sábado, 15 de agosto de 2009

Não aponte esse dedo sujo em minha direção!

Mesmo com o risco de que venha a reduzir a população do planeta pela metade, a gripe suína vem desencadeando pelo menos um benefício ao processo civilizatório: o costume de se lavar as mãos. A certeza de que nos restaurantes, nos bares, nos hospitais, nas bibliotecas haverá, daqui para diante, um fio de água e uma gota de sabão para essa prática será um legado imenso para aqueles que sobreviverem.

Que estranha afinidade essa espécie parece ter com a imundice! Qual é, afinal, a dificuldade de limpar-se essa dezena de dedos se até o pernóstico Pilatos, lavou os seus antes de autorizar que pendurassem o nazareno?

- Não aponte esse dedo sujo em minha direção!

Gritou o nobre senador X para o nobre senador Y. Sujo de quê? Foi o que todos os ingênuos eleitores ficaram pensando. E essa frase parece ter sido tão dolorosa e tão implacável que o apontador sentiu-se na obrigação de retrucar qualificando o apontado de cangaceiro de terceira categoria. Uma nação de mãos sujas?

Mas como mantê-las limpas se estão fuçando o tempo todo por buracos, regiões e por territórios obscuros? Trate-se das delicadas e inúteis dos padres e dos intelectuais, das calejadas e escravas dos trabalhadores ou das esquivas e rápidas dos batedores de carteira, todas parecem ter sujeiras, movimentos e curiosidades próprias. Também parecem ter olhos, sentimentos, intestinos, voz e estômago. Não é por acaso que incorporam porcarias de todos os gêneros e de todos os tipos em suas porosidades. Os antigos feiticeiros identificavam nelas pontos análogos a cada um dos outros órgãos do corpo e a cigana, em seu oráculo, insiste que pode perscrutar o destino de cada um através de suas linhas.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Queda de Wilhelm Reich e ascensão de Salvador Dali

Você que está preocupado (a) com seu desempenho genital, você que tem dado apenas uma e com muito esforço a cada fim de mês, ou apenas uma a cada início de primavera, relaxe. Não é tão grave. Duas notícias recentes podem amenizar teu sentimento de ser o único sujeito do planeta que caminha a passos rápidos para a morte do desejo ou para a indiferença (leia-se impotência ou frigidez). Primeira: Vera Fischer (que continua sendo símbolo sexual e inspiradora do onanismo de muita gente) acaba de declarar em entrevista pública que está há dois anos sem entregar-se aos desvarios da luxúria. Segunda: Uma pesquisa feita na Grã Bretanha aponta que 73% de dois mil entrevistados confessam não terem energia para o sexo, e que isto se deve, segundo os próprios, à falta de condicionamento físico. Curiosamente, desses mesmos entrevistados, 36% afirmam que não correriam para pegar um ônibus e 59% que se o controle remoto da TV estivesse quebrado, prefeririam assistir um programa que não gostam para não terem que tirar o rabo do sofá e irem trocar de canal. Que tal? Mas não foram eles que piratearam soberbamente os mares durante décadas? Que pisotearam a Índia durante séculos? Que colocaram bravamente os argentinos de joelhos ali nas Malvinas? De onde teria surgido toda essa preguiça? Quanto ao sexo, talvez, Wilhelm Reich e sua Função do Orgasmo estejam definitivamente superados e o rabugento Salvador Dali estivesse certo quando insistia que o orgasmo é só um pretexto, que o que importa mesmo é o gozo das imagens.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 9 de agosto de 2009

Há sábados e domingos também na Capital da República

Quando chega a quinta-feira e os políticos voam para suas “bases” Brasília não fica jogada às traças e às moscas, como se pensa. Entram em cena outros sujeitos que, como aqueles, ludibriam, locupletam, enganam e distraem as massas. Há bebedeiras, fumaceira, shows, comilanças, rezas e putarias para todos os gostos. Neste sábado – por exemplo -, montaram na Esplanada dos Ministérios, bem em frente ao Museu da República, uma tenda da Igreja Mundial do Poder de Deus. Quem não foi lá para ouvir o pastor e ver a multidão perdeu a chance de vivenciar as Praças dos Milagres da época tenebrosa de Brueghel. A fala do pastor foi perfeita. Com um fundo musical melancólico e um texto melhor que o de Cioran e que o de Schopenhauer juntos, fez aquele rebanho de humildes, desgraçados e de desconfiados, com os braços levantados e os olhos fechados vislumbrarem uma centelha de esperança. Não no hoje e no agora, lógico, mas no amanhã e lá no Reino dos Céus. Fez literalmente cegos enxergarem, paralíticos saltarem de suas cadeiras, pessoas com tumores curarem-se na hora, bêbados amaldiçoarem a cachaça, surdos ouvirem etc. Desafiou o demônio por várias vezes (ouvi o Demo rugindo no interior de alguns devotos), falou do deserto espiritual (o qual todos haveremos de cruzar um dia) e implorou em lágrimas, ao Senhor para que curasse os diabéticos, os cancerosos, os deprimidos, os viciados, os despossuídos, os loucos e demais infelizes que ali estavam naquela manhã estupenda e ensolarada de sábado. Foi um show para divindade nenhuma colocar defeito. Entrementes, no Museu da República, um pouco mais tarde, houve um festival internacional de bonecos e lá no Templo Budista, além de umas adolescentes esqueléticas dançando música japonesa, uma concorrida soirée de glutoneria. Comer quatro Gyozas mergulhados no shoyu, com a lua atravessando o orbe, não lhes parece o maior dos luxos?

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A terra não é o play-ground, mas a privada do diabo

Nesta quinta-feira, antes das sete da manhã, lá estava o homem da máscara e das luvas brancas a minha espera. Achei que iria falar da gripe suína e do sucateamento dos hospitais, mas nem sequer me cumprimentou e foi logo vociferando: Que tal o Conselho de Ética? Quê despreparo! Quê atestado de incompetência generalizado! Que ignomínia! Quê asco ver aquele bando de engravatados dando corpo a uma mísera solenidade de bufoneria e a um tosco Tribunal de Impotência! Ninguém sabe nada! Ninguém consegue formular sequer um pensamento e muito menos uma tese. Aquilo perderia feio não apenas para os obscuros tribunais da inquisição, mas até mesmo para as querelas dominicais das meninas da zona de Planaltina. E isto, que são todos “bacharéis”, “juristas”, “criminalistas”, sujeitos de “reconhecido saber” em seus feudos. Somos um país essência e irresponsavelmente gerontocrático! Uma república de velhos, de cassados e de suplentes! E é impossível “encontrar entre nós um homem absolutamente notável que não seja cabotino”. Apesar do ufanismo ingênuo de alguns, caminhamos para uma sociedade de terceira ou de quarta categoria. A astúcia por um lado e a culpabilidade lusitana por outro lesaram gravemente nosso caráter e nosso Sistema Nervoso Central. Vendemos-nos por uma caixa de charutos, temos problemas graves com a linguagem, sacrificamos sistematicamente a ética em nome do moralismo e nossa imaturidade é tamanha que, mesmo aos setenta ou oitenta anos seguimos fazemos questão de insinuar e tagarelar que somos refinadissimos malandrins, com a alma no bolso e o risinho da cavação nos lábios. Sabemos há décadas – como escrevia João do Rio – que o trabalho honrado não dá fortuna a ninguém e que se não nos esganamos fisicamente, nos esfaqueamos e nos assassinamos moral e monetariamente a cada instante. Como era de se esperar, o mais bandido, o mais cruel, o mais patife é quem vence. E é a essa pantomima nojenta e a esse embuste que se insiste em chamar de República.

Disse tudo isso num fôlego só e antes de retirar-se, corrigiu parte da declaração que havia feito ontem: a terra não é o play-ground, mas a privada do diabo!


Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A terra, esse play-ground do diabo

Assim que cheguei ao hospital um homem alto e forte, usando máscara e luvas brancas, veio ao meu encontro para saber meu prognóstico sobre os desdobramentos da crise no dia de hoje lá no Senado. Não contente com minha vaga e niilista resposta confessou-me que sua única esperança está no vírus da gripe suína. Já imaginou aqueles gabinetes, aqueles auditórios e aqueles corredores absolutamente vazios, de luto? Perguntou-me quase em delírio. Respondi-lhe sarcasticamente que viriam de imediato os suplentes, o que seria até pior. Mas o vírus ainda estaria lá, sobre as mesas - contestou-me num segundo com ar vingativo -, nas fechaduras das toaletes, nos papéis, nos microfones, nos pacotes de dinheiro, no ar. E vinte dias depois tudo voltaria a estar vazio, fúnebre e de luto. Seria feita uma nova eleição – segui provocando – e viriam outros com o mesmo perfil, pois a escola dessa gente é sempre a mesma e mais, nesse período, a vacina já teria sido produzida e testada. Todo mundo, inclusive eles, já estaria vacinado. Vi pela frouxidão de suas pálpebras que ficou desolado e, para minha surpresa, arrematou com uma frase do desconhecido Vilén Flusser: É, não adianta, a terra é mesmo o play-ground do diabo!

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 2 de agosto de 2009

Jorge Luis Borges e mi hermano simius

Confesso que depois de longas e frustradas tentativas, entre os de minha espécie, elegi esse personagem como um de meus melhores e mais atentos interlocutores na cidade. Sempre que me aproximo de seu calabouço ele vem a meu encontro, me acena, se move e gesticula como se estivesse me relatando o odioso dia-a-dia de seu confinamento. Neste sábado, já com o sol se pondo, tive a nítida impressão que enquanto fazia pose para minha câmera, recitava com melancolia (mas também com um certo ar de vingânça) este texto de Jorge Luis Borges.


"No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche.
Moriré y conmigo la suma
Del intolerable Universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
Los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el ultimo pájaro.
Lego la nada a nadie".



Ezio Flavio Bazzo