quarta-feira, 9 de julho de 2008

Os filhos de Caim


De inicio achamos que o gozo e a satisfação que sentiamos com a prisão dos chefões do mercado financeiro eram provenientes de nossa honradez, de nosso sentimento ético, de nossa equidade moral, de nossa cidadania e mesmo dos resquícios de nossa cristandade. Logo depois chegamos a desconfiar que pudesse estar havendo em nosso íntimo algo nefasto e vil derivado da cobiça (quero ter o que eles têm!). Porém quando fomos vendo as cifras inatingíveis, a beleza daquelas mansões, o brilho daquelas Mercedes e a elegância daqueles ternos - conhecendo a lógica dos juízes e sabendo que ninguém ficará preso coisa nenhuma - não tivemos mais dúvidas de que nosso gozo e de que nosso aprazimento eram de pura inveja (não quero que eles tenham!). Isto prova que uma determinada doença no âmbito do social e do público pode muito bem detonar inesperadamente uma doença igual ou de outra natureza na esfera do privado. Parafraseando a Diderot: está vendo este ovo? É com ele que se derrubam todas as instituições financeiras e todos os covis da terra.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A selva é claustrofóbica


A única coisa que sei sobre Ingrid Bittencourt é que ela é autora da frase: A selva é claustrofóbica. Como se seu destino fosse o seqüestro, experimentou-o primeiro por parte dos fora-da-lei e agora pelos gerenciadores da lei. A estandardização de entusiasmo e de pensamento popular, a mesmice das manchetes, a similaridade entre as exclamações das elites e a dos pés-de-chinelo a respeito de seu resgate, antes de um sinal de humanismo é mais um signo da doença e da bovinização globalizada. Um coro evangelizado que é uma autentica advertência da incapacidade social e individual de raciocinar com os próprios miolos e de ver com os próprios olhos, uma subserviência doentia à propaganda e ao discurso dominante. Aquilo que deveria proporcionar uma discussão interdisciplinar e além do bem e do mal (sobre o Estado, as Leis e a megalomania no mundo) se esgota num monólogo tedioso e reacionário de esmoler. Nós que trabalhamos com a doença mental precisamos nos convencer dia após dia de que - como dizia Georges Canguilhem - aprender a curar é conhecer a contradição entre a esperança de um dia e o fracasso do fim, sem perder a esperança.


Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Cruz das Almas!!!


Aqueles que há dois meses atrás ficaram indignados com as conclusões de um pesquisador brasileiro sobre a inteligência dos baianos, sobre a teoria de que tinham um Q.I baixo, que preferiam tocar berimbau porque esse instrumento só tem uma corda etc., ficaram confusos hoje vendo as imagens e as notícias da Guerra das Espadas no município baiano de Cruz das Almas. Aliás, o que se poderia esperar de um vilarejo com um nome desses? Que a imbecilidade esteja presente num ou noutro indivíduo sempre é previsível e até normal em qualquer lugar do mundo, mas que uma vila inteira seja tomada por um surto de burrice auto-destrutiva daqueles é realmente algo fora do comum. São momentos insólitos como esses, com a turba se agredindo no meio das faíscas e da polvorada que nos fazem lembrar daquele pensador para quem um estúpido é sempre um estúpido, vinte estúpidos são sempre vinte estúpidos e cem mil estúpidos o material indispensável para um partido, uma seita ou uma outra das tantas forças históricas.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 22 de junho de 2008

O que nos intreressa é a lista dos "LIMPOS"


Enquanto o STE não decide se divulgará a lista dos candidatáveis "sujos", nós que duvidamos que haja uma lista de candidatáveis "limpos" voltamos a ler o velho e lúcido Marcuse: a tolerância com a imbecilização sistemática de crianças e de adultos pela publicidade e pela propaganda, a libertação do espírito destrutivo ao volante dos automóveis, o recrutamento e treinamento de forças militares e para militares por todos os lados, a importante e benevolente tolerância com a fraude declarada no comércio, a política que como um imã atrai praticamente só canalhas, o desperdício e a obsolescência planejada não são apenas distorções e aberrações, constituem a própria essência de um sistema que fomenta a tolerância como meio de perpetuar a luta pela vida e de suprimir as alternativas. As autoridades em educação frequentemente se escandalizam e vociferam contra a delinqüência infantil, porém se escandalizam e vociferam bem menos contra a irresponsabilidade de velhos mentirosos, corruptos e gananciosos de toda uma sociedade.


Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 20 de junho de 2008

O dharma do pequeno Akihito


A vinda do príncipe japonês ao Brasil serviu para que nos lembremos ( e digo "nos" por pura amabilidade) do verdadeiro papel da máquina diplomática no mundo: NENHUM. Toda aquela baboseira de não olhar para os olhos, de não tocar e de não dirigir a palavra ao visitante foi por água a baixo. O pequeno Akihito, ele próprio, sem preocupar-se com a Shanga brasiliense, mandou às favas não apenas a frescura dos protocolos, mas inclusive o principal dos preceitos budistas: o de não matar, e de zelar por qualquer forma de vida. Diante do festim herético que lhe foi oferecido, com vacas, cabras e outros animais sacrificados, entre uma deglutição e outra, apesar do visível deleite, é bem provável que esse Príncipe dos céus, - ao lado do Príncipe de Garanhuns, ambos sem curso superior -, estivesse sendo devidamente atormentado por seu Dharma.


Ezio Flavio Bazzo

sábado, 17 de maio de 2008

A sociologia pré-moderna


Foram-se os tempos em que a sociologia, com seu papel de compreender e explicar a sociedade precisava fazer o maior esforço e às vezes até recorrer à filosofia, à antropologia e até mesmo à psicanálise para dar conta de sua tarefa. Mesmo as teorias sofisticadas dos apóstolos Weber e Durkheim deixavam vácuos e lacunas, tão complexa parecia a compreensão da constituição social, os caminhos da transmissão dos significados, a construção das idéias, das atitudes etc.


Agora, quase meio século depois, descobrimos que nós é que complicávamos tudo. Ansiosos por dar à vida e à existência uma profundidade e uma complexidade maior do que elas tinham, divagávamos e mistificávamos o óbvio. Hoje tudo está bem mais claro. Não há cientista social que não veja e que não saiba que quem determina a personalidade, o caráter e até mesmo o desejo das massas são as empresas de telefonia(veja-se a idiotice e a alienação relacionada aos telefones celulares); as indústrias de medicamentos (veja-se os milhões e milhões de drágeas inúteis e caras que são receitadas e ingeridas diariamente); as fabricas de motos (veja-se a quantidade de motoqueiros se despedaçando nas estradas); a indústria de automóveis (veja-se a humilhação para comprar essa lataria ambulante, os congestionamentos e o extresse relacionados aos automóveis); a Microsoft (veja-se a quantidade de computadores e de outros aparelhozinhos inúteis, o confinamento e a distorção de comportamento que eles promovem no populacho); o MEC com seus livros didáticos (veja-se o lixo que se tem disponibilizado aos alunos nas últimas décadas); e as TVs, claro, com o Faustão, o Silvio Santos, os pastores, os clubes de futebol e a Xuxa. O resto é pura demagogia.

Ezio Flavio Bazzo