"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 30 de maio de 2009

Está lá no livro das maldições: a cada nova árvore derrubada, mais mil anos de indigência.


Figuras quase medievais vindas de todos os cantos do país troteavam felizes nesta quarta-feira de sol pela Esplanada dos Ministérios. Umas, iam enfiadas em seus chapéus, outras ocultas atrás de seus ray bans, quase todas brincando com seus celulares, com suas bandeiras ou com seus rádios. A voz potente dos animadores vinha lá do alto de um caminhão fazendo todo mundo repetir em coro: Somos o grito da terra! Frases feitas e chavões inocentes que iam se confundindo ao ruído das hélices do helicóptero da PM, às sirenes das viaturas e ao trânsito caótico e congestionado com os DAS4 ao volante, as cabeças para fora, esbravejando, furiosos por ainda não poderem estar em seus respectivos escritórios lambendo as botas de algum DAS6.

Viver aqui nesta ficção urbanóide de Lucio Costa e de Niemayer tem esse tipo de vantagem: quase todos os dias se podem assistir shows diferentes. Hoje são eles, ontem foram os aposentados; depois de amanhã serão os Sem Terra; os Sem Teto e depois serão os latifundiários com suas ceifadeiras agrícolas. Na semana que vem serão os criadores de zebus; depois os peões amazônicos com suas afiadas motos-serra e as cortesãs da DASPU. No início de junho as mulheres de militares; os meninos de rua; depois as caravanas de vereadores; depois vem Corpus Christi; o Dia do Orgulho Gay; depois a UNE e os atingidos por barragens. Depois virão os simpatizantes da Coréia do Norte; das feministas; do emplacamento das carroças do DF; do uso das células-tronco; os que combatem o aborto e a eutanásia e os que defendem a libertinagem dos padres. Numa terça feira-qualquer aparecem os funcionários de cassinos, há outro tratoraço, desfilam os ex-combatentes e no mesmo dia os professores injuriados ameaçam suicidarem-se. Sem falar que pode estar em pauta para o próximo semestre a vinda dos seringueiros, dos flagelados de Santa Catarina e do Ceará, os índios Xavantes, os que são contra a transposição do Rio São Francisco etc.. Curiosamente, nas longas décadas que habito este deserto nunca vi uma passeata de banqueiros, nem de comerciantes, de juízes, de senadores, deputados etc., nem de donos de imobiliárias, de pastores de padres e nem de jornalistas.

O caminhão estacionou em frente ao Ministério do Meio Ambiente. Primeiro discursaram os líderes do movimento, depois o Ilmo.sr. Ministro. Os discursos (sobre a devastação das florestas) foram impecáveis, cordiais, politicamente corretos e quase religiosos. Duvido que algum político finlandês ou norueguês se atreva a idealizar e a papaguear tanto. Enquanto assistia a aquele show de frases e de palavras ia lembrando não apenas que a selva amazônica está permanentemente em chamas, mas também daquilo que Cioran tanto nos prevenia: “quanto mais bem formuladas estejam as idéias, quanto mais explícitas elas forem, menor será sua eficácia e uma idéia clara é sempre uma idéia sem futuro”.

Se pelo menos cinco por cento do que se garganteia aqui nos trópicos fosse cumprido e realizado já teríamos arrancado o país dessa penúria e desse campo penitenciário em que se encontra e não apenas as árvores seculares da Amazônia, mas o cerrado, a caatinga e a mata atlântica com seus rios, com suas fontes e com seus porcos-espinhos já estariam a salvo de nossas unhas, de nossas mandíbulas e de nossas taras.

Ezio Flavio Bazzo

2 comentários:

  1. Caro Bazzo, você está certíssimo, é muito barulho para pouca chuva e a vida vai virando este circo onde tudo até parece sério, mas na verdade, não é.

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  2. pois, bem lembrado. porquê não vemos "uma passeata de banqueiros, nem de comerciantes, de juízes, de senadores, deputados etc., nem de donos de imobiliárias, de pastores de padres e nem de jornalistas"? seria por causa do parlamento negócio? onde bancos e financeiras "dão nota", "avaliam" riscos e manipulam números e prognósticos batizando tudo isso de "avaliações imparciais"? seria o congresso um famigerado grupo de pressão que age sobre si mesmo? onde parlamentares interessados procuram convencer individualmente seus colegas, às margens das lideranças e das divisões partidárias? seria a cnbb e a bancada evangélica os mais ativos e eficientes grupos de pressão nos bastidores? onde os interesses da "alma" tem a mesma presunção e limite de legitimidade que os interesses humanos demasiadamente humanos? seriam os jornalistas abutres ávidos por nos fazer sentir a realidade em seu mais alto grau de banalidade? onde palavras fúteis e imagens "exclusivas" criam fantasias, medos, fobias, representações falsas e outros sedativos? ah, esses senhores do tempo e da lei... o que fariam se seu povo gozasse de boa saúde, de educação de qualidade e estivessem de barriga cheia? ou melhor! seria o povo capaz de sair de sua própria miséria existencial?

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