"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Nietzsche e o cavalo de Torino...

Vim a Torino quase que exclusivamente pela lenda de Nietzsche. Ele que costumava vir da Alemanha para cá e que inclusive teria produzido boa parte de sua obra aqui e tido aqui também o maior de seus surtos e enlouquecido depois daquele evento com o carroceiro. 
Qualquer sujeito minimamente ilustrado sabe dessa anedota de cor. Pois bem, Saltei do trem e antes mesmo de acomodar-me num alberco, percorri as livrarias mais próximas, duas na própria Via Cernaia, em baixo dos arcos e uma imensa que fica na Via Bertola... e nada. Por pouco até não desconheciam o autor de Zaratustra. Perdi o tesão e quase tomei o primeiro trem de volta para Roma. O faço hoje, um dia depois, convicto de que atualmente os editores e os livreiros, a serviço da igreja ou das igrejas, são os grandes censores da cultura e da história. Violentam os acontecimentos e retiram de circulação o que bem entendem e aquilo que política, moral e monetariamente não lhes convem. É evidente que já na entrada desta cidade deveria haver uma estátua de Nietzsche, que as paredes deveriam estar pichadas com seus aforismos filosóficos, e que nos hotéis, ao invés da bíblia sobre o criado mudo deveria estar O crepúsculo dos ídolos... É evidente que, quase por instinto, (ou mesmo por malandragem comercial) os livreiros deveriam expor imensos cartazes Nietzschenianos nas portas de suas livrarias e que suas obras completas, até mesmo em alemão, deveriam estar amontoadas nas vitrines a preço de profiterólis... Que pinturas dele brigando com o carroceiro e abraçando o cavalo deveriam estar emolduradas nas galerias e que a música de Wagner deveria tocar permanentemente nas praças e até nos "negócios"... Mas... mas... e como justificar isso ao pároco, ao bispo e ao papa? Enfim, o trem da Frecciarossa já está encostando. Adio Torino! Não ter nada de Nietzsche aqui é como não ter nada de Socrates em Atenas, nada de Cristo em Jeruzalém, nada de Guevara em Cuba, nada de Paganini na Itália inteira, e nada do diabo no inferno... Enfim, é importante lembrar que está escrito lá em seu ASSIM FALOU ZARATUSTRA: "L'uomo è una corda tesa fra l'animale e il superuomo una corda sopra un abisso..."
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Observação: A obra de Paulo Coelho está bem a vista em todas as livrarias.

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