"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 24 de maio de 2009

Fragmentos do Manifesto aberto à estupidez humana



I. JÁ SENTISTE, PELO MENOS UMA VEZ, O DESEJO DE CHEGAR TARDE A TEU TRABALHO E DELE SAIR O MAIS CEDO POSSÍVEL?

Neste caso compreendeste que:

a) O tempo de trabalho tem peso duplo, porque é tempo perdido duas vezes: como tempo que seria mais agradável se empregado no amor, no sonho, nos prazeres e nas paixões, por um lado, e como tempo de desgaste físico e mental, por outro.

b) O tempo de trabalho absorve a maior parte de nossa vida, uma vez que determina também o tempo chamado “livre”, o tempo de ócio, de transporte, de almoço, de distração. Desta maneira, atinge o conjunto da vida cotidiana de cada pessoa e tende a reduzi-la a uma sucessão de instantes e de lugares que possuem em comum a mesma repetição vazia e a mesma e crescente ausência de vida.

c) O tempo de trabalho “forçado” é uma mercadoria. Em qualquer parte onde exista mercadoria, existe trabalho forçado e quase todas as atividades, pouco a pouco, vão se aliando a ele: produzimos, consumimos, comemos e dormimos para um patrão, para um chefe, para o Estado, para o sistema da mercadoria generalizada. Sem falar que trabalhar mais é viver menos, etc.

...e já lutas, conscientemente ou não, por uma sociedade que assegure a cada um o direito de dispor por si mesmo do tempo e do espaço, de construir sua própria vida, como a desejar.



II. JÁ SENTISTE, PELO MENOS UMA VEZ, O DESEJO DE NÃO TRABALHAR MAIS, SEM QUERER FAZER COM QUE OUTROS TRABALHEM PARA TI?

Neste caso, compreendeste que:

a) Se o trabalho forçado produzisse apenas bens úteis, tais como vestidos, alimentos, técnica, etc., nem por isso seria menos opressor e menos desumano, porque o trabalhador seguiria sendo alienado de seu produto e submetido às mesmas leis trabalhistas em proveito do poder. O trabalhador continuaria passando no trabalho dez vezes mais do que o tempo necessário para uma organização atrativa e criativa, capaz de colocar à disposição de todos um número de bens cem vezes maior.

b) O objetivo do sistema mercantilista que domina em todas as partes, não é, como pretendem nos fazer crer, produzir bens úteis e agradáveis para todos... Sua finalidade é produzir mercadorias, independente do que estas possam ter de útil, inútil ou contaminante. As mercadorias não têm outra função além da de manter o lucro e o poder da classe dominante. Em um sistema como esse todos trabalham para nada e cada vez possuem mais consciência disso.

c) Acumulando e renovando as mercadorias, o trabalho aumenta o poder dos patrões, dos burocratas, dos chefes, dos ideólogos. Converte-se dessa forma, em desgosto dos trabalhadores. Toda interrupção do trabalho é uma maneira de voltarmos a ser nós mesmos e um desafio àqueles que nos escravizam.

d) O trabalho alienado produz apenas mercadorias e toda mercadoria é inseparável da mentira que representa. O trabalho alienado produz mentiras, produz um mundo de falsas representações, um mundo ao avesso, no qual a imagem ocupa o lugar da realidade. Neste sistema espetacular e mercantilista, o trabalho alienado produz duas mentiras importantes, relacionadas com ele: a primeira é que o trabalho é útil e necessário e que trabalhar é de interesse de todos; a segunda é pensar que os trabalhadores são incapazes de emancipar-se do trabalho e do salário, como se não pudessem edificar uma sociedade radicalmente nova, fundada na criação coletiva e atraente, e sobre a autogestão generalizada.

...e já lutas, conscientemente ou não, por uma sociedade onde o trabalho alienado deve dar lugar a uma criatividade coletiva, regulada pelos desejos de cada um e pela distribuição gratuita dos bens necessários para a construção da vida cotidiana. O fim do trabalho alienado significa o fim do sistema onde dominam o proveito pessoal, o poder hierarquizado e a mentira geral. Significa o fim do sistema mercantilista e o começo de uma mudança global de todas as preocupações e da harmonia das paixões, que, por fim liberadas e reconhecidas, vão substituir a corrida neurótica pelo dinheiro e pelas migalhas do Poder.


III. JÁ TE ACONTECEU SENTIR FORA DO LUGAR DO TRABALHO O MESMO DESGOSTO E A MESMA APATIA QUE SENTES NA EMPRESA?

Neste caso, compreendeste que:

a) A empresa está em todas as partes. É o amanhã, o metrô, o carro, a paisagem destruída, a maquina, os chefes, a casa, os jornais, a família, o sindicato, a rua, as compras, as imagens, o pagamento, a televisão, a linguagem, a escola, o matrimônio, a depressão, o hospital, a noite. É o tempo e os espaços da sobrevivência cotidiana. É o condicionamento aos gestos repetidos, às paixões reprimidas e vividas por procuração através de imagens.

b) Toda atividade reduzida à sobrevivência é um trabalho forçado. Todo trabalho forçado transforma o produto e o produtor em objeto de sobrevivência, em mercadoria.

...e já lutas, conscientemente ou não, por uma sociedade onde as paixões sejam tudo, o aborrecimento e o trabalho nada. Até hoje, a luta pela sobrevivência nos impediu de viver. Agora, a partir de agora, queremos inverter as coisas e desfrutar de uma felicidade real, do prazer soberano, o mais distante possível das mentiras instituídas.

Ezio Flavio Bazzo

3 comentários:

  1. Estes fragmentos que se encontram no final deste excelente livro do BAZZO, são reflexões muito interessantes sobre a vida. O livro sacode o leitor e os fragmentos amparam.

    ResponderExcluir
  2. i. infelizes trabalhadores que precisam de direitos para serem algo, já nós, felizes vagabundos simplesmente somos;
    ii. enquanto há hierarquia há violência organizada. desorganizemos o dever de obediência e nos organizemos por uma indiferença radical pelo poder;
    iii. e agora? onde tudo é entretenimento. da ocupação permanente do trabalho, à ocupação permanente das paixões. tudo o que é entusiasmo e prazer reduzido ao trabalho forçado de ter que se entreter.

    ResponderExcluir
  3. Agora imagina a seguinte situação:
    1-Morar em um cidade que não se gosta;
    2-Se deslocar em transportes que se odeia;
    3-Ir para uma Empresa que dá náuses;
    4-Conviver oito horas do dia com gente que dá nojo;
    5-Permanecer "presa" em uma Empresa na qual não há nenhuma expectativa de melhoria (profissional e pessoal);
    5-Entrar nessa merda já querendo ir embora, e acompanhando os ponteiros do relógio;
    6-Sair da Empresa sem ter lugar para ir, e nem casa para ficar;
    7-Não ter ninguém nem para reclamar(técnica de isolamento social);
    8-Não ganhar o suficiente para bancar nada que pudesse ser atrativo, como uma viagem, por exemplo;
    9-Saber que está "full time" monitorado - privacidade ZERO;
    10-Ter ódio de si mesma, por estar vegetando, e não ter coragem suficiente para deitar e apagar de vez...
    QUE DIABO É ISSO? CHAMAM DE VIDA?

    ResponderExcluir