"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 2 de maio de 2009

Não teremos tudo demolido se não demolirmos inclusive as ruínas


Os donos de jornais, de televisões, de rádios e de outras das nossas “armas de desinformação de massa” estão eufóricos com a decisão do STF que jogou no lixo a velha e esdrúxula Lei de Imprensa engendrada pelos militares durante o período tresloucado da Ditadura Militar. Tanto os pastores da OAB como os vigários da ABI comemoram esse feito como uma CONQUISTA IMENSA DA DEMOCRACIA. Tudo bem. Idealizar e papaguear não é crime. Entretanto, acreditamos que ou há uma ingenuidade de fazer pena ou um mau caratismo desprezível nessa euforia, pois conhecendo as origens da imprensa no país e os donos atuais da mídia, a maneira como se fez as concessões nessa área, à promiscuidade entre mídia e seitas, mídia e governantes, mídia e o mundo empresarial, mídia e propaganda etc., não se deveria ser tão otimista assim.

É fútil e perigosa nossa tendência “bipolar” de transitar do queixume para o deslumbre sem grandes questionamentos. Com um caráter lusitano de base histeróide tendemos a pular cegos e eufóricos de uma ditadura a outra acreditando que se está fazendo a revolução ou pelo menos evoluindo. Já conhecemos a ditadura imperialista, a monarquista, a escravista, a médica, a clerical, a militar... Por que não experimentar agora a ditadura de imprensa? O totalitarismo dos alunos de letras e dos chefetes de redação? E pouco importa se a manipulação vier da imprensa palaciana, da imprensa sindical, empresarial, acadêmica, clerical etc., cada uma tem sua troupe muito bem adestrada e dezenas de emissoras pelo país afora cumprindo rigorosamente a obrigação de educar o populacho para o consumo e para a submissão. Odiamos com a mesma força tanto a ditadura fardada e burra como a ditadura civil esclarecida, pois tanto uma como a outra são ditaduras da passividade e da normalidade. E é importante saber que o tal Big Brother que já esteve vigilante lá na sacristia e lá nos porões, pode muito bem, e com a mesma eficiência deslocar-se para a sala de redação.

Não, o totalitarismo midiatico não é uma ficção impossível, principalmente quando se sabe que as pautas são quase sempre definidas por interesse dos chefões da empresa e que a auto-censura dos repórteres (para não perderem o emprego), é tão nefasta como a que era feita pelos odiosos mentecaptos do passado.
Quem é que não entende que é sempre um ato vil e tolo papaguear-se por trocar a prepotência armada pela onipotência cult ou vice-versa?

Enfim, a idéia é esclarecer que liberdade de imprensa não quer dizer necessariamente liberdade de expressão e muito menos incenso para a democracia. Para compreender isso, se você é um Zé Ninguém tente publicar uma opinião, uma crítica, um bilhete, um artigo na dita grande imprensa do país. Não conseguirás. A não ser que ele seja morno igual ao mijo de vaca, que seja de interesse dos donos daquele jornal, do stablishment que o sustenta e, principalmente, que não fira a “honra” das corporações, nem de seus anunciantes, que não coloque em dúvida nenhum dos cânones medievos que essa sociedade bovina faz questão de cultivar.

- Ah, mas vão dar direito de resposta aos caluniados?
- Ah, mas os juízes vão criar jurisprudência quanto às indenizações para danos morais?

Ora, não sejamos idiotas. Que se fodam os danos morais! Que se fodam as indenizações! O que nos preocupa e nos encoleriza é ter que seguir vinte e quatro horas por dia sob o fogo cruzado desses especialistas em propaganda enganosa e, o pior, a vida inteira submissos ao suposto saber dessas máfias.


Ezio Flavio Bazzo

Recomendo assistir o seguinte video: http://www.youtube.com/watch?v=_QSQ__mmwyU

2 comentários:

  1. Não ficou claro se o artigo defende alguma forma de controle externo à imprensa. Se sim, cabe a pergunta: who would watch the Watchmen?

    De qualquer forma, ainda que grandes mídias possam publicar apenas o que está de acordo com sua linha editorial (algo esperado), em épocas de acesso praticamente irrestrito aos blogs, não se pode mais dizer que é impossível publicar uma opinião.

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  2. televisão, rádio, jornal, revistas, internet. entidades fantasmagóricas que isentam seus donos de suas responsabilidades. meios de comunicação e cumplicidade entre manipulador e manipulado. palavras e imagens parindo medos, fantasias, fobias, ilusões. tudo é banal, porém ocultam perigos. por exemplo, as abelhas européias são mais dóceis que as abelhas africanas (racismo); gripe asiática sim, não gripe aviária e gripe suína sim, não gripe norte-americana (xenofobia); etc. porém, quem é que diz tudo isso? novas pesquisas, informantes anônimos? nenhuma sujeito é encontrado. artistas vendilhões, cientistas por encomenda, políticos fantoches, empresários sacralizados e profetas televangélicos? todos empenhados apenas na ocupação permanente de nossas cabeças. e o congresso que interesses têm? rever os critérios? abrir a discussão para público das anomalias normativas da lei de concessão e permissão para a radiodifusão? revelar quem são os donos e os sócios de emissoras de rádio e tv e da mídia impressa? e a internet? quanto custa manter a possibilidade de se ter acesso a outras fontes e também de criá-las? prestações nas casas bahia? fatura da conta de banda larga e provedora? wireless em algum buteco? essa lei de imprensa nada mais é do que um tema de interesse da corte, que nada diz respeito a seus súditos. pois, enquanto isso... sob a desculpa da interferência em aeroportos, a anatel e a polícia caçam as rádios-piratas em todos os buracos; sob o álibi da pedofilia e da propriedade autoral, caçam a liberdade de expressão e a troca de informação e conhecimento na internet. quanto ainda o público assistirá pacificamente instrumentos de liberação se tornarem instrumentos de opressão? quanto ainda há, antes que se comece a caça à fauna dos responsáveis direto pela grande mídia corporativa?

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