quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Valparaíso, 1350 Graus


"A única paixão de minha vida foi o medo"
Hobbes

1.

Forno Crematório: Ah, sim, a morte… Sempre a morte, na raiz de cada sentimento, de cada negociata e de cada um dos mais mínimos de nossos atos dissimulatórios. Siempre la muerte...


Ah, sim, sempre ela… Sempre a presença da morte, nesse mundinho de minhocas, ninharias e de fábulas, envolto pela aura de um redentorismo miserando, por uma polidez decorativa, fictícia e, mais do que tudo, finita…

Sim, sim, sempre a morte e a necrofobia por debaixo dos alicerces da razão, por detrás das cercas eletrizadas e das muralhas onde ingenuamente nos confinamos e, claro, por detrás das bravatas de todos os pit-bulls que rosnam pelo mundo…

Apesar das permanentes e demoníacas conspirações, vindas tanto de fora como de dentro, a tarde indescritível e morna deste sábado de sol, faz de tudo para capturar-me nas redes sutis e sedutoras do "bom astral" e da "transcendência"…

E foi, talvez, numa espécie de desafio a esse "bonheur" sem sentido que resolvi, finalmente, ir a Valparaíso conhecer de perto e "fazer um contato íntimo" com o único crematório da região. Afinal, com 55 anos, numa cidade infestada de automóveis, de ratos, de vigaristas e de bandidos, a qualquer hora se pode receber uma bala de 45 pelas costas, ser esmagado por um desses carroções urbanos, engolir o hantavírus num pedaço de lingüiça ou a maldição incurável da vaca louca numa dessas fúteis e canibais churrascadas de domingo à tarde. Aliás, quem circulou pela Inglaterra nos últimos anos viu fogueiras imensas onde milhares de vacas eram cremadas… Exatamente como nos tempos da lepra, da peste negra, dos campos de Dachau…

Se até 2001 os mortos brasilienses deviam ser levados para outros estados para serem queimados, agora tudo ficou mais fácil. Um último investimento de setecentos e cinqüenta reais e ninguém terá mais notícias de nossa vã existência! No futuro será grátis. Em cada superquadra haverá um forno, como os que já existem nos hospitais, para cremar lixo ou como os públicos de Tanger, para fazer pão… Cada família levará seu bujão de gás às costas, queimará seu ente querido e pronto… Como dizia, agora já podemos saber com segurança que nossa última viagem será feita aqui mesmo, desta cidadela de novos intelectuais e de novos ricos, para Valparaíso, na traseira de uma Cabine Dupla. Da enfermaria do HDB, do HUB ou de uma outra clínica qualquer, a caravana tomará, em silêncio, a ampla Esplanada dos Ministérios. O governador de plantão, de qualquer uma das atuais facções políticas, estará lá em seu gabinete, cercado por lacaios e parasitas quando o cortejo fúnebre passar frente ao Buriti… Mais uns dois mil metros, ao chegar na rodoferroviária, a procissão dobrará à esquerda – como quem vai para Belo Horizonte. Dependendo dos semáforos, do trânsito e da buraqueira da BR 040, a viagem durará, no máximo, uns cinqüenta minutos até o destino final. Pode parecer muito tempo, mas que são cinqüenta minutos para quem vai na horizontal e já ingressou na eternidade? Regulei o marcador de quilômetros no centro do Plano Piloto, acionei novamente a faixa do Summertime e rumei para lá.

Era de se esperar que os mais estranhos pensamentos e que as mais inesperadas associações fossem brotar, fervilhar e dar piruetas em minha mente durante o trajeto. Mas não. Fui envolvido por uma espécie de vazio enquanto segurava firmemente o volante ao lado de caminhões de vinte ou trinta toneladas que iam ziguezagueando entre os buracos, enquanto a polícia rodoviária fazia seu teatro fiscalizatório no meio da pista; enquanto uma mulher negra ia sensualmente agarrada ao corpo tatuado do motoqueiro que descia em direção ao Catetinho... A estrada deslizava veloz por debaixo dos eixos e dos pneus. Ao lado da rodovia, agrupamentos de casebres, restos de construções, águas estagnadas, cavalos pastando no habitat para onde é empurrado o lupemproletariado, com a pobreza, a poeira e a ignorância que lhe corrói as artérias, os nervos, a mão-de-obra e a vida… Uma parte imensa dos moradores desta cidade agoniza na indigência da beira-das-estradas, no meio de restos de roupas, restos de remédios, restos de religiões, restos de piedade… Matam-se entre si por puro instinto e nem ao crematório lhes é permitido o acesso… Com muito esforço uma cova rasa… ou uma vala coletiva… Se a morte é um horror, a vida dessa gente não o é menos… Farrapos amontoados nos cortiços, em todos os tipos de filas, nos aterros, sob os andaimes das construções, de cócoras nos fundos dos restaurantes devorando com os cães as sobras… Em cada barraco um bêbado, um demente, um analfabeto, um retardo… piolhos, gonorréia, obesidade, ausência de dinheiro, crimes de todas as ordens… Além desse flashback social inconsolável, algumas palavras, alguns signos e algumas imagens relacionadas ao meu destino se debatiam obsessivamente entre meus pensamentos… Crematorium... Incineratório… Um imenso tambor de gás aceso, convidando a uma análise do fogo... a uma psicologia da fumaça... ou da chaminé… do forno… desse instrumento que, por sua anatomia, induz até um leigo a fazer associações com as entranhas maternas e, principalmente, com a matriz... Só que agora, sem a possibilidade de uma cesárea e com uma única saída, volátil, para cima, e em silêncio... Para onde mesmo, doutor? Para la disolución de los huesos y para la nada, hermano...

Valparaíso de Goiás, saída sul, km 4,7.

Uma enorme placa indica meu destino: Cemitério Metropolitano. Entro calmamente à direita. No barracão do ferro-velho dobro à esquerda e já posso ver os telhados curvos das diversas alas do cemitério. Alguma coisa neles lembra as igrejas da pós-modernidade, outras, por que não, alguns telhados bizantinos da Turquia, Istambul, Ankara… Mas nada que abale os cânones sagrados da arquitetura vigentes. Meras coincidências. Impressões produzidas na promiscuidade de um imaginário que sempre se exacerba quando lida com essa temática moribunda… Chego ao portão, diminuo a velocidade, faço de tudo para registrar emocionalmente a primeira impressão. Enquanto Baudrillard resmunga de um lado que estamos experimentando o tempo e a história como uma espécie de coma profundo, Beckett, meio intimidado, cochicha do outro , insinuando que morrer é descambar docemente para a vida eterna, recordando toda essa mesquinha desgraça, como se ela jamais tivesse existido… Parole… parole… parole…

Desligo o motor e permaneço imóvel por um longo tempo… Pelos buracos de plástico do painel, a beleza de Summertime.

2.

Antes de fazer qualquer tipo de contato com os plantonistas, caminho de um lado a outro. Uma mijada se faz eminente. Por preconceito, sinto que nem minha bexiga e nem meu pulmão funcionam na sua totalidade. A tarde continua estupenda. Pelos fundos do terreno um horizonte azulado, uma fileira de Sempre-Verdes, cinco ou seis corvos que planam sobre a estrebaria ou a pocilga de algum animal adoentado. Espio para dentro das diversas salas e vejo que numa há som ambiente, toalete privativo, ar condicionado, frigobar, serviço de café e de chá, castiçais elétricos e que a câmara ardente foi feita com ouro e prata… Uma das salas tem o vidro translúcido, é ali que família do morto que será queimado pode ficar em privacidade, sem, contudo tirar os olhos de seu ente que jaz na capela… Para a última vez, até que é tudo exageradamente suntuoso!

Baudrillard se intromete novamente em minhas idéias para lembrar que nos moldes futuros da civilização, onde a morte terá sido eliminada, os clones poderão pagar muito bem pelo luxo de morrer e de converter-se em mortais de novo de forma simulada, a cibermorte… Que a morte, que uma vez foi uma função vital, poderá vir a converter-se em um luxo, em uma diversão…

As ciências, os grandes laboratórios e os ladinos comerciantes de sempre debruçam-se esperançosos não apenas sobre a possibilidade de copiar e dar longevidade aos nossos gens, mas principalmente sobre a idéia de estancar o envelhecimento e de evitar o óbito… Óbito? De onde teria surgido essa palavra. Onde está meu dicionário etimológico?

Enquanto isto, vão se usando os fornos...

3.

A recepção é espontânea e calorosa. Talvez, no universo dos negócios, os empresários de cemitérios, de crematórios, hospitais, lapidários, floriculturas, assim como os donos desses armarinhos que vendem velas, tricoline, rosários, incenso, naftalina etc, sejam, despachadamente, os mais simpáticos…

Volto a circular por todo o espaço do cemitério, agora ao lado do administrador, que vai explicando em detalhes:

- Aqui é a recepção. Hoje está tranqüilo porque é sábado… Em Brasília, morrem umas 800 pessoas por mês e mais ou menos uns 3% delas são cremadas… Para diminuir a burocracia, a pessoa interessada em ser cremada quando vier a morrer, deve ir a um cartório público e declarar por escrito, com testemunhas, essa sua vontade. A cremação de corpo cadavérico humano é regida pela Lei Federal Nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973; Pelo Decreto-Lei Nº 88, de 07 de agosto de 1969, regulamentado pelo Decreto 'E' Nº 3.707, de 06 de fevereiro de 1970 e pelo Decreto Nº 159 de 08 de outubro de 1975, pela Lei Nº 40 de 07 de dezembro de 1977, regulamentados pelo Decreto Nº 1.453, de 08 de março de 1978… (Ufa!) Veja que paisagem linda… O terreno do cemitério tem 285 mil metros quadrados… vai até a beira de um córrego, depois daquele morro…

Parece inacreditável, mas até para ser enfiado num forno, queimado, transformado em pó e banido do planeta é necessário um ato burocrático! Talvez a verdadeira origem da burocracia esteja na incurável e mútua desconfiança que uns seres sempre sentiram pelos outros… É curioso, e talvez "mera coincidência", que o primeiro Decreto-Lei sobre cremação tenha sido regulamentado no Brasil, na década de setenta, no auge da ditadura militar, quando presos políticos e até indigentes eram assassinados e cremados clandestinamente…

A nuvem que esconde o sol ficou repentinamente de uma cor laranja, deixando o cemitério sob uma imensa sombra. Querendo ir logo ao que me interessava, perguntei-lhe:

- Onde fica o crematório?

- Naquela parte lá… (aponta para uma das construções com vidro ray-ban na frente e um imenso tanque da Minasgás nos fundos.) Mas antes quero mostrar-te esta parte. Aqui é uma sala de velório; ali é o espaço reservado para a floricultura; aqui uma lanchonete; este é o carrinho moderno para baixar o caixão à sepultura; aqui é uma capela laica…Como dizem que já se listou nove milhões de nomes de Deus, para não ter problemas ideológicos com os clientes, é melhor que seja laica. Não sei se você sabe, mas este é um cemitério vertical. Cada tumba tem três andares, pode servir a três mortos… Já temos aqui uns 650 clientes… Esta sala é uma espécie de enfermaria ou ambulatório, se alguém passar mal vem para cá…

Enquanto caminhamos, fotografo os ângulos mais sugestivos e anoto tudo o que ele me diz… Mas, como já disse, meu interesse, quase neurótico, é pela parte onde está o forno. Por ser psicólogo, tenho a obrigação de lembrar que a neurose - como dizia Bataille - é a apreensão timorata de um fundo impossível. Agora o vento afastou as nuvens e o sol das quatro desce ferozmente sobre as minúsculas lápides cravadas no meio da grama. Numa delas, onde alguém deixou umas flores amarelas, para minha surpresa, o nome de meu amigo Oswaldino Marques, escritor e tradutor de William Blake e de T.S.Eliot. Sim, Oswaldino Marques… esse homem lúcido que não tinha dúvidas de que a idéia do céu era uma bobagem, e que na existência

"tudo são degraus para o deslumbramento,

tudo alcançará seu esplendor bem aqui no chão,

Bem assentado, bem plantado no chão desse globo,

Desse globo em cósmico – difícil – equilíbrio."

Permaneci em pé e meio atônito, por uns instantes, frente suas cinzas, enquanto resgatava outro fragmento desse seu mesmo texto:

"Quando te enfastiares de olhar para o alto,

olha também um pouco para baixo.

É preciso conhecer o chão lá o seu tanto…"

4.

Percebendo minha impaciência o gerente tomou finalmente o rumo do forno. Abriu com chave a porta que dá entrada à sala da frente.

- Quando a família traz o corpo só para a cremação, vem direto para cá. Esta é, digamos, a sala da despedida…

Uma mesa de mármore com roldanas na parte superior onde se deposita o caixão fica bem defronte à abertura na parede que dá para a sala onde está a fornalha. As lajes do piso têm o desenho de um tabuleiro de xadrez. Seria uma insinuação inconsciente do xeque-mate? Quando os familiares já consideram que é hora, um botão aciona as roldanas que transportam o féretro para o outro lado da parede, onde os "técnicos" dão início aos tramites verdadeiramente finais. Agora sim, é o adeus definitivo. Lá no outro lado, onde está o forno, não é permitida a presença nem dos familiares. Talvez este seja o momento máximo da impotência, da culpa e da dor…

Por uma porta dos fundos entramos na sala do forno.

- Este é um forno americano, marca Cranfora. 375 mil dólares… Assim que o corpo entra aqui nesta sala, é retirado do caixão e colocado nesta maca. Por que não é queimado no caixão? Porque faria muita cinza escura, tipo carvão… Nesse momento é retirado do cadáver (se a família ainda não o fez) o relógio, os brincos, o celular, os piercings, colares, qualquer coisa que ele tenha em metal, inclusive o marca-passo já que leva uma bateria que pode explodir e danificar o forno… Se, por alguma razão o corpo não está legalmente autorizado para a cremação, fica nesse freezer –aponta para a esquerda- esperando a liberação…

Como se quisesse brincar com minha ansiedade, apertou o mecanismo que fez a porta do forno abrir-se bruscamente à minha frente, deixando-me de cara com aquele vazio incomensurável… e prosseguiu em sua aula:

- Vês estes pedacinhos de ossos? São do último corpo cremado. É impossível retirar 100% dos restos de um cadáver. Sempre ficam sobras, mas que se dissolverão completamente com o processo da próxima incineração…

Algo dentro de mim ia murmurando: Porra! Como negar a vitória da máquina! Do forno siderúrgico! Do gás! Do fogo! De Schopenhauer! Do instinto de morte freudiano! Do Eclesiastes! Como negar a derrota dos vícios! Dos sonhos! Da idéia de infinitude! Do capitalismo! Dos desejos! Do narcisismo! De todas as esperanças fossilizadas! Sim, aqui é o lugar onde acontece o mais insuportável de todos os escândalos: o desaparecimento… Mas é um projeto pueril querer abolir a morte sem pensar em abolir o nascimento.

-…como dizia, depois do corpo ser colocado aí dentro, acende-se as três chamas (uma em cima e duas embaixo) fecha-se e espera-se 3 horas. Se for uma pessoa muito gorda o tempo é maior - três horas a 1350 graus centígrados… As paredes ficam incandescentes como as dos fornos das siderúrgicas… pela chaminé sai uma fumacinha quase inodora… Não se sabe ainda qual a quantidade exata de dioxinas/furanos por cadáver queimado. Depois de três horas, quase tudo virou cinzas, menos o esqueleto que se fraturou em muitos pedacinhos e que se desmancha com facilidade. O crânio - por causa do cérebro - resiste mais…

Esta última frase, ao mesmo tempo em que mexeu com minhas tripas, fez-me também ruborizar. Respirei fundo e quando restabeleci o equilíbrio lembrei que, segundo Barthes, todo escritor tem suas ruborizações imbecis… Numa determinada região do Nepal, os mortos são deixados sobre as rochas para que os urubus lhes comam as carnes. Na Índia, ao redor das fogueiras de Benares, o mesmo sujeito que espantava os cães que insistiam em mordiscar os cadáveres, me dizia que a parte mais resistente ao fogo era o tórax. Sem nenhum esoterismo primata, arrisco uma indagação espontânea: por que lá o coração e,aqui, o cérebro? Alguma coisa a ver com o antagonismo entre Buda e Descartes…? Entre krishna e Kant…? Entre a afetividade oriental e o racionalismo do ocidente…?

- Com este rodo – continua em seu tom professoral - puxamos delicadamente os restos que vão cair por este funil até esta gaveta. Daqui, o material vai para aquela mesa, onde passamos este ímã para ver se há algum resto de metal. Às vezes, o morto usava algum tipo de platina no corpo que nem os familiares sabiam. Em seguida, os pedaços de ossos que sobraram são colocados neste triturador (uma espécie de panela de pressão) onde são triturados completamente. Daqui, as cinzas - uns dois quilos e meio em média - são empacotadas, lacradas e entregues à família…

Apenas dois quilos e meio de cinzas, em média… Quase o peso com que se nasce! Que farão com as minhas?

O homem é Ser-para morrer, resmungaria Heidegger. Os filósofos queimaram neurônios inutilmente pensando neste destino fútil e até vil… Buscar um sentido para o forno e para a vida é perder tempo… Uma espécie de consolo é saber que com os outros setenta ou oitenta quilos de banhas e de ossos se foram também os vírus, as bactérias, o colesterol, as disfunções cerebrais, a letargia, o material inconsciente, a passividade reacionária, a erudição, as teimosias, as megalomanias, as ficções humanitárias, a fé e o rancor… Principalmente o rancor.

- Algumas famílias as enterram aqui mesmo, outras alugam uma gaveta no columbário ao lado e outras vão embora, estressadas, com as cinzas do cadáver em baixo do braço…

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 23 de janeiro de 2005

Brasília: a monstruosidade de uma utopia


" Nada é pior do que uma utopia que se torna realidade.
Sim, porque a utopia é desalienante no imaginário
e opressiva na prática"


Michel Ragon

Nós que nunca levamos a sério os sonhos de Dom Bosco, que nunca achamos que Juscelino foi um estadista, nem que o Niemayer é um gênio e muito menos que o Cristovam pudesse governar diferentemente do Roriz, nós que nunca tivemos - pelo menos conscientemente - a intenção de compactuar ou legitimar a megalomania desses homens, nós não nos cansamos de ver a cidade de Brasília - apesar dos conhecidos ufanistas de plantão - como um aborto burocrático; como um equívoco urbanístico de primeira ordem e como um delirium tremens levado às últimas conseqüências por uma elite gabola, febril e gananciosa que, louca por copiar as falácias de Le Corbusier e por encher definitivamente os cofres de dinheiro, inventou esse quartel de caixotes verticais, de ruas vazias e de espaços empoeirados.

Pretensamente motivada por um ideal místico/funcionalista/ cartesiano/ stalinista de segunda ordem, na verdade, essas paredes rachadas, esse asfalto esburacado, essas moradias minúsculas, essas janelas que não deixam passar mais do que a cabeça de seus inquilinos são os símbolos maiores de uma encefalopatia corrupta e masoquista que, se por um lado tem fomentado a autofagia e institucionalizado a mediocridade, por outro têm garantido aos gatunos de turno a legitimação de um poder e de uma riqueza sem origens e sem fundamento. Como a Transamazônica que atraiu para si milhares de famílias e de aventureiros para depois traí-los e imolá-los na solidão da selva, a Capital Federal trouxe para cá escravos e lunáticos de todas as partes para enjaulá-los a uma arquitetura no mínimo abusiva e imbecilizante, e para subjugá-los a uma ordem tão totalitária como ilegítima.

- Ai meu Deus! Mas aqui tudo é calmo... espaçoso... verde... A qualidade de vida é quase um sonho... A lua parece nascer ali entre os braços da estátua da justiça... no centro da Praça dos Três Poderes... Os primeiros raios da manhã, quase como uma benção, despertam os Ministros, os Generais, os Presidentes e seus lacaios... Tudo aqui é Zen... Com suas trezentas e tantas seitas a cidade transborda energia cósmica! Os discos voadores dão razantes por sobre a Papuda como se quisessem convencer aqueles guardas e aqueles presidiários que será aqui, neste paraíso de politicagens, a megalópole-chave do Terceiro Milênio....

É assim que cacarejam obsessivamente as vítimas prematuras dessa engenharia monstruosa. E o quê mais? lhes perguntamos nós. Desde quando isto é suficiente para quem está vivo? Para quem tem os olhos postos para além do planalto, da planície e da manada? Desde quando isto é suficiente para quem tem consciência de que em outros pontos de um planeta imaginário as cidades fervilham, as noites transbordam de prazeres, de cultura, de rebeliões, de intimidades e de asco, muito asco contra qualquer um dos conhecidos e melancólicos regimes?

Para aqueles que, pela razão que for, "amam" a frieza destas lages, a superficialidade desses telhados, o tédio dessas construções literalmente inacabadas, a monotonia das Super-Quadras e a mesmice interminável dos botecos, a eles peço que olhem atentamente para todos os lados até perceberem o quanto ela se parece a uma imensa fazenda. Ao invés de carroças, muitíssimos carros; ao invés de vacas e cabras, multidões que só nos horários intermediários aparecem em rebanhos nas esplanadas e nos shoppings, mas que logo desaparecem, voltam a se enclausurar nas estrebarias estatais, em seus estábulos executivos para ruminar papéis, processos, propinas, novelas e intrigas domésticas. Olhai, olhai de vossas minúsculas janelas ou de vossas improvisadas varandas e vereis por todos os lados um prado imenso, com poeira no verão e lama nas épocas de chuva. Automóveis velhos, aos pedaços ou reluzentes e recém importados deslizam barulhentos em busca de retornos inexistentes. Um trator fura a terra vermelha onde os mesmos empresários de sempre levantarão outra dessas miseráveis colméias. Colméias para a classe média, para os proletários e "paus-de arara" disfarçados. O caminhão do lixo vai espalhando dejetos pelo asfalto, até a esquina, onde cinco ou seis taxistas esperam seus clientes sob uma choupana improvisada. É a diversidade arquitetônica, resmunga outro teólogo ecologista. Na TV, um corrupto chora e entre lágrimas, lembra que seu pai foi um dos fundadores e construtores da cidade. O governo se compadece e os suplentes o inocentam, dando margem à dedução de que uma vilania de origens congênitas teria se metamorfoseado numa vilania urbana.

Pela manhã o governador perfumado viaja de helicóptero para evitar a plebe, os eleitores e as retas. Se tivesse lido a Charte d¹Athènes de Le Corbusier, saberia que para o mestre urbanóide, as ruas tortuosas são para os asnos assim como as ruas retas são para os homens. Será? Cada vez que voltamos a olhar para os lados se nos agiganta a dúvida sobre este postulado.

Brasília... Chandigarh... A periferia de Paris, a Alemanha Oriental, Miami, qualquer lugar que tenha pobres e indigentes pode ser digno de uma "Vile-Machine", de uma cidade laboratório, de um zoológico humano cujas jaulas, se não têm serventia para proteger, pelo menos ativam a bestialidade sociológica do "modernismo". Mas nem mesmo os arquitetos mais cínicos dessas colméias escapam ao sentimento de culpabilidade. Em suas crises fóbicas e em seus remorsos parecem intuir e temer que o lobo Guará ainda possa, um dia, revirar suas tumbas para banquetear seus ossos. O próprio Niemayer, falando de sua obra para a opinião internacional, chegou a desculpar-se: ³Me sinto deprimido. Construí edifícios para os poderosos. Nada além disso. Nunca pude trabalhar para as classes desfavorecidas, para o mundo dos pobres que constitui a grande parte de meus irmãos brasileiros.² Demagogia tardia! Se não construiu nada que servisse para os pobres foi porque não quis, porque não viu irmão nenhum no meio das massas marginalizadas e dos rebanhos catatônicos e sem voz que, não conhecendo a analogia que existe entre doença e mito, sempre serviu de instrumento para a mistificação de todos os tipos de charlatanismos.

Se na Coréia - por exemplo - se pode beber a água do rio que cruza silencioso a cidade, aqui, a água do lago que enfeita a retaguarda das mansões dos suplentes é ainda um reservatório de stronzo, de turd e de merde.. E é até compreensível que uma cidade que milita contra si mesma feche suas livrarias e suas bibliotecas com o pôr-do-sol, marginalize seus expoentes culturais, fomente a teologia em detrimento da antropologia e clame embasbacada pela multiplicação da polícia ao invés de investir na conquista de seu próprio desejo e de sua própria liberdade.. Não, não... me desculpem, mas isto ainda não é uma cidade! É mais bem um laboratório luciferiano; uma Serra Pelada sem sombras de minérios, uma aldeota senil, um engendro monstruoso planejado para nutrir-se das entranhas de seus próprios habitantes, com suas nostalgias, suas falácias e seus pesares incuráveis...

Ah... e está longe, muito longe o dia em que em seus portões de entrada se poderá levantar uma faixa imensa com os seguintes dizeres: ³Entrem! Entrem que aqui todos serão bem vindos e que a quem ainda tem ouvidos para as coisas inauditas, retribuirei fogosamente com minha felicidade!

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

A Passagem de Samuel Rawet por Brasília


Sete anos depois da primeira incursão pelos rastros e pegadas de Rawet, pelo Plano Piloto, pelas veredas periféricas, por Sobradinho, Haifa, Núcleo Bandeirantes e Tel-aviv, encontro-me outra vez diante da singela sepultura 162, da quadra 219, no cemitério em forma de caracol, engendrado por Niemayer.

Mesmo vacinado contra todos os misticismos, sinto que se olho muito tempo para o fundo da cova vazia, o vazio me retribui impiedosamente o olhar… Impossível negar que a essência do Rawet, não do Rawet defunto, mas do Rawet escritor, engenheiro, voyeur vagabundo das madrugadas brasilienses, ainda está, de alguma maneira, inscrita neste lugar… Corpo ausente que anima reminiscências de uma narrativa, de um diálogo e de uma história já demolida pelo tempo… Ocaso da idolatria pelas palavras… da paixão pelas letras, que agora, uma a uma, se desgarram do papel putrefeito, colocando um ponto final no passado. Diante deste espetáculo, é necessário reconhecer que tanto a morte como a lápide, desonram e humilham… "… devia ser humilde, e foi humilde até à anulação. Devia ser justo, e foi justo até o desespero. Em essa sucessão de devia, tornou-se plasma informe nas mãos do mestre. E sobrava-lhe ainda a lição do orgulho quando descobriu o charlatanismo da humildade".(Viagens de Ahasverus, 1970, p.38).

Impacientes e sabedores de que as mais poderosas influências nos chegam quase sempre através dos mortos, os vivos se empenham, outra vez, em exumar a opereta de signos e de conjunções rawetianas, bem como sua artilharia verbal voltada para a idiotia do mundo… História que, por Rawet, mesmo ensoberbecido com todos os elogios e com todas as teses a seu favor, talvez, desse tudo por absolutamente concluído, acabado e perdido… Não se disporia a sair da solidão e do isolamento em que se encontra há vinte anos, para retomar a mesmice dos cálculos matemáticos na edificação desta promíscua solidão urbana, pelas mesmas razões que não se debruçaria mais sobre seu antigo projeto literário… A reedição das novelas, dos contos e das Obras Completas, para quê? se já nada pode interferir no mais absoluto de todos os exílios? Como judeu, conhecia muito bem o provérbio de sua raça, segundo o qual, um tolo pode jogar uma pedra na água que dez sábios não conseguem recuperar. Por isso, talvez, se limitasse apenas a lembrar que, na existência, tudo se resume a um sonho provisório e que, seja qual for nosso estilo de vida,"morre-se só, sempre só, morre-se a própria morte. Vive-se só, sempre só, vive-se a própria vida. Em qualquer circunstância…"

… Sim, é possível que a escrita não lhe provocasse mais nenhuma forma de êxtase, nenhum arrebatamento, nenhuma das antigas obsessões. Isto porque não havendo mais libido, já não há mais culpa, nem necessidade de vingar-se, de esclarecer o impossível, de alimentar a aleivosia que, comumente, nos faz aguardar séculos, esperar uma eternidade, para o momento de uma mísera e inútil vingança… Digo isto, porque, tanto para o Rawet de infância suburbana e aparentemente desfigurada, como para o Rawet dos últimos tempos, parecia não sobrar muito, além de uma grave letargia depressiva e de algumas escassas e fugidias memórias, ou de Klimontov, ou dos subúrbios cariocas, lembranças mixadas às imagens do velho Cristo, com os braços já exaustos e decrépitos, encurralando diariamente a canalha… Rawet lobo… Rawet corvo de Torga, Rawet Ahasverus, Rawet bordeline… Rawet desvairado e trágico com um texto em iídiche no bolso… Se não frequentava as soirées nos arredores do Palácio, e se mantinha à margem, era porquê, como Céline, sabia que a experiência é uma lâmpada fraca que só ilumina aquele que a carrega. Indignado com a mediocridade humana, ia driblando sua loucura e resmungando: "… a dupla experiência, a da burrice, e de quem escreve sobre a burrice, nunca me abandonou. Ao contrário, e por motivos diversos, tomou conta de mim, do meu corpo, e se transformou numa espécie de lente que me ajudou, e me ajuda, a procurar compreender o mundo… ". (Consciência e valor, 1970)

Duas décadas depois de ter sido encontrado morto em Sobradinho, com uma tigela de sopa Knorr nas mãos, e no mais absoluto desamparo, não apenas Brasília, mas o país inteiro parace querer colocá-lo num pedestal e queimar incenso à sua irreverência. Mas, como insistir em enquadrá-lo num lugar-comum, sabendo, por um lado – como pregava Saussure-, que não somos, em nenhum sentido, os autores daquilo que fazemos e nem dos significados que expressamos na nossa escrita? E por outro, que por debaixo de todos os estilos, disfarces e performances que as pessoas de letras cultivam com tanto esmero, há sempre um oculto arsenal de substâncias e de aromas narcíseos para o futuro auto-embalsamamento? Indiferente a qualquer tipo de especulação, o Cristo de concreto do imaginário rawetiano continua lá, com seus braços descerrados sobre a balburdia sensual e culpígena de todas as cidades portuárias, indicando o óbvio aos rebanhos…

"… É o homem culpado pelo fato de viver? Interrogou o crucifixo. (…) Não insistiu ao perceber o rosto imóvel e sereno do crucificado…"[1]

Diante da cova que aos poucos vai sendo desfigurada pela erosão, insisto numa associação de idéias pouco espontânea… ela, desde sua trincheira natural, sempre que pode, retribue-me maliciosamente um olhar de ausência e também o consolo de que a espontaneidade não é lá grande coisa, já que qualquer imbecil pode tê-la. Um olhar de ausência! Ausência desse personagem que na roupa e nos gestos, encarnava o homem do iluminismo, mas que quando abria a boca ou quando escrevia, evidenciava o sujeito da pós-modernidade, com a identidade despedaçada: judeu branco, num universo mestiço; libertário, mas funcionário público de um vilarejo periférico; sujeito ora cartesiano e ora wildeano; freqüentador da alta burocracia estatal, mas também da galeria Alasca; macho, mas nem tanto; ateu, mas ainda preso às orações rezadas nas sinagogas polonesas.

A tarde vai se inclinando lentamente sobre Brasília e com mais vagarosidade ainda sobre os retângulos das tumbas… Um cão curioso ziguezagueia por entre as azaléias, dois vasos japoneses quebrados e uma sombra móvel sobre um amontoado de granito. A lua, semelhante a uma foice, começa a ganhar brilho na cobertura das construções frenéticas e ordinárias desta urbe… Utopia que virou realidade… Alguns desses prédios foram calculados pelo autor de Alienação e Realidade… Quem o viu comendo de sua marmita, assentado no meio fio dos becos de Sobradinho, jamais adivinharia ou descobriria ali o Rawet calculista… engenheiro e homem de concreto que, desde 1957, aos 28 anos, já fazia parte da construção desta cidade. É só em meio às circunstâncias particulares da sua vida –lembrava Foster- que um homem é ele mesmo. De seus cálculos e dos de seu colega Joaquim Cardoso… será que um dia, ainda não testemunharemos uma hecatombe…? Um horror de ruínas…? Ainda ralhando sobre a questão da estupidez, insistia com os personagens de seu delírio: "… ampliada um pouco invadiu o domínio da idiotice, da vigarice, e se metamorfoseou em especulação e matéria para especulação…".(Consciência e valor, 1970)[2]

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 20 de agosto de 2004

A psicopatologia do plágio


A história universal é pródiga tanto em sujeitos insensatos que volta-e-meia se acham plagiados, como em sujeitos delirantes que, por acreditarem que tudo o que é produzido no mundo «já foi pensado por eles» legitimam quase espontaneamente a apropriação daquilo que lhes interessa. Por um lado os arrogantes de sempre reclamando para si todo o saber do mundo, e por outro, os velhos e conhecidos megalomaníacos, certos de que o mundo é apenas parte de sua propriedade. E não estou me referindo apenas a personagens menores, seja da literatura, da música, das artes em geral e mesmo da ciência. É sabido que muitas personalidades dessas áreas, em determinados momentos de suas vidas, passaram pelo incômodo de sentirem-se plagiadas ou de serem acusadas de estarem plagiando. São clássicas as acusações que se fez contra Molière, contra Goethe, Shakespeare, D¹Annunzio e até contra Nietzsche e seu Zaratustra.


Em seu trabalho sobre atos impulsivos, o psicanalista W. Stekel, no capítulo dedicado à psicopatologia do plágio, sem duvidar de que a apropriação «consciente» do texto alheio é um roubo, discute a possibilidade dos grandes poetas, músicos, etc, correrem o risco de plagiar «inconscientemente», fenômeno que os psicólogos denominam criptomnésia. O caso de F. Nietzsche em seu (Zaratustra) plagiando quase textualmente (Blatter aus Prevost) de J. Kerner, seria um exemplo. Uma leitura feita por Nietzsche aos 12 anos teria reaparecido muito tempo depois e sido reimpressa em Zaratustra, como sendo própria. O mesmo teria acontecido com Beethoven em seu (septeto Op.20), que seria uma repetição de (Die Losgekaufte), uma canção antiga e popular de uma determinada região alemã. D¹Annunzio plagiou sutilmente a Verlaine e a Baudelaire, e estudos apontam a coincidência e a semelhança que há entre textos de Ovidio e de Geibel. Só que, com relação a este último, "trata-se de uma imitação consciente, já que era bom filólogo e que sabia certamente de memória o trecho de Ovidio. Sabe-se que, com frequência ­lembra Stekel- o conhecimento profundo de determinado autor pode deixar rastros insuspeitos na obra de um filólogo-poeta". Daí e de tantos outros exemplos, a dificuldade e o ridículo de «debater», tentando saber «o que é meu» e «o que é teu» já que, na verdade, não se tem como rastrear a origem de nada, muito menos a origem de nossas mesquinhas, superficiais e inúteis idéias.

É importante lembrar e tomar consciência de que, principalmente no chamado mundo artístico, onde todo mundo vive persecutoriamente se acusando de plágio, de cleptomania e de roubo de idéias, quase nada é de autoria originária e legítima de alguém. Todos se nutrem dos mais variados furtos intelectualóides, cuja propriedade e cujos direitos autorais, se fosse o caso, quase sempre pertenceriam a remotos e esquecidos cadáveres.

Mas... mesmo assim, mesmo sabendo de toda essa miserável e inevitável pequenez de nossas pretensões, nunca será demais um minimum de lealdade.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 25 de março de 2004

A Lógica dos Devassos: No Circo da Pedofilia e da Crueldade

À margem dos sermões melancólicos, da empáfia histriônica dos discursos e da persistente simulação de civilidade — tanto dos governos, como das religiões e das famílias — fervilham massacres infantis por todos os lados. A escravidão, o abuso sexual e o assassinato de crianças nunca estiveram tão evidentes, e a história, essa cloaca de mentiras, construída sobre infâmias e infanticídios, teima em permanecer falsa e petrificada no cérebro da humanidade...

Atenção: dependendo de tua trajetória, este livro pode provocar-te uma taquicardia e até tirar-te o fôlego. Se estás em busca de uma leitura afável, morna, escrita por um DAS-5, por alguém da troupe arquiconhecida ou por outro dos badalados bufões da atualidade, se estás em busca de uma leitura que te faça conciliar o sono depois das novelas, desista. Aqui não há nenhuma influência e nenhuma cumplicidade com os bandidos da política, com os espertalhões pós-graduados, nem com o mercado editorial e muito menos com as elites esclerosadas. Foi escrito para quem tem no mínimo, a grandeza de colocar-se à altura da nojeira e da miserabilidade humana... E que não sirva outra vez apenas para «refletir» ou para «meditar», pois já é tempo de dizer como Rousseau que o homem que só reflete e que só medita é um sujeito depravado.

quarta-feira, 17 de março de 2004

Cristo nunca existiu


Não tenho a mínima intenção de alterar uma vírgula nos tratados de vossa fé nem nos abismos de vossa ignorância, apenas pretendo transmitir estas notícias aos poucos estudiosos e pesquisadores que têm soberania de pensamento e que, desde o alto de suas inquietudes, saberão ler-me sem pestanejar, sem surtos histéricos e sem grandes escândalos.

Entendo perfeitamente bem que depois de tantos séculos de mentiras e de desgraças, depois de tantas esperanças frustradas e de terrores introjetados, depois de tantos anos de conspiração contra a saúde mental das pessoas, a realidade caia sobre os beatos mais alienados como uma bomba. Mas é só respirar fundo, tomar uma água com açúcar que tudo volta ao normal. Afinal, todo mundo sabe que não dá para mentir durante tanto tempo e que a omissão da verdade vai se tornando cada vez mais insustentável.

1. O ASSUNTO

Foram muitos os pensadores e pesquisadores que dedicaram parte de suas vidas buscando provas materiais e históricas sobre a existência de Cristo. Tal fundamento jamais foi encontrado. O que se tem presenciado desde o princípio do cristianismo até hoje é que a existência de Jesus tem sido obsessivamente defendida por meio de peças e documentos nada científicos (como a Bíblia) e de testemunhos forjados por aqueles que sempre tiveram interesse religioso, econômico e político nessa existência.

Bibliotecas e museus guardam documentos e escritos de autores que foram "contemporâneos de Jesus", só que neles não há nenhuma referência a esse multifacetado personagem. Os documentos que a igreja detêm a respeito, não possuem valor histórico, já que originalmente não mencionavam o nome de Jesus, e que foram rasurados, adulterados e falsificados, visando suprimir a ausência de documentação verdadeira. Essa falta de comprovação torna-se ainda mais significativa quando comparamos Jesus com Sócrates, por exemplo, que apesar de haver vivido vários séculos antes da lenda cristã, deixou comprovada sua existência, sua produção filosófica e cultural, seus pensamentos e inclusive seus discípulos (Aristóteles, Platão, Fédon etc).

Enquanto que Jesus não deixou verdadeiramente nada de palpável, seus discípulos teriam sido analfabetos que nada escreveram e que também não foram mencionados em lugar nenhum pelos historiadores da época.

Segundo um estudo realizado por La Sagesse, Jesus Cristo foi apenas uma entidade ideal criada para fazer cumprir as escrituras, visando dar seqüência ao judaísmo em face da diáspora e da destruição do Templo de Jerusalém. Teria sido um arranjo feito em defesa do judaísmo que então morria, surgindo uma nova crença, na qual ­ paradoxalmente - os judeus nem crêem. Tudo foi planejado para que o homem comum, as massas e os rebanhos continuassem sendo dóceis e fácil de manipular pelas mãos hábeis daqueles que historicamente sempre aproveitaram as religiões como fonte de lucros e de poder.

2. PROVAS E CONTRA-PROVAS

Flávio Josefo, Justo de Tiberiades, Filon de Alexandria, Tácito, Suetônio e Plínio (o Jovem), segundo a igreja católica, teriam feito referências a Cristo em seus escritos, só que esses documentos quando submetidos pela ciência a exames grafotécnicos, apresentaram provas de que haviam sido adulterados, parcialmente alguns e totalmente outros, pela igreja.

Além disso, o nome Crestus, Cristo e Jesus eram nomes muito comuns tanto na Galiléia como na Judéia e não se sabe a quem eram feitas as referências. Filon de Alexandria, apesar de haver contribuído muito para a construção do cristianismo, nega a existência de Cristo. Escrevendo sobre Pôncio Pilatos e sobre sua atuação como Procurador da Judéia, não faz referência alguma ao suposto julgamento de Jesus. Fala dos essênios e de sua doutrina comunal sem mencionar para nada o nome de Cristo. Quando esteve em Roma para defender os judeus, Filon fez os relatos mais diversos de acontecimentos ocorridos na Palestina, não dando nenhum dado sobre o personagem Jesus. É importante lembrar que Filon foi um dos maiores intelectuais de seu tempo, que estava muito bem informado e que jamais omitiria uma vida tão curiosa e tão trágica como a de Jesus. E o silêncio de Filón não se refere apenas a Jesus, mas também aos apóstolos, a José e a Maria.

Flavio Josefo, que nasceu no ano 37 e que escreveu até o ano 93 sobre o cristianismo, sobre o judaísmo, sobre os messias e os cristos do período, nada disse sobre Jesus Cristo. Justo de Tiberíades que escreveu a história dos judeus, desde Moisés até o ano 50, não menciona a Jesus. Os gregos, os romanos, os hindus dos séculos I e II, jamais ouviram falar da existência física de Jesus Cristo. Os trabalhos filosóficos e teosóficos dos professores da Escola de Tubingem demonstraram que os evangelhos e a Bíblia não possuem nenhum valor histórico e que tudo o que consta neles são arranjos, adaptações e ficções como o próprio Cristo o foi.

3. CRESTUS E CRISTO

Em 1947, em Coumrã, foram encontrados documentos escritos em hebreu que falavam em Crestus e não em Cristo. A igreja, ao tomar conhecimento da descoberta de tais documentos, pretendeu fazer crer que o tal Crestus era o mesmo Cristo de sua criação, só que as investigações posteriores deixaram muito claro que se tratava de uma fraude da igreja e que Crestus não era o Cristo que a igreja pretendia inventar. Tais documentos haviam sido escritos quase um século antes da novela do Calvário e que Crestus era um líder de uma comunidade legendária e comunista.

4. OS FILÓSOFOS E OS HISTORIADORES DIANTE DO MITO

Todos os historiadores que conseguiram «historiar» movidos pelas evidências e não pela fé ou pelo fanatismo negam a existência de Jesus Cristo. Reimarus, filósofo alemão (1768) chegou a conclusões irrefutáveis que abalaram a igreja, tanto ou mais que as conclusões de Darwin e de Copérnico. Kant foi o primeiro filósofo que expulsou Jesus da história da humanidade. Volney, em "Ruínas de Palmira", nega a existência de Jesus. A. Drews viveu e estudou durante muitos anos a história da Palestina e constatou que o cristianismo foi totalmente estruturado sobre mitos e mentiras. Dupuis, Reinach, Kapthoff, Couchoud etc, todos coincidem em dizer que tudo não passou de uma farsa aplicada sobre os homens de fé e um jogo político usado para fins de domínio.

5. OUTRAS FONTES DO CRISTIANISMO

O cristianismo não passa de plágios e de uma montagem de filosofias, religiões, valores éticos e morais, mitos e preconceitos pirateados de outras culturas. Como se sabe, antes do mito de Cristo já existiram centenas de outros supostos «redentores», de outros «messias», outros «enviados»... e quase todos anunciados e nascidos de virgens, milagreiros e humanitários que prometiam voltar para redimir o populacho de suas culpas (quê culpa?) e de seus pecados, blábláblá. Até hoje, entre os mais famosos e com mais status podemos citar Buda, Vishnu, Krishna, Mitra, Horus, Adonis etc. Inclusive os preceitos e a moral usada pelo cristianismo e atribuída a Cristo, foi sugerida e divulgada milhares de anos antes, por filósofos, charlatães e visionários. Exemplos:

(a). "Não faças aos outros o que não queres que a ti seja feito", pode ser encontrado no budismo, no bramanismo e nos escritos de Confúcio seis mil anos antes.

(b). "Perdoar aos inimigos", já havia sido aconselhado por Pitágoras muitos anos antes de Cristo.

(c). "Fraternidade e igualdade", foi insistentemente preconizada por Filón.

(d)."Tolerância e virtude". bem como o humanismo, a castidade e o pudor foram sugeridos e recomendados por Platão.

(e). Aristóteles já enchia o saco dos gregos com a idéia de que a "comunidade deve repousar no amor e na justiça".

(f). Sêneca aconselhava "o domínio das paixões bem como a insensibilidade à dor e aos prazeres". Ao mesmo tempo em que pedia "indulgência para com os escravos, já que todos os homens eram iguais". Os homens - segundo Sêneca e segundo Cristo - deviam amar-se uns aos outros etc. Todos esses clichês e chavões que os cristãos acreditam ser de seu mestre foram plagiados pelos inventores e gerentes da nova religião.

Para concluir: os organizadores do cristianismo não fizeram mais que selecionar, acrescentar e diagramar os pilares da nova e mais popular religião do planeta, religião que assaltaria o mundo e o tomaria de surpresa, prometendo-lhe exatamente o que a miséria e a imbecilidade generalizada de então precisava ouvir.

Não fizeram mais do que aproveitar-se da cegueira e da ignorância dos rebanhos, inventando novelas e anedotas sem sentido que eram sempre respaldadas pelo "mistério", pelas "complexidades divinas", pelo "sobrenatural" e pelo "incognoscível", . propagandeando um "paraíso" fora da terra (lógico) para os debilóides, e a volta do "Salvador".

tempo, as deficiências culturais e mentais, a lingüística, a informática, a propaganda enganosa, o comércio e muitos outros fatores foram fazendo dessa mentira pueril do messias uma verdade inquestionável, a ponto de alguns fanáticos afirmarem como um dos tantos e cômicos personagens Bíblicos: "CREIO PORQUE É ABSURDO".

Concluindo, como disse no princípio, não pretendo alterar a fé e nem as crenças de ninguém. Primeiro, porque não sou pastor, nem rabino, nem sacerdote e nem o Anticristo profetizado; segundo, porque a vida me ensinou que com alcoolistas, religiosos e políticos o diálogo é impossível. Prefiro, desde o alto de minha plataforma, ficar assistindo essa vil canalhice religiosa que segue (com a cumplicidade dos governos, dos exércitos, da mídia, das universidades e até das putas) contaminando crianças, mulheres, velhos e todos os tipos de otários. Quando me falta o ar e preciso purificar-me de toda essa baboseira infecta, recito as 14 palavras do velho Proudhon: "Os que me falam de religião querem meu dinheiro (que não é muito) ou minha liberdade (que é inegociável)". Amém!

Ezio Flavio Bazzo