Não é só a epidemia ou a precariedade dos hospitais no Rio de Janeiro que têm nos impressionado, ficamos boquiabertos também com a insistência e com apreferência dos mosquitos em atacar o proletariado e sua prole. Quais as razõesdesses insetos preferirem as águas estagnadas dos muquifos e a nojeira doscortiços ao invés dos jardins suspensos de Ipanema? Por que essa opção pelo lodo no interior dos pneus, dos urinóis e dos canecos abandonados nos aterrosnauseabundos ao invés da umidade perfumada sob as touceiras de Heliconias e da Cordiline Rosada nos fundos das mansões do Leblon? Por que esses ferozes mosquitos preferem desovar nos bairros miseráveis, apinhados e infectos, aoinvés de depositarem seus filhotes nas coberturas à sombra dos filodendros? Sinceramente, não dá para entender. E as massas miseráveis se colocam em fila na beirada dos hospitais com suas crianças mortas nos braços e já sem lágrimas. Seus tataravôs, bisavós e avós já passaram por algo semelhante com a varíola, com a lepra, com a febre amarela, com a sífilis... O horror não lhes é estranho. Por isso ficam ali o dia inteiro ao lado de seus parentes moribundos sem nenhum impulso incendiário e sem a mínima compreensão de como realmente funciona o desprezo, a negligência e a gatunagem social.
Ezio Flavio Bazzo