"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

NOTÍCIAS DE NOSSO SUBLIMADO CANIBALISMO...






 Dezenas de mensagens foram enviadas para meu e-mail neste final de semana, umas criticando e outras elogiando as manifestações de ontem em SP, NY e até mesmo aqui em Brasília, contra os maus tratos a gatos, cachorros e a outros bichinhos de estimação. Evidentemente que estou do lado dos animais e dos manifestantes, mas sem deixar de perguntar-me: e as pobres e melancólicas vacas? E os simpáticos leitões? E os orelhudos coelhos? E as escandalosas galinhas? E os marrecos? E os perus natalinos? E as tranquilas tilápias? Todos assassinados aos milhões e diariamente para saciar a oralidade, a voracidade e a libido de nossa efêmera espécie? Inclusive, quantos daqueles manifestantes idealistas - indagaram meus correspondentes -  ao término da passeata, não deram inconscientemente uma passadinha numa das tantas churrascarias disponíveis para beber um pouco de sangue? E os formigões que insistiam em devorar os gerânios da vizinha e foram todos exterminados? E os piolhos, estrangulados na própria cabeça dos escolares? E os pernilongos por detrás do abatjour ou mesmo os carrapatos (Pthirus pubis) nos pentelhos das cortesãs secularmente aniquilados sob jatos de neocid? E os pombos voluptuosos que são envenenados no telhado das casas? E os besouros que se estatelam no para-brisa dos carros em alta velocidade quando se vai a Pirenópolis de madrugada? E as ratazanas que estão sendo caçadas a pauladas nos porões do Congresso Nacional? Por que um cão não pode ser assassinado e comido, mas uma vaca sim? Um gatinho angorá não, mas uma granja inteira de galináceos sim? É evidente que essa é uma reflexão que vai além do estômago, que cheira a canibalismo sublimado e que coloca em xeque toda a nossa pretensa compaixão e toda nossa delirante humanidade. Quanto ao "amor" pelos animais, conheço pessoas “normais” que se diante de uma situação limitrofe tivessem que optar por sacrificar seu Lhasa apso ou uma criança qualquer, não teriam dúvidas em salvar seu pequeno, fiel e afetuoso quadrupede. Estariam equivocadas? Ou poderia ser este o primeiro e mais difícil passo para retomar o antigo e esquecido projeto de Malthus???

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