"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 15 de março de 2009

O corpo com as respectivas perversões que o sustentam...


São Paulo, 14 de março de 2009 – Sacrifiquei minha ida ao Cemitério da Consolação neste sábado nublado de março para vir ao Simpósio de Imagem Corporal, no Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas. É quase unânime – entre os deserdados que conheço – a idéia de que quanto mais tempo se passa distante da academia mais o discurso dos professores e congêneres nos vai parecendo inóspito e estéril. Mas adianto desde já que valeu. Amanhã vou ao cemitério e pronto, estará feita minha reparação para com os defuntos. Numa platéia de mais ou menos 200 pessoas, 95% são mulheres. As mais interessadas talvez, até mais como pacientes de que como profissionais. Afinal, como recorda uma palestrista: “toda mulher deseja perder uns 3 quilos, inclusive as da Somália”.

O construto imagem corporal... Diz a frase projetada lá na parede. O corpo e sua construção como o único capital tangível que possuímos,temporariamente, claro, e é por ele, através dele, apesar dele que ocorre toda a percepção da vida assim como toda a percepção e a inevitabilidade da morte. As impressões táteis, térmicas, e de dor deslizam pelos ossos, veias, pele, sangue, linfa e claro, pelas emanações invisíveis da tal subjetividade, do imaginário e do simbólico. O diferente é excluído! Narciso sempre na moda. O estéril patológico. Vamos recordar Merleau-Ponty e o careca Foucault. Aqueles casos em que se nega partes do corpo ou quando o membro amputado insiste em fazer-se presente, como um fantasma. Talvez Sêneca estivesse certo quando insistia em que não é livre quem é escravo do corpo. Daí o tamanho de nossa indescritível penitenciária.

Instrumentos para avaliar a distorção corporal. Meninas anoréxicas. E isso não é uma questão apenas de nossas menininhas ricas. Não quero que este espaço formal se formalize – enfatizou cheia de cordialidade a doutora. Como diziam Cash e Pruzinsky. A depreciação do corpo. Claro que a percepção é multifacetada. Vamos prestar atenção às etnias e às origens (como os norte-americanos). Vejam as contribuições dos chargistas. Vejam as meninas cadavéricas que se percebem como gordas no espelho. Body Image. A mídia e os símbolos sexuais. Mas o que é o real? O sofrimento e as metáforas? Qual era o IMC dela? Daquela mulher que se via como uma bola? Nosso olhar clínico sobre a pasteurização do corpo e das carnes. Aqui cabe uma discussão epistemológica. Tenho nojo, aversão e repúdio ao meu corpo... Medo mórbido de tornar-me uma porca gorda... Qual era a religião da paciente? Seguramente católica, apostólica romana.

Sei que o corpo não é carro. Prestem atenção na discrepância entre o atual (mar de banhas) e o idealizado (mar de ossos). Lembro-me involuntariamente da Claudia Schiffer. Da moça que não conseguia ensaboar o corpo. Como passar o sabonete lá? As neuroses da academia (academia de ginástica). A cópula carnal, representativa do amor (foi a doutora que disse). Prefiro morrer a ser gorda. Se estivesse grávida e soubesse que meu filho trazia com ele o gene da obesidade abortaria. Palavras de pacientes nada pacientes. Vejam na Revista Vogue a Câmara de Congelamento destinada aos ricos para embelezar-se. Apenas três minutos lá dentro e eis que o milagre acontece. Qualquer um pode conquistar a beleza e, por que não, a imortalidade. Na pior das hipóteses virem a ser um cadáver saudável e atraente. É verdade que vivemos num mundo assombrado pelas imagens corporais. Baudrillard (gostaria de ter escrito seus livros) assegura-nos que o corpo é um objeto de salvação... Sim, o corpo com o mito do prazer que o circunda (aqui pode estar havendo uma sutil e sofisticada repressão sexual). O corpo como morada transitória da alma. Ah, ia me esquecendo: nesse paraíso de banhas subsiste a alma. Pelo menos a dos padres e a das freiras. Quantas vezes a gente deita achando-se horrorosa e acorda achando-se uma beldade e vice-versa – exclamou a professora. Mesmo sabendo que a imagem corporal é um processo e não um produto – lembram Gleeson e Frith. Parece mentira, mas 40 a 70% das meninas sentem-se insatisfeitas com seu corpo, e 59% das crianças e adolescentes sentem-se infelizes com sua aparência. Sorte que não sabem o que os espera. A anorexia pode lembrar o escorbuto, a pelagra a anemia.

Desculpem o frio! Nosso ar condicionado está com um erro cognitivo. (Ninguém mais teve dúvidas a respeito de seu marco teórico)

Não se deve assumir um paciente quando as feridas pessoais ainda estão abertas. Ser descontente tornou-se uma norma. Se em Taiwan, 71% das meninas são insatisfeitas com seu corpo imaginem então as mulheres que estão em outras faixas etárias... E a Revista Caras, da Angola, que promoveu um concurso de beleza entre os sobreviventes das minas? Exotismo ou sadismo? Não podemos nos esquecer das mutilações sexuais. Alguém da platéia lembrou a história do transexual que era também cleptomaníaco. O corpo que eu sinto não é o corpo que eu vejo. O olhar do mundo que não me olha. Gosto imensamente quando a coisa descamba para a poesia e para a filosofia (Isto sou eu que digo).

Vamos lembrar os cadeirantes, os travestis – esse gênero diferenciado – e o silicone industrial. E os deficientes visuais? E as bailarinas com anorexia? E os déficits corticais? Sabemos que pessoas “menores” tendem a superestimarem seu tamanho corporal e vice-versa. Atenção ao córtex. À menarca precoce. Sempre é conveniente lembrar-se daquela gorda que se submeteu à cirurgia bariátrica e que continuou se percebendo como gorda.

Colegas temos aqui a Teoria Perceptual e a Desenvolvimentista. A coitadinha viu aquilo na calcinha e logo em seguida a avó anunciando aos quatro ventos que havia mais uma moça na família. No fundo de toda memória o velho Buyling. A arte de zoar dos outros. Psicopatinha. Hoje já existe até consultor para apelidos.

Nossa, como você engordou! Dizem que cinqüenta por cento das mulheres fumam para manterem-se magras. Azar do pulmão – cochicha-me a nutricionista do lado. Mas isto não é tudo. 35% dessas malucas afirmam que abririam mão de três ou quatro anos de vida para não chegarem a ser obesas. Emagrecer é preciso, viver não é preciso. Como vai o tônus muscular? Querem saber as pessoas que ao fazer 25 anos entram em crise existencial. É preciso dar-lhes razão, pois esse humor é de quem já está bem mais velho. E as estrias? Perguntaria um sádico. Sedação lembra sedução. Ontem se dizia manequim. Hoje só se fala em modelo. Coisas da semântica. Não se pode negar: o mundo está cada dia mais repleto de lipófobos. As banhas, essas intrusas. Ditadura da beleza. Da beleza ou da feiúra?

Pode haver uma hiperfagia associada, não é doutor? Vamos ao CID 10 ou ao DSM IV? Século dos anorexígenos. Além da anorexia nervosa há o subtipo restritivo e o purgativo. Alguém da platéia pergunta se a anorexia nos homens tem alguma coisa a ver com a homossexualidade. Quem sabe, não temos dados, retruca a Dra da USP. Tudo passa por um comer transtornado. Uma moça falou em ortorexia. Ou seria hortorexia? Pavor mórbido por todos os lados. Então existe o pavor não mórbido. Sabiam que toda bulimica quer ser anoréxica? A platéia ri, mas é sério. Perder peso é mole, o problema é manter-se magra. Isto me lembra o pensamento cigano que diz “acender a chama é fácil, o difícil é protegê-la do vento”. Sim – repete a doutora – perder peso é mole, os números da balança são tangíveis. O difícil é mudar-se internamente. Gordura não é sentimento. Relaxem que até o Dalai Lama sente raiva, mas não vamos cair no positivismo, isto é apenas uma teoria. Havia uma paciente que precisava suprimir os atributos femininos. Lembrem que numa pessoa que está muito emagrecida o cérebro funciona em outra freqüência.

Por que elas pioram quando melhoram? Nem Freud. Eis aí uma das múltiples incógnitas femininas. Diabetes Mellitus. Desordem ou transtorno? Quando a criança conquista a postura ereta (deixa de andar de quatro para ficar em pé) perde automaticamente milhões de neurônios. Você sabia?

Vamos falar da Síndrome de Gerstman, aquela onde o sujeito mutilado não abre mão de seus membros fantasmas. Ou da Síndrome de Fregoli (esse devia ser italiano), onde o doente acredita que todas as pessoas são a mesma (disfarçada). Claro que não poderíamos esquecer-nos do Transtorno Disfórico Pré-Menstrual, do Skin Pickine e da paciente descrita por Janet, aquela que passou cinco anos trancada em casa com medo que se saísse à rua causaria pavor nos outros. Também é bom rememorar o Homem dos lobos, aquele que os psicanalistas não se cansam de invocar. A Síndrome de Thersites e a de Quasimodo que, como sabemos nos remete ao corcunda de Notre Dame. Também vale a pena mencionar o homem com Transtorno Dismórfico que dormia sem travesseiro para não amassar o rosto. E mais o Dr. Shopping e o turismo estrangeiro que inclui as praias do Rio e uma plástica. E por falar em plástica, ainda se faz por aí a himenoplastia (revirginização na linguagem popular), vaginoplastia, clitoriplastia etc. E claro, existem as drogas serotoninérgicas disponíveis em todas as esquinas.

A tua aparência te foi dada – diz o Islã. Modificá-la é pecado. Além disso, a beleza é vulnerável ao olho do demônio. KORO ou Cultural bound syndrome. Os comedores de carne de porco do sudeste asiático viram-se mergulhados na crença de que o pênis desaparecia no interior do plexus (e também a vagina, em se tratando das mulheres) Uso de esteróides. Exemplo: Michael Jackson.

Tudo pode acontecer lá no setting clínico. Mas vamos ser éticos e competentes. Perdoem-me se pareço uma mãe lambendo a cria. A colega da fileira de trás expirou e confidenciou em seguida a alguém: nunca consegui ter um expiro individual, são sempre coletivos. Coisas de psicólogos. Tempo esgotado. Muitas palmas, elogios mútuos e a clássica cordialidade nacional. Gostei.

Já lá na rua, indo em direção ao hotel e passando por sob um viaduto me percebi olhando para os pobres mortais desde o alto de meus novos saberes. E isto, evidentemente, era muito mais grave de que qualquer um dos transtornos dismórficos corporais mencionados, pois tratava-se de uma anomalia da “alma”.


Ezio Flavio Bazzo

3 comentários:

  1. Concluindo: a beleza está no osso e a loucura está solta por aí(rs). Mas o assunto é muito sério, na verdade não sabemos ainda lidar com este veículo fantástico que é o nosso corpo, também não sabemos lidar com este instrumento poderoso que é a nossa mente, e especialmente, não sabemos ainda o quanto podemos fazer por nós quando aprendemos a unir estas duas forças em equilíbrio.

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  2. inépcia ardente e habilidade fria. nenhuma virtuosidade corporal. peitos turbinados, bíceps trincados, botox, anorexia, bulimia, fonte da juventude, hiper-seres pós-human body, cybergnose. quanta falsa transcedência do corpo. tudo isso para quê, se não se abandona toda a parafernália da cultura simbólica. o corpo é mais um agente inibidor para submeter a vida a um controle maior. quando ao olhar, ao sorriso e ao toque for restituído seu poder sem intermediários, talvez seja gerado algum deleite físico e emocional realmente excitante.

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