quinta-feira, 11 de abril de 2002

O mito do escritor marginal


Palestra feita na Universidade de Brasília
a convite dos alunos de psicologia


"Não existe um grupo de jovens pelas ruas que não possa ser um grupo de criminosos. Não têm nenhuma luz nos olhos: seus traços são traços imitados de autômatos, sem que nada de pessoal os caracterize de dentro. A estereotipia torna-os pérfidos. Seu silêncio pode preceder um trépido pedido de ajuda ou uma facada. Os filhos que não se liberam das culpas dos pais são infelizes; e não existe signo mais decisivo e imperdoável de culpabilidade do que a infelicidade".

P. P. Pasolini



O convite para participar deste evento detonou inesperadamente em mim um surto de mau caratismo, uma neurose antiga e abominável, muito bem conhecida nos guetos acadêmicos e intelectuais, cujo principal sintoma é sempre o mesmo: a disputa pedante com uma platéia imaginária e por um Poder fictício.

Vi-me diante da tentação de assumir uma postura que não me pertence, de exibir um Texto e um Saber que não tenho, de armar-me até os dentes e de colocar-me num lugar de onde poderia derrotar facilmente as possíveis objeções contra minhas idéias e até mesmo contra meus desejos. Surpreendi-me várias vezes arquitetando um truque para parecer mais hábil e até mesmo MAIOR que qualquer um dos interlocutores, mesmo que para isto fosse necessário falsificar argumentos, burlar estatísticas, inventar referências e arrancar de minhas entranhas a lábia imbatível que os intimidasse para sempre e que os mantivesse imóveis e mudos aí em baixo, um metro e meio abaixo deste púlpito que, histórica e sabiamente, a tradição eclesiástica concedeu aos padres, aos professores e aos políticos. A esses irmãos siameses, empenhados há séculos em dar legitimidade às três clássicas e conhecidas profissões impossíveis: a de EDUCAR, a de CURAR e a de GOVERNAR.

Falaria espontaneamente? Mesmo correndo o risco de ser traído por meus instintos, de dizer um montão de bobagens infundadas e de ser ridicularizado pelo espírito maligno e justo que sempre atiça as platéias? Ou, matreiramente, ordenaria minhas idéias num roteiro em forma de jaula (como fazem os professores), para assim preservar minha integridade intelectual e garantir a imagem que quero que tenham de mim?

Sempre tive preconceitos com os palestradores que não palestram e com os vivaldinos das metodologias pós-modernas. Entretanto, depois que vi o próprio Chomsky, o Edgar Morin e outros pequenos deuses da atualidade, neste mesmo estrado, agarrados à duas ou três laudas, com os joelhos trêmulos e apertados um ao outro, fui relaxando e sendo mais condescendente com meus fantasmas e com minhas antigas exigências, baseadas muito mais numa idealização semi-religiosa e boçal do mundo, e muito mais num superego vil, do que no bom senso. Claro que se estivessemos numa Bolonha medieval ou numa Sorbone do século XIII, onde os professores eram escolhidos pelos próprios alunos, por sua sapiência e não por sua astúcia, uma postura destas me custaria não apenas a cátedra, mas também a honra. Aliás, quero lembrar que só concordei em vir expor-me aqui, deste jeito, porque o convite partiu dos alunos. Não porque acredite que eles sejam menos viperinos que seus mestres, mas por saber que ainda não precisam defender o Espaço Universitário nem a Práxis acadêmica com a obsessão de quem defende um dogma. Por outro lado, porque identifiquei na lógica desse convite, uma prática correta e saudável da Idade Média. Seria fascinante se voltassem a ser eles, os alunos, que escolhessem rigorosamente seus palestrantes, seus professores, seus peritos, seus orientadores, etc, como o era naquele tempo. E que não fossem, claro, recrutá-los apenas lá no interior das mesmas confrarias financiadas por organismos estatais ou multinacionais, nem que se deixassem impressionar pelos títulos ou pela quantidade das Cartas de Recomendação, memorandos, "pistolões" bilhetinhos, exibidas pelos pretendentes, mas sim pela maneira como dançam a vida, como saltam de uma corda à outra do trapézio em movimento e de como driblam as paranóias inevitáveis deste circo neurótico e de quinta qualidade que é a vida.

Quando tento entrar de vez no assunto que aqui interessa, me deparo com minhas limitações e com a dificuldade de esboçar até um simples retrato tanto do suposto "sujeito marginal", como da produção "supostamente naldita". E digo suposto propositalmente para insinuar desde já que, talvez, nem seja possivel ser MARGINAL, essa pecha pejorativa que os editores do século XVIII lançaram, com fins estritamente econômicos, contra àqueles autores que preferiam publicar eles próprios as suas obras. E digo suposto, - repito - porque qualquer um de vocês conhece a dificuldade de permanecer sem nenhum estatuto, à margem, do outro lado do arame farpado, além de um período curto e idílico, já que tudo neste planeta beato conspira para que sejamos, ou jogados terminantemente no lixo ou cooptados pela máquina da cultura.

E se por milagre o sujeito conseguir resistir a esse assédio por toda a vida (o que é quase impossível, uma vez que - como dizia Foucault - o anonimato literário não lhe é suportável), assim que bate as botas é rapidamente resgatado e reabilitado pelos abutres da literatura: um padre, um professor, um mestrando ou um mecenas qualquer. Então se torna lenda, folclore, um santo, um espírito benéfico ou maléfico que renderá dinheiro para alguém, mesmo quando constava em seu curricullum o diagnóstico de ateu, anarquista, anti-social, corsário, vagabundo, perverso sexual, mendigo, boêmio, cachaceiro, louco por xotas, delinqüente, autodidata, etc.

Pelo que já vimos até agora, tanto neste como em outros países, o tal "marginal" não é necessariamente um sujeito que diz NÃO para sempre ao Contrato Social, e tampouco aquele que cospe de forma irretroativa sobre os cânones principais do Estado, da Família, da Igreja e das outras imbecilidades estabelecidas. Sua marginalia (como tudo nesta sociedade presidida por rebanhos) é efêmera. Pensem em Rimbaut, se quiserem, ou em Baudelaire (que fingia querer dinamitar todos os pilares morais e sentimentalóides da época, mas que bastou adoecer, para voltar em frenesi para os braços da mãe). Pensem até no alquimista Paulo Coelho, se isto não lhes dá náuseas, que travestiu-se de marginal até que pode e que agora, de uns anos para cá, vem insinuando poderes sobrenaturais e acaba de ser agregado ao bando da Academia Brasileira de Letras.

Sim, o "marginal das letras" é um personagem que ganha visibilidade apenas num tempo determinado e limitado de sua trajetória. De um dia para outro, ou some naturalmente do mapa, sem deixar rastro, ou é absorvido e enrabado pela melancolia democrática.

Como todo farsante, descobre - ­como escrevia Pasolini - que é muito melhor ser inimigo do povo do que inimigo da realidade. Vai mudando de pele como uma serpente, ou como um calango, racionalizando seu retrocesso e sua metamorfose até que se deixa seduzir definitivamente por uma editora, por uma seita, por uma viúva, por um contracheque, por uma vaga num Departamento de universidade ou de Ministério, ou pelos elogios de um pederasta da mídia. Sucumbe à própria vaidade escamoteada e ao narcisismo que há décadas espreitava do fundo de seus complexos. Começa adocicar as palavras, preocupar-se com a gramática, fazer concessões, mudar o penteado, aparecer engravatado nas saturnais dos corruptos emergentes e pleitear uma cadeira entre a troupe senil que comanda há séculos a maioria dos banquetes. De Balzac a Lima Barreto. De Gregório de Matos a Leminsky. De Jean Genet e Samuel Rawet a Plinio Marcos, etc sempre a mesma ambigüidade e o mesmo flerte esquizóide com o Lixo e com o Luxo, como se trilhar à "margem" e na "contramão" da comédia social não fosse uma opção consciente nem um destino irrevogável, mas apenas um esnobismo neurótico experimental.

Mesmo assim, seria ridículo negar que produziram melhores obras aqueles que, por uma razão qualquer, foram banidos do sistema, cuspidos para fora da família, amaldiçoados por uma mãe histérica e por um pai asselvajado, excomungados, algemados, barrados na porta das universidades, rejeitados pelo mundo editorial, possuídos por uma ou outra forma de loucura. Sim produziram melhores trabalhos aqueles que encontraram na própria bílis a maneira mais cruel de exercer a denúncia, por um lado, contra a espécie abominável que é o homem e por outro, contra um mundo tão frívolo e tão pérfido.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 23 de janeiro de 2002

A igreja e os ex-seminaristas no comando das Instituições Públicas.


"A ordem antiga das sociedades humanas repousa sobre três homens que são suas pedras angulares e dos quais a idéia social contém um pouco de cada um: o Rei, o Padre, o Verdugo"
(Joseph Maistre)

Quem acreditar que a Administração Pública, a Educação e o Estado como um todo, é regido na atualidade, por um pensamento e por um Poder laico, ou está completamente à margem da história ou não aprendeu decodificar os que essas instituições exibem e usam na sua vida cotidiana e que, aliás, vêm exibindo e usando ao longo dos séculos. É impossivel separar Religião e Dominação, essa dupla aparece ilustrando a historia inteira da humanidade, desde seus primórdios tribais até nossos dias, sempre partindo da dominação "espiritual" (isto é, ideológica e de consciência), para a dominação política, e social. Não foi por acaso que mesmo ditadores vaidosos como Napoleão, Franco, Salazar, Hitler, Mussolini, todos os governos repúblicanos brasileiros e outros, sempre viram na igreja um auxiliar precioso para submeter e governar as massas e o povo.


Como no seio das sociedades primitivas, onde cabia aos feiticeiros e aos chefes o Poder de fazer chover, de fazer o sol nascer, o vento parar, a lua continuar suspensa no espaço, nas Monarquias que antecederam o Estado Moderno, e no próprio Estado Moderno dos dias atuais, ainda é, de maneira dissimulada ou não, simbólica ou não, o e o que definem e que determinam as regras de conduta da sociedade, Não necessariamente envergando a batina ou necessariamente carregando sobre a cabeça uma côroa, mas travestidos de executivos e escondidos à sombra de uma República laica, esses da igreja católica seguem ocupando altos cargos públicos, burocráticos e governamentais, bem como outras posições públicas privilegiadas, que lhes permite literalmente seguir militando em favor da moral da religião e favorecer materialmente a igreja de onde são provenientes.. Nos 25 anos de ditadura militar brasileira, a igreja rachou-se ao meio: uma parte ficou com os militares que abocanharam o poder, a outra, engajou-se na luta política a favor da sociedade civil, que foi massacrada e privada de suas liberdades elementares. "Longe de ser monolítico, o catolicismo brasileiro é impregnado de sensibilidades extremamente diversificadas, de movimentos contraditórios, de conflitos internos que chegam, as vezes, ao enfrentamento". Assim, enquanto uma ala da igreja assessorava os verdugos, outra ala consolava as vítimas. E não se trata aqui, de maneira nenhuma, de questionar nem a divisão da igreja, nem seu envolvimento, por um lado com os militares e por outro com as massas oprimidas. O que se pretende observar é que essa tática tem sido usada pela igreja ao longo dos séculos, sempre com os olhos na manutenção do Poder, de um Poder Clerical que parece indissociável do Poder do Estado."Le pouvoir clérical - escreve Thibault - est un pouvoir ministériel. Un tel pouvoir peut devenir absolu dans la mesure où sa source et son mandat sont incontestés, tout en n'étant directement accessibles qu'à celui qui l'exerce. (...) C'est aussi l'essence de la bureaucratie. Le bureaucrate est en effet doublement irresponsable: la source de son pouvoir et ses titres à l'exercer sont en principe indépendants de lui; en même temps, dans la mesure où il est impossible de s'adresser ailleurs qu'à lui pour demander des comptes, il est en pratique le seul juge de l'extension de son pouvoir et de l'usage qu'il en fait". Se por um lado a igreja é a única instituição que tem a capacidade de dividir-se diante de uma crise socio-política como a ocorrida no Brasil, naqueles anos, por outro, quando a crise chega ao fim, ela é praticamente a única instituição que reaparece fortalecida e que se re-apresenta no alto do espetáculo social como se nada tivesse acontecido. Podemos observar a realidade dessa afirmação, quando lemos a conclusão do livro de Charles Antoine, , onde ele, conscientemente ou não, fazendo uma espécie de justificativa do papel assumido pela igreja, escreve: " Les fruits sont lá: présence ecclésiale en milieux sociaux de pauvreté massive, crédibilité accrue dans les mentalités populaires et retrouvée chez les intellectuels, vitalité évangélique se traduisant en vague inédite de vocations sacerdotales et religieuses". Está mais do que claro que, para o autor, os mencionados são as conquistas de Poder da igreja para a igreja, e não as conquistas sociais que, , eventualmente, o povo possa ter desfrutado. A sociedade oprimida militarmente, com um percentual alto do povo mergulhado na mais absoluta miséria, as prisões entulhadas de prisioneiros, a tortura como regra, os desaparecimentos de indivíduos, os tanques desfilando pelas avenidas... eis aí o pretexto para se infiltrar no seio dos dois lados e fortalecer-se, e reorganizar-se. Eis aí uma oportunidade única para oxigenar as e as áreas capengas do Poder Religioso que, apesar da modernidade e de tudo, não se abala. e continua servindo de alibi para um Estado violento, corrupto e, essencialmente, sem nenhuma legitimidade. E seria ingenuidade pensar que a Igreja defende esta ou aquela forma de governo, esta ou aquela Constituição; este ou aquele regime. Quando ela chegou ao extremo de colocar-se a favor deste ou daquele governo, o fez sempre porque viu seu Poder colocado em risco ou, então, como já dissemos, porque viu uma chance de avançar ainda mais sobre as estruturas sociais. Como escrevia Anatole France "Não é verdade que a igreja condena o Estado republicano. Ela considera, ao contrário, que o Poder dentro de uma República ou de uma Monarquia, vem de Deus (...) Ela não considera que a República seja malvada em si, mas ela a julga ruim quando ela institui a liberdade de consciência, a liberdade de ensino e a liberdade da imprensa" . E isso não pode surprender-nos, pois se observarmos a história do Estado Moderno, vamos ver que mesmo ele foi inspirado pela igreja e na estrutura clerical, e que, principalmente, os tiveram e têm ainda por guia, não somente a hierarquia imaginária do além, adaptada à vida terrestre, mas também aquela que inspira e comanda a vida social, que cria as diferenças, as classes, as desigualdades, as injustiças. Em outras palavras "L'Eglise consacre à la fois la richesse et la pauvreté, fait de l'État son instrument de domination, en apporte la justification, le bénit".


O Estado, com sua pretensa função de Rapport social de dominação do homem sobre o homem, fundado no monopólio do exercício legítimo da violência física e com sua rêde de poderes que se disseminam por todos os extremos do país, foi e é para a igreja, um instrumento precioso para o exercício de sua dominação e para a pregação de sua . Em seu estudo sobre as relações da Igreja e o Governo, em Portugal, Marcadé escreve: "C'est moins par l'idéal représenté que par la position sociale de ses membres, qu'elle était à même d'exercer une unfluence; dans les populations rurales, en grande majorité analphabètes, c'était le curé qui, en jouant le rôle d'intermédiaire, pouvait orienter et déterminer les opinions". Os conflitos e as brigas que historicamente e mesmo na atualidade vemos acontecer entre a igreja e o Estado, entre a igreja e os governos, entre os bispos e os políticos, entre os padres e os burocratas, foram sempre e são ainda agora, conflitos e brigas muito mais na disputa pelo Poder do que por questões propriamente religiosas, teológicas, ideológicas, etc. Tanto a teologia como a ideologia tem servido principalmente para esconder o jôgo hipócrita e desvairado tanto pela disputa pelos postos de comando dentro da máquina administrativa estatal como dentro do clero e, naturalmente, para definir o dos domínios sociais: quem domina a educação? quem domina a saúde? quem domina os cartórios? quem domina as fôrças armadas? os hospitais? os hospícios? quem domina a indústria da fome que a América Latina e principalmente o Brasil, viu ser implantada e fomentada com "puissance"? Como era óbvio de se supor, acabaram os dois, a igreja e o Estado, lado a lado, ombro a ombro, dividindo pacíficamente todos esses terrenos, como os nativos dividem um bufalo abatido. A igreja, com o pretexto de que seu poder foi legitimado por Deus, o Estado, com a desculpa de que sua violência é legitima e que foi outorgada pela vontade popular. Diferenciados essencialmente por uma questão terminológica e revestidos cada um por sua mentira pessoal, convivem relativamente em harmônia, pois sabem, que, apesar de ambos encarnarem um Poder e um autoritarismo de origem transcendental, seu verdadeiro interesse é pela dominação terrenal.


No caso específico do Brasil, essa simbiose é tão antiga e tão , que nem mesmo os próprios envolvidos tem consciência de sua origem e muito menos de seus objetivos. Ela nos foi transmitida pelos nossos conhecidos colonizadores, os portugueses, que fizeram exatamente o mesmo, com mais ou menos sucesso, em todas suas outras colônias, seja na Asia, com Macau, ou na Africa, com os negros e os nativos. Cada navio que chegava em terras colonizadas correspondia a um ; cada marinheiro a um e cada espada a uma . Se com a última se subjugava , com a espada se oprimia cultural e socialmente.


Em Portugal, na segunda metade do século XVIII, vemos o anticlericalismo, se materializar temporariamente com uma ação direta do Marquez de Pombal contra a igreja, com a justificativa de que ela dispunha de excesso de poder, de excesso de riqueza e demasiadas ambições políticas. "Dans l'Église, D. Pedro IV pouvait voir l'alliée et le soutien de son adversaire D. Miguel. De lá, pour des raisons politiques, mais aussi bassement financières, les lois anticléricales de Joaquim António de Aguiar, surnommé pour cette raison <>. Ce fut, déjà, la confiscation des biens de couvents et la dissolution des congrégations". O episódio, longe de caracterizar uma medida política, no sentido histórico do termo, é apenas uma ação defensiva. O Marquez sente seu Poder político ameaçado e mobiliza-se para destruir a instituição que representa essa ameaça. E isso fica claro, quando vemos, já em 1840, o Estado e a Igreja novamente juntos. Voltam a coabitar, como se essa curta separação lhes tivesse servido para esclarecer a que os une e para fazer cada lado sentir que sem o a sua penetração sobre as massas encontra mais obstáculos. Mas ainda não será desta vez a grande reconciliação. Ainda há choques, os líderes e os chefes de cada bando se atacam mutuamente, com a Igreja aparentemente levando desvantagem, principalmente quando nasce e se instala a República portuguesa (1910), pois com ela serão tomadas uma série de medidas abertamente anticlericais, mas que também são passageiras, efêmeras como uma briga de namorados, uma vez que seis anos depois, a cumplicidade se reestabelece e vai definitivamente fortalecer-se em 1940, com o Estado Novo e o governo do ditador Salazar.


É interessante e cômico notar que no auge das medidas anticlericais, do confisco dos bens da igreja, do fechamento de associações, escolas e centros religiosos, bem como da exoneração de padres, etc, etc., o governo português mergulhado numa contradição e numa ambivalência profunda, coloca à disposição dos religiosos, (das de suas medidas) vários cargos e funções públicas. Esse tipo de estratégia, essa maneira sutil de é uma prática que o Estado veio fazendo ao longo de sua existência, principalmente com os intelectuais e com os líderes oposicionistas. Evidentemente, que os padres e os religiosos, pelo poder que detinham e pela formação intelectual que dispunham, seriam muito mais úteis para os governantes dentro, do que fora do Estado.


Com a chegada de Salazar ao Poder, era evidente que a igreja poderia respirar aliviada e recuperar seu lugar privilegiado junto e dentro do Estado. A Constituição de 1933 foi o primeiro passo para essa conquista da igreja católica, pois entre outras coisas, essa Constituição pretende garantir a liberdade de consciência (o que Salazar parece não ter cumprido durante sua ditadura), a liberdade de culto, e a liberdade de ensino. É nesta última liberdade que a igreja fixa os olhos e por quem seu bate mais forte, pois ela sabe que nenhum lugar é mais propício que a escola para o e o embotamento ideológico-moral das consciências. Seu anseio foi mais do que realizado pelo ditador, que, três anos depois, reintroduz os crucifixos nas salas de aula e o ensinamento moral cristão nas escolas. O Episcopado euforico, cria o jornal As Novidades; se associa e investe em hospitais, Casas de Saúde, etc., e funda a Radio Renascênça, uma empresa sustentada por capital privado e por capital da igreja. O interesse da igreja, pelos meios de e pelos meios de é um interesse que vem de longe, pois é através dele que ela irá exercer, e de maneira eficaz, seu Poder sobre a sociedade civil. "L'Église - escreve Marcadé - en tant qu'institution, apparaît de plus en plus protegée, sinon privilégée, dans un Etat qui continue néamoins à s'affirmer laïque." Agora, outra vez de mãos dadas, o Clero e a Ditadura de Salazar juntos, procuram identificar ou mesmo inventar um inimigo comum que, evidentemente, naquele momento histórico, não poderia ter sido outro além do comunismo. Essa doutrina que, desde 1917, vinha sendo implantada na URSS, que rondava a Europa Central e que ameaçava infiltrar-se nos países pobres do mundo, tinha um perfil adequado para ser o símbolo daquilo que a igreja e os ditadores queriam atribuir aos seus inimigos: era a encarnação perfeita do , tanto para a República burguesa ocidental (essa Monarquia travestida), como para a igreja e o clero, pois o comunismo trazia em sua essência tanto a revolução proletária como o ateismo.


Assim, em 1940, a Santa Sé e o Governo de Portugal reconciliam-se definitivamente e o país vê o reestabelecimento de tudo aquilo que um pouco antes, ele próprio havia proibido:


a) "as Congregações religiosas já podem voltar a estabelecer-se e funcionar livremente;
b) a orientação cristã é assegurada dentro dos estabelecimentos educacionais do Estado;
c) a validade do casamento religioso é reconhecida e o divorcio passa a ser aceito só para os casais casados apenas no civil;
d) os seminaristas são dispensados do serviço militar;
e) a igreja recebe de Franco o presente que ela tanto sonhava: a responsabilidade sobre todos os "cursos" pré-elementares, com o que, ela tem acesso a todas as crianças de Portugal e das colônias, antes mesmo que eles ingressem na escola pública ou na escola privada", etc., etc.


Essa rápida retrospectiva da relação contemporânea entre a igreja católica e o Estado Português, tem um significado muito grande para a compreensão da temática sobre a qual estamos reflexionando, uma vez que essas mesmas alianças foram efetivadas de forma semelhante também no Brasil, (colônia portuguesa de 1500 até 1889) onde, mesmo depois do estabelecimento da República brasileira, as idiossincracias católicas-portuguesas não deixaram de seguir se reproduzindo fortemente nesse meio social onde, desde 1550, quem admnistrava a educação nos colégios das principais cidades brasileiras, eram os jesuítas.
Pode-se notar que sempre houve, tanto por parte das Monarquias como das Repúblicas, uma tendência em acreditar que a educação é algo inseparável da religião. E isso pode ser exemplificado com a proibição de Portugal, sobre a Capitania de Minas Gerais, impedindo que esta implantasse um curso de medicina, ao mesmo tempo em que liberava o alvará de licença para o Curso de Teologia e de filosofia do Convento de Santo Antonio, no Rio de Janeiro. etc., etc.


Apesar de todo esse caminho que mentalmente acabamos tendo que percorrer, o que nos interessa aqui, é chamar atenção para o fato de que no Brasil, a administração pública é praticamente uma extensão da administração clerical. E que, desde as prefeituras municipais, e os governos estaduais até o Poder Federal, as autoridades e os postos de mais alto escalão estão, em regra, nas mãos de ex-padres, de ex-seminaristas ou, quando não, de devotos que, antes de tomar qualquer medida administrativa, costumam consultar o vigário, o bispo, o a Cúria Metropolitana. Uma recente pesquisa informal, em Brasília, demonstrou que dentro dos Ministérios da Educação e da Saúde existe mais Bíblias que Constituições e mais crucifixos que fotos do Presidente da República.


Se isso constitui um ou ou , não cabe esclarecer aqui, o que quero ampliar e mostrar, é essa confusão, essa mistura e essa simbiose entre religião, política e administração, uma vez que para qualquer lado que se olhe se ve aquilo que escrevia Bakunin: "esses dois gênios malignos tão antigos como a história, as duas serpentes que devoraram tudo o que a história produziu de humano e de belo" O que me proponho a explicitar aqui, é a hipocrisia da idéia de que o Estado e a Igreja estão separados; a mentira de que a educação nacional é laica; e a fragilidade de um povo ingênuo que, quando pensa que está sendo administrado, está, na verdade, ainda sendo colonizado e catequisado. A questão, ao meu ver, apesar de representar, por um lado, um golpe vivaldino da igreja católica contra o Estado, e por outro, uma traição à liberdade de pensamento dos indivíduos e da sociedade, deve ser vista muito mais como uma questão ética do que política, muito mais como uma questão de ideologia que de teologia, e muito mais um truque do que uma estratégia. Se é verdade que um seminarista é mais útil para a igreja como do que como ; muito mais dentro da máquina estatal que dentro da máquina clerical, e que é, pragmaticamente, mais bem administrando o Poder do Estado que o Poder Divino, então é tempo da sociedade civil acordar e começar a prestar mais atenção tanto sobre seus impostos como sobre seu dízimo.

Ezio Flavio Bazzo
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1. IN Hugo,Victor, Écrits sur la peine de mort, Actes Sud, p. 78, Paris 1992
2."A toutes les époques, les sorciers d'Egypte, au tèmoignage des contes populaires, ont eu la prétention d'arrêter le cours des astres et des fleuves, de faire à volonté la nuit et le jour, la pluie et le beau temps; nul doute que le pharaon dont on disait sous la XVIII dynastie qu'il était le maître des charmes magiques, celui à qui Thot lui-même avait enseigné tous ses secrets, ne fût estimé plus capable encore que n'importe quel magicien d'agir à son gré sur la nature" IN: Leval,G. L'Etat dans l'histoire, Editions du monde libertaire, p.262, Paris 1983.
3. "Les catholiques du brésil ont vécu les vingt-cinq années qui viennent de s'écouler comme un formidable défi historique. Ils en sortent meurtris, divisés. Pourtant la minorité qui, au cours des années soixante, s'est resolument engagée dans l'aggiornamento prône par le Concile Vatican II, a réussi dans la tempête politique des géneraux brésiliens à affirmer un type d'église ralliant finalement à sa cause la majorité des forces viver du catholicisme national.(...) La chute du président Goulart, accentue cette division es catholiques. Très vite, l'aile de l'église sert d'appui au nouveau régime pour réprimer l'opposition permanente de son aile ". Antoine Charles, Les catholiques brésiliens sous le régime militaire. Ed; du CERF,. introduction et p. 38, Paris 1987.
4.. Pierre, Thibault, Savoir e Pouvoir, Les Presses de L'université Laval, p. 95, Québec, 1972.
5Idem p. 136.
6. A partir do advento da cristandade medieval três fôrças, apoiadas sobre três modêlos epistemológicos e apologéticos, disputam o Poder no interior do cristianismo:
(a). Au Pouvoir des Universités et des Théologiens correspond une épistémologie <> apparentée à la tendance intellectualisante de l'augustinisme;
(b). Le second modèle est nominaliste ou fidéiste: virtuellement anarchique, il ne peut convenir à un pouvoir spirituel que si la discipline est assurée de l'extérieur. Le fidéisme convient à une alliance du trône et de l'autel, où le clergé dépend du pouvoir politique;
(c). Le pouvoir concentré entre les mais du Pape, postule, pour sa part, une ideologie qui est une apparente fusion des deux précedents: un fidéisme facilement obscurantiste, favorable à la mobilisation religieuse des masses, assorti d'une apologétique <> fondant la prétention à l'universalité de le pouvoir spirituel et son indépendance en droit à l'égard des contingences intellectuelles et politiques." Thibault,P. Idem, p.98.
7.France,A. L'Eglise et la République, Libertés, pp;37,38, Hollande, 1964
8. Leval G; idem p. 268
9.Marcadé,Jacques, Le Portugal au XX siècle. PUF, p.95, Paris 1988
10.Idem, p. 97
11. "La revolution de 5 octubre 1910, s'était accompagnée, à Lisbonne, de violentes manifestations anticléricales: 1) Assaut de certains etablissements; 2) masacre de deux pères lazaristes; 3) les "88 jesuítes qui se trouvaient dans le pays furent arrêtés, puis expulsés; 4) les biens des congrégations furent mis sous séquestre; 5) le serment religieux est suprimé; 6) le mariage civil est introduit et le divorce institutionnalisé; 7) la tenue des registres était confiée à des officiers d'était civil laïques, ce qui, en outre, privait l'Église des revenus résultant de l'établissement des actes; 8) l'enseignement religieux est suprimé dans les écoles; 9) la chaire de droit ecclésiastique de l'universitée de Coïmbre est, elle aussi, suprimée tandis que la Faculté de Théologie cède la place à une Faculté de Lettres; 10) le 20 avril 1911 est promulguée la loi de séparation de l'Église et de l'État, qui s'inspire très largement du modèle français de 1905., Etc., etc.," Marcadé J. Idem, pp. 95,96,97.
12.Idem, p. 101
13.Idem, p. 101
14. "Dans les villes et les aldeas ils ont crée des écoles primaires. Pour le secondaire ils ont fondé des collèges, sur le modèle européen, dans tous les grands centres: à São Vicente dès 1550, à Bahia en 1553, à São Paulo en 1554, à Rio en 1567. Le curriculum studiorum, est le même qu'en Europe. Les professeurs de ces collèges forment l'élite intellectuelle de l'amérique Portugaise. Ils agitent les grands problèmes théologiques: celui de la Grâce, par exemple".Mauro,F. Le Brésil (du XV a la fin du XVIII siècle) S.E.D.E.S, p. 140, Paris 1977.
15. "Mais dans les collèges jésuites l'enseignement était le même qu'en Europe. Lorsque les Jésuites sont expulsés en 1759 un concours est organisé à Bahia pour recruter des professeurs pour les remplacer. Ailleurs des professeurs sont envoyés directement du Portugal. L'administration de ces écoles laïques semble difficileet, en 1771, elle passe sous l'autorité de la Real Mesa Censoria qui etablit une véritable <> du Brésil.". Idem, p.214.
16. Bakunin,M. La liberdad, Juan Grijalbo Editor, p.61, México 1972.

O acosso moral no Trabalho


Aproveitando a obsessão dos candidatos em prometer emprego aos eleitores, é importante lembrar que tão ou até mais grave que o desemprego em nosso país é o acosso moral no trabalho, sobre o qual nenhum dos ilustres postulantes tem dado uma única palavra. O acosso moral, um tema recente que vem sendo tratado com rigor pelos organismos internacionais do trabalho, se refere ao abuso de poder, à pressão, à perseguição, à desqualificação, ao amedrontamento e às ameaças que os trabalhadores sofrem no ambiente de trabalho, tanto no âmbito dos serviços públicos e das universidades como no das empresas privadas, problema que tem causado diversas doenças psicossomáticas nas vítimas e inclusive suicídios.

A revista nº 43 da OIT, tratando dessa questão, menciona o livro recentemente publicado no Canadá, intitulado Un collègue veut votre peau (Um colega quer tua cabeça), onde são descritos três tipos desses agressores:

1. A besta — Uma pessoa brutal e alheia a toda redenção, que desde a infância desfruta destruindo a dignidade dos demais (elege objetivos fáceis, pessoas emocionalmente frágeis e que não podem permitir-se deixar o trabalho);

2. O político — Um empregado ambicioso que acossa um companheiro e se apropria das idéias dele, com o fim de conseguir uma ascensão ou ser reconhecido diante da direção (acossa os funcionários que considera rivais e que deseja eliminar);

3. O impostor — Um empregado incompetente que oculta seus erros difamando os outros (desacredita seus antigos companheiros para proteger-se). No Brasil, onde apesar do blablablá estéril dos administradores, não existe critério nenhum para a ocupação de cargos de chefia e onde quase 90% dos funcionários estão desviados de função, esse tipo de conflito, tanto entre chefes como entre chefes e subalternos e entre os funcionários em geral, tem transformado os ambientes de trabalho em pequenos focos de neurose e de destruição mútua, comprometendo, além da saúde e da realização pessoal, os próprios serviços. O silêncio, a negligência e quase sempre a participação ativa dos próprios setores de recursos humanos nessa patologia a têm tornado cada vez mais grave e cada vez mais fora de controle.

Por isso, seria importante se os candidatos, no meio de tanto palavreado inútil, conseguissem lançar o olhar para bem mais longe quando se referem ao emprego, pois o problema não está apenas no desemprego, mas também no emprego onde o sujeito, em troca de uma remuneração miserável, terá que se submeter a condições irracionais e destrutivas. Recentemente, em seu livro Mal-estar no trabalho: acosso moral; separação entre o real e o fictício, a psicanalista francesa Marie-France Hirigoyen propôs que ''os governos estabeleçam programas de prevenção frente a esse problema, que, na realidade, não constitui uma debilidade apenas pessoal, mas uma enfermidade coletiva''. Caso contrário, seria até melhor que as pessoas. parafraseando Rimbaud, gritassem nos comícios a esses oportunistas: Trabalhar? Jamais, jamais. Nós estamos em greve!

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 23 de janeiro de 2001

Patmos: a longínqua caverna onde foi escrito o Apocalipse


"E se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão,
sem dizer-te quando"
São João, Ap.3-3


Você leitor, que está lendo este texto confortavelmente em sua chácara, em sua cama ou no sofá de sua casa, com um capuchino fumegante sobre uma mesinha de mármore, não pode imaginar em que situação ele está sendo escrito. As mãos geladas, o peito comprimido, a garganta sêca e o estômago apertado. O barco turco, com capacidade para umas oitenta pessoas está literalmente perdido no meio de ondas homéricas do mar Egeu. Maldita hora em que decidi vir à ilha de Patmos para reescrever o Apocalipse! Se olho para a vidraça da esquerda vejo as ondas acima de minha cabeça; se viro os olhos para a direita diviso um abismo no meio das águas furiosas e se fixo o olhar para a frente, fico cara-a-cara com cataratas imensas, espumantes, velozes, barulhentas, que se espalham por todo o convés. Meu caderno está ensopado e as palavras que rabisco mal podem ser lidas. Se pelo menos houvesse outros passageiros! Mas não. Estamos apenas minha companheira e eu. Assim que este bailado tenebroso teve início, os marinheiros sumiram. Caralho! As xícaras e os copos da cafeteria voam de um lado a outro e se despedaçam contra as paredes de ferro. A cada solavanco, olhares de desespero e de cumplicidade. Na parte dos fundos, uma foto do primeiro ministro turco sóbrio e de perfil que, na semana passada, era acusado de ditador assassino numa manifestação de exilados em Paris. Dois marinheiros passam rápidos, falando num tom preocupado e examinando uma janela onde a água salgada bate com violência deixando um rastro de sal pegajoso. Tento decifrar suas expressões e até inventar um sorriso, mas descubro que meus maxilares estão tensos e quase paralisados. Ah, e com que sofrimento fui checar se os salva-vidas estavam sob o banco! Por incrível que pareça, não chove e não estamos no meio de uma borrasca e nem de uma tempestade clássiva. Um sol esplendoroso se espalha dionisiacamente por sobre o mar azul e a tragédia eminente parece estar relacionada apenas à velocidade do vento. Posseidom peidando lá nas profundezas das águas e nós, aqui em cima, fazendo de tudo para não naufragarmos na nossa própria paranóia, nas nossas próprias e tenebrosas fantasias, no nosso medo ontológico de sucumbir para sempre num mar filha da puta destes e, o pior, no mais absoluto anonimato. Únicos dois passageiros (não queira saber por quê) agarrados às mochilas como dois vermes que só sabem respirar na superfícieŠ Caralho! E é inadmissível saber que a apenas dois metros abaixo desse horror de ondas e de espumas reina uma paz e uma serenidade que nenhum Buda chegou a alcançar e que nenhuma filosofia haverá de brindar jamais aos homens. Percebo que minha escrita tende para algo terminal e minha covardia aumenta. Ondas indiscritíveis! De vez em quando aparece no meio do oceano em fúria uma ilhota árida e sêca que, com seus milhões de anos, assiste cínica e impávida ao nosso medo, aqui no meio das ondas.

Daria dois terços da vida que ainda me resta para estar lá, numa delas, nem que fosse para derreter ao sol grego, morrer de fome, ser atacado a noite pelas serpentes. Mas pelo menos estaria em terra firme, sobre as rochas sólidas, longe das águas, das profundezas e da náusea. A bandeira vermelha do antigo império otomano que no início da viagem tremulava soberba ao sol, agora está ensopada e enrolada nos cabos de aço que sustentam o mastro, como se quisesse eximir-se de qualquer eventualidade trágica. E esse horror durou uma hora e quarenta e cinco minutos. Depois, quando já estávamos exaustos e vencidos, o mar azul foi se acalmando e se exibindo como uma mãe monstruosa arrependida de ter torturado tanto a seus filhos. Nesta hora, mesmo cético, impossível não pensar num fragmento apocalíptico: "Assim, porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca" (Ap. 3-16). Foi assim, nesse clima emocional que chegamos a ilha grega de Patmos, onde lá pelos anos 95 d.C, aportou um visionário judeu chamado João, exilado pelo governo do imperador Domiciano. Nos dois anos que viveu nessa ilhazinha encantadora, se confinou numa caverna no alto da montanha, onde teria tido a visão delirante daquilo que viria a ser um dos textos mais poéticos, misóginos e macabros do livro sagrado dos cristãos: o apocalipse.

Com apenas três mil habitantes, essa pequena pérola do mar Egeu é considerada a mais preciosa do arquipélago grego. Quando o dia está claro, do alto da aldeia de Chora se pode ver não apenas a ilha inteira, mas também as ilhas de Samos, de Icaria e outras situadas nas costas da Ásia Menor (Turquia).
No porto, os moradores disputam quem chega, oferecendo seus hotéis ou mesmo suas moradias. Escolhemos ao acaso a de uma mulher seca e arrogante que, no final da história nos deu o golpe em dois mil dracmas. Ter estigmatizado preferencialmente os judeus como usureiros e obcecados por dinheiro foi uma parcialidade ingênua e uma ignorância histórica. Quem circular hoje pela Itália, Grécia, Turquia, etc., ficará espantado com o descaramento e com a cultura de rapina vigente. Um quarto duplo a uns 100 metros do porto. Uma varanda que dá para um quintal onde gatos e galos se deleitam ao sol. Flores, limoeiros, figueiras, cactus, varais, casinhas brancas coladas à montanha e um corvo, como o de Poe, que se equilibra misteriosamente sobre um fio de alta tensão. Três pequenas aldeias compõem a ilha: Scala, onde está o porto principal, Campos e Chora. Nesta última, instalada no alto da montanha, foi construído o Monastério de São João. A caverna do Apocalipse está no caminho entre Scala e Chora, e foi transformada numa ermita dos ortodoxos. O caminho antigo, por onde se subia no lombo de asnos, é agora uma estreita vereda de peregrinos, lunáticos, crentes, aventureiros, curiosos e apocalípticos de todo o mundo. Os cinco ou seis com quem tive oportunidade de fazer algum contato, pareciam transportados e movidos por algum tipo de distúrbio. Ou seriam apenas os sintomas da fé? "...E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles...".

Mesmo para quem não é um marinheiro de primeira viagem, é emocionante estar aqui! A beleza geográfica, o exotismo e a mitologia, somados à nossa cultura apocalíptica nos enchem de euforia. Afinal, qual é a criança do mundo ocidental que em algum momento de suas peripécias, não foi ameaçada por um dos monstros do apocalipse? Sinto que não é difícil pirar por aqui, ter um surto e tornar-se um lunático para sempre. Se não se coloca a razão acima de tudo, principalmente das tentações mórbidas, qualquer um pode de uma hora para outra cair de joelhos e começar a cantar em grego antigo diante das lendas, das ficções e das pressões que os séculos e os vivaldinos engendraram. Enquanto subo o caminho íngrime de pedras, com minha Canon engatilhada dentro da bolsa, vou recitando entre outros fanáticos um trecho da profecia: "...Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras e qualquer que ama e comete a mentira..."

Subitamente me veio uma curiosidade: Por que os cães?

Mais uns minutos montanha acima e lá está a construção branca que dá entrada à caverna sagrada. Na parte superior fica a moradia dos monges ortodoxos e as igrejas de Santa Ana e de São Nicolau. O que separa os ortodoxos dos católicos são filigranas políticas e históricas que ateu nenhum teria curiosidade em saber. Há uns dez dias, quando o papa visitou Atenas, os patriarcas ortodoxos exigiram que ele se desculpasse por uma dezenas de atrocidades que a igreja católica cometeu contra a igreja ortodoxa. Ele matreiramente se desculpou e tudo ficou por isso mesmo! Desço em ziguezague os 43 degraus que me levam a porta de entrada da caverna, sobre a qual existe uma imagem de São João e uma inscrição em grego traduzido para o inglês que diz: "Que assombroso é este lugar! É a casa de Deus e esta é a porta do paraíso." Um exagero, mas enfim! Entro na ponta dos pés, consciente de que não estou entrando em minha casa. Penumbra, incenso, esoterismo, cruzes bizantinas, candelabros, velas e um número abusivo de ícones que dá a caverna de pedra natural o clima denso e irreal dos ambientes fantásticos. Uns dez passos a frente e dois a direita me coloca de cara com os três pontos mais sagrados da caverna: o local onde João dormia, onde caiu quando foi tocado pela mão de Deus (ou pela epilepsia) e o lugar onde agarrou para se levantar. Os beatos e os peregrinos que entram ali vão logo beijando esses locais. Uma cruz milenar de madeira, que teria sido talhada pelo próprio santo; um símbolo da Santíssima Trindade e uma pintura de Tomas Bazas, representando São João prostrado e tendo visões de Deus, monopolizam minha atenção. Em seguida lembro da frase abusivamente citada pelos padres e pelos pastores: "Eu sou o Alfa e o Ômega..." (Ap.1-8) que, coincidentemente são as marcas de dois automóveis de luxo! Um religioso-menor de barbas e cabelos longos se agita obsessivamente nos bastidores da pequena ermita. Finge não perceber minha entrada e logo depois cobre a cabeça com um barrete preto. Quase colado ao local onde João teria recebido a revelação apocalíptica, um homem em pé respira com dificuldade enquanto lê um pequeno livreto de capa cinza: "...Eu repreendo e castigo a todos quantos amo, se pois zeloso, e arrepende-te..." (3-19). Passa longo tempo sem mover os olhos e quando me vê, não esconde sua indignação. Pelo seu olhar, não tenho dúvidas de sua insanidade. Pressinto, inclusive, que vai saltar sobre meu pescoço. Desvio o olhar. Ele permanece imóvel, voltado para mim, devorando-me odiosamente com olhos mal dormidos, como se me acusasse: "...Eu sei as tuas obras e onde habitas, que é onde está o trono de Satanáz..." (Ap.2-13).

Outras pessoas entram em silêncio e vão automaticamente beijar os lugares sagrados. Uma fila de peregrinos alemães. Outra de peregrinos espanhóis. Uma mulher do texas, meio pirada, com uma blusa transparente através da qual se pode admirar seus mamilos. A indignação parece geral e todos parecem querer lembrá-la do versículo (Ap.17-4) que diz: "...E a mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro e pedras preciosas e pérolas, e tinha na sua mão um cálice de ouro cheio de abominações e da imundícia da sua prostituição...". Enquanto isto, lá na entrada superior, umas vinte pessoas formaram um círculo e cantavam hinos em um idioma que não pude identificar. Como nos arredores do Vaticano, aqui também boutiques vendem bijouterias sagradas e objetos da fé. A uns cinquenta metros da entrada da caverna, está a famosa Escola de Patmos, fundada em 1713 por Macarios Kalogerás e, finalmente, no ponto mais alto da ilha, no centro da aldeia de Chora, construído sobre rochas, o Monastério de São João. Apesar da beleza bizantina dos murais ser inigualável, o que me fascinou realmente foi a mitra do patriarca Neófitos VI (século XVII), feita com dois quilos e meio de ouro, e mais uma quantidade absurda de rubis que pertenceram ao imperador de bizancio. Hipnotizado diante de tanta beleza e tomado pelas tentações da cobiça, cheguei a pensar que com aquela peça poderia pagar todas as minhas dívidas e dar a volta ao mundo mais umas duzentas vezes.... Enquanto me deixava levar por esses malignos pensamentos, tive a sensação de ouvir novamente uma voz, agora do próprio João vinda de trás de um altar que me lembrava: "...Não sabes que és um desgraçado, um miserável, pobre, cego e nu..." (Ap.3-17).

O sol surgiu antes do normal no dia de nossa partida e o mar parecia um espelho de prata quando o barco acionou os motores. Uma última foto feita do convés, a mochila cheia de livros e uma migalha de simpatia por aquele exilado lunático que não só acreditou ter feito um contacto com seu Deus, mas que, ainda por cima, conseguiu editar seu delírio em forma de texto e ser o autor mais lido durante estes últimos e longos mil e novecentos anos.

Ezio Flavio Bazzo

Tauromaquia: Um show de Instintos Perversos


"Minha guerra contra o homem se eterniza porque cada um de nós
reconhece no outro sua própria degradação."
Lautréamont


No Paseo Cristóbal Colón, o sol bate de cheio na parede onde se pode ler: Plaza de Maestranza de Sevilha. Como nunca havia entrado numa arena, (assim como nunca entrei num estádio de futebol e nem nas pocilgas de box) é normal que me sinta meio envergonhado. Uma certa satisfação em lembrar que foi aqui que em 1992, em duas corridas, os touros mataram dois toureiros.

Uma imitação bufa dos teatros gregos e dos coliseus romanos? Os vendedores de bilhetes, os fiscais, os administradores, os chefões dessa carnificina têm todos o perfil clássico do submundo. Duvido que tenham lido um livro na vida e que algum deles tenha perdido uma noite de sono tentando abrandar o «nó górdio» da cultura. Analfabetões como ocorre nos estadios de futebol ou como nos guetos de pugilistas. Que alguns intelectuais tenham feito elegias a essa barbárie e a essa ralé não significa nada.Me dizem que no subsolo, há um pequeno museu, com um desenho de Cocteau, a Capa rosa de Picasso e uma reprodução do touro que, em 1947 matou o famoso Manolete. Os turistas vão chegando, uns euforicos, outros visivelmente intimidados. Como os ecologistas lançaram sobre os apreciadores desse espetáculo e dessa epifania bovina os adjetivos mais grotescos e os palavrões mais escatológicos, muitos deles voltam para seus países e mantém em segredo essa «aventura», como se, de alguma maneira, se sentissem até responsáveis pelo assassinato dos touros. Domingo. Dezenove horas em ponto. As arquibancadas estão lotadas. Começam os rituais sádicos e medievas. O presidente dá o sinal de entrada. Vai iniciar o Primeiro Terço. Bandas, gritos, correrrias, portões que se fecham. Nunca estive tão ansioso. A troupe de matadores já se exibe na arena, um «não-sei-quê» de afeminados, com calças ridículas e apertadas que lhes salientam as nádegas e os genitais. Ainda não vi o touro mas já torço por ele. Nas arquibancadas os vendedores de bebidas, chapéus, fotos de toureiros e de postais se apressam. Cada idiota puxa sua câmera fotográfica, seu binóculo, sua filmadora. É necessário registrar a espada enterrada no corpo do touro ou, por que não, os chifres do animal estraçalhando o corpo do toureiro. Sinto que desejaria imensamente assistir a uma tormenta de chifradas, de coices e de imprevistos. Penso involuntariamente em Apis, o touro sagrado dos egípcios. Quando um touro morria e era «entronizado» um novo, era dados às mulheres apenas um período de quarenta dias para visitá-lo. Durante essas visitas elas levantavam as roupas e lhe mostravam a vulva. Penso no touro de Minos que, por uma artimanha dos deuses teria enrabado Pasifae. Penso nos touros de minha infância, que trepavam com sete ou oito vacas no mesmo dia; nos testículos desse animal que a peãozada toda comia achando que iriam provocar-lhes efeitos afrodisíacos. Enfim, parece impossível dissociar historicamente esse animal da sensualidade e da voluptuosidade. Quando teriam iniciado as touradas? Os mouros as teriam trazido para a Espanha e esta as teria exportado para o México, Colombia e etc? Não tenho a mínima idéia. Só sei que essa idiotice começou aqui na Espanha lá pelo século XIII, com as corridas de rua. Naquela época até os nobres e os reis faziam parte do espetáculo. Depois foi sendo deixado novamente para a plebe . Os dois mal encarados que me venderam os bilhetes na rua, fumavam como loucos e pareciam ciganos. Os ciganos que Lorca tanto elogiou...

"El gitano es lo más elevado, lo más profundo, más aristocrático de mi país, lo más representativo de su modo y el que guarda el ascua, la sangre y el alfabeto de la verdad andaluza y universal... "

Verdade ou apenas o velho, frívolo e conhecido elogio dos intelectuais burguêses para com os fodidos e os famigerados? Pelo menos os espanhóis de hoje não pensam e não sentem nada disso a respeito dos ciganos.

O portão é aberto e um touro mais preto que o azeviche entra em fúria, olhando para todos os lados, dando pequenos saltos como se fosse levantar vôo. Elege uma das bandeiras rosas e dispara contra ela. De seu nariz já escorre um líquido fumegante. Defeca, como se estivesse literalmente cagando para o mundo. Os toureiros se protegem atrás de paredes de cimento... Ele ameaça enfiar os chifres no concreto mas recua... Não é bobo. Os toureiros se exibem. Passos ensaiados para cá, passos ensaiados para lá. Parecem galos de briga depenados. O touro fecha os olhos e se lança sobre a capa vermelha. Não acha corpo algum. Derrapa na areia. Defeca. Dá uma rápida olhada para a platéia. Gritos. Silêncios. Cheiro de merda e de suor. O rabo para cima. Trezentos quilos de ódio e de fel. A língua para fora. De sua pica escorre um jato de sêmem. Alguém das arquibancadas grita repetidamente: la oreja... la oreja... la oreja... Os chifres passam a um milímetro do estômago do toureiro. Gritos. Assobios. Aplausos. Uma pequena interrupção para que entrem os dois cavalos, protegidos nas laterais por uma couraça e com vendas nos olhos. O touro se lança sobre um deles, enfia-lhe as duas aspas com tanta fúria que o levanta da areia. O cavaleiro lhe enfia o arpão no pescoço e o cavalo permanece indiferente, como se não tivesse a mais mínima idéia daquilo que estava acontecendo. Torço cada vez mais para meu herói negro e solitário, mas percebo que já está entregue. Num novo assalto contra o cavalo caí de joelhos... Gritos, xingamentos... É evidente que para o touro esta é uma luta perdida. A organização do espetáculo não permitiria qualquer possibilidade de vitória para ele. Desfilar pela arena com o toureito espetado nos chifres se esvaindo em sangue seria o fim. Soçobrariam os negócios, o sindicato dos toureiros e o pessoal dos Direitos Humanos iriam a ONU pedir providencias. As poucas vezes que houve uma chifrada fatal foi mais por negligência da equipe do que por bravura do touro. Goya desenhou exaustivamente essa barbárie e Lorca a cantou em poemas e em prosa. Picasso e outros espanhóis, apesar do folclore cult que pesa sobre eles, não passaram imunes a esse costume sanguinolento. Rafael Guerra, conhecido por «Guerrita» organizou em 1896 uma espécie de tratado, em 5 vol. sobre a tauromaquia. E um tal de Pascual Millán, em 1888 escreveu em 258 páginas Escuela de tauromaquia de Sevilla y el toreo moderno. O que significa, en última instância, que essa loucura vem de longe. O homem obeso, sentado ao meu lado, faz um esforço enorme para ver as horas em seu relógio de bolso.


-Já se pasaron siete minutos! Resmunga para si mesmo.


Já se foram uns sete minutos. Um dos matadores lhe crava certeiramente duas «puyas», de onde, como de um vulcão, jorram dois jatos de sangue. Psicologicamente já está derrotado e a platéia pede agora que o matador cumpra seu papel metafísico. Outros dois dardos. Outros dois jatos de sangue. Um mugido que causa estremecimento na platéia. Os fotógrafos preparam as câmeras, as mulheres tapam os olhos, o toureiro coloca em cena os movimentos ensaiados por mais de mil vezes diante dos espelhos. Narcisista e vaidoso de merda! Prepara a espada. Para mexer com a histeria da platéia, dá as costas ao touro que treme estático. Não entendo por que não o ataca agora. Tem dois chifres que são mais destruidores que qualquer espada. Poderia acertar-lhe os rins, a coluna, as costelas e acabar de maneira trágica com este espetáculo. Mas não atua. Me decepciona. Depois de tantos anos, talvez já haja uma submissão genética nesses animais. Uma ética e, por que não, até mesmo um instinto de morte. (No sentido freudiano, de ser atraído pelo próprio fim, pela desconstrução de si mesmo, por uma espécie de fascínio diante da possibilidade de «deixar de ser», de ver cada osso, cada órgão e cada célula desintegrar-se no nada, quase uma vingânça contra o porvir, contra todas as esperanças e contra a vida.) "Uma hora após a morte ­escrevia o narigudo Bergerac, em La mort d¹Agrippine-, nossa alma (a alma do touro) desfeita será o que foi uma hora antes da vida..." A multidão suspira. Aquele homenzinho estúpido se coloca agora diante do animal com a espada na posição do ataque. O touro parece hipnotizado e disposto só a seguir as orientações do amo. Este lhe diz alguma coisa, obriga-o a atacá-lo pela última vez... O touro obedece e recebe no corpo exausto a estocada final. Um palmo de aço enfiado em seu dorso. Urra, corcoveia, defeca, olha para a platéia, perde visivelmente a moral, toma consciência de que aquela era realmente sua última tarde de maio. Palmas, assovios, gozos secretos na platéia. Os sádicos se agitam, tagarelam, parecem exorcizar naquele ato os próprios crimes e as próprias culpas. Aquele corpo, uns dez quilos a menos, desaba. O toureiro levanta os braços, dá uma corridinha afeminada ao redor da arena, se exibe para a platéia. As mulheres atiram-lhe chapéus, «pañuelos blancos», flores, camisas e outros objetos que ele recolhe, dá um beijo e os lança de volta, ao léu. Esse frenesi feminino não parece ser para o «macho» como todo mundo sempre pensou, mas pelo que a platéia identifica que há de feminino e de cruel nele. Um açougueiro se aproxima do touro agonizante e lhe enfia várias vezes uma faca na nuca. É a apoteose. O momento de máxima crueldade. A fanfarra reinicia, sua marcha wagneriana, as arquibancadas se agitam, enquanto entram na arena as três juntas de mulas cuja função é arrastar o cadáver pela porta dos fundos. E a mesma história se repete seis vezes. Sempre com touros andaluzes, pretos e da mesma raça, criados especificamente para esse fim. Deixei as arquibancadas com uma indignação contida e pensando na música de Francis Cabrel sobre a idiotice dessa exibição criminosa:


"...Si, si hombre, hombre / baila baila / hay que bailar de nuevo / y mataremos otros / otras vidas, otros toros / Venga, venga a bailar..."

Ezio Flavio Bazzo

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1. "Já na pré-história o touro era venerado por sua potência e sua força, era respeitado como o símbolo solar da prosperidade e da fertilidade. (...) Nas civilizações da antiguidade, diversos hinos religiosos mencionam o Deus-Touro. Na Índia a vaca é considerada um animal sagrado, símbolo da estabilidade e da procriação. No Egito antigo, 3500 anos a.C. é generalizado o culto do rei-Touro. Os hititas, 2000 anos a.C fazem do touro o primeiro de seus deuses (...) O touro é também um signo solar na astrologia e tem um significado importante no cristianismo." (Lormier, D)
2. Romancero gitano, p.140
3. A linguagem das touradas é quase tão hermética e quase tão cheia de signos, significados e significantes quanto a dos lacanianos. Para decifrar o artigo intitulado Oreja de Consolación, que saiu no jornal do dia seguinte, sobre o desempenho dos toureiros, dependi da boa vontade da camareira do hotel. «rodilla en terra»; «incorrección del site»; «pasaportar al novillo devuelto»; «danzó por delante en un amago de cite al natural», etc, etc.
4. Disfarço o riso ao lembrar da frase de um gurú indiano que previnia: "nunca presenteie alguém com um relógio de bolso, porque isto simplesmente significa que você tem como certo que esse homem está acabado. O relógio é seu último presente e lhe servirá para saber quantas horas faltam para o sol se pôr..." (OSHO)
5. La corrida, música contida no CD Samedi soir sur la terre, Paris 1993.

quarta-feira, 19 de julho de 2000

Portugália : O «nomadismo» português para Montreal


"A dor é uma dessas chaves que abrem não
apenas a intimidade dos homens
mas a intimidade do mundo"
Ernest Junger


Se os portugueses chegaram no Brasil achando que estavam chegando na Índia, os franceses e os ingleses, por sua vez, -Jacques Cartier em 1534 e Henry Hudson em 1611- avistaram eufóricos o território canadense certos de que estavam aportando na China.

Segundo país do mundo em território e um dos mais desenvolvidos do planeta, o Canadá, é ainda hoje uma monarquia constitucional, com rainha e tudo. Apesar de aparecer estampada em algumas moedas e em alguns dólares, se faz representar por um governador geral e não apita -pelo menos em público- praticamente nada. Parece ser só um luxo e um nostálgico exotismo.

Quebec, a maior província deste país, apesar de fazer de tudo para seguir o ritmo da América, não abre mão do charme de suas origens francesas, dos queijos e do idioma. O francês é a língua usual dos quebequences, apesar de que o inglês também é falado e compreendido em praticamente todos os lugares. Dizem que foi numa visita à aldeia de Hochelaga que, em 1542, Jacques Cartier, deslumbrado com a montanha que viu diante de si, deu-lhe o nome de Mont Royal , uma homenagem ao rei da França. Hoje, Montreal é a segunda cidade francófona mais importante do mundo, e foi para cá que os portugueses, movidos por genômas nômades ou por pura necessidade, imigraram e onde, com aproximadamente umas cinqüenta mil pessoas, constituem, uma das mais importantes comunidades latinas do Quebec.

A década de 60 foi um período importante na imigração para o Quebec. Belgas, egípcios, libaneses, haitianos, mas principalmente europeus de países do sul como a Itália, a Grécia e Portugal. Em 1971, havia no Quebec (em Toronto a comunidade portuguesa é maior) 16 mil portugueses. Em 1981, esse número passou para 27 mil e atualmente, segundo notícia recente no jornal local Le Devoir, chegam a 50 mil.

Apesar dos pescadores portugueses navegarem os mares canadenses há centenas de anos, -para onde vinham seguindo a rota dos cardumes de bacalhau- a maior parte dos imigrantes desse minúsculo país europeu se estabeleceu aqui, aos pés do Mont Royal, após a 2ª guerra mundial.

Três razões fundamentais facilitaram a imigração portuguesa para cá, naquele momento:

1. Os problemas sócio-políticos e econômicos gerados pela ditadura de Salazar em Portugal;
2. a necessidade e o projeto português de reduzir a população nas ilhas dos Açores;
3. por um lado as dificuldades para imigrar para o Brasil -devido as mudanças da política brasileira de imigração- e por outro a forte demanda canadense de trabalhadores agrícolas.

Sem outra alternativa, milhares de portugueses «fizeram os papéis» e navegaram dos Açores para Halifax, de onde eram imediatamente remanejados para fazendas, não apenas da província do Quebec, mas de todo o território canadense. Mesmo para um povo como os portugueses, que souberam acostumar-se na Índia (Goa), na China (Macau), nos países africanos etc., etc., o choque aqui foi violento. Além do trabalho agrícola canadense não ter nada a ver com aquilo que os portugueses estavam acostumados em Portugal e principalmente nos Açores, as grandes dificuldades se apresentaram no terreno da cultura, da língua, da alimentação, do clima e de tudo o mais que esse tipo de «exílio» sempre significou para o caráter português. Como era de se esperar, a grande maioria deles começou a cair fora das fazendas agrícolas o mais rápido possível e a procurar outro tipo de ocupação, principalmente no meio urbano de Toronto e de Montreal, onde logo passaram a exercer os mais diversos tipos de atividades, como a de carpinteiro, pedreiro, camareiro, porteiros, garçons e até donos de pequenos comércios, de pensões, etc. Muitos homens solteiros, subjugados pela solidão e pela saudades, casavam-se por procuração (como a mãe de Fernando Pessoa, em 1895, com o comandante João Miguel Rosa) com mulheres de Portugal que às vezes nem conheciam. Quando conseguiam os primeiros dólares para a passagem, mandavam imediatamente buscá-las e iam, de mãos nos bolsos, mastigando um palito, tímidos, a camisa abotoada até o gogó e com bonézinhos inconfundíveis, esperá-las romanticamente no porto. À sua maneira, também estavam «fazendo a América». Aqui no Quebec, parece que historicamente as funções técnicas, altamente especializadas, foram sendo desenvolvidas principalmente por imigrantes vindos da alemanha, dos EEUU e da Grã-Bretanha; as que dizem respeito à educação ficaram a cargo dos que vieram da França, da Bélgica e do Egito. Para os haitianos, ficaram os serviços de taxi e, para os portugueses, como já disse, os «serviços gerais».

Quem passa distraído aqui pelo Boulevard Saint Laurent, -entre a Sherbrooke e a Saint Josef- apesar do francês e do inglês aportuguesado e das marcas de lusitanidade por todos os lados, não se dá conta de que está passando pela medula de uma cultura singular, por dentro da «alma» de um povo de navegadores e de católicos fervorosos, pouco dados ao luxo do intelecto -é verdade-, mas obsessivamente trabalhadores e eternamente obcecados por uma bacalhoada com batatas e com vinho.

Da vitrine de uma livraria, um gato imenso acompanha o movimento da rua, na mesma posição da esfinge egípcia. Mesinhas com toalhas quadriculadas, aromas de sopas, montanhas de pães, lojas de roupas usadas, agências de viagem, homens e mulheres que surgem de repente numa esquina e que desaparecem tão misteriosamente como apareceram, colocando em evidencia e em movimento o tão bem conhecido perfil português. As rugas sobre os olhinhos pequenos, lançados quase sempre para bem longe, contra o sol, como quem tem que adivinhar as distâncias, os perigos, os enigmas e a infinitude dos oceanos.

Quando falam entre eles é quase impossível identificá-los. Parece que estão falando romeno, grego, vietnamita, qualquer um dos muitos idiomas do mundo, menos o português. O que não conseguem camuflar nem em sí e nem na arquitetura é a «gestalt» de lusitanidade. Casinhas enfeitadas com gaiolas, flores, escadas, varais e na fachada sempre uma coroa do Espírito Santo, imagens de Santo Antonio ou de N.Sª de Fátima, Homens aparentemente melancólicos atrás das vidraças que nos olham com uma curiosidade infinita. Os portuguesismos nas fachadas dos bazares, dos cafés, das peixarias e no interior de um mercado, mulheres pequenas, entroncadas e com correntinhas de ouro no pescoço resmungam diante dos produtos indispensáveis: o peixe, a oliva, o pão, meia garrafa de vinho tinto, uma sacola de café moído na hora... Depois ficam na fila do caixa, extremamente disciplinadas e como se estivessem submetidas por alguma tristeza. "Das feições da alma que caracterizam o povo português -escrevia Fernando Pessoa- a mais irritante é, sem dúvida, o seu excesso de disciplina. Somos um povo disciplinado por excelência". A uma quadra dali, no Café Central, esquina da avenida Duluth com a rua Santa Dominique, o mesmo barulho e o mesmo burburinho dos cafés cariocas e dos cafés de Portugal. Um homem descompensado mentalmente ocupa solitário a mesa junto à janela, enquanto as outras duas ou três estão ocupadas por jogadores de baralho. No balcão, a postura clássica dos que bebem em pé, apoiados apenas numa das pernas, enquanto a outra descansa. Um dia ainda vamos descobrir que a genética é tudo e que a cultura não é nada. Nas paredes, duas cabeças de alces e fotos de times portugueses. A grande maioria ainda continua fascinada pelos três Fs: Fátima, Fado e Futebol, apesar de um deles, mais refinado, declarar que são três Ps que lhe dão nostalgia: Porto, Pastéis e Pessoa. Duas TVs ligadas numa estação portuguesa e no volume máximo, mostram a visita do Papa à cidade de Fátima. Apesar da decepção com a «última profecia», não deixam de fazer o sinal da cruz, quase num orgasmo coletivo, quando o Papa profere as primeira palavras. Enquanto me delicio por estar ali, anônimo, roubando fragmentos de suas intimidades, invoco novamente a F. Pessoa "Nunca o português tem uma ação sua, quebrando com o meio, virando as costas ao vizinho. Age sempre em grupos, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo". Apesar das «cachaças» e do ambiente profano, o bar transpira catolicismo, fé e religiosidade por todos os poros. Nenhuma mulher entrou aqui nestes quarenta minutos. Só homens. Baixinhos, fortes, barrigudos, cabelos pretos, bigodes, desconfiados, brincalhões, fumantes inveterados e quase sempre vestidos de preto ou de marrom. Posso vê-las lá fora, na rua, com bolsas de mercado atravessando rápidas em frente a «boucherie» Soares & Filhos para irem esperar o ônibus 55.
Segundo o Guía Étnico de Montreal, alguns portugueses chegaram no Quebec quase junto com os primeiros colonizadores franceses e ingleses, entre eles, um tal de Pedro da Silva, que chegou em 1677, vindo de Lisboa e que foi o primeiro responsável pelos serviços de correios entre as cidades de Montreal e Quebec. Seus descendentes levam hoje os sobrenomes Dasylva, Dasilva e Da Silva.

Na rua Rachel, 60, está a paróquia e a igreja de Santa Cruz que a própria comunidade construiu. De tantos enfeites, bandeirolas, símbolos e escudos na fachada, faz lembrar algumas particularidades do Vale do Amanhecer. Dois carpinteiros aposentados trabalham na construção de galpões para a grande festa dos dias 20, 21 e 22. Apesar dos sessenta anos os cabelos ainda estão pretos e os braços musculosos. A ambos lhes falta dois dedos na mão direita. Ônus da carpintaria? Segundo eles, todo português que vive no exterior vive como um exilado. Apesar do elevado nível de vida que levam aqui, por eles, se pudessem, teriam permanecido em Lisboa, atrás dos morros ou nos cafundós da pátria. Fora do pequeno e super populoso Portugal, conservam quase que em segredo, quase como um delito, os pequenos sinais da identidade. Ouço comentários sutis sobre a frustração da 3ª revelação de Fátima, mas nem pensar em colocar a fé em discussão, pois foi -segundo eles- através e ao redor da igreja que conseguiram manter-se no unidos e vivos no «exílio». A festa em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, uma tradição trazida para cá pelos açoreanos da ilha de São Miguel, que acontece todos os anos no quinto domingo depois da páscoa, tem todos os elementos do catolicismo medieval e proporciona imagens que só se acredita, vendo. Assim que o padre José Maria Cardoso aparece, as mulheres levantam as velas de mais de um metro, os homens pisoteiam os cigarros, tiram os chapéus e marcham literalmente atrás daquele acervo de ícones, cochichando, criticando e tentando adivinhar o roteiro da caminhada e a ordem dos atos litúrgicos. A procissão trouxe às ruas praticamente toda a comunidade lusitana, figuras que fascinariam a qualquer arqueólogo e a qualquer cineasta. Carros luxuosos, perucas, meias pretas, laquê no cabelo, perfumes, sedas, gravatas, paletós, chapéus, bengalas, colares, crucifixos, doentes em cadeira de rodas, três ou até quatro gerações abraçadas, tristes e até em lágrimas vendo as «fanfarras» passando e lá no alto do andor, um cristo aniquilado. Uma coroa de espinhos na cabeça, o sangue escorrendo por todo o corpo, uma ferida imensa aberta no peito por uma lança. Dois franceses que passam casualmente por ali, comentam: um Deus tão triste como eles. Por sobre os braços dos que transportam a imagem, uma faixa com as palavras sórdidas atribuídas a Pilatos: Ecce Homo. Um homem ainda jovem sobe as escadarias da igreja com dificuldade e é seguido por uma mulher que vai retirando pêlos de seu paletó. Um pouco mais abaixo, dois homens falam tête-à-tête enquanto um deles arruma delicadamente a gravata do outro. Acompanho a procissão que subiu pelo quarteirão de Montreal, ora ao lado dos «pelotões» de senhoras com figuras de N.Sª sob o braço, ora ao lado dos pelotões de senhores com capas vermelhas, ora ao lado dos pelotões de crianças travestidas de anjos, dos coroínhas em posição marcial, etc., com bandeiras do Canadá, de Portugal, do Quebec, etc., e vou recitando outro fragmento profano do mais conhecido poeta português: "Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma «revolução» foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchamos uma revolução com a brandura com que tratamos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficamos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e de fingimento..." A procissão segue, as janelas das casas e as calçadas estão cheias, sinto que vou me contaminando pela tristeza e pelo remordimento generalizado. Mesmo não descendendo geneticamente deles, tenho consciência que pontuo, entôo e falo a língua que eles impuseram inicialmente sobre os Tupi-guaranis e por fim sobre um território cem vezes maior que o pequeno e simpático Portugal. Rituais, gestos, manias, cacoetes, temores, crenças, costumes... um imaginário genuinamente português. Será possível viver regido por um imaginário genuinamente português?

Álbatroz, a Barateira, Café e bar Copacabana, Terra Nostra, Cocoricó, Cabral, Patatipatata, imobiliária Joaquim, Designer Alves, Epicerie Lusitania, Padaria Coimbra, Rosas de Portugal, Material de construção Azores, etc, etc. Cheiro de sardinhas boiando no azeite, bolos de noivas, de batizado e de núpcias na vitrine, galos nas portas, taxistas, consertos de bicicleta, padeiros, pratos típicos, gestos, disfarces, desconfianças, música brasileira. Frequentemente cruzo por mulheres encorpadas que falam autoritariamente a homens pequenos, quietos, submissos, com as mãos nos bolsos, brincando com as moedas. Um português declarou simpático para um jornal: Deus criou o homem e a mulher, os portugueses criaram a mulata. Não deve ter se dado conta de que estava fazendo menção às histórias de mancebia de seus ancestrais e nem de que a expressão «mulata» tem uma origem pejorativa já que lembra o hibridismo da mula.

Dei um jeito de caminhar pelos fundos das casas, quase todas silenciosas e vazias, com apenas os gatos e os cães atentos atrás das cercas e das vidraças. De quando em quando um homem regando as plantas ou sentado nas escadarias, meio corpo ao sol, meio corpo à sombra, imerso num clima quase esotérico, um misto de solidão, prazer, deleite e tristeza... como se o sol o obrigasse a recordar que ontem o inverno foi rigoroso e que amanhã o será novamente. Um casal de «proletários» se apalpa junto à parede. O homem parece um bloco de mármore e ela o beija assim mesmo, teatralmente, em frenesi, por sobre os bigodes manchados de nicotina, tudo sob o olhar atento e viperino de uma mulher gorducha que lava a calçada e que parece gozar com a idéia de que amanhã, de tudo aquilo terá restado apenas esquecimento.

O dono de uma peixaria aparece à porta com seu avental branco e os bigodes nietzschenianos. Pergunto-lhe se não vai à procissão. Ele debocha do fatalismo de seus conterrâneos e retruca que não, com a arrogância e a convicção típica dos ateus. Segundo ele, vários portugueses que hoje moram aqui, já moraram no Brasil. Não deu certo e vieram para cá. Falam sistematicamente no F. H. Cardoso, insistindo nas origens lusitanas desse nome. (Por coincidência, o padre da comunidade tem esse mesmo sobrenome). Imagens fantasmagóricas do Brasil. Às vezes, referindo-se à sociedade brasileira, parecem acreditar que o Brasil vive uma guerra civil como as que viveram Moçambique, Angola e a Guine na década de sessenta. Aliás, a eclosão das revoluções nessas colônias portuguesas na África foi, para muitos jovens que fugiam do serviço militar português, a razão da imigração para o Canadá. Depois do almoço, muitos velhinhos tomam o rumo do Parc du Portugal e ali ficam duas ou três horas ao sol, numa verdadeira sessão de psicodrama, perdidos e fascinados em discussões intermináveis que, lamentavelmente, não dá para entender. Além desta praça dedicada à comunidade portuguesa, parece que existe por aqui uma outra -que ainda não consegui localizar- que leva o nome de Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches, um suposto herói da segunda guerra mundial.

Percorro as mesmas ruas do «quadrilátero português» mais de uma vez e nos horários mais diversos e os gatos estão sempre lá, vigilantes e zen. Casais cuidam de pequenos jardins onde florescem túlipas de todas as cores. Em algumas casas, minúsculas "vendas de garagem" onde se pode comprar livros, vasos, roupas, cabides, xícaras, brinquedos. Bicicletas amarradas às escadas e de uma janela o som de uma melancólica música portuguesa. Vasos com pequenas begônias, roupas secando no corrimão da varanda, uma caixa de correspondência cheia de cartões, jornais e recados. A porta de uma casinha de madeira se abre e aparecem duas mulheres e um homem que leva um cachorro branco acorrentado. Casacões pretos, um taxi, o «depanneur» Kuan, bem na esquina. Túlipas por todos os lados, umas abertas, outras como a papoula do ópio e uma cortina com desenhos de galos. Aqui na rua Laval, 3686, ainda dentro do quadrilátero lusitano, viveu o poeta maldito de Montreal: Émile Nélligan. Nas escadarias de sua casa, seis vasos com flores, cortinas de renda nas janelas, uma escultura do rosto do poeta incrustada na parede. Para muitos, Nélligam é o Rimbaud quebequence. Produziu sua obra dos 16 aos 19 anos e pirou. Morreu no hospital que fica no Boulevard Urbain, próximo a Associação Portuguesa de Montreal.

O restaurante Cocoricó, que serve um prato famoso com frango assado, batatas e salada, está sempre lotado. Duas senhoras portuguesas ao meu lado, comeram não apenas a asa do frango, mas todas as batatas e toda a salada sem usar os talheres. Numa pequena prateleira, de graça para os clientes, os dois jornais produzidos pela comunidade: Jornal do emigrante e A voz de Portugal. Na mesma rua, uma boate chamada Catedral e a livraria Andrógyna, especializada em textos, livros, músicas e apetrechos gays. Fico imaginando o espanto de uma velhinha açoreana no meio de todas estas «perdições». Uma cliente de quase meia tonelada, discute com a vendedora a identidade de Anais Nin. Filha de um Joaquim e de uma Rosa, seria cubana de pais portugueses?

A manhã de meu último dia aqui já está quase terminando. O sol bate forte nas vidraças do café Chez José, pertinho da rua Bullion, onde o primeiro imigrante português veio instalar-se. Duas mulheres de preto esperam um taxi enquanto trocam palpites sobres doenças, constipação e uma fadiga incurável. Pago o dólar e cinqüenta que devo, de meu café expresso, e tomo o rumo do hotel, na rua Saint Denis, ansioso para revelar meus filmes, arrumar a mochila e cair no mundo.

Ezio Flavio Bazzo