"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Da quarta de cinzas e da desonestidade epidemica...

Ninguém pode negar que as escolas carnavalescas do Rio deram um show de criatividade, beleza, crítica e vigor. Tudo, claro...  no estilo quimera e miragem. Acreditando que naqueles gritos polichinelescos de desespero poderia haver algo de revolucionário. Revolucionário? Revolucionária talvez, tenha sido a paródia da Pietà (de Michelangelo) apresentada pelo Salgueiro: uma mulher negra, tendo nos braços, ao invés do judeu branco de olhos azuis, um filho negro assassinado... Tudo bem! Algumas beatas ficaram escandalizadas, mas hoje, apenas algumas horas depois, tudo já virou cinzas... todas aquelas penas, chapéus, tronos, holofotes, pandeiros, pierrots, tamborins, cinturões e os tapa vulvas das colombinas estão amontoadas no meio de mijo, vômitos e patuás no fundo de barracos crivados de balas... A alucinação quase passou! A "revolução passou"! Foi só um delírio! Delírio onde as televisões, fiéis a uma pseudo política de gêneros, resolveram baixar o foco das tetas para as nádegas... Viva o corpo! Esse desconhecido! Dois dias de "liberdade" concedidos à turba, para que ela suporte passiva, resignada e em silêncio os 373 dias vindouros de acosso moral e de humilhação.. As filas em desalento diante de ambulatórios fechados é assustadora e o esgoto da esquina continua em erupção. Cinzas! E o prefeito evangélico ainda está no seu carnaval, um outro carnaval, bem mais asséptico e perfumado lá pelas nevascas e belezas européias... E todo mundo, a seu modo, lançando-lhe maldições e fazendo o papel de vítima. Haverá algo mais desprezível do que ter pena de si mesmo? Algum inocente nessa história? Nada cheira mais a cinismo do que a cara de honestidade de um trapaceiro ou de milhões de trapaceiros juntos.

Em síntese: talvez isso aí seja o que de melhor possuímos. 
Querer outra coisa, depois desses 500 anos de imbecilização coletiva, seria querer demais. Acreditamos, como Cioran, que 
"... Uma mudança total, mesmo que fosse inútil, ou uma revolução sem convicção, é tudo o que ainda se pode esperar de uma época em que já ninguém tem honestidade suficiente para ser um verdadeiro revolucionário..."
   

4 comentários:

  1. Feliz ano novo Bazzo! Agora vai

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  2. Bazzo, olha aí mais um detalhe da imbecilização coletiva:
    http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2018/02/14/interna-brasil,659833/prf-registra-249-acidentes-graves-no-feriado-de-carnaval-com-87-mortos.shtml

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  3. Perfeito! Crítica muito bem feita e feroz! O estilo Bazzo, sempre inconfundível!

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  4. https://veja.abril.com.br/politica/intervencao-federal-no-rio-suspende-reforma-da-previdencia/

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