"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 12 de maio de 2013

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Aqui seria o lugar ideal para ter sido gravado O poderoso chefão! Já ouvi vários senhores falando naquele tom do Don Corleone. E o vento, aliás, a ventania Mistral não para. Os mais magros quase necessitam levar uma âncora amarrada à  barriga para não levantarem voo e, claro, um vidro de colírio. Dizem que chega até a 100 km/hora. Fiz a travessia até L‘Estaque (uma antiga vila de pescadores) e as ondas do mediterrâneo quase cobriam o potente barco. Edificada há séculos entre o mar azul escuro e as montanhas, Marseille é estupenda, o tipo de cidade que faz alguma conexão especial com nosso inconsciente. É evidente que nascer aqui garante um destino especial ao sujeito. Esse ar de pescadores, marinheiros e piratas, mais a comunidade árabe e negra, garantem não apenas a desordem, mas também a vitalidade e a exuberância. Já teve fama de má, perigosa, de ser um covil de bandidagem, mas (parece) que foi mito e que passou... Marseille-Chicago, lhe diziam, ou então Marseille-Nápoles! Cidade de péssima reputação...
A peste negra de 1347 deu uma geral por aqui. Pulgas e ratos! Como os  ratos eram considerados malditos pelos cristãos e tolerados pelos judeus, a peste se proliferou mais entre os segundos, que logo foram acusados de serem os responsáveis pela epidemia e passaram a ser queimados vivos...
Um chá de menta num quiosque do Maroc! O sol, o vento infernal. De vez em quando o cheiro do Savon da Provence que uma anciã vende na esquina, o vieux port entulhado de barcos, multidões que cruzam as antigas ruas junto às paredes coloridas com cobertas e lençóis nas janelas. A ventania! A voz alterada de uma mulher árabe, os velhos que vão caminhando com as duas mãos nos bolsos, um cigano e seu filho, ele no violino, o filho num tambor executando alguma música da bohemia...
De quase todos os lugares da cidade pode-se ver lá no alto a igreja Notre Dame de la Garde, a mesma que fez Paul Nizan, ao chegar das arábias, produzir esta frase: "O círculo se fecha, uma manhã avisto o Castelo de If e Notre-Dame-de-la-Garde. Que ironia! Os primeiros emblemas que vêm a meu encontro são justamente os dois objetos mais revoltantes da face da  terra: uma prisão e uma igreja".

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