quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O homem nu do MASP... e a melancolia de um pau mole...


"si je ne suis pas un scenário d'enfer aleez au diable..."
(referência perdida)


As discussões sobre aquela performance do homem nu ocorrida no Masp/SP na semana passada ainda segue gerando discussões, indignações, movimentos de moralismo e de escandalismos nunca vistos. Da esquerda, da direita, dos fascistas, dos liberais, dos socialistas, dos capitalistas, dos coroinhas barnabitas, dos michês e até dos indiferentes.., de todos os lados nos chegam  lamentos, teorias, maldições e ensaios de interpretações sobre o fato. 
Que fantasias e que transtorno levaram aquele estúpido a colocar o rabo para fora e a mostrar-se daquele jeito? E a criança que tocou o pé daquele babaca? Terá ficado traumatizada? Será uma adulta normal, uma frígida ou uma  ninfomaníaca? Uma Messalina ou uma Madre Teresa? Quem higienizará sua mão e salvará sua alma? E sua mãe? Seria uma ex-hippie & louca desnaturada? E o Masp? O símbolo máximo da intelectualidade USPiana & piratiningana! Como foi deixar-se engabelar e seduzir? E as velhinhas descendentes dos condes italianos com o pescoço lambuzado de pó de arroz e de talco que costumam ir lá, aos finais de semana, depois da missa, vender suas velharias e antiquarias? Continuarão ou farão protestos contra aquele antro de peladões pedófilos? Narcisistas? Pederastas? desalmados? Indecentes? E a arte? Ah! Seria isto então a arte engajada? Engajada ou enrabada? Será que Michelangelo também foi um desses libidinosos? Fez bem então o frade Savonarola em tocar fogo em quase todas as artes de Florença...
 O mendigo K, que também vem acompanhando essa discussão infame me alertou: Toda essa suposta indignação é um teatro canalha e um jogo de cabotinismo. Mentiras e pretextos. Não tem nada a ver com pedofilia, nem com perversão, nem com imoralidade... O que realmente indignou todo mundo, principalmente aos homens, foi o fato do sujeito ter se exibido de pau mole. Isso sim foi mais do que uma traição, foi uma burrice. Um tiro no pé. Um baque no projeto secular de empoderamento e um coice no ego masculino. Sim, pois nada denuncia e explicita mais a miséria, a impotência, o lero-lero e o pauperismo moral e estético masculino do que um pau mole. Como é que deixaram aquele idiota exibir aqueles quatro centímetros decadentes e melancólicos? Se pelo menos estivesse de pau duro, até que aquela idiotice teria alguma conotação com arte... mas mole daquele jeito! Preste atenção como todo mundo, principalmente os mais enfurecidos ainda estão se perguntando: 
- Desde quando aquilo é arte? 
É evidente que para eles seria arte se aquilo do "ator" estivesse duro, rígido, latejante e voltado para o teto do museu de maneira ameaçadora como os mísseis do exército coreano. 
Inclusive aquela menina que chegou a tocar um dos pés daquele babaca, observe como ela o fez com um certo nojo e uma certa piedade. Observe como em sua expressão infanto-juvenil se podia quase adivinhar a indagação: 
- Mas então é isto aí o tão falado falo? O tão temido membro? É disso que os pedófilos se valem? É disso que Freud dizia que as mulheres tinham inveja? 
Realmente, tudo aquilo foi uma vergonha! Uma degradação melancólica para o mundo masculino. Um pau mole é o oposto da dignidade, da soberba, da soberania, da volúpia... e do poder... Sim, isto realmente nos envergonhou a todos. 
Sim, o pastor e prefeito do Rio tem razão: censurem e lacrem as portas dos teatros!!! Viva a invenção das cuecas e das roupas, dos lençóis, das cortinas, dos paletós, das batinas, das fardas, das alcovas escuras e da miopia humana. A partir de agora, mantenham em of e em segredo essa triste e decadente condição masculina! Mas tudo isso - prestem bem atenção - são bobagens infantis e sintomas neuróticos... O mais curioso e aproveitável de todo esse pequeno circo é ver como nesta sociedade que insiste em permanecer na Idade da Pedra, uma miséria desencadeia imediatamente outra!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Notas sobre algumas bagatelas...

"En las manos del Estado, la fuerza se llama "derecho", en manos del individuo se llama crimen..."
M. Stirner

Quem viu as notícias de hoje de manhã sobre o estado precário, decadente e miserável de alguns dos hospitais aqui do Distrito Federal só vai buscar socorro  neles se for louco. É mil vezes mais confortante morrer em casa, de mãos dadas com uma vizinha benzedeira, rezando em latim ou em tupi-guarani alguma bobagem pré republicana do que estar internado lá num desses pandieros escabrosos. 
E a população, misteriosamente, se submete, não dá um pio. Passa os dias de cabeça baixa, esperando Godot.  Tem medo de desagradar o Estado, os vigários e os patrões de turno. Vai e volta gemendo com suas dores. Resiste.  Reza. E ainda lembra, com um animismo de dar dó que hoje é dia de São Francisco de Assis. Aquele que como o General Figueiredo, gostava mais do cheiro e da convivência com animais do que com seus iguais. Acredita piamente que não tem direito a nada.  Que o SUS é essa porcaria mesmo! E que se tudo é assim é porquê Deus (o grande enfermeiro cósmico) quer que o seja. Inacreditável! Não sabem ou fingem não saber que com o dinheiro que há disponível para essas instituições, daria para transformá-las, do dia para a noite, em "Hotéis Cinco Estrelas". Em prédios luxuosos, com lençóis de algodão egípcio, travesseiros anti-alérgicos, agua potável e morna, toaletes como as do Iguatemi. Tudo sutilmente perfumado, com médicos não trabalhando mais do que 20 horas por semana (para preservar-lhes a saúde mental) e ganhando quase o que ganha um desses jogadores analfabetos de futebol... Bibliotecas, jardins como os de minha avó, salões para repouso, remédios gratuitos e água à vontade... Não acreditam? Consultem as contas bancárias e os livros de contabilidade.
Bah! E diante de todo esse silêncio cretino e de toda essa cumplicidade asquerosa disto que se chama sociedade, fica ainda mais compreensível a frase de Paul Nizan:  
[É terrível ser uma bússola enlouquecida pela tempestade ou uma aurora boreal vagando pelos pontos cardeais em uma escuridão atravessada por repiques, fogos, gritos, onde a loucura faz a festa e mostra pelo canto das ruas sua face jovial..]fazer blog

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A música, o cérebro e o atirador da Terceira Idade de Las Vegas...

Foi uma pena o atirador de Las Vegas ter "se matado" antes de ter revelado a  alguém, de preferência a algum neurologista o motivo que o levou a cometer aquela loucura. O que comumente se sabe é que na atualidade, a música, como uma epidemia, invadiu tudo. Das igrejas aos puteiros, das salas de dentista às sapatarias, restaurantes, cemitérios, cafés, borracharias, aviões, barcos, submarinos, viagens interplanetárias.., tudo está permanentemente contaminado por caixas de sons, rádios, televisões, computadores, ou até mesmo por shows ao vivo... Como se ninguém mais conseguisse viver sem essa babaquice. E são músicas que vão dos funebres réquiens de Bach ou de Schubert às tais baladas Country de churrascarias de beira-de-estrada e...essa idiotice toda mesmo quando se sabe que existem pessoas, muitas pessoas, que não gostam ou que até entram em surto psicótico com essa barulheira. Meu cachorro, por exemplo, um Lhasa Apso de 10 anos, quando ouve uma música Country dessas de beira de estrada se enfia em baixo do sofá, suas pupilas ficam dilatadas, seu coração parece estar lá no rabo...
e me olha como quem pergunta: quê neurose é essa companheiro? Essa barulheira aí é apenas para que ninguém mais faça contato consigo mesmo?
Talvez não tenha sido por acaso que Maomé ameaçou transformar em macacos e em porcos aqueles que se envolvessem com a música...  (Ibn Ma'jah Vol.5 Hadith No.4020).
Digo que foi uma pena que o atirador tenha "se matado" sem confessar seus verdadeiros motivos, porque sei que existem diversas patologias neurológicas associadas à música e que o senhor de 64 anos que, do alto de uma janela descarregou sua arma sobre a multidão, pode ter surtado após ter sido vítima de uma delas. Quem tiver interesse pode ver o livro do neurologista Olivier Sacks (ao lado), do qual menciono alguns itens, para os mais curiosos:

1. A epilepsia musicogênica em geral é considerada raríssima, mas Critchley conjeturou que talvez ela fosse notavelmente mais comum do que se imaginava. Para muitas pessoas tudo podia começar com uma sensação esquisita - perturbadora, talvez aterrorizante - assim que ouviam determinada música. Quando isso ocorria, essas pessoas, inevitavelmente se afastavam da música, desligavam-na ou tapavam os ouvidos para evitar um ataque.

2. Hoje temos um enorme e crescente conjunto de obras sobre os alicerces neurais da percepção e da imaginação das música, e nesse conjunto também se incluem trabalhos sobre os complexos e muitas vezes bizarros distúrbios a que essa percepção e imaginação estão sujeitas...

3.  Há muitos relatos sobre o início de inclinações musicais ou artísticas em convulsões do lobo temporal, e os que sofrem esses ataques também podem adquirir intensos sentimentos místicos ou religiosos...

4. Em 1937 Macdonald Critchley, um excepcional observador de sintomas neurológicos raros, descreveu onze pacientes seus que sofriam ataques epilépticos induzidos por música...

5. Arthur Brown e Henry Miller em sua descrição detalhada de um homem de 62 anos ( o atirador tinha 64) que repetidamente perdia a consciência quando ouvia o rádio exatamente às 8:59 horas da noite...

6.  A música explode em minha cabeça por cerca de dois minutos. Adoro a música; fiz minha carreira com ela, por isso parece certa ironia que a música também se tenha tornado o meu carrasco...

7. A capacidade de perceber (ou imaginar) música pode ser prejudicada por algumas lesões cerebrais, e há muitas formas de AMUSIA desse tipo. Por outro lado, a imaginação musical pode tornar-se excessiva e  incontrolavel, levando a incessantes restrições de músicas que não saem da cabeça ou até alucinações musicais.  Existem riscos neurológicos especiais "disturbios de habilidades que podem até afetar musicos profissionais"...

8. Algumas pessoas - um número surpreendentemente grande "vêem cores, "sentem cheiros"ou têm vários tipos de sensações tácteis quando ouvem música - e muitas encaram essa sinestesia mais como um dom do que como um sintoma...

9.  Talvez não seja só  o sistema nervoso, mas a própria música que contém algo muito singular - seu ritmo, seus contornos melódicos tão diferentes dos da fala - e sua ligação singularmente direta às emoções...