quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

MEMÓRIA - Para entender melhor o RIO DE JANEIRO...



A gripe espanhola nas memórias de Pedro Nava
(Ver: Chão de ferro)

Nisia Trindade Lima

Revista Rio de Janeiro, n. 11 set.-dez., 2003

(...) ... a mão do Senhor veio contra aquela cidade, com mui grande vexação: pois feriu aos homens daquela cidade, desde o pequeno até o grande...
 I Samuel, V-9

... la mortalité fut si considérable qu’on ne put fixer le nombres des victimes. Les cercueils et les planches étant vernus à manquer, on enterrait dix corps et même plus dans la même fosse. 
Grégoire de Tours, 
(citado por ADRIEN PROUST, Peste).


Nós tínhamos, fora do Brasil, dois grupos auxiliares dos Aliados: a Esquadra de Patrulha, comandada pelo Almirante Pedro Max de Frontin, e a Missão Médica, chefiada por Nabuco de Gouveia. Ambos foram atingidos pela pestilência que grassava na Europa, Ásia e África quando entraram em portos do primeiro e terceiro continentes. No princípio pouco se soube do que se passava nos nossos vasos de guerra, o segredo sendo guardado com mais cuidado que no La Plata, saído daqui a 18 de agosto, conduzindo nossos médicos e que deve Ter se infectado a 29 do mesmo mês, quando tocou em Freetown, Serra Leoa, onde grassava a moléstia reinante. Mais um pouco e a viagem começou a ser o inferno que nos descrevem Álvaro Cumplido de Santanna e Mário Kroef nas suas reminiscências. A 9 de setembro os primeiros corpos são jogados ao mar. A 22 chegaram telegramas contando as desgraças da Missão Médica, o que é confirmado, oficialmente, a 27, quando Nabuco dá notícia de Influenza entre seus comandados. Nesse dia o Nestico chegou em casa com um monte de boatos que pouco impressionaram. Entretanto o demônio já estava em nosso meio, ainda não percebido pelo povo como a desgraça coletiva que ia ser, mas já tendo chamado a atenção das autoridades sanitárias, pois a 30 de setembro Carlos Seidl põe a funcionar um serviço de assistência domiciliar e de socorro aos necessitados. Estava reconhecido o estado epidêmico. A 3 de outubro, o Diretor de Saúde Pública alerta os portos e determina as medidas de profilaxia indiscriminada. Neste dia chega à Guanabara mais um barco eivado – o Royal Transport. Antes, a 14 de setembro, a Demerara tinha entrado com doentes a bordo. Provavelmente outros tinham antecipado esses transportes, sem chamar a atenção, mas já contaminados e contaminando. A doença irrompeu aqui em setembro, pois em fins desse mês e princípios de outubro, as providências das autoridades abriram os olhos do povo e este se explicou certas anomalias que vinham sendo observadas na vida urbana; tráfego rareado, cidade vazia e meio morta, casas de diversão pouco cheias, conduções sempre fáceis, as regatas, as partidas de water-
polo e futebol quase sem assistentes, as corridas de Derby e do Jockey com os aficcionados reduzidos ao terço. É que no meio da população, como naquela festa do Príncipe Próspero, insinua-se – não a Morte Vermelha de Poe mas a Morte Cinzenta da pandemia que ia vexar a capital e soltar como cães a Fome e o Pânico que trabalhariam tão bem quanto a pestilência. It is not deaths that make a plague, it is fear and hopelessness in people – diz Powell. E o que ia ser visto no Rio de Janeiro daria toda razão ao médico americano. (...)
Além da corrida, eram disputados os remédios. Faltavam, mas essa falta não teria agravado muito a situação, se olharmos numa crítica retrospectiva o que foi o tratamento da gripe naquela época. Codeína, terpina, benzoato de sódio. Pós de Dower. Poção alcoólica de Todd. Vá lá. Sempre servia. Mas a questão é que a grande maioria dos médicos ativos na ocasião era de homens nascidos e criados dentro da tradição da “biliosa palustre” e do quinino – que logo reinou com a potestade que vemos hoje outorgada aos antibióticos, aos antiinflamatórios, aos corticosteróides. Forma gástrica, quinino. Nervosa, quinino. Renal e urêmica, quinino. Pneumônica e broncopneumônica, quinquinquinino quinquinquinino. Além dos sofrimentos da doença – vinham os da panacéia: zoeiras nos ouvidos, vertigens, surdez , urinas de sangue, vômitos. Não tinha importância. Estava nos livros. (...)
Além da fome, da falta de remédio, de médicos, de tudo, as folhas noticiavam o número nunca visto dos doentes e cifras pavorosas do obituário. As funerárias não davam vazão – havia falta de caixões. Até de madeira para fabricá-los, ao ponto dum carpinteiro do subúrbio atender encomendas fazendo os envelopes com tábuas do teto e do soalho de sua casa. Alças de corda. Ganhou fortuna. Quanto ataúde havia, não tinha quem os transportasse e eles iam para o cemitério a mão, de burro-sem- rabo, arrastados, ou atravessados nos táxis. No fim os corpos iam em caminhões, misturados uns aos outros, diziam que às vezes vivos, junto com os mortos. Havia troca de cadáveres podres por mais frescos, cada qual querendo se ver livre do ente querido que começava a inchar, a empestar. No agudo da epidemia, num dia em que não havia mais jeito de transportar tanto morto, o Chefe de Polícia já dava o desespero quando a solução veio do Jamanta, o célebre folião, figura de prol do Carnaval carioca. Já falei desse enteado de Artur Azevedo, chamado José Luís Cordeiro e que era funcionário exemplar da chefatura da Rua da Relação. Ele conhecia admiravelmente o seu Rio de Janeiro e por um desses caprichos de boêmio aprendera, em passeatas noturnas, a dirigir bondes. Pediu e obteve dos seus superiores um bagageiro com dois taiobas e vasculhou com eles a cidade de norte a sul – Fábrica de
Chitas, Tijuca, Andaraí, Aldeia Campista, Vila Isabel, Méier, Engenho de Dentro, Piedade, Cascadura, Penha Circular, Benfica – apregoando que todos pusessem para fora seus mortos (Bring out your deads!). Bonde e reboques cheios de caixões empilhados e de amortalhados em lençóis, o motorneiro solitário batia para o Caju. Descarregava. O dia já ia alto mas ele voltava a nove pontos, varejava Laranjeiras, Flamengo, Botafogo, Jardim Botânico, Ipanema, Copacabana – pegando mais defuntos. Lotava. Já noite, passava a sinistra composição como o Trem Fantasma ou o navio de Drácula – entupida de carga para o São João Batista. Fez isso uns dois ou três dias que marcaram para sempre sua lembrança.





sábado, 15 de fevereiro de 2020

Acqua Toffana - Das tumbas dos faraós, das alcovas das madames e das tribos amazônicas... para as escolas...

Um dos capítulos mais fascinantes da trajetória de nossa problemática espécie foi aquele em que se começou a descobrir os benefícios e os malefícios das ervas. (Na casa de meus ancestrais só existiam dois livros: a Bíblia, que nunca ninguém leu e uma outra brochura de umas 500 páginas: A cura através das ervas, que meu pai folheava enquanto se deliciava com seu charuto, provavelmente, em busca da imortalidade...) 
Os remédios e os venenos. O Charlatão Paracelso, por exemplo, foi um dos primeiros a sugerir que a mesma seiva de uma plantinha qualquer poderia tanto salvar como matar. E, como era de se esperar, depois de Caim e de Judas, mesmo antes dos Bórgias e dos Médicis, os venenos foram matreira e malandramente catalogados! Dizem que um dos motivos que levaram o Marques de Sade para a cadeia foi o fato dele obrigar as prostitutas com quem passava as madrugadas a tomar uns tragos de Cantharis vesicatória um dos venenos da moda.
Também já foi muito conhecida, principalmente no sul da Itália, a tal Acqua Toffana. Uma beberagem feita por uma senhora chamada Toffana, a quem recorriam as mulheres que queriam livrar-se 'honradamente' de seus maridos.
Mas o que as escolas e os professores têm a ver com isso? Nada! Nada entre aspas.
 É curioso que nestes dias dois professores tenham sido envenenados. Um aqui  no coração da república e outro em São Paulo. Seria uma manifestação de ódio às escolas ou de ódio aos professores? Aliás, alguém já leu El fracaso de la escuela? de John Holt?










sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

SP - A fúria e o MANIFESTO do Rio Tietê... Ou O Eterno Retorno... Ou: o lixo de volta para quem o produziu...

...Enquanto o rebanho, a caminho das pizzarias, segue coçando a barriga e cacarejando sobre o Grito do Ipiranga, sobre os Barões e Condes de uma época perdida e melancólica, sobre a Sapientiae da USP e sobre a Macro-visão da FIESP...  E isto, há décadas... entre uma inundação e outra... 
Em síntese : como diria Brecht: violento não é o Tietê, mas as margens  e os idiotas que o aprisionam.

















quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

"Aquilo que não esta na rua é literatura" Henry Miller


Como já confessei em outra oportunidade, se Paris tem Montparnasse e Roma a Via dei Corsi, Brasília tem a Feira do Paraguay. Uma extensão e um desdobramento da rua e o melhor lugar para se passar uma manhã de quinta-feira, de sábado ou mesmo de domingo. É lá, e não no Setor de Embaixadas que se tem a sensação e a ilusão de viver numa megalópole multicultural e multilingual. Num box estão falando mandarim, no outro árabe, no outro português, no outro idiche, no outro guarani, num outro uma língua incompreensível. E a clientela também é a mais variada. Há os velhinhos miseráveis que querem comprar a tampa do copo do liquidificador Walita da série de 1800; os revendedores de rua, os contrabandistas natos, os policiais disfarçados, as meninas que fingem estar lá para comprar alguma coisa, mas que estão em busca de clientes; há os que gostam de zanzar no meio daquelas porcarias recém chegadas da Ásia ou mesmo do Paraguay; outros que gostam de sentir o cheiro das caixas de papelão, do isopor e do papel bolha. Os que circulam por lá apenas para comer um pastel de carne moída, com queijo e ovo alternado com um caldo de cana. Fotógrafos, em busca de uma lente Cannon, 35mm usada e a melhor preço... E os vendedores, diferentemente dos do shopping, dão nós-em-pingo-d'agua, fazem trocas e milagres sobre os objetos defeituosos. Têm uma lábia que parece herdada dos fenícios. Montam e desmontam computadores, relógios, bonecas infláveis, canetas Mont Blanc, filmadoras secretas, chips misteriosos, armas de choque, canivetes disfarçados de crucifixos, lentes de contato de todas as cores, psicodélicas e descartáveis, cordas de violino, viagra, partituras, camisas de puro algodão feitas por costureiras de Bangladesh ou de Bombaim... Abat-jours supostamente com vidros de Murano. E as Obras completas de Freud num único CD se pode comprar por 14 reais. Um Kamasutra em pergaminho por 36 euros! Programas de todas as ordens, tênis falsificados e melhores do que os originais, tudo. Ali se pode comprar absolutamente de tudo, mochilas, malas, armanis, óculos com designer italiano, punhais, complementos alimentares, relógios (Smart Watch) para controlar as emoções e os batimentos cardíacos! Sim, por quê quem é que seria estúpido e ingênuo  ao ponto de confiar e de acreditar nas loucuras de seu coração?... e tudo isso pode-ser pago com moedas, cartões, cheques, fazer transferências bancárias, ou até mesmo voltar na semana seguinte para quitar as dívidas... e tudo sem a neurose e a paranóia do comércio formal, enclausurado nos shopping e nas galerias. Uma maravilha! As meninas da China que não falam ou que fingem não falar português se comunicam com os clientes mais por intuição do que por outra linguagem e parecem viver no mundo da lua. É verdade: estão um pouquinho gordas! A troca do Yakissoba pela feijoada não esta lhes fazendo bem! Mas são simpáticas! Parecem não estar nem aí para o corpo. Sexo?, então.., devem estar em abstinência desde o último ataque de Gengis khan. Apesar do pensamento de Confúcio pregado à parede, só farejam dinheiro. Money. Money. Trocam e Vendem de tudo! Negociam de tudo! Como se chamam? que idade elas têm? onde moram? Quando vieram ao Brasil? Ninguém tem a mínima idéia. É tudo uma maravilha. Tudo falsificado. Parecido. Duplicado. Replicado. Clandestino. Copiado. Tudo desconstruído!  Mas tudo funciona! Eis aí a maravilha das maravilhas. São elas que fazem um contraponto com a máquina obsessiva, cretina e abusiva que é o comércio mundial... Uma música das arábias emerge por debaixo de um balcão improvisado...Viva a desconstrução e a falsificação de tudo! 
O mendigo K, que estava por lá nesta manhã, e que percebeu meu interesse por aquela babilônia, fez questão de mostrar-me que estava lendo precisamente o livro do coreano Byung-Chul Han, trazido de Buenos Aires, com o titulo SHANZHAI (El arte de la falsificación y la deconstrucción en China)











O conflito com o tempo. Antonia Fontenelle e o poeta persa...






Meu verso (meu corpo) é como o pão do Egito:
a noite passa sobre ele e já não podes mais comê-lo.

Devora-o enquanto está fresco,
antes que o recubra a poeira do deserto.


Djalal ad-Din Rûmi

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Quem (em segredo) não mataria o mandarim de Eça de Queirós?

Aqueles que por acaso já se depararam com O MANDARIM, de Eça de Queirós, devem lembrar-se dessa provocação desmascaradora que o autor faz lá em sua obra:

"Num lugar distante da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que nos falam as fábulas ou a história. Não sabes nada dele, nem seu nome, nem seu tipo físico e nem do tipo de seda com que se veste.
Para que toda sua riqueza e todos os seus bens fiquem para ti, basta que toques essa campainha que esta a teu lado, sobre um livro. Ele morrerá imediatamente lá nos confins da Mongólia. Será um cadáver e tu veras a teus pés mais ouro do que pode sonhar a imaginação de um avaro. 
Tu, que me lês e que é homem mortal, apertarás a campainha?"

(Citado por Pierre Mac Orlan, em seu: Breve manual del perfecto aventurero, páginas 19 e 20)



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A semana dos parasitas... dos barnabés... e dos chupa-tintas...

"O trabalho  honrado não dá fortuna a ninguém ; todos somos refinadíssimos malandrins; e se não nos esganamos fisicamente, nos esfaqueamos e nos assassinamos moral e monetariamente a cada instante. O mais bandido, o mais cruel, o mais patife é quem vence..."
João do Rio
(IN:  A alma encantadora das ruas)


Curiosamente, esta semana foi a semana dos parasitas. Primeiro o "vírus chinês", que esta burlando as fronteiras e mandando muita gente para a cova;  depois o filme PARASITA, do coreano Bong Jooon-Ho, que foi premiado ontem à noite pela velharada ambidestra da Academia de cinema e, por fim, a fala esdrúxula do Ministro Guedes acusando o funcionalismo público de parasitismo. E mais tarde, ia me esquecendo, o Mendigo K. pregando nas paredes da Universidade a poesia Parasitas, do Guerra Junqueiro.
A respeito do vírus, todo mundo já esta até de saco cheio de ouvir que é necessário usar máscaras, tossir com a cabeça enfiada entre os joelhos e, de preferência, ficar hibernando em casa até que as indústrias de vacinas e de medicamentos coloquem seus novos produtos, a preços módicos, nas farmácias da esquina. A respeito da premiação do filme do coreano do SUL, independente da qualidade do filme, todo mundo suspeita que foi uma provocação dos PDs e da gerontocracia cult do ocidente para com o coreano do NORTE Kim Jong-un.  E, com relação ao funcionalismo público, apesar dos cacarejos dos barnabés e dos apóstolos do contra-cheque, Guedes não esta de todo equivocado. Não que eles sejam parasitas natos, mas que foram transformados em parasitas. Não SÃO, ESTÃO parasitas! 
A máquina pública, (desde a antiga Roma) essa aberração estatal, seja  federal, estadual ou  municipal é uma máquina que não só converte o  "servidor" em parasita, mas que frequentemente o enlouquece. Por quê? Porque desde a fatídica carta de Pero Vaz de Caminha a máquina pública é uma verdadeira Ilíada de apadrinhados, de amigos dos amigos, de amantes, de cúmplices, de eleitores mercenários, de pelegos de aluguel. E porque são sempre esses personagens que ocupam os postos gerenciais e de comando, apesar de quase nunca terem aptidão, competência e nem instinto para tal, gente que, por ignorância e mau-caratismo vai empurrando os funcionários para a inércia, para um ócio estúpido e para uma coçagem interminável de saco e de vulvas. Pré requisitos óbvios para o tal parasitismo. 
E o Ministro Guedes foi até simplório em sua constatação! Poderia, plagiando a Robert Arlt, tê-los chamado de chupa-tintas. "De allí que el chupatintas oficial, el burócrata al servicio de la República, es uno de los ombres más felizes Del planeta".
Trinta e cinco anos coçando o saco e a vulva! E só pensando na jubilação ou na aposentadoria! Sabem o que é isso?
E mais: impedidos de atuar, de criar e, com perdão da palavra, de trabalhar, por chefetes de merda. Chefetes que de um dia para outro, por "Ordens Superiores" ou por favores sexuais, foram convertidos de Office Boys a Diretores ou vice versa, a partir de então, para sobreviver, cada um dos outros subalternos terá que contentar-se doentia e sadicamente com alguns micro-poderes e com a mais degradante parasitagem. 
O ministro Guedes, que não é bobo, sabe que o maior parasita de todos é o próprio ESTADO e que as sinecuras menores são prometidas ainda na alcova ou nos banheiros das instituições e mais: que o parasitismo ziguezagueia na vertical. Que uns pés de chinelo vão mamando nas tetas de outros pés de chinelo um pouco mais acima; que por sua vez mamam nas tetas de outros pés de chinelo ainda um pouco mais acima e assim infinitamente do rodapé à cúspide, já que essa desonra e essa miséria não tem fim, nem ideologia, nem gênero, nem classe, nem raça e nem religião. Que a mamação é mútua e de ponta a ponta, da ralé até as supostas elites de gestores e de chefões. Que ninguém escapa. E se precisar de comprovação, que o Ministro de uma volta a pé pelas cidades sem cair nas crateras do asfalto, que tente entrar num banheiro público, que peça para um assessor produzir-lhe um projeto, que visite os hospitais, as escolas, as rodoviárias, os transportes públicos, as cadeias. Tudo aos pedaços! Tudo sucateado! Tudo por fazer! E com muita gente, muitíssima gente, com a barriga escorregando por sobre os cinturões dormindo sobre as mesas porque os Chefões só chegam para o trabalho depois das 11:00, porque passam as tardes inteiras em reuniões inúteis e porque às 17:00 têm que sair apressados para levar as respectivas esposas (que também são funcionárias de alto escalão) para um motel ou para o cabeleireiro, para a sauna ou para um passeio ecológico. Enfim: o ministro Guedes não esta completamente enganado. É evidente que há uma putaria e uma patologia funcional no interior da máquina pública. Tentar negá-la como querem os apóstolos delirantes da "revolução" não passa de uma idiotice corporativista. Deveríamos, isto sim, aproveitar o descaramento, o preconceito e a análise do Ministro para implodir radicalmente o funcionamento dessa máquina parasitária e pré-manicomial que insiste em manter-nos  no subdesenvolvimento e na miséria...



RIO DE JANEIRO: Depois de passar meses bebendo passivamente das águas sujas do Rio Guandu...

" O cordão é o carnaval, é o último elo das religiões pagãs, é bem o conservador do sagrado dia do deboche ritual. O cordão é a nossa alma ardente, luxurias, triste, meio escrava e revoltosa, babando lascívia pelas mulheres e querendo maravilhar, fanfarrona, meiga, barbara, lamentável..."
João do Rio
(IN: A alma encantadora das ruas)




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

De onde advém essa súbita fobia a SI MESMO? Isto é: ao fascismo?


Eu, que sou proveniente de uma região e de uma família onde, quando se ouvia o nome de Mussolini ou de sua última amante (Clareta Petacci), todos se colocavam em pé, com as espingardas e com os punhos levantados e corriam para as adegas encher os garrafões de vinho, fico curioso em saber o que querem dizer esses petimetres e energúmenos que, de uns tempos para cá, ficam se acusando mutuamente de fascistas. 
Fascista pra cá e fascista pra lá! 
Mesmo os sujeitos que já estão com 60% dos neurônios queimados e as mulheres que não sabem nem diferenciar os grandes lábios dos pequenos lábios, por qualquer motivo lançam para todos os lados a palavra demoníaca e da moda: FASCISTA... 
Ontem foi a vez de um senhor conhecido por Zé de Abreu lançar um ataque estúpido contra a senhora que vai gerenciar a arte no país. Fascista! Gritou. E em seguida teceu outras malignidades quase andróginas contra aquela mulher. E logo em seguida foi atacado, com os mesmos argumentos, por energúmenos de laia oposta.



O que seria afinal e o que teria afinal o fascismo além do que já viemos experimentando há décadas? E não só na política clássica mas na política das famílias?
 Teria alguma coisa a ver com o Stalinismo? Com o Trotskismo? Com o Franquismo? Com o Salazarismo? Com o Lulismo? Com o Cristianismo? Com o Satanismo? Com o Espiritismo? Com o Academicismo? Com o Iatismo? Com o Iluminismo? Com o liberalismo? Com o lupanarismo? E se tiver? Qual é o problema? Por que esse teatro e essa compulsão em acusar o outro daquilo que somos? Por que não brecar essa necessidade de destruir fora o que sabemos que levamos dentro? 
Fui ler os textos do Giovani Gentile e os do próprio Mussolini e, sinceramente, não identifiquei nenhum vestígio da estética fascista e muito menos de fascistas aqui pelos trópicos. Há arremedos e paródias de quase tudo o que se possa imaginar.., menos fascistas. E depois.., nossas discussões politicas (observem) são ainda de um primarismo pré escrita. Ninguém lê nada. É ainda a cultura oral (de quem fala e ouve mal) que orienta a vida desses atores pés-de-chinelo, sanguíneos e coléricos. 
De Mussolini, só sei que proibiu as buzinas em Roma, que sua última amante tinha trinta anos a menos do que ele e que era filha do médico particular do Papa. Sei também que prometeu aos italianos promover uma elegância fascista e colocar a Itália na vanguarda da moda. E que por fim, foi fuzilado junto à Clareta e pendurados de cabeça para baixo nos postes de uma Praça de Milão...





Além do BEM e do MAL! As maravilhas da interNET & das Redes Sociais...

Se as redes sociais - como diz Bauman -  (Bauman não, Umberto Eco!) abriram as portas para imbecis de todos os tipos e pedigrees, é inevitável reconhecer que também o fizeram  para outros, até menos imbecis: para os mudos, para os ingênuos, para os idealistas, para os mentirosos, para os presidiários, para os filósofos, padres, curandeiros, trapaceiros, santos, pseudo-poetas, apóstolos da miséria, boêmios, abstêmios, loucos, jornalistas enrustidos, para os irremediavelmente degradados e também para os bons moços. Para as piranhas, para as freiras, para as donas de casa, as benzedeiras, as mães que se sacrificam por sua prole a para as que não trocam sua liberdade por filho nenhum... Abriram as portas para os desvairados das cavernas e do submundo, mas também para seus equivalentes que parasitam nas coberturas de Ipanema, do Iguatemi e de Manhatan. 
Enfim, é mais do que ridículo querer demonizar a internet! Vejam que maravilha: agora se pode assistir missas ainda sentado no vaso, ou sem sair da cama, sabem o que é isso? 
Agora se pode participar de cultos e de psicanálise sem pagar dízimos e rodopiar num centro de macumba sem ter que fumar um charuto. Podemos assistir diariamente a jovens delirantes e bobalhões assim como a velhos dementes e cretinos querendo dar sentido à vida e moralizar o mundo... Agora se pode ouvir a Sonata número 10 de Paganini sem ter que ir ao Teatro Regio di de Parma. Ou o Libertango do Piazzolla, sem ter que ir ao Cólon de Buenos Aires. Agora, você pode visitar o cemitério Al Araf, do Cairo, sem pânico e enquanto lava a louça. Agora podemos atravessar o deserto, ir de Marrakech às Dunas de Merzouga sem levar um cantil e nem mesmo um mapa; entrar no Museu Britânico sem pagar ingresso, sem falar das revistinhas pornográficas que se nos anos 80 eram vendidas clandestinamente nas bancas de jornais  agora se transformaram em vídeos com cores, cheiro, som e murmúrios...
Ah, mas agora tudo é desumanidade! Resmungam os cretinos do  bibliofilo Umberto Eco.
Agora a maldade se tornou explicita!
Agora as crianças ouvem o que não devem ouvir!
Ah, mas a violência vem tomando conta e degenerando de tudo!
Ah, Quanto desamor se vê nas redes sociais!
Meu Deus! Os YouTubers se agridem! Se desqualificam! Dando impressão que no mundo só se pode ser fascista ou Stalinista! Mussolini e Stalin foram ressuscitados pelas redes sociais. Voltaram até a plagiar o velho Goebbels. Só o ódio prospera! Agora se é quase obrigado a acompanhar todas as tragédias que diariamente apavoram o mundo! Terremotos! Tsunamis! A água contamina do Rio de Janeiro! As represas de Minas Gerais! O Coronavírus! Os cozinheiros que não se lavam as mãos! As meninas da noite disseminando a sífilis por Brasília! Os roubos! Os tiroteios! Os gurus comendo suas pacientes! Os padres comendo os coroinhas! Meu Deus! Oh, meu Deus! Agora se pode até comprar um fuzil pela internet! - seguem murmurando os idiotas do Umberto Eco - Ah, meu Deus! como tudo era mais angelical e melhor na época em que se escrevia nas pedras e em papiro! 
Pura histeria. Filosofia da miséria!
Para nós, a Internet, as redes Sociais, o Google, o Youtube, o Wikipidia, o Whatzap, o GPS, a Estante Virtual, o Mercado Livre, o acesso a falsificação de obras de arte de Hong-Kong; o aparelhozinho chinês que traduz 42 idiomas, são uma maravilha. A fina flor de uma civilização fofoqueira e burra que, por razões psíquicas e genéticas ainda tem sérias dificuldades para livrar-se da ilusão neurótica da paz e do paraíso e, principalmente, para abandonar a cretina e escatológica nostalgia pela Idade Média.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A Ministra Damaris, a castidade e a picafobia...


[... De todas as perversões sexuais, a castidade é a mais perigosa...]
Bernard Shaw

Apesar das frequentes e estranhas declarações da Ministra Damaris, confesso que não consigo deixar de ter uma certa simpatia por ela. É como se em todos os assuntos que ela aborda eu identificasse uma certa sensualidade pervertida e velada.
Na semana que passou o que causou frisson social foi sua sugestão de abstinência sexual, como método para evitar a gravidez precoce das meninas. (não só precoce, mas a gravidez em qualquer idade). Eu, que acredito que a humanidade só suportou até agora essa penitenciária que é o mundo, por causa do gozo sexual, tentando entender seu raciocínio, voltei a ler a Função do Orgasmo, de Wilhelm Reich. Que diria Reich à Ministra?
Senhora Damaris: o mundo feminino, apesar do teatro cotidiano e da sedução compulsiva das mulheres, já vem vivendo em abstinência sexual há séculos. Não que as mulheres tenham nojo ou que não gostem de sexo, mas  o conflito com o macho as empurrou para uma sexualidade paralela, só entre elas ou só consigo mesmas. Nem os maridos conseguem "comer" suas mulheres! A grande maioria esta sempre com 'dor de cabeça', com 'cólicas', com 'inflamação do nervo ciático' e com 'crises de fibromialgia'. Só querem saber de ir para as igrejas! Ficar lá de joelhos se martirizando! Se justificando a um Deus Masculino e imaginário por pecados nunca praticados! A libido que turbinava o prazer agora é o combustível do fanatismo! Que miséria! E isto, em todas as idades. Ouça as adolescentes, na intimidade. Ouça as balzaquianas, na intimidade. Ouça as da terceira idade, na intimidade. E depois, ouça o que os homens estão falando nos botecos, nos confessionários ou nos divãs. Se queixam que  suas "esposas" estão sempre indispostas. E que quando, eventualmente, milagrosamente, "autorizam" uma relação o fazem chapadas de vinho e mais para cumprir com uma obrigação matrimonial do que por prazer e luxúria. 
Dois mil anos de repressão! 
Agora.., é compreensível. Ficou difícil abrir espontaneamente as pernas! Gozar por gozar! A própria gravidez nas meninas, não é acidental ou casual como se propaga. É uma maneira inconsciente delas, por culpa, tentarem dar um sentido 'lícito' e religioso ao sexo. Dei, mas não foi por safadeza, foi para ter um filho, que é a função sacra e única da sexualidade! E batem na barriga e murmuram: eis aqui o fruto do nosso amor! Balelas medievais!


Por fim, Reich cochicharia à Ministra: Eu sei senhora ministra, que a senhora sabe que, "de todas as perversões sexuais, a castidade é a mais excitante e a mais perigosa..."

 







domingo, 2 de fevereiro de 2020

BRASÍLIA - HOJE - Fotopicaretagem... (Copyleft)

"A condição prévia para a imagem é a visão", dizia Janouch a Kafka. E Kafka sorria e respondia: "Fotografam-se as coisas para expulsá-las do espírito. Minhas histórias são uma maneira de fechar os olhos..."
(Roland Barthes, IN: A câmara clara, página 84)