"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 30 de abril de 2013

Viva o papa portenho e viva a rainha argentina...


Se os argentinos já tinham fama de arrogantes e narcisistas (apenas com Evita, Borges e com Maradona) agora, com um papa e com a rainha da Holanda, (os dois chamuscados pelo videlismo) ficarão intragáveis. Conheci a Argentina ainda adolescente, lá por 68, época em que todo mundo dizia que Buenos Aires era ou já havia sido a Paris da América do Sul. Não lembro de grande coisa, mas realmente, com seus cafés e livrarias era uma cidade fascinante. O mito da leitura! Diziam que todo mundo lia nos metrôs e nos ônibus, e que todo mundo tinha informações e notícias sobre a psicanálise. Era também o auge das ditaduras latino americanas. O apartamento em que fiquei, no bairro de Palermo, tinha uma escada secreta que descia por uma janela e que dava lá no meio de um jardim meio abandonado onde acho que havia uma estatueta de Carlos Gardel. Um ou dois anos depois, com outros três ou quatro andarilhos, entrei novamente no território argentino vindo do Peru e, por equívoco, fomos presos em San Salvador de Jujuy. A prisão parecia um imenso colégio, com pátios imensos e um subsolo onde havia tanques com água, balanças, câmeras fotográficas tipo lambe-lambe, gente que se movia por todos os lados, interrogatórios idiotas, policiais cínicos e obesos... Em outra época, com dois argentinos e um uruguaio vim repatriado da Itália para o Rio de Janeiro no Navio Giulio Césare. Apesar de Buenos Aires ser Buenos Aires, lembro que os argentinos diziam preferir viver presos na Europa que soltos na Calle Florida... Dez ou doze dias de convés olhando aquela imensidão de águas que ninguém até hoje sabe de onde vieram e o que fazem ali naquele balanço interminável. Na UNAM (Ciudad de México) a grande maioria de professores/psi era de psicanalistas judeus argentinos, do grupo de Marie Langer que a ditadura argentina havia expulsado. Todo mundo sabia que lá, centenas de pessoas estavam sendo torturadas e lançadas ao mar... Os mexicanos não escondiam seus sentimentos ambíguos pelos portenhos. A guerra das Malvinas! A trupe argentina que se reunia num apartamento velho nos arredores de Coyoacan para torcer em vão por seus soldados... Freud e Lacan decorados de ponta a ponta! Uma moça recém chegada de Buenos Aires, para lutar contra a depressão sempre que me encontrava recitava ironicamente esta pequena frase de Kafka: "saudei a manhã com um leve latido como se fosse eu a provocar seu aparecimento..."
Em Barcelona, hospedei por dois dias em minha casa um suposto médico argentino que roubou o passaporte de um de meus filhos e desapareceu. Em outra ida à Buenos Aires, fui assaltado a caminho de San Telmo... Coincidências, lembranças parciais e bobagens! Lá alguém escreveu um livro com o seguinte título: No somos tan buena gente!, e aqui na UnB, um filósofo que veio da província de Rosário publicou um texto radical: Porque te amo, não nascerás... 
A lenda da custosa amante argentina! O tango, Piazzolla, Peron... Che Guevara. Julio Cortazar... Os vinhos, as cuias, o contra filé, Madona cantando Don't cry for me Argentina e o Cemitério de la Chacarita... Viva o papa e viva a rainha!!! 

Na página 325 , do volume II das Obras Completas, Borges (que está enterrado em Genebra) escreveu: 

[ Y la ciudad, ahora, es como un plano 
De mis humillaciones y fracasos;
Desde esa puerta he visto los ocasos
Y ante ese mármol he aguardado en vano.
Aqui el incierto ayer y el hoy distinto
Me han deparado los comunes casos
De toda suerte humana; aquí mis pasos
Urden su incalculable laberinto.
Aqui la tarde cenicienta espera
El fruto que le debe la mañana;
Aquí mi sombra en la no menos vana
Sombra final se perderá, ligera.
No nos une el amor sino el espanto;
Será por eso que la quiero tanto].


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