"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O mendigo K. e a carta de Diderot, sobre os cegos...


Numa barraca armada ali pelos lados do Edifício das Clínicas assisti, logo pela manhã, a cena de um mendigo em farrapos emprestando seus óculos de grau a outro mendigo igualmente em farrapos. A cena não é fácil de ser descrita. Apesar daquele homem aparentar ter mais de quarenta anos, sua alegria, ao "ver o mundo" e "aquilo que o cercava", foi idêntica a de uma criança diante de algo inusitado. 
Teria sido a miopia um dos motivos de sua marginalidade, de sua ruína e de sua mendicância? Haveria alguma relação entre os olhos e a melancolia? Entre a cegueira e a indigência? Alguém já teria realizado algum estudo relacionando a cegueira radical e os diversos transtornos da visão com a estética? Enquanto me fazia estas indagações apareceu o mendigo K, que, além de conhecer aqueles dois homens também havia assistido a cena e que, por coincidência (ou não) me exibia uma resenha da conhecida carta de Diderot sobre os cegos. Deixou-me uma cópia e desapareceu. Atravessei a rua, entrei num café, praticamente no único da cidade e fiz a leitura.

Carta Sobre os Cegos – para uso dos que veem. (Uma resenha crítica apresentada por Franciele Pereira Nascimento e Nayara Rodrigues Guimarães.)

"Diderot nasceu em outubro de 1713 em Langres, na França. Juntamente com 
intelectuais como Voltaire, Montesquieu e Rousseau, faz parte da corrente iluminista. Diretor 
da Enciclopédia francesa, assume a responsabilidade de publicar ensaios a respeito de artes, 
ciências e filosofia, tanto de sua autoria quanto de outros intelectuais. Contudo, devido à 
restrição do conteúdo que essas obras precisavam ter para que pudessem ser publicadas, 
espalha sua concepção filosófica em publicações alheias à Enciclopédia. Dentre diversos 
escritos, procura desenvolver sua linha de pensamento na corrente materialista, dissertando de 
maneira considerada provocativa a ponto de ser perseguido e preso no castelo de Vincennes, 
em 1749. Faleceu em 1784, em Paris. 
A linha de pensamento materialista, da qual Diderot é adepto, começa a se 
desenvolver em seus ensaios e a Carta Sobre os Cegos pode ser considerada como propulsora 
para esse desenvolvimento. Ao abordar a problemática da “cegueira congênita”, Diderot 
procura analisá-la de maneira racional, fundamentando-se em bases científicas e filosóficas 
para suas proposições, buscando, nas ciências biológicas e exatas, as respostas para seus 
questionamentos. Dessa maneira, mostra-se descrente da religiosidade, contradizendo a ideia 
de um Deus criador do Universo, sustentada ao longo da história até a Idade Média. 
Ao iniciar a Carta, endereçada a uma mulher, supostamente sua amante, Diderot 
menciona que seu interesse em estudar a vida de um cego de nascença adveio da experiência 
mal-sucedida do físico francês, Sr. de Réaumur, quando disse ter restituído a visão de um 
cego. A partir do fracasso de tal experimento, empreende então seu estudo acerca da 
percepção de mundo para quem não possui a visão, mostrando-se profundamente interessado 
naquela dimensão alheia. 
Para que esse estudo fosse realizado, o autor entrevistou um cego de nascença e, de 
maneira especulativa, procurou compreender como as ideias de beleza, imaginação e 
organização do espaço eram percebidas por esse cego, uma vez que as pessoas que enxergam 
se baseiam nesse sentido para compreendê-las. Aborda, ademais, assuntos como a simetria 
dos objetos, a percepção dos sons, espelho e lentes, enfim, temáticas da realidade e do 
cotidiano que são compreendidos pelos sentidos. Dessa maneira, podemos notar a tendência 
reflexiva na qual Diderot se lançou ao procurar entender o mundo do outro partindo de 
comparações, ou seja, parte dos parâmetros que possui – como pessoa que enxerga – para 
interpretar a vida das pessoas desprovidas deste sentido. 'Saber-se-ia como as coisas se 
passam nele, poder-se-ia compará-las com a maneira pela qual elas se passam em nós, tirarse-
ia talvez desta comparação a solução das dificuldades que tornam a teoria da visão e dos 
sentidos tão confusa e tão incerta.'
Outra temática abordada no ensaio diz respeito à moralidade, com ênfase no pudor. 
Para um cego, cobrir ou deixarem descobertas certas partes do corpo não faz sentido, pois, 
desprovido da visão, não é afetado pelo desejo ou repulsa do corpo de outro. Diderot 
deixa seu parecer, alegando que “conquanto estejamos em um século em que o espírito 
filosófico nos desembaraçou de grande número de preconceitos, não creio que venhamos um 
dia desconhecer as prerrogativas do pudor tão perfeitamente como nosso cego.” (DIDEROT, 
1979, p. 8). Isso soa condizente com uma época de revolução, tal qual é o século XVIII, na 
tentativa de quebra de preconceitos tão enraizados na sociedade, onde homens e mulheres, por 
exemplo, se encontram em patamares muito distintos. A busca por liberdade, igualdade e 
fraternidade, que posteriormente será o lema da Revolução Francesa, é então, incessante. 
Apesar de a leitura ser cansativa, uma vez que o texto se mostra extenso e escrito de 
modo descritivo com vocábulos obsoletos, ela é de fácil compreensão, pois o autor dialoga 
constantemente com seu interlocutor, dando explicações técnicas e práticas sobre o assunto 
que aborda. Essa característica é vista principalmente quando trata de Nicholas Saunderson e 
a máquina matemática que inventou. Diderot atém-se por um longo tempo a esse homem, que 
era cego e foi um brilhante matemático e físico de seu tempo. Mostra profunda admiração 
pela intelectualidade e pelo caráter do matemático, alegando que “Saunderson morre como se 
houvesse visto” (DIDEROT, 1979, p. 20). Essa declaração é vista também como uma crítica 
às pessoas que enxergam e por isso, julgam saber mais que as outras. 
No decorrer da obra, o filósofo francês se mostra curioso em descobrir como um cego 
congênito perceberia o mundo se lhe fosse restituída a visão. Para tanto, lança mão de uma 
série de questionamentos relativos à utilização dos sentidos, principalmente à cognição que o 
tato proporciona aos homens, quando aperfeiçoado. Não se contendo apenas em 
questionamentos, Diderot se propõe a esclarecê-los, ainda que de maneira subjetiva e às vezes 
insegura, mas mostrando seu perfil crítico e reflexivo a respeito dos assuntos que se propõe a 
discutir. Vale ressaltar, ainda, seu grande interesse em perceber na diferença a graça 
necessária à vida. Interessa-se por tudo o que a sociedade de seu tempo recrimina, e desse 
modo, sua filosofia é sem dúvida, revolucionária, pois embate opositores na busca de seu 
ideal". 



2 comentários:

  1. Diderot Denis - Carta Sobre Los Ciegos Para Uso De Los Que Ven
    descargar http://ebiblioteca.org/?/ver/107804

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  2. Não estou conseguindo ler. O fundo me deixa cego, impossibilitado e perdido no meio das letras.

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