terça-feira, 6 de outubro de 2020

Diário da prisão...





"Tu compras el carmín y el pote de rubor que tiembla en tus mejillas..."


O pior momento de um prisioneiro é aquele em que ele acorda, pela manhã e se depara com o script do dia. Já da cama consegue ver que lá na estante de livros, em menos de três ou quatro dias, houve um acumulo de poeira de quase meio centímetro. Caralho, de onde vem essa merda? Todo mundo só fala no vírus, mas a poeira é quase pior. E  o mundo, de uma ponta a outra, da patagônia ao Afeganistão, é uma poeirada só. Se multiplicaram as maquitas, as britadeiras, os lixadores de paredes, as reformas, os tratores construídos especialmente para cortar grama. Aliás, neste momento, há um dando voltas lá embaixo. Seu piloto, sem máscara e sem nada, parece divertir-se no meio de uma nuvem quase amarela, mistura de terra, entulho, lixo, e raízes... Mas hoje não parece domingo? Será ateu? As velhinhas aparecem nas janelas com flanelas untadas em Óleo de Israel e em álcool 170 por cento... Não chegam a verbalizar, mas as maldições que lançam sobre o mundo  são evidentes...

E o pior dessa poeira, é que ela se infiltra nas brechas mais inusitadas. Se você esqueceu sobre a mesa um tubo de melado aberto, por exemplo, vai encontrar ali, logo de manhã, uma abelha com as asas grudadas e sufocada por poeira. Os livros, então... alguns já nem se consegue abrir. Outros, as páginas, elas próprias, viraram pó. Bem que eu deveria ter contratado uma estagiária de uns 17 anos para ter organizado essas brochuras antes do vírus... Mas agora é tarde! 

Le Carnet noir du bourreau, por exemplo, de um tal Jean Ker, ao lado de La tribo Sacrée, de Pascal Dibie, ambos adquiridos clandestinamente numa exposição lá no fim do mundo, estão praticamente detonados... Mas o pior mesmo, é ter que pensar na comida. Ter que preparar comida e comer. 3, 4, 5 vezes por dia! Que merda é essa? Aliás, por falar em merda, concordo cada vez mais com aquele  escritor peruano, que afirmou recentemente, que o que o mundo produziu de mais importante nos últimos séculos, não foi nem a bomba atômica, nem o telefone, nem a pílula e nem a Internet e nem os livros, mas a privada. Nos dias que antecederam o confinamento, lembro de ver nos mercados gente com toneladas de papel higiênico nos carrinhos. Então, me parecia bizarro. Mas agora entendi.

E o momento  terrível de passar o rodo na prisão! Descobrimos que o vento vai empurrando a poeira e outros dejetos para os cantos onde a vassoura e nem o rodo conseguem removê-la e que é necessário ficar de cócoras... Apesar de minha médica ter garantido que meu coração está melhor que o de um tigre, nesta posição e com os quase 40 graus de hoje, sinto que ele dá uns saltos diferentes...

E quando estou ali, de cócoras, ensopado de suor como um idiota,  volto a pensar na escravidão feminina. Como é que as mulheres suportaram por tanto tempo essa servidão estúpida, em troca, basicamente, de um matri-monium, de um pote de carmim e de um atestado de honra? Quê furada! E umas ainda se lembram com naturalidade do cinto de castidade de suas bisavós, avós, mães... e a maioria, nos finais de semana, ainda corre para as igrejas para lá, poder passar mais umas horas de joelhos... Que loucura! E, o mais curioso, é que os especialistas em sexualidade humana, vieram pelos séculos a fora, se acotovelando em suas clínicas e se negando a admitir que a queda de libido nas mulheres estava relacionada com  essa escravidão... Abaixo o lar! Abaixo as prisões! Abaixo as faxinas...





Nenhum comentário:

Postar um comentário