"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Não sei se Lacan ainda insistiria na tese de que: SÓ A CIÊNCIA É SUBVERSIVA...



Por aqui ainda se ouvem os ecos do escândalo da semana passada, quando um “psicanalista” foi acusado de racismo contra a moça da bilheteria de um cinema. A Tevê tem mostrado repetidamente e com um certo sadismo as imagens daquele pobre homem com mais de 60 anos fugindo dos guardas pelos labirintos do shopping. Prestem atenção como quando alguém dessas áreas nebulosas comete algum deslize ético/moral, o resto dos mortais parece orquestrar rapidamente uma espécie de inquisição vingativa contra ele. Até mesmo algumas das inúmeras associações e sociedades (psi) da cidade entraram em gozo e burburinho com a desgraça do colega. Quem é o Sujeito do Cogito resmungavam uns lacanianos... Enquanto na outra esquina, os de uma confraria oposta seguiam brigando para saber se o Sintoma é mesmo um Significante ou se o Significante é que é um Sintoma... Acusações daqui, malignidades dali. Farpas, ironias e injurias de um lado, atos defensivos e vingativos de outro sempre com abundância de veneno em fermentação. Disputas comerciais. Reuniões secretas. Análises intermináveis. Freud e Fliess invocados em ambientes sombrios. Dizem que até Pavlov e Madre Teresa de Calcutá apareceram numa sessão didática e que Lacan, portando um chicote com um nó górdio na ponta teria incorporado numa febril analisanda... 
Enquanto isso... o dia-a-dia da saúde mental tanto na cidade como na periferia (apesar dos relatórios da Secretaria de Saúde) continua semelhante ao que existia antes de Pinel. Mas saúde mental nem sequer entra no orçamento dos governos... O que é a saúde mental? - Insistem com altivez e descaso os burocratas. A situação é tão grave que por melhor que escrevas e por melhor que te esforces para descrevê-la tua descrição ficará sempre muito abaixo da realidade... Não acreditas? Vá conferir.
Curioso é que só em Brasília existem umas quarenta ou cinquenta entidades do gênero. Umas oriundas de Freud, outras de Lacan, outras de Jung, outras de Reich, outras de Kraepelin, outras de Melanie Klein, outras de Ana Freud, outras de Pichon Rivière, outras de Bleuler, outras de Erich Fromm, outras de Winnicott, outras de Skinner, outras de Chico Xavier, outras que agrupam quatro cinco desses especialistas, umas que são psicodramáticas, outras que se dizem ortodoxas, outras heterodoxas, outras ecléticas e holísticas, outras sectárias, outras herméticas, outras mais profanas, umas selvagens, outras semi-religiosas e umas que até são ministradas por pastores evangélicos. Outros, chamados erroneamente de "psicanalistas", se dizem especialistas em "vidas passadas" e existem também os que consideram Cristo o maior psicólogo, não apenas da palestina, mas de todos os lugares e tempos. Umas dessas confrarias só aceitam “doutores” em suas fileiras, outras que inclusive acendem velas durante suas sessões, abrem seus saberes sem preconceitos até para vigilantes e taxistas etc. Os leigos e a mídia vivem se confundindo e ainda não diferenciam muito bem um psicólogo de um psicanalista, um psicoterapeuta de um psicopedagogo, de um psiquiatra, de um pai de santo, de um curandeiro, de um vigário e até mesmo de um neurologista. O conhecido João de Deus, lá do interior de Goiás, segundo seus pacientes, condensa em seu curriculum praticamente todos esses títulos, sem falar dos Honoris causa... 
Reconheço que realmente nessa área não é fácil distinguir uns profissionais dos outros. Entre eles próprios há uma fronteira invisível, uma guerra silenciosa, uma disputa por pacientes e uma barreira afetiva quase intransponível. A qual deles pertence, afinal, o domínio do cérebro? Do Sistema Nervoso Central e dos hormônios? A quem compete transitar pelas sinapses, "descer" ao inconsciente dos pacientes ou interpretá-lo quando ele encarna na penumbra do oráculo? A quem compete lidar com as emoções? Com os instintos? Os sintomas? A alma? O espírito? A dor? Os afetos? As fantasias? A loucura? A desgraceira social e o ódio dos pacientes? 
Cada um com sua Linguagem, com seus Métodos, Técnicas, Marcos Teóricos e Protocolos, esses "doutores da alma" seguem perdidos e enclausurados em seus solitários consultórios improvisando e se digladiando ao redor do duvidoso e suposto saber ao mesmo tempo em que se esforçam para acreditar que a verdade está de seu lado. Alguns, inclusive, nesta terra sem lei e sem rumo, quando questionados sobre a veracidade de sua “ciência” se escudam na velha e anedótica indagação do soldado romano: afinal... o que é a verdade?

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