"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 26 de janeiro de 2013

As mulheres da Índia e as facas...

As facas sempre estiveram presentes na longa e ziguezagueante marcha do homo sapiens. Em minha casa de infância havia, além de uma espada, uma faca especial em forma de punhal, com bainha de couro e uma lâmina de causar arrepios... E naquela época todos os homens tinham a sua, prateada, personalizada... nem que fosse apenas para limpar-se as unhas ou para ressaltar as supostas qualidades fálicas. De vez em quando matavam um aqui e um ali a facadas. Arma branca, diziam. Nunca entendi por que a faca era e é chamada arma branca, mesmo quando é inox, preta, cinza... Os paraguaios que viviam por lá tinham fama de serem experts na briga de faca... Assisti dois deles num duelo às margens do Lago de Ypacarai. Um morreu caído com a cara nas margens, o outro, agarrou-se a um arbusto e ali ficou para sempre... Ouvíamos de nossos preceptores: ou você os abate ainda quando estão a uns dois metros de distância ou... já era! Nos mercados de praticamente todo o mundo, prestem atenção, sempre há um setor especializado em facas. Na Índia, onde um partido de Bombaim acaba de distribuir milhares delas às mulheres, para que se defendam dos estupradores, os modelos são os mais variados e exóticos. Comprei uma quando circulei por lá e que fica sempre aqui sobre a mesa onde escrevo. Cabo e bainha de madeira, uns rebites de alumínio e uns floreados em vermelho. A lâmina é de ferro vagabundo, como se tivesse sido aproveitado de algum outro material. Um senhor as vendia na rua. Levava umas cinquenta penduradas no corpo. Para demonstrar a qualidade do material, escolhia uma de seu acervo e a lançava com maestria numa parede ou numa árvore. A faca saia como um raio de sua mão direita e em instantes estava cravada lá no alvo... Poderia facilmente acertar o coração de alguém a uns cinco metros de distância. Dizia. Esse mesmo senhor vendia também umas minúsculas balanças da época áurea do ópio... pequenas preciosidades que vinham dentro de uma caixinha de madeira, os pratos de cobre sustentados por barbantes e cujos pesos eram no formato de elefantes que iam do tamanho de um grão de feijão ao de uma amêndoa...
Mas acabei desviando do assunto principal: as facas distribuídas às mulheres indianas, para se defenderem dos estupradores! Se hoje se estupra desse jeito por lá, imaginem como devia ser na época em que o poeta Valmiki produziu seu Ramáiana, texto imenso onde relata, entre outras bizarrices, a história do príncipe, Rama de Ayodhya, cuja esposa Sita é abduzida pelo demônio...
Uma faca para defender-se do pênis! As pacientes de Freud 'falavam' em tesouras e na inveja desse órgão feito para mijar e para fecundar, mas que também estupra! Quê demônios devem habitar a mente de um estuprador? Com que lógica decide invadir o corpo de alguém e mais, ejacular dentro dele? O que farão as mulheres com essas facas? Serão capazes de cortar a cabeça do "amante" como quem corta a de um porco? Como determinarão os limites entre uma legitima proposta amorosa e a trapaça do estupro? Como elaborar essa desconfiança mútua? Onde ficaram os inventores do suposto amor?

Nenhum comentário:

Postar um comentário