Nesta manhã de segunda-feira, por casualidade, ouvi uma "baby-sitter" falando, cantarolando e distraindo a criança de + ou - uns cinco anos que estava sob seus cuidados, com aqueles recursos pedagógicos, meio de adestramento e de horror universal pelos quais todos passamos. Lembram dos famosos contos compilados pelos Irmãos Grims? Principalmente O Junipero? A criança arregalava os olhinhos e a tal baby-sitter insistia:
- Come, come, que mamãe foi ao trabalho e que senão o bicho vem...
- Criança obediente não vai ficar doente...
- Que criancinha linda! Comeu tudo e sem sujar o piso!
- Isso não se faz, senão os anjinhos choram... E o homem do saco vem...
- Tire a mão daí que isso é pecado e o Papai do Céu fica triste...
Depois passou para trechos das clássicas do Chapeuzinho Vermelho; da Bela Adormecida; do lobo mau, das fadas e das bruxas.., uma mais macabra do que a outra, e tudo meio de improviso, cantarolando, rindo e dramatizando...
Num determinado momento passou a ensinar-lhe a contar: 1, 2, 3, etc mas, de quando em quando, (não sei se por distração ou por método) ia saltando de 1 para 4 e de 4 para 6 e voltando para o zero e para o 1, etc.
Da criança, não se ouvia um pio.
Segui ouvindo aquele horror de iniciação e pensando no texto sobre o sinistro, onde Freud, trata da historinha macabra do homem das areias que, lá na Alemanha (daqueles tempos), os pais costumavam contar a seus filhos para obrigá-los a dormir: "O homem das areias é um homem mau que vem visitar as crianças quando elas não querem dormir, joga-lhes punhados de areia nos olhos, fazendo-os saltar ensanguentados de suas órbitas; então guarda-os em uma bolsa e os leva como pasto para seus filhinhos, que estão sentados em um ninho e têm bicos curvos como as corujas, com os quais cortam a bicadas os olhos das crianças que não se portam bem..."
Que tal?
E depois fingem espanto quando percebem o sentimento reacionário e trágico do rebanho e seu fascínio pelas páginas do Eclesiastes...


E o abominável homem das neves!
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