domingo, 6 de junho de 2021

O Mendigo K ainda na fase maníaco/revolucionária...

Hoje, domingo, sem grandes novidades, o mendigo k. esteve na padaria francesa para comprar uns brioches, segundo ele, para sua "nova esposa". Outra? Pensei na frase maligna de um velho pederasta que costuma aparecer por lá caçando trabalhadores fodidos, desempregados e desiludidos.., lupemproletariado: "quem não se contenta com Uma, merece várias!"

O Mendigo K., ainda entusiasmado pelo papo de ontem sobre Dialética Materialista e Materialismo Histórico agora, como se estivesse falando da Primeira Missa no Éden, veio falar-me da Primeira Internacional Socialista ocorrida na Inglaterra, lá por 1865. Sabia que dos quase 5 mil membros que participaram, a grande maioria era de trabalhadores da construção civil, de pedreiros e de sapateiros?

A propósito - continuou -  já exerci esses três ofícios...

Fez um silêncio breve e saltou para outro assunto: Sabia que a anarquista que deu dois tiros em Lênin chamava-se Dora Kaplan?

Como percebeu o meu e o desinteresse geral dos presentes, retirou-se agressivo, depois de lançar esta frase retumbante sobre todos que o olhavam com curiosidade:  Bando de reacionários fdp! Como dizia Lênin de Kerensky: "... ficam aí tocando balalaica para enganar os operários e os camponeses..."

O sol havia desaparecido e da igreja da frente vinham até a boulangerie fragmentos da fraseologia apocalíptica de um padre: Dóminus vobiscum




Enquanto isso...

sábado, 5 de junho de 2021

O Mendigo K e a dialética materialista...


"Sendo a vida o que é, logo sonhamos com vinganças"

C. Baudelaire

(Citado por Edward Hyams)

Aos sábados, costumo dar uma volta aqui pelos arredores para lubrificar os joelhos e as canelas e ver o mundo. De vez em quando vejo um velhinho caquético encontrando outro tão caquético quanto ele que se abraçam quase em lágrimas e exclamam, um para o outro, quase ao mesmo tempo: você ainda está vivo!? E riem, melancolicamente.

Num dos quiosques de uma feira que é montada aos sábados no meio da quadra, onde são vendidos frangos, ovos & derivados e também meu livro: Viagem ao fundo dos galinheiros ou Por quem os galos cantam, deparei-me com o Mendigo K. Estava encostado numa das colunas da barraca e dando uma aula sobre dialética, ao dono do quiosque. Fingiu que não me viu. Eu lhe retribuí a gentileza. Ouvi que dizia, num arremedo de arrogância, aquela arrogância comum nos mestres de Ciências Políticas e nos militantes aposentados:

Dizia: a palavra "dialética", Hegel a surrupiou de Platão alterando-lhe o sentido. A tese era a idéia, a antítese era a antiidéia e a síntese viria a ser dada pelos acontecimentos.  Marx, com seu faro e seus furúnculos em efervescência, sentindo cheiro de idealismo, e percebendo que historicamente é a necessidade e a prática que geram a idéia, deu uma reviravolta na quase teologia de Hegel e engendrou a dialética histórica. O materialismo histórico, do qual, uma das manifestações era a guerra entre as classes...

O dono do quiosque o ouvia, já visivelmente irritado, mas não se atrevia a ser grosseiro. E o Mendigo, meio  fanático e inebriado, prosseguia, agora retirando do bolso duas páginas, onde foi lendo: A classe social que está no poder gera, de suas necessidades, uma classe mais baixa que é forçada, na medida que vai crescendo, a derrubar a classe dirigente para assumir o poder. Foi assim que, nas revoluções da Europa Ocidental, nos séculos XVII e XVIII, a burguesia arrebatou o poder das mãos da aristocracia feudal em guerras de classe. Uma vez estabelecida no poder, a burguesia gerou o proletariado para servir aos seus propósitos econômicos. E agora é o proletariado  que deve levantar-se para tomar o poder das mãos da burguesia... (fez um breve silêncio e completou) Marx considerava isso inevitável em vista de ser ditado por uma indiscutível lei da história...

O dono da feira provocou: "Mas então, pensando dialeticamente, também o proletariado, se um dia chegar lá, será deposto e expulso? Mas por quem?

O mendigo vacilou por uns instantes e tentou emplacar a demagogia clássica: "Não, não, esse processo não é infinito, e pelas seguintes razões..."

O feirante deu uma gargalhada desafiadora, não deixando que ele continuasse e resmungou: não me venha com mais teologias, meu amigo. Nós aqui, somos todos discípulos de Bakunin ou de Hobbes! 

E pegando uma faca imensa que havia sobre a mesa, passou a descascar uma abóbora japonesa para atender a uma cliente de uns 90 anos que, com epidemia ou sem epidemia, só sai de casa uma vez por mês, enquanto resmungava em voz alta: estamos de saco cheio de ficar respaldando códigos divinos imaginários! Nossa fúria não é social, é existencial! Cada dia acreditamos mais em Hobbes: O Homem é o lobo do homem! Seu babaca... 




quarta-feira, 2 de junho de 2021

CPI - A médica Luana Araujo (a Breve)

A presença da médica infectologista Luana Araujo hoje na CPI, foi uma espécie de exorcismo daquele lugar onde ontem foi protagonizado um festival de mau caratismo contra outra médica, a N. Yamaguchi. Um dos senadores chegou a dizer que ela era como um feixe de luz naquele ambiente...

Foi um show de beleza e de qualidade.

Não se sabe se porque assistiu ao massacre sofrido pela Yamaguchi ou se porque quis exaltar a Tradicional Família Mineira, a médica levou seu pai a tiracolo. Um senhor que também é médico, e mais: ortopedista, que ficou plantado a seu lado durante todo o "interrogatório". Imaginei, sem maledicência e sem aleivosia um ortopedista de plantão!

No meio de suas primeiras palavras já lançou um míssil sobre os nobres senadores:  "conto com a civilidade de vocês". Só o fato de ter trocado o [vossas excelências] por vocês já deu a dimensão de seu propósito. E uns momentos depois lançou sobre eles, num tom meio amoroso, esta outra frase tão herética e profana como a primeira: "Eu não pertenço a nenhuma esfera das quais os senhores estão acostumados!" Sem falar de seu frequente movimento da mão esquerda jogando a cabeleira para um lado... O exorcismo já havia iniciado.

E os senadores, que estavam de ressaca da vergonha de ontem  ficaram pianinho e bonzinhos do principio ao fim. E ela deu um baile de lucidez e de conhecimentos. Usou umas metáforas inebriantes tipo: "vácuo quântico"; "neo-curandeirismo"; "vanguarda da estupidez"; "discussão delirante"; "politização esdrúxula ; "iluminismo às avessas" e etc. Sepultando de vez aquela masturbação interminável e policialesca sobre o uso, ou não, da pobre cloroquina.

Como deve ter percebido que as médicas que a antecederam  exageraram na exposição de suas especialidades e que foram massacradas (possivelmente por isso), foi prudente com seu curriculum, exibiu-se com frugalidade, mencionando basicamente o Johns Hopkins. Eu, sabe-se lá por que, tenho um leve preconceito com essa instituição, mas alguns dos senadores, quando pronunciavam seu nome, pareciam tremer o lábio inferior e levitar na cadeira, como se se tratasse do Santo Graal ou de algum templo que os malandrins do passado haviam esquecido de registrar num pé de página do Antigo Testamento...

E o papo foi longo. A técnica investigativa/policialesca até então praticada lá não funcionou com a Luana. E ela foi o primeiro violino em todas as questões. De vez em quando, com o braço esquerdo, voltava a jogar a cabeleira para o alto o que, talvez, até irritasse a maioria de lá, já com calvice concluída ou em andamento. E o papai, como uma estátua de sal, ali no lado. Pensei em Édipo, mas muito fugazmente. Alguns senadores, provavelmente da TFP de seus estados até se emocionaram e enalteceram a presença do pai. Ah! A Sagrada Família! A família tradicional ainda está viva! E quando ela revelou espontaneamente à platéia o nome de seu herói eu pensei novamente na metafísica de Lacan: Le nom du père...

Algumas discussões delirantes iam e voltavam, mas tudo transcorreu na mais perfeita ordem. Voltou-se a falar em meta análise; nos axiomas clássicos da política e da saúde; nas lacunas na formação médica; nos negacionismos; na tática dos dois bandos para, dissimuladamente, abocanhar o poder; na diferença entre vírus e bactérias; na imunidade de rebanho; na mutação frenética dos vírus; em queijo suíço e outros truques da linguagem para se fazer entender. E todo mundo parecia querer jurar que estava e que sempre esteve do lado da ciência. Ciência! Muita ciência! A ciência acima de todos! Quase um misticismo! Uma ficção esotérica! Até quem acredita que a terra tem o formato de uma serpente, parecia estar convertido à ciência. E claro, voltavam à metafísica da meta-análise e dos estudos randomizados... (Que porra é essa?, ouvi um senador cochichando para outro).

E a vacina balizava todas as falas, como se fosse uma espécie de óleo da extrema-unção A Vacina! A vacina! Ai, meu Deus! a vacina! Como se ela nos garantisse uma espécie de felicidade, de imortalidade e até de eternidade. Naqueles momentos eu, que não desejo para mim e para mais ninguém, nem a imortalidade e nem a eternidade, pensava em Ésquilo, aquele lunático dramaturgo grego  que passeando pelos jardins de Siracusa, foi surpreendido por uma águia que deixou cair sobre seu crânio a tartaruga que levava no bico e que, como dizem os médicos, "o levou a óbito..."

Quem é que não se lembra dos tempos em que a ciência e a religião se enfrentavam nas academias e em baixo de cruzes com espadas e no meio de fogueiras? Achar que aqueles tempos ficaram para trás é ingenuidade. Só aqui nesta cidade existem uns trezentos desses prostíbulos sagrados. As crenças e a fé são mais ou menos como os vírus, podem ficar milhares de anos hibernando e de repente voltam à cena, já com outras cepas, quase sempre mais  tóxicas e venenosas.

E falavam da OMS da FDA, da ANVISA e de outras organizações paralelas como falam de Notre Dame; da Catedral de Chartres; de Aparecida ou da Colina do Horto de Juazeiro do Norte... Mencionavam os médicos como apóstolos e os cientistas como seres de uma Tribo Sagrada! Eu ia ouvindo aquela espécie de 'autismo coletivo', só pensando no significado da misteriosa metáfora da médica: vácuo quântico!

E o Ato Médico, doutora? E as mãos? Álcool em gel! Quase com a mesma função da água benta. Lavar-se as mãos! Pilatos foi o primeiro cínico a defender essa assepsia. E, curiosamente, a tese de Celine, em 1924, foi sobre Ignace Philippe Semmelweis, obstetra que lá num hospital de Viena, (1845), sacou que era necessário obrigar seus médicos a lavarem-se as mãos antes de se fazer um parto se não se quisesse infectar e matar a mãe e a criança. Quase foi linchado pelos colegas... 

E as gotículas que saltam de nossa boca? E o beijo? E as lambidas?Quanta gente qualquer um de nós já pode ter assassinado pelo mundo... (crime culposo ou doloso!)

Conversa vai e conversa vem, com todo mundo meio exausto de tanto dançar sob a batuta da infectologista, mas praticamente convertidos e loucos por uma 'verdade definitiva' ou por uma 'cláusula pétrea' sobre o assunto.., e foi então quando ela lançou este ultimo e chocante balde de água fria sobre aqueles pobres prosélitos enfiados atrás de suas burcas: 

É bom não esquecer o ditado antigo: tanto na medicina como no amor: nem SEMPRE, nem NUNCA...

O exorcismo estava concluído e o vácuo quântico se fez presente, mas com uma novidade que até então nem os místicos mais alucinados haviam imaginado: algumas das tais 'partículas virtuais' já não conseguiam nem interagir entre si... Segundo o Mendigo K, na verdade, estávamos diante de um vácuo cósmico!

Quê barbaridade!!!

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terça-feira, 1 de junho de 2021

01/06/2021: Na CPI - Discurso imaginário da Dra Nise Yamaguchi...


Excelências!

Sou a dra Nise Hitomi Yamaguchi, nipo-brasileira.  Estou aqui por que os senhores me convidaram para falar de um suposto tratamento precoce administrado por mim a doentes da Covid 19 e para dar-lhes explicações sobre a também suposta idéia de alterar a bula da hidrocloroquina.

Confesso logo de cara que me envergonho de estar aqui para fins e para explicações tão primárias... e que gostaria imensamente de não ser informada, como é de praxe, que não posso mentir. Pois, se para uma pessoas qualquer essa advertência já é infame, para um profissional de saúde é insuportável. E muito mais ainda, quando essa advertência vem acompanhada por uma ameaça de prisão. Excelências, uma pessoa que muda a rota de seu pensamento por medo de ser presa, não é digna nem de estar viva... E se direi aqui só a verdade, não é por receio dos senhores, mas porque costumo fazê-lo até com meu Lhasa Apso.

Antes de tudo, em homenagem a meus ancestrais, gostaria de lembra-los que eles chegaram no Brasil pelo Porto de Santos, no dia 18 de junho de 1908, no navio Kasato Maru. Como os outros imigrantes, vieram com o sonho de "fazer a América".  Mas, como os senhores sabem, não tiveram uma boa receptividade. Muitos, sufocados pela rejeição racial e pela solidão fizeram o caminho de volta. As famílias Hitomi e Amaguchi resistiram e eu estou aqui.

Portanto, se a cloroquina é um pretexto para os senhores, o é também para mim.

Sim, orientei e propus, o uso emergencial experimental da cloroquina no meio de uma epidemia brutal que colocou o mundo inteiro de joelhos. Mas não o fiz por ignorância ou por submissão a alguém. E tampouco acreditando que ela pudesse deter um vírus. Fiz por mim, por minha consciência, pelos pacientes. Sou médica oncologista e conheço os misteriosos caminhos da imunologia. Acompanhei centenas de pessoas hospitalizadas, em momentos terminais e sei que para confortar mesmo que momentaneamente um paciente desesperado, nesse instante brutal e absurdo da morte, até um grão de arroz colorido pode ser melhor do que um silêncio covarde e cretino... A propósito, qual teria sido vossa sugestão ao ver um de seus familiares agonizando? Arriscar um placebo ou endereça-lo de uma vez para o além? Placebos! Serendipia. Já ouviram falar? Não sei se os senhores sabem, mas a grande maioria dos medicamentos foi descoberta acidentalmente e por acaso. A insulina, por exemplo, foi descoberta graças às moscas que se lançaram sedentas sobre o pâncreas de um cachorro que estava sendo operado... Serendipia! Além disso, a maioria das doenças têm um fundo emocional que pode ser até mais fatal que as puramente somáticas... Daí, inclusive, minha luta para incluir no curriculum das faculdades de medicina, durante toda a formação médica, a cadeira de psicologia clínica e de psicanálise. Mas essa é outra história. Sobre o mito a respeito da alteração da bula da cloroquina, até as paredes já se escandalizam ao ouvir essa história. Data vênia, excelências, mas creio que a proibição de mentir deveria valer para os dois lados... Apesar de que, mesmo sem alterar bula alguma, muitos medicamentos que inclusive são de uso continuo entre os senhores, estão sendo recomendados e usados para um determinado fim que não está lá em suas recomendações. Pensem na aspirina.  A simples história da aspirina, sua trajetória pelo mundo poderia ter até impedido que os senhores tivessem se incomodado com minha convocação... Estamos, médica-social e psiquicamente, muito atrasados. Muitos bilhões que supostamente eram destinados para pesquisas médicas e sociais, acabaram sendo gastos em boutiques, hotéis e restaurantes de luxo em paris, em Londres e até em mesmo Tóquio... Ou estou enganada? Qualquer um que preste atenção vê, com angústia, que a roda da história e da existência está girando para trás...

Portanto, estou a vossa disposição. Sei que vossa intenção não é esclarecer nada com relação aos erros e acertos que se cometeu no transcorrer da epidemia e nem com os 460 mil mortos, pois se esta fosse vossa intenção, não teriam permitido que nesta semana a policia de Pernambuco tivesse atirado no rosto e nos olhos de dois sujeitos desarmados e aparentemente inocentes. Não é verdade?

Sei que querem usar-me para, a todo custo derrubar o atual presidente da república, atribuindo a ele a responsabilidade pelo mortandade epidêmica. Tudo bem. Não votei e não voto!  Mas, a propósito, quem dos senhores estaria apto a ocupar o lugar dele e com dignidade, evidentemente.? E depois, é curiosa essa obsessão, uma vez que os senhores haviam convivido com ele durante uns trinta anos aqui neste parlamento e sabiam ou deveriam saber que ele não possuia perfil para administrar a contento nem mesmo um clube de campo do Rotary, do Lions ou de outra das surrealistas e "secretas" confrarias que existem em vossos estados. Além disso, quem elegeu a ele e aos três ou quatro que o antecederam, foram as mesmas massas, o mesmo populacho prosélito e correligionário que vossas excelências mantém há décadas de quatro, como escravos, a pão e água e vivendo na penúria sobre palafitas, preocupados unicamente com a vigência de seus títulos eleitorais. Ou não? Gente em cujas casas nunca passou um lápis, um caderno ou um livro a não ser aquele que todos os senhores também conhecem e que pode até ser mais iatrogênico que a cloroquina... Ah, excelências, quantas décadas serão necessárias ainda para arrancar essa gente do abismo e da cegueira em que se encontram? E saber que para essa doença as farmácias ainda não dispõem de remédio algum...

Enfim, por pura curiosidade, no meio do caos e nas loucuras desses quase dois anos, com o governo desnorteado, sem bússola e perdido sobre si mesmo, quem dos senhores, foi até ele com um plano ou um projeto revolucionário para indicar outro rumo e tentar interromper a mortandade? 

Quem dos senhores, vendo a epidemia devastando países até mais organizados que o nosso, vendo as fossas coletivas de Nova Iorque, os cemitérios lotados de Londres e da Itália, e sabendo da ficção que são nossos hospitais públicos, quem dos senhores atravessou a rua para ir prestar algum tipo de esclarecimento ao "capitão genocida"? Ninguém! Os senhores, que têm um Plano de Saúde que cobre até um ano de UTI nos mais caros hospitais do país para si e para seus familiares, não souberam ou não quiseram salvar nem mesmo o SUS de vossos estados. E eu os conheço a todos em detalhes. Apesar dos cacarejos de alguns ilusionistas, estão todos aos pedaços... Aliás, duvido que a grande maioria deles, neste momento, disponha, de álcool em gel, de máscaras e de papel higiênico e nem só para os pacientes, mas até mesmo para os profissionais de saúde.

Lamento, senhores. Lamento excelências!

Mas essas 460 mil mortes registradas demagogicamente ali sobre vossas mesas, são de responsabilidade também de todos vós...


 

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EM TEMPO: (22:48) O interrogatório com a Dra Nise, quem o assistiu pode confirmar, foi um massacre desleal e covarde, um despudor nunca visto. Os senhores senadores se comportaram com a médica, como um bando de policialecos chapados de periferia. Ignorantes, agressivos, cínicos, vingativos, mal educados, desrespeitosos e sem capacidade de indagar, de ouvir e nem de entender. Foi um horror! Duvido que quem assistiu de casa, não tenha se coberto de vergonha. Inadmissível! Um show de cretinos. Fantoches ensaiando o papel de investigadores. E até as milícias femininas presentes assistiam a desmoralização da doutora em silêncio! Mas o descalabro maior foi quando um senador que também é médico, não contendo seus impulsos tentou desmoralizar mais objetivamente a entrevistada com duas ou três perguntas, perguntas daquelas - segundo ele próprio - de segundo grau, ensaiadas em casa e no estilo do professorzinho de província quando quer se vingar e prejudicar um aluno.  Ah!, - me dizia o Mendigo K - nada é mais triste e melancólico do que identificar num sujeito subdesenvolvido o esforço para parecer erudito...

A senhora sabe qual é a diferença entre um vírus e um  protozoário?

 Perguntou várias vezes e de forma maligna o nobre e sábio senador. E insistiu, diante do silêncio abrumador e abominável daquele momento, naquele lugar, para em seguida, acusa-la de não saber nada. Ela o olhava, não sei se com a furia contida de um samurai ou com a compaixão de quem está acostumada a lidar com casos terminais. Ficou em silêncio, perdendo a oportunidade de responder-lhe: Excelência, a diferença é a mesma que existe entre um fio de sobrancelha e um pentelho! 

Foi um horror aviltante e vexatório. E os outros três ou quatro médicos que estavam lá, ficaram mudos, calados, humilhados e cumpliciados com essa estupidez, como se também sentissem naquela miséria algum tipo perverso de gozo. Curiosamente, o mesmo senador que cometia essa infâmia hoje, com a Dra Nise, insistindo em querer saber qual era a diferença entre um protozoário e um vírus, já havia feito a mesma encenação e a mesma pergunta numa sessão da semana passada, com outra médica depoente e que também (por coincidência) havia exibido um curriculum espetacular. Seria esta a questão? Algum tipo de curriculum pode fazer mal? Desqualificar uma colega de profissão e em seguida retirar-se do ambiente para não retornar. Qual é o sentido e a mensagem desse comportamento? Desse modus-operandi? E trata-se de um senhor com quase oitenta anos! Misoginia? Algum conflito com a vulva? Que tipo de fantasia deveria estar lhe ocorrendo? Repito: foi um horror. Mas este foi apenas o detalhe de um horror generalizado...  Eu assistia enquanto pensava: "labregos enriquecidos que trocaram os tamancos pelos sapatos, mas que se sentem mais à vontade de tamancos..."


Que o país assista e tolere essa barbárie em silêncio é um horror e uma vergonha ainda maior. 

De onde nos vem essa necessidade de puxar os outros para baixo e de jogar a si próprio no abismo? Essa compulsão por auto-destruir-se? Povera gente!!!