sexta-feira, 10 de novembro de 2017
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
A ventania de ontem a noite e o sentido trágico da vida...
Não precisa nem ter lido Santo Agostinho, Kierkegaard, Unamuno ou Freud, para ter consciência do que é o tal 'sentido trágico' da vida. Basta sair por aí e falar com qualquer estranho na rua. Parece haver algo de sinistro e de apocalíptico espiando não apenas atrás das córneas, mas atrás de todas as coisas. Como se houvesse uma pressa em acabar. Como se, contra-fobicamente, se desejasse ir logo ao encontro do fim...
O papo hoje, aqui no coração da república se concentra todo nos comentários sobre a ventania que ontem à noite se abateu sobre a cidade. Um radialista chegou a dizer que parecia um tsunami de vento. Árvores caídas por todos os lados, esgotos entupidos, telhados desfeitos, vidraças despedaçadas, uma escuridão de ponta a ponta... pequenos besouros amassados nas soleiras... Para frustração dos fofoqueiros e dos noticiários, não morreu ninguém. Mas Todo mundo quer contar e aumentar um pouco o que viu, colocando sempre em sua história boa parte de inverdades, mentiras, invenções e fantasias enigmáticas com a ilusão de diminuir o tédio cotidiano e de dar-se um pouco de importância. Como se quisesse que a turba o apontasse na rua e dissesse, com admiração: Aquele ali viveu o Caos e está vivo! Surfou na tempestade e está intacto! Bobagens infantis! Uma ficção que nos vêm de longe, ainda do tempo das cavernas...
O mendigo K falava futilidades com o pessoal da guarda presidencial que retirava pedaços de árvores das ruas que ficam ao redor do Palácio. Contava aos guardas que o vendaval havia começado exatamente às 3:15 da madrugada e que deixou seu barraco em pedaços. Que ficou todo esse tempo no meio do nada e acuado ao lado apenas de um saco de latas vazias e de um armário feito com caixas de ovos mas que também levitou e sumiu. Falava entusiasmado sobre a beleza e a transcendência do vento e da tempestade. Aquela água gelada e aquela falta de ar! Haveria alguma coisa mais fascinante do que uma ventania como aquela no meio da metafísica insinuante da madrugada? Perguntava. Haveria alguma coisa mais fascinante que as rajadas que assobiavam nos postes e no tronco dos pequizeiros como se estivesse ameaçando limpar radicalmente a área infestada por todo tipo de hipocrisias e de infâmias? Os guardas o ouviam com curiosidade até que ele passou a relatar histórias e estórias de um realismo fantástico que teria presenciado das 3 às 4 da madrugada. De um baú repleto de dinheiro - por exemplo - que teria despencado das nuvens ao seu lado se despedaçado na queda e o dinheiro levantado voo em uma revoada parecida a de morcegos. Disse que no meio das cascatas de água e vento surgiu o padre Dom Bosco - aquele padreco que profetizou que nesta cidade haveria de brotar pão-de-ló e melado dos barrancos - e que fazia um esforço imenso para não deixar que o vento lhe levantasse a batina e lhe exibisse as nádegas... Depois apareceu JK e o Niemayer, sob a chuva, naquele passo moribundo e suspeito da senectude, um acusando o outro de ser responsável pelos descaminhos desta urbe. Os guardas que cortavam árvores com serras elétricas continuavam ouvindo-o mas já meio céticos. Jurou com uma certa alegria e fascinação que sua mulher havia sido levada pelo vendaval agarrada ao único bujão de gás que conseguiu comprar em vida e que os 3 volumes da Divina Comédia que estava lendo haviam ficado encharcados sob o colchão...
Os guardas receberam uma ligação telefônica de um alto escalão da república, desligaram imediatamente as moto-serras e puseram-se a olhar com um certo gozo para as nuvens que, lá por sobre as montanhas de Goiás pressagiavam e prognosticavam novas desgraças...
Brasília parece gozar, mesmo que secretamente, quando se abate sobre ela um diluvio ou mesmo apenas uma tempestade, quando os carros são levados para os esgotos, o metrô e os ônibus não circulam, quando todo mundo aproveita para não ir enxugar gelo nos Ministérios e dormir. Dormir! O sono, todo mundo sabe, é o prenuncio da morte. Enfim, há um gozo por aqui quando a cidade, como diria Garcia Marquez: torna-se um povoado sem ninguém, com as casas fechadas e em cujos quartos ouve-se apenas o surdo fervedouro das palavras pronunciadas com ódio...
terça-feira, 7 de novembro de 2017
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
Esfaquearam um sem-teto...
"Observou de perto uma galinha viva, imaginou-a aumentada até o tamanho de uma vaca, e descobriu que era um monstro muito mais aterrorizante que qualquer outro da terra ou da água..."
Garcia Marquez
(Do amor e outros demônios)
Ontem esfaquearam um sem-teto ao lado do mercado de hortaliças. Sempre o vejo mendigando ali, disputando sobras com os cachorros, recolhendo fragmentos de pizza de uma lixeira improvisada e até fazendo la siesta num sofá aos pedaços que alguém instalou em baixo de um abacateiro. Eram mais ou menos cinco da tarde. Os atendentes das farmácias da rua, os verdureiros, os moradores do primeiro andar, uma professora de astrologia, outros mendigos, transeuntes aposentados e uma senhora que vende brotos de bambu... todos formaram espontaneamente um circulo ao redor do esfaqueado que quase impedia o trabalho dos bombeiros e da polícia. Com cara de nojo, assistiam o estado miserável daquele sujeito e o sangue, até com aspecto saudável, jorrando. Por entre as coxas de uma mulher obesa, ainda jovem com duas tranças que lhe chegavam até a altura dos rins, consegui ver que era o lado direito dele que sangrava. E ele, com um bonezinho tipo o dos sem-terra, olhando a multidão de baixo para cima, mantinha um sorriso tímido, heróico e quase cínico nos lábios. Se pudesse, talvez entrasse na paranóia do mundo e jurasse para os curiosos que havia sido um atentado. Sirenes. Chegaram mais bombeiros com uma maca vermelha, tipo as de guerra, esparadrapos, um rolo imenso de gase hospitalar, uma garrafa de éter para higienizar as mãos. Fotografaram o moço antes de qualquer coisa. Ele gemeu meio fingidamente ao ser virado na calçada. Levava um escapulário no pescoço. Parecia feliz! Apalparam o ferimento, retiraram os coágulos que haviam se formado um pouco acima da cintura, o enfaixaram, o amarraram na maca e o transportaram para a ambulância. Vi novamente seu rosto de perfil e não tive dúvidas: estava feliz. Quando ouviu a sirene aumentar o volume e preparar-se para partir, ensaiou um tchau para a platéia e seus olhos brilharam... Talvez tenha sentido que aquela era a primeira vez na vida que uma multidão o olhava com uma certa compaixão... A primeira vez que tenha se sentido participante deste imenso circo e hospício que é a vida. A faca que lhe havia furado as tripas era apenas um detalhe...
domingo, 5 de novembro de 2017
De volta ao assunto dos alimentos envenenados...
"Um homem que se respeite não tem pátria. Uma pátria é um visco, um engodo."
Cioran
Cioran
Menos de uma semana depois da denuncia do Greenpeace (publicada no jornal EL PAÍS) de que 60% dos alimentos consumidos em Brasília e em São Paulo contem doses "homicidas" e "suicidas" de agrotóxicos e venenos.., silêncio total. Nenhum pio. Tudo quieto. A mídia prefere transmitir a histeria e os gritos dos rebanhos nos estádios; os padres preferem seguir com suas baboseiras e com seus sermões 'pra boi dormir'; as donas de casa, hipocondríacas, adoram uma intoxicação; os intelectuais estão preocupados e ansiosos apenas com as próprias nádegas e com a vinda da senhora Butler para uma conferência sobre ideologia de gênero em São Paulo e os políticos só pensam na Lava Jato. Não conseguem livrar-se da idéia de que nas próximas eleições terão que ajoelhar-se novamente diante do Lula, do Bolsonaro ou até do Luciano Huck. Já, os militares.., só sabem passar os dias lustrando as botas dos superiores e o cabo de suas carabinas; e a juventude, depois de trinta anos de intoxicação e de alienação, é apenas outra geração estúpida, passiva e perdida... Quê miséria! E la nave vá...
Como um bom militante da quarta idade, turbinei minha cólera e enviei o artigo (abaixo) para uns vinte parlamentares, de esquerda, de direita, do centro, ruralistas, ecológistas e etc, sugerindo que o assunto mereceria de imediato ou a Decretação de Estado de Sitio ou algo parecido... e até agora, resposta nenhuma. Nada.
Liguei para o Ministério da Saúde e para a ANVISA sugerindo que o Ministro desse explicações urgentes sobre tamanha patifaria... Mas quem me atendeu, como era de se esperar, nem tinha conhecimento da matéria e minha queixa nem sequer ficou registrada. Enfim, como hoje é domingo, que tal uns pimentões recheados a la mexicana? Um peito de frango com cogumelos? E uns morangos com nata na sobremesa? Tudo impregnado de pesticidas, veneno e e até de merda... (sem esquecer dos tragos de cachaça produzida por trapaceiros e por analfabetos por aí, nos fundo de algum alambique insalubre...)
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/27/politica/1509115739_770097.html
sábado, 4 de novembro de 2017
Lupita, a cadela que esta além do bem e do mal...
José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo
04 Novembro 2017 | 11h02
Desde a última segunda-feira, 30, uma cadela quase não sai de sua “caminha”, tal o desvelo com que cuida de seus pequenos filhotes. Tudo normal, não fosse a “mãe” Lupita, da raça pinscher, e os “filhos”, dois gatinhos resgatados de uma enxurrada. A lição de amor entre não iguais vem de Axixá do Tocantins, cidade localizada na região norte do Estado. A dona dos animais, a auxiliar administrativa Waniceia Nunes da Silva, de 40 anos, conta que os gatos foram jogados por cima do muro da escola em que trabalha e caíram numa poça d'água.
Chovia muito e a mulher os recolheu antes que fossem arrastados pela enxurrada. “Pensei em levar para casa, mas tinha um problema: minha cachorra Lupita nunca gostou de gatos”, contou. Mesmo assim, ela levou os filhotes imaginando que logo acharia outro lar para eles. Para sua surpresa, a cachorra logo se interessou pelos recém-nascidos. “Eu estava preparando a mamadeira dos gatinhos e, só para testar, coloquei um deles perto dela. De imediato, a Lupita o acolheu.”
Ela conta que a cachorra, que tem três anos de idade, havia entrado no cio mas não foi cruzada com outro cão da raça. Mesmo assim, ela produziu leite. “Foi a maior surpresa quando vimos ela amamentando os gatinhos. Depois disso, o leite dela até aumentou.” A mulher, que tem outros três cães da raça pinscher, temia a reação dos outros animais e de seus familiares. “Todo mundo ficou muito admirado, mas houve aceitação completa”, disse.
Em Tocantins, não é a primeira vez que cães e gatos formam uma única família. Em março deste ano, em Palmas, capital do Estado, a cadela Gabi, da raça lhasa apso, adotou o gatinho Zezé levado para casa pela filha da dona do cão, Melissa de Vasconcelos. Em setembro do ano passado, em Crixás do Tocantins, no sul do Estado, após perder dois filhotes próprios, a cadela Lia, uma vira-lata, adotou o gatinho Xavier, que tinha sido abandonado na rua e foi levado para casa pela tesoureira Mareisa Aguiar. O gatinho estava desnutrido e Lia passou a amamentá-lo.
O veterinário Paulo Nogueira conta que o instinto materno na maioria dos animais é muito forte e a adoção de bichos de outra espécie acontece de forma mais comum com cadelas. “Mas ocorre também com outros animais. Já vi casos de ovelhas que adotaram porquinhos e até de uma galinha que adotou um gatinho. Na natureza, é clássico o caso dos chupins, que põem ovos nos ninhos de outras aves para que seus filhotes sejam criados pela outra família.”
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