"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Compra-se esmeraldas, safiras, rubis, turquesas persas, ouro e jade... Sigilo absoluto e dispensa-se comprovação de procedência do material.








O assalto aos 170 cofres privados do Banco Itaú da Avenida Paulista tem causado uma espécie de comiseração, de cobiça, de inveja e de secreta satisfação na população pelo país a fora. O roubo em si, a audácia, a confiança e a identidade dos ladrões parecem ser o que menos interessa no momento. Se os autores são da própria polícia, do próprio banco, gangues latino-americanas de ourives ou até mesmo alguns dos locatários das tais botijas, isto é secundário. O que todo mundo está legitima e perversamente querendo saber são detalhes, pormenores e particularidades sobre as origens dos milhões que alguns senhores e que algumas senhoras anônimas "enterravam" lá, principalmente em safiras, rubis, diamantes, turquesas da Pérsia, pérolas japonesas, pedras diversas saqueadas das minas da África do Sul, ouro em pó e etc. Como teriam conseguido tudo isso? É possível ter três milhões em joias sem roubar? É até cômico ouvir pessoas simplórias desempregadas há décadas ou que faturam mensalmente menos que um salário mínimo discutindo essas questões, especulando sobre o valor real das pedras colombianas, indianas, africanas e até mesmo o seu significado histórico. Para que serve e o que significa um bracelete repleto de rubis, as argolas de ouro, diademas e brincos cravejados de esmeraldas? No passado eram amuletos - esclarece alguém mais erudito, peças de magia usadas para proteger as cavidades e os buracos do corpo - nariz, ouvido, boca, olhos, os músculos da xota e os esfíncteres do rabo. Mas hoje... Percebo, não sei se por pura inveja ou por algum resquício de consciência primitiva, que a maioria da população está do lado dos bandidos e que considera as “vítimas” muito mais ladras e cínicas que os próprios assaltantes. Como é possível ter dois três milhões em pedras preciosas (escondidas) sem ser um gatuno? – Indagava o porteiro do prédio. Outro se perguntava: Mas então, o que chamam capitalismo selvagem ou monarquia disfarçada é esse trafico de pedras? Outro, um pouco mais ilustrado, mas que também tem quatro filhos e ganha seiscentos reais por mês depois de mencionar a famosa máscara de jade de Montezuma e o areópago de Atenas, lembrava que os chefes sertanistas e bandeirantes, alguns até considerados babacamente heróis nacionais, só tinham dois objetivos em suas andanças pelas entranhas da pátria: pisotear os quilombos e rapinar ouro e pedras preciosas. Todos pertenciam à escola do bandido Cortez que declarava abertamente: Yo no vine aqui para cultivar la tierra como un labriego, sino para buscar oro. E o papo normalmente termina com a confortante conclusão de que, como nenhuma dessas pedras e desses metais preciosos podem ser comidos, ingeridos e digeridos, ficarão eternamente girando por aí, pelos cofres sujos das corriolas do mundo, de mãos em mãos, de brechó em brechó, de covil a covil, turbinando a vaidade, o narcisismo e os delírios das mais sofisticadas categorias de miseráveis.

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