"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Terça-feira, IV-IX-2012...


Com tantos “mestres”,  “preceptores” e “mentores” soltos aí pelos aposentos da República, até os mendigos estão cada vez mais trapaceiros, astutos e ladinos aqui em Brasília. Nesta terça-feira, no semáforo que fica em frente ao Museu da República, um deles, em farrapos, tentava arrancar alguns centavos dos perfumados e recém banhados motoristas, com suas camisas de punho duplo, seus crachás e seus carrões de 300 cavalos. Veio também em minha direção ziguezagueando por entre os escapamentos e arrastando os calcanhares no asfalto fervilhante até postar-se junto à minha janela. Apoiou de maneira humilde a mão esquerda no retrovisor como se ali fosse o parapeito do mundo e com a direita levantou matreiramente a camisa ao mesmo tempo em que ia confessando ter passado recentemente por uma complexa cirurgia no Hospital de Base... Mais ou menos na altura das tripas ou do fígado vi que realmente havia algo com aspecto de uma ferida imensa, mas que na verdade era uma maquiagem feita com um pedaço de pimentão vermelho, tubos e esparadrapo que lhe dava um aspecto chocante, horrível e quase terminal... Mais tarde, nos fundos de um mercado, um outro da mesma laia e estirpe ao me ver atravessando o estacionamento veio teatralizando e se requebrando como se fosse o último ser livre do planeta e foi dizendo: - Dr.,você não vai acreditar..., dois travecos bêbados começaram a brigar aqui sobre o capô de seu carro e já iam quebrando seu para-brisa... Não deixei! Interferi e até me cortaram o braço. Exibiu em seguida um ferimento no braço esquerdo, cravou-me seus olhos onde estava estampada além de uma insônia de mil anos a mais terrível de todas as solitudes e ficou imóvel, aguardando como um cão sarnento sua merecida migalha... Eu que estou convicto de que viver além do limite de dignidade é uma insensatez e um mau negócio, às vezes até me surpreendo pensando que seria importante passar uns duzentos anos aqui neste planeta maldito, só para poder estudar a fundo essa insana, tremenda e desgraçada espécie...
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Observação: para atender ao comentário de uma leitora, podem substituir a "palavrinha" maldito por funesto e a desgraçada por desventurada e, inclusive, qualquer outra que possa acarretar-lhes algum mal-estar também pode ser riscada, banida ou trocada sem nenhum pudor. Aliás, o texto inteiro pode ser reescrito sem autorização de ninguém. Como as palavras não serviram para nada nos últimos milênios, não será agora que um adjetivo, um sinônimo ou um antônimo venha a fazer alguma diferença...

3 comentários:

  1. ( Voce pode manter a moderação de comentarios sem as tais palavrinhas )

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  2. Veja mais um para teu estudo:

    http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2012/09/04/interna_brasil,320849/jovem-e-morta-acidentalmente-pelo-namorado-durante-fetiche-sexual.shtml

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