ancestrais,
Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu o conheces, leitor, ao monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão.
(Charles Baudelaire)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mañana es siempre otro dia... (O es siempre y siempre lo mismo?) III.

Existe um escritor, filósofo e pensador brasileiro que ninguém da trupe que conheço se atreve a ler e muito menos dizer em público que o está lendo. Independente de seus valores e crenças – dizem que já foi “comunista” e que hoje é outra “coisa” – seu texto é o que existe de mais lúcido, erudito, dialético, brilhante e corajoso na atualidade isto, sem falar da leveza literária. Me refiro ao Sr Olavo de Carvalho. Odiado por quase todas as facções nacionais, seus conceitos sobre a política, sobre a academia, sobre a cultura de massas, sobre a imprensa, sobre a filosofia, sobre a espécie (com suas misérias) etc., são de arrepiar. Emito esta nota sobre ele com o volume II de seu livro O IMBECIL COLETIVO aberto sobre o sofá. Abaixo, alguns dos trechos sublinhados:

“É de ti, caro amigo, da tua presunçosa inconsciência “politicamente correta” que brota a substância corrosiva que os apóstolos do mal empregam para destruir todos os valores que se opõem à expansão ilimitada do seu poder. Eles têm o dinheiro e os planos, mas a criatividade dos meios é tua. Eles estupram, mas é teu o braço que prende a vítima”.

“Entre a língua escrita e a língua falada no Brasil, o abismo é cada vez mais fundo”.

“No Brasil, um aviso que circule por escrito não surte efeito: é preciso repeti-lo em voz alta. O escrito não tem persuasividade, seu conteúdo parece vago e distante porque, sem a estimulação auditiva, o corpo não é sacudido o bastante para dar à inteligência entorpecida um sentimento de realidade”.

“A decadência do jornalismo brasileiro após vinte anos de estupidez direitista e quinze de besteirol esquerdista, reduzido enfim a uma pasta verbal insossa, onde a menor reação pessoal, mesmo humorística, soa como um tiro num corredor de hospital”.

“O espiritismo tornou-se entre nós quase uma religião nacional décadas depois de o prestígio de Allan Kardec e das irmãs Fox ter-se eclipsado no mundo”.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

E assim as vacas e as vidas vão pro brejo...

Na 21ª Bienal Internacional do livro de São Paulo lançaram mais uma biografia da senhora Lispector, agora de autoria de um forasteiro chamado Benjamin Moser.Putz! Quando é que isto terá fim, afinal? Bem, mas pelo menos é uma biografia de Lispector, o insuportável mesmo é a lenga lenga interminável sobre o tal do Monteiro Lobato, sobre a tal da literatura lusófona, sobre as táticas para despertar o “amor” pela leitura e outras histerias análogas. Um livreiro aqui de Brasília me contava que a queimação de incenso à escritora lá no “Salão de Idéias” foi interrompida momentaneamente porque parte do teto desabou. Hummmm! humnmm! Haahh! Os espíritas, os poetas e os esotéricos presentes não tiveram a menor dúvida de que era ela, em espírito e, pior, na fase maníaca chutando os caibros. Será? Será que sua intenção era quebrar literalmente o pescoço do biógrafo?Pelo sim, pelo não, logo logo surgiram outras “interpretações” sobre a vida e os sintomas da autora de Uma galinha, Os bonecos de barro etc. etc.. Uma das figuras exóticas que estava presente teria relatado o ocorrido a alguém por telefone levantando a hipótese da defunta ter se manifestado para fazer constar seu desagrado com o fato do biógrafo ter tornado público o estupro do qual sua mãe havia sido vítima. Será?

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

QUEDA PROHIBIDO... Teria escrito Pablo Neruda.


Meu correspondente e poeta baiano acaba de enviar-me este espetacular cartaz da 69ª Edição da Feira do Livro de  Madrid que começou esta semana, e que homenageia Jostein Gaarder, o autor norueguês de O mundo de Sofia. Aproveito para compartilhá-lo com os livrólatras e com os visitadores deste blog, conhecidos, fictícios e anônimos.


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Mario Quintana & a preguiça como método de trabalho...

Neste final de segunda-feira mandaram-me um livreto de Mario Quintana. Como o remetente sabe o que penso a respeito da poesia em geral, deve ter feito essa gentileza apenas pelo título da obra: Da preguiça como método de trabalho. Aproveitei o clima de deserto da cidade, dei uma bisbilhotada nos textos do monsieur Quintana e simpatizei logo de cara com umas linhas que vou reproduzir aqui:

- Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu.
- Nada foge mesmo a seu destino histórico, seja um Império que desaba ou uma barata esmagada.
- A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro.
- Ninguém é levado a sério com idéias originais.
- Certa vez, abalancei-me a um trabalho intitulado “Preguiça”. Constava do título e de duas belas colunas em branco, com a minha assinatura no fim. Infelizmente não foi aceito pelo supercilioso coordenador da página literária. Já viram desconfiança igual? Censurar uma página em branco é o cúmulo da censura.

sábado, 19 de junho de 2010

Boa viagem camarada Saramago...

Os grandes, os nanicos e os médios jornais costumam estar com matérias praticamente prontas sobre homens eminentes que já estão com um pé na cova, sejam eles do mundo da política, dos negócios das letras ou até mesmo do mundo do crime. Vem a notícia da morte e pronto: aparecem oportuna e rapidamente três ou quatro páginas elogiosas em cada periódico ilustrando a intimidade, a grandeza, os vícios e os méritos do defunto. As editoras trabalham até de madrugada para reimprimir seus textos e os livreiros amontoam rapidamente suas obras nas vitrines chegando até ao cinismo de dar-lhes um ar de mausoléu. Os parlamentares, principalmente os senadores, sobem à tribuna para fazer menção a esta ou àquela novela, a este ou aquele ensaio. Os amigos, os intelectuais, os críticos de plantão, a canalha esclarecida e mesmo aqueles que nunca leram mais do que uma ou duas páginas de seus livros aparecem nas janelas para resmungar que “foi uma grande perda!”, que “a língua portuguesa ficou órfã!”, que “a literatura perde um homem de coragem!”, etc. Ontem foi a vez do português José de Sousa, conhecido por Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Nem o mais otimista dos apostadores poderia imaginar que aquele homem que havia escrito os romances Manual de pintura e caligrafia e A segunda vida de Francisco de Assis pudesse algum dia vir a receber a bolada do Nobel. Mas recebeu. Passou a ser conhecido como escritor só depois de 1969, quando ingressou no Partido Comunista Português, e neste particular lembra a Jorge Amado que se não fosse o Partido, como escritor teria morrido no anonimato. Homem sortudo, Saramago que já era propagandeado pelos militantes do partido, passou a sê-lo também pelos da colérica igreja católica portuguesa com a edição de seu O evangelho segundo Jesus Cristo, que, apesar de parecer uma crítica feroz é mais uma reafirmação do mito cristão etc., etc., etc. Enfim, morreu ontem numa belíssima ilha das Canárias com 87 anos e ao lado de sua companheira uns trinta anos mais jovem. O que mais pode querer um pobre terráqueo? Que os aduladores façam os elogios que quiserem, que exagerem a vontade, mas Saramago, que a essas horas deve estar quase passando pelo crematório não era lá essas coisas. Não tinha a grandeza e nem a profundidade de um Borges, não chegava nem perto de Vargas Vila, nem parecia conterrâneo de Eça de Queiroz e não chegou sequer a igualar-se a Fernando Pessoa, como dizem alguns bobocas. Sempre que lia suas obras, ouvia ou o via falando tinha o sentimento legítimo e até respeitoso de estar diante de um cardeal laico. Curiosamente, apareceu no cenário desvairado, fraudulento e narcísico da literatura mais ou menos na mesma época que Paulo Coelho.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Michel Onfray pisoteia a Freud e aos psicanalistas...

Após a publicação de seu último livro titulado (l’affabulation freudienne), onde acusa o velho guru vienense de ser charlatão, mentiroso etc... e sua teoria de ser uma tentativa de universalizar problemas pessoais, Michel Onfray está sendo bombardeado por psicanalistas franceses e do mundo inteiro. Elisabeth Roudinesco e Julia Kristeva foram as primeiras a tentar dar-lhe umas boas chicotadas.

Para o filósofo francês,  - autor de Cinismos; O ventre dos filósofos; O desejo de ser um vulcão etc, - a psicanálise não cura coisa nenhuma, ou melhor, cura tanto quanto a radiostesia, a homeopatia, o exorcismo ou uma hora de reza diante da gruta de Lourdes. O autor ainda acusa Freud de ter sido um fracassado, de flertar com o nazifascismo, de interessar-se exageradamente pelo abuso sexual e até de dormir com a cunhada.


Independente de seus pontos de vista sobre Freud e sobre a psicanálise, os livros de Onfray são sempre preciosidades, sempre impregnados de novidades e de olhares novos sobre os seres e as coisas.


Quanto a Freud, depois de balançar as cinzas de seu charuto sobre as páginas do livro em questão, resmungaria: - Ora, monsieur Onfray, o senhor sabe, e muito bem, que na essência todos somos fracassados, que no íntimo, todos somos mais ou menos fascistas, mais ou menos perversos sexuais e que, inclusive, qualquer um de nós enrabaria descaradamente a cunhada... A respeito do fato da psicanálise não curar nada ou coisa nenhuma, isto se deve a que os verdadeiros males deste mundo são incuráveis...

quarta-feira, 31 de março de 2010

INTRIGAS, INVEJAS E NARCISISMOS ENTRE PENSADORES...

I. Kant é um burguês, isto é, um homem pequeno, medíocre, prudente, pouco amante de aventuras e de estética. (Giovanni Papini)

II. Faz dois mil anos que Jesus se vinga da humanidade por não ter morrido sobre um sofá. (Cioran)

III. Existe uma filosofia kantiana e um charlatanismo fichteano. (Schopenhauer)

IV. É porque deixa de ser um homem de ciência para transformar-se no profeta de uma mística tenebrosa, que Freud alcança um êxito extraordinário. (Berl)

VI. Hegel, esse sofista que tinha tanto desprezo pelas crianças de oito anos que acreditava que os dogmas da igreja eram suficientes para elas. (Jules Lequier)

VII. Cuando veo en Marx o Lenin la palabra espíritu, yo me digo que hay mugre y revoltijo inmundo y que Dios le há chupado el culo a Lenin y que es así como há pasado siempre. (A. Artaud)

VIII. Nietzsche, esse tipo fanfarrão de quem se fala bebendo conhaque. (Roger Nimier)

IX. Oh Platão, tão admirado! Não contaste mais que fabulas. (Voltaire)

X. Rousseau, essa tarântula moral. (Nietzsche)

XI. Seneca era um infeliz escrevendo sobre a felicidade. É verdade que era estóico, espécie de leproso armado contra o prazer de viver. (La Mettrie)

XII. Entre las piedras reverberantes de Salamanca, Unamuno inicia a una tórrida juventud en el energumenismo, arropándose con los guiñapos de su filosofia cívica de la fraqueza. (Eugenio d´Ors)

quarta-feira, 24 de março de 2010

CINCO FRASES QUE JAMAIS SERÃO ESCRITAS NA TRASEIRA DOS CAMINHÕES...

I. Amor é dar o que não se tem (Lacan)


II. Todas as esperanças estão permitidas ao homem, inclusive a de desaparecer (Jean Rostand)


III. Quando o populacho se mete a filosofar, tudo está perdido (Voltaire)


IV. "SER". De onde veio esse verbo nulo, que fez carreira tão vertiginosa no vazio? (Paul Valéry)


V. Se existisse um Deus, eu não gostaria de ser esse Deus, a miséria do mundo me destroçaria o coração... (Schopenhauer)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A orquídea (A. sesquipedale) em Madagascar e suas mariposas...

Se você não é um dos abomináveis “ingênuos” que gastam seus míseros dias se matando para acumular Dinheiro e Poder, há um novo livro “na praça” que vai lhe causar fascínio e deslumbre. Refiro-me ao último título do biólogo Richard Dawkins: O maior espetáculo da terra.

Além de conduzir os leitores de forma lúdica pelos estupendos caminhos da evolução das espécies e de esclarecer porque demorou tanto para aparecer um Darwin, o livro vai proporcionando tanto informações preciosas sobre a dinâmica da vida como saberes que são fundamentais para nossa compreensão da existência e, inclusive, para nossa cada vez mais precária saúde mental.

“...flores que para nós parecem sem graça, podem, na verdade, ter suntuosa decoração de pintas e listras para atrair insetos; nós não vemos essa ornamentação porque somos cegos para o ultravioleta. Muitas flores guiam abelhas na aterrissagem com pequeninas marcas de “pista de pouso”, pintadas na flor em pigmentos ultravioleta que o olho humano não pode ver...”

“...Um exuberante prado florido é um Times Square, um Piccadilly Circus da natureza, um cartaz de néon em câmara lenta que muda toda semana conforme diferentes flores chegam à sua estação, meticulosamente regidas por sinais que as sincronizam com outras da mesma espécie...”

“...Existem flores, como a orquídea malgaxe, cujo néctar só está disponível para determinados insetos que se especializaram nesse tipo de flor e se beneficiam de seu monopólio sobre ela. (...) Do ponto de vista de uma mariposa, flores que seguramente fornecem néctar são como vacas leiteiras dóceis e produtivas. Do ponto de vista das flores, mariposas que seguramente transportam seu pólen para outras flores da mesma espécie são como um bem pago serviço de Sedex...”

domingo, 22 de novembro de 2009

Fernando Pessoa & o mendigo em linha reta



“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, eu tantas vezes irresponsavelmente parasita, indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os ouço e me falam,
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza”.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Sou um demônio! Sempre fui um demônio!!!

Quando tenho algum tempo livre gosto de dar uma revisada nas conferências de Rajneesh, aquele charlatão indiano, tão lúcido que, em pouquissimo tempo fez muito mais sucesso que Cristo. Dizia:


-A música é bela, mas você tem de cessá-la. Maomé não gostava de música, porque a própria beleza da música pode manter alguém enraizado.

-Não tente me enganar. Eu próprio sou um enganador tão grande... você não pode me enganar.

-Não sou democrata. Sou ditador; é por isso que tantos alemães vêm a mim. Na verdade, eles vêm porque não conseguem encontrar ninguém na Alemanha. É por isso que eles vêm a mim. Sou um ditador com uma diferença: um ditador com o coração de democrata.

-Não seja covarde, esse é o único obstáculo para conhecer a verdade. É necessário ousar para conhecer; é preciso entrar no perigo.

-A vida é simplesmente uma canção que não tem sentido.

-Estar perto da beleza é estar perto da morte.

-E eu não sou um pregador. Pregar é sujo. Eu sou um amante.

-O idiota é duro, muito duro. É impossível que qualquer coisa penetre na cabeça de um idiota. A cabeça de um idiota está coberta com aço, nada pode penetrar nela.

-Sou um fim... Fim no sentido de que depois de mim não pode haver nenhum cristianismo, judaísmo, hinduismo, maometismo. Depois de mim não há possibilidade de nenhuma ideologia.

-Sou um trapaceiro. Você não pode me trapacear. Eu trapaceei tantos trapaceiros!

-Se houver um Deus, e eu tiver de encará-lo, Ele terá de me responder, e não eu responder a Ele.

-Eu não ensino outra coisa a não ser o destemor.

-A vida não é nada mais do que vinho e, em tais alturas, eu sei que sou um beberrão. Conheço as alturas supremas do Ser e nada pode ser mais alto que isso, eu sei.

-Sou um demônio! Sempre fui um demônio!


Ezio Flavio Bazzo

domingo, 2 de agosto de 2009

Jorge Luis Borges e mi hermano simius

Confesso que depois de longas e frustradas tentativas, entre os de minha espécie, elegi esse personagem como um de meus melhores e mais atentos interlocutores na cidade. Sempre que me aproximo de seu calabouço ele vem a meu encontro, me acena, se move e gesticula como se estivesse me relatando o odioso dia-a-dia de seu confinamento. Neste sábado, já com o sol se pondo, tive a nítida impressão que enquanto fazia pose para minha câmera, recitava com melancolia (mas também com um certo ar de vingânça) este texto de Jorge Luis Borges.


"No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche.
Moriré y conmigo la suma
Del intolerable Universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
Los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el ultimo pájaro.
Lego la nada a nadie".



Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 21 de julho de 2009

Livres de Paulo Coelho e de Machado de Assis, viva LES CHANTS DE MALDOROR


Se você já está cansado de ler Paulo Coelho e Machado de Assis, vá à biblioteca da esquina consultar o livro de Isidore Ducasse: LES CHANTS DE MALDOROR. Enquanto isso, contente-se com esses fragmentos de sua obra, escrita ainda antes dos vinte a quatro anos:

Oh piolho de pupila contraída! Enquanto os rios derramem o declive de suas águas nos abismos do mar, enquanto os astros persistam na trajetória de suas órbitas, enquanto o mundo vazio não tenha limites, enquanto a humanidade desgarre seus próprios membros em guerras funestas, enquanto a justiça divina envie seus raios vingadores sobre este globo egoísta, enquanto o homem desconheça seu criador e se burle dele — e com razão — incluindo na burla uma pitada de desprezo, teu reino estará garantido sobre este universo e tua dinastia mostrará suas garras de século em século.

Se a terra estivesse coberta de piolhos como de grãos de areia a beira do mar, a raça humana seria aniquilada, tomada de terríveis dores! Que espetáculo! E eu, com asas de anjo, planando nos ares para presenciá-lo!

Pirâmides do Egito: formigueiros levantados pela estupidez e pela escravidão!

Aquele que não viu um barco despedaçar-se no meio de um furacão, na alternância dos relâmpagos e na mais profunda escuridão, enquanto os que viajam nele estão tomados pelo desespero que já conheceis, aquele, digo, não sabe o que são desgraças na vida.

A consciência julga severamente nossos pensamentos e nossos atos mais secretos e não se equivoca. Como ela é freqüentemente impotente para previnir o mal não se cansa de acossar o homem, como se fosse uma raposa, sobretudo na escuridão.

O crocodilo não mudará uma só palavra do vomito saído do interior de seu crânio.

Recebi a vida como uma ferida, e proibi o suicídio que faria desaparecer essa cicatriz. Quero que o criador contemple hora após hora, durante toda eternidade, esse tacho aberto. É o castigo que lhe inflijo.

Deste modo, vossos filhos se criarão lindos e reverenciarão a seus pais com agradecimento. De outro modo, doentes e encolhidos como o pergaminho das bibliotecas, avançarão a grandes passos, encabeçados pela rebeldia, contra o dia de seu nascimento e o clitóris de sua mãe impura.

Oh, execrável envilecimento! Como nos assemelhamos às cabras quando rimos!

Quem não sabe que quando se prolonga a luta entre o Ego, pleno de altivez e a magnitude terrivelmente crescente da Catalepsia, o espírito alucinado perde o juízo?

Ezio Flavi Bazzo

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Anna Mahler e Karl Marx no Cemitério High Gate


Sabendo de meu interesse pela arte funerária alguém me enviou duas relíquias fotográficas do Cemitério High Gate de Londres: a tumba de Anna Mahler e esta de Karl Marx. Enquanto as examinava com uma lente de aumento ia arrancando de minha memória algumas frases quase religiosas dos movimentos anarco-revolucionários europeus dos anos setenta:

“(1). A sociedade não será livre enquanto o último capitalista não tenha sido enforcado com as tripas do último burocrata(. 2). Quanto mais faço amor, mais revolucionário me torno; quanto mais revolucionário me torno mais faço amor(. 3). Estamos inventando um mundo novo e original. A imaginação é um poder que captura.”

É curioso que se naquele tempo a juventude, os hippies, os políticos e os professores tinham a ilusão até mesmo de desmontarem o universo, hoje, toda essa canalha institucionalizada não sabe o que fazer para livrar-nos a todos, sequer, da máfia dos flanelinhas.

Ezio Flavio Bazzo