terça-feira, 9 de julho de 2013

Somos o único país do mundo a ter um muquifo chamado Favela da rola...

Encontrei o mendigo K. no meio de milhares de prefeitos que estão na cidade reclamando seu quinhão. E não estava mendigando e nem querendo comover a terra com suas lágrimas, pelo contrário, estava mais do que eufórico. Já percebi que para quem vive a solidão da indigência e que está habituado a um silêncio povoado de misérias qualquer manifestação dá a ilusão de uma tomada da Bastille ou de um festim dionisíaco. Quando nos vimos estava em frente ao Congresso Nacional falando com o prefeito de um dos tantos municípios mambembes que há por esses cafundós afora. Fez questão de apresentar-me e anunciou: estava, aqui em frente a essa casa de penhores, dizendo ao doutor (referia-se ao prefeito) que nosso país é o único do mundo a ter um muquifo chamado Favela da rola... e explodiu numa gargalhada, uma explosão daquelas cuja insalubridade bucal fica completamente exposta. E antes mesmo de recuperarmos o fôlego foi metralhando: 
 E os bagulhos apreendidos!? As campanhas em contrário, não têm servido para coisa nenhuma... parecem até estar incentivando o consumo... Só neste domingo foram duas toneladas de maconha e trezentos quilos de cocaína, bem aqui sob as pupilas do establishment republicano e de um policiamento pra lá de exagerado. Duas toneladas de canabis e trezentos quilos de pó! Se eu não fumo, vocês também não, nossos vizinhos idem, os burocratas nem pensar, os ministros e parlamentares nem conhecem o cheiro, os pais de família são abstêmios, as moças de família só bebem Martini branco, doce e sensacional... quem é, afinal, que queima todo esse fumo e que cheira todo esse pó? Duas toneladas, vocês sabem, são dois mil quilos... De onde advém essa necessidade de volúpia alucinatória e de embriagues? Quem foi o primeiro a descobrir que o cérebro fica como uma cortesã quando sente o cheiro da fumaça ou a leveza do pó? 
Ah.., mais injustiçada que a plantinha da maconha só mesmo a papoula do ópio! Duas singelas relíquias do mundo da botânica que viram literalmente o mundo de pernas para o ar... Sabiam que o elixir paregorico de nossa infância tinha algumas centelhas de ópio? Por pouco nossas velhas avós não trataram nossas cólicas  com heroína..! O dr. conhece o famoso Triângulo do ouro? Pergunta ao prefeito. Sem mostrar nenhum interesse pela resposta foi logo agregando, com uma indisfarçável chispa de cinismo: vale a pena desviar o dinheiro de mais uma ou duas pontes e ir passar uma semana lá na fronteira entre a Tailândia, a Birmânia e o Laos... 

domingo, 7 de julho de 2013

Do voyerismo gringo e de nossa letargia...

"Da interjeição em todas as notas da escala à obcenidade palavrosa e retumbante".
A. F . de Sampaio

Tímida e quase débil a reação do Brasil às notícias de que o governo norte americano espionou quase dois bilhões de mensagens e telefonemas em nosso território. Por incrível que pareça, muita gente até defendeu essa patifaria e se sentiu importante sendo monitorada pelos tiras do império. E não vai aqui nenhuma usafobia, pois mesmo que esse voyerismo policialesco tivesse sido praticado pelo Haiti, ou pela Ruanda, seria abominável. Claro que desses bilhões de interceptações, 98% foram bobagens, papos de domésticas, brigas de casais, futilidades, discussões sobre futebol, sobre os evangelhos, sobre pagodes, sobre coleção de sapatos, sobre a ida semanal ao motel, sobre a vinda do Papa, sobre a FLIP e sobre outras besteiras do gênero que não servirão para nada e para ninguém. Mas... mas...
Se a internet e o mundo dos computadores continuar servindo para o cinismo e para a indiscrição desses paranóicos, é bem provável que num dia, não muito distante, o santo Bill Gates será escorraçado e a tumba sagrada de Jobs pisoteada...
(Ilustração: El Roto)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Albino Forjaz de Sampaio e a máscara... (do livro: Lisboa trágica)

"Vautrin ( personagem de Balzac na Comedia Humana ), consultado sobre o necessário para vencer, responder-vos-ia: Para vencer, é necessário em primeiro lugar uma boa máscara. Depois eloquencia, desembaraço, prontidão e sangue frio. Todos os requisitos de um bom bandido.
Não se trata de máscaras de cartão, de seda ou de veludo, encobridoras de desconhecidas gentis, misteriosas e fatais. Nem da dos embuçados espadachins das vielas da Lisboa antiga; nem da dos penitenciários, sombria e misteriosa; nem da dos conspiradores. Não é de nenhuma dessas. A máscara de que se trata é esta que todos trazemos afivelada, que simula e dissimula e finge e se mascara - a fisionomia humana.
A palavra é a máscara da idéia, como a veste é a máscara do corpo. A promessa é a máscara da recusa e a esperança a máscara da desilusão. Se a vida é luta, a máscara é arma.   Uma das mais engenhosas e sutis armas de ofensa e de defesa, mais eficaz do que o canhão, mais sutil do que o punhal e mais contundente do que o box. Os antigos gladiadores, quando os empurravam para a luta, recebiam uma espada curta para se defenderem. Pois bem! O destino, quando nos empurrou para a vida, deu-nos uma arma - a máscara. Saber fingir como um comediante consumado, saber mentir sorrindo, tendo a máscara forrada de lágrimas e presa por soluços; saber chorar, tendo cócegas na alma e gargalhadas nos ouvidos, é o ideal. A força deu lugar à astúcia. Hércules curva-se ante a lábia penetrante de Tartufo, de maneira que é Tartufo quem reina agora. A ciência da vida é saber representar. Toda máscara mente, toda. Desde a dos padres à dos reis, e desde a de Cristo à daquele vilão ruim, vilão pôrro, como lhe chamava Antonio Prestes, porque toda a máscara tem mais mentira, mais vileza e mais impudor do que a própria Bíblia.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Moneycracy...

Está todo mundo meio histérico e até "comovido" com as contas, os papéis e a contabilidade do Eike Batista! A mídia não fala em outra coisa além dos bilhões desse senhor. Será que em breve teremos mais um mendigo na praça!? Os vassalos e os puxa-sacos estão angustiados, pois se o chefe ruir podem perder suas mamatas paralelas. Os miseráveis de plantão idem, pois seriam privados das migalhas que eventualmente despencam dos altares e dos banquetes. E a classe média, como sempre, curtindo aquela felicidade plena e insana que brota dos subterrâneos da inveja.  
Para entender a bizarrice do capitalismo, imagine-se sobrevoando o planeta e vendo os sete bilhões de terráqueos, cada um cercado por suas posses e por seus bens.  Nós ao lado de nossas dívidas e de nossa bicicleta; outros no meio de suas tralhas; outros no meio de suas panelas e de seus vinte palmos de terra; outros no meio do nada... e OUTROS, cercados por lingotes de ouro, latifúndios, edifícios, frotas de aviões, redes de hotéis, montanhas de Libras, poços de petróleo, garimpos de diamantes... 
Mesmo assim,  as hienas de sempre, arrastando incansavelmente suas correntes, seguem insistindo que os ricos não entrarão nos Reinos dos Céus e que vivemos numa democracia plena!
Bah!!!
Prossigo em minha leitura de A.F.S: [ A máscara é pois, hoje, nestes tempos de diplomacia astuciosa e de solércia sabida, a melhor arma que o homem pode ter. Saber simular e dissimular, eis tudo. Tudo hoje se disfarça. Tudo é mentira. As aparências não são mais do que simples aparências. Um lord por fora é quase sempre um ladrão por dentro, assim como um filósofo por dentro é como um pobre ladrão por fora...]

terça-feira, 2 de julho de 2013

Da alma, da personalidade e de outras cláusulas pétreas...

Até o Papa argentino resolveu agora apoiar as manifestações no país e com o argumento quase cretino de que elas são coerentes com os evangelhos. Estaria se referindo aos evangelhos segundo Kropotkin? Ora, se todo mundo, desde os banqueiros, os políticos e até a Santa Sé, está a favor das manifestações, de que, de quem e a quem é afinal que os manifestantes estão se queixando? Desse jeito não demorará muito para começarem a aparecer cartazes colocando a culpa ao diabo por todas as nossas desgraças nacionais...
E com quase o mesmo despropósito se está propondo um plebiscito nacional. Querem agora induzir as massas a opinarem sobre o que não conhecem e a indiretamente se comprometerem com as futuras roubalheiras.  
Dinheiro público ou dinheiro privado nas campanhas? 
Nenhum! As campanhas são sempre perversas, demagógicas e inúteis.  Que favoreçam mais ou menos a este ou àquele candidato, é o de menos, são sempre o mesmo engodo. 
Voto proporcional, voto misto, distrital ou etc? 
Nenhum! 
Somos contra o voto. Primeiro, porque os eleitores ainda continuam confinados em imensos currais (físicos ou psicológicos) e segundo, porque, como dizia o bigodudo Stalin, ganham as eleições sempre aqueles que contam os votos... 
Acabar com o voto secreto no congresso? 
Não apenas o voto secreto, mas a própria pergunta são infames!
Acabar com o suplente de senadores?  
Ora,  o que deve ser colocado em xeque nem é a existência do suplente, mas sim o papel e o sentido da função do próprio senador...
Ah, mas estes são pilares fundamentais da República, não podem ser extintos!!! murmuram desde os porteiros de prédios até os ex presidentes... Bom, então que se jogue a própria República no lixo e que se invente outra maneira de administrar as nações... É quase inacreditável que depois de Platão não se tenha conseguido engendrar nada mais digno e inteligente do que isso que está aí...
E se realmente quiserem, por razões obscuras, fazer um plebiscito, como se ele fosse uma espécie de aurora boreal, então que façam uma única pergunta às massas: "Nascer, foi ou não foi a maior furada?"
(Ilustração: El Roto)