domingo, 23 de janeiro de 2000

A Teatralidade da Vida Amorosa


O que se conhece por «relacionamento aberto» não é em sí nem melhor nem pior do que os relacionamentos tradicionais e monogâmicos, já que a questão fundamental de uma vida amorosa prazeirosa não passa pela forma, mas pelo conteúdo das relações. O que observamos na escuta clínica, é que as pessoas que conseguem relacionar-se bem com seu desejo, com seu corpo e com sua própria sexualidade, têm sempre maiores possibilidades de construir com o Outro um relacionamento amoroso satisfatório, seja ele da forma que for.


É importante notar que o que muitas vezes está subjacente em relacionamentos abertos, é a incapacidade de separar-se. Quase sempre são relações que não têm mais nada de «amorosas», onde o casal de amantes transformou-se numa «sociedade»: sócios da casa, dos filhos, do carro, etc., e que acham mais cômodo não desfazer a parceria. Outras vezes, essa necessidade de ter relacionamentos paralelos, está ancorada na incapacidade de um ou outro parceiro (ou dos dois) de desfrutar prazeirosamente da própria sexualidade, ou por frigidez ou por impotência, por disputa sexual entre os parceiros, pela intromissão de fantasîas pré-genitais conflitivas durante o ato, por raiva inconsciente do desejo e do prazer do outro, etc. etc. Já que às vezes, as espectativas ou as exigências sexuais de um dos parceiros com quem se co-habita vão se transformando em formas insuportáveis de controle e de repressão sexual.

Considerando que o gozo feminino, ainda hoje, em pleno ano 2000, é ainda um tabu, e que a maioria absoluta das mulheres ainda não consegue gozar sem sentir-se culpada, degenerada e puta, a nível de discussão, poderia-se perguntar: até onde o «relacionamento aberto», ao invés de uma alternativa ao «casamento tradicional», não é mais um truque do mundo masculino para «remediar» a incompatibilidade amorosa doméstica?

Ezio Flavio Bazzo

sábado, 23 de janeiro de 1999

Fragmento erotico


Estávamos casualmente na mesma fila. Nos olhamos, trememos dos pés à cabeça. Ela bem mais jovem do que eu, uns vinte e cinco, no máximo. Aquele tipo de menina que você sabe de antemão o que leva por debaixo das roupas. Ali mesmo beijei-lhe as costas nuas. Ela ficou imóvel, como uma estátua do Kamasutra hindu. O cartão de crédito preso delicadamente entre os dedos, finos, limpos, sem nenhum vestígio daqueles cremes pegajosos que as mulheres gostam de usar.

Saquei cinqüenta reais, ela sacou quatrocentos. Saímos em silêncio, lado a lado, até seu carro estacionado junto ao meio fio do Teatro. Entramos e ela beijou-me longamente a boca, os dentes, a língua, aponta dos dedos. Mandou-me colocar o cinto e rumou para a Esplanada dos Ministérios. Lembro-me bem que, quando passamos em frente à Catedral, eu já estava com a mão direita enfiada dentro de sua calcinha de seda, um pouco folgada... Os quatro apóstolos de mármore pareciam de vidro e levitavam no meio das nuvens... Ministério da Reforma Agrária... depois o MARE... depois o Ministério da Saúde.... Alguns turistas de boca aberta diante do Itamarati, ciclistas, um fotógrafo japonês buscando ângulos... O carro parecia não ter motor... Era um sábado, umas onze horas da manhã...

Entrou no estacionamento do Congresso Nacional e parou à sombra das palmeiras. Acompanhe-me, murmurou, quase sem voz. Dois gansos deslizavam maliciosamente sobre as águas, subimos a rampa, o guarda ficou com a identidade dela e nos embrenhamos por aqueles corredores impessoais, frios, desertos. Num determinado momento ela parou uns segundos para bolinar-me a baguete já meio molhada. Subimos umas escadas, dobramos à esquerda, depois à direita, mais adiante à esquerda novamente e eis que estávamos diante da porta do gabinete de um Senador da República. Quando li o seu nome, senti que ia broxar, mas assim que ela abriu a porta e nos refugiamos lá dentro, relaxei por completo. Cheiro de cigarro, uma térmica aberta, copos de cristal com restos de vinho branco. Ainda na ante-sala, lançou-se sobre mim como uma paixão que nunca havia visto antes. Colocou-se de joelhos para morder-me o pau por cima das calças. Depois, em pé, abriu os botões de sua blusa verde abacate e levou minha boca até seus seios... Não sei como, mas lembro que ouvi, exatamente nesse momento, um relógio badalar doze horas...

Nos arrastamos para a sala do lado, uma sala bem maior, com uma janela semi-aberta, uma cortina branca e, para minha surpresa, no centro da parede do fundo, uma foto imensa do tal senador, seu avô. Não tive dúvidas de que aquele rosto em preto e branco, e aquele olhar ao mesmo tempo servil, arrogante, cínico e coronelesco me intimidava. Sobre a mesa um corta-papel de puro ouro, uma Constituição com capa vermelha, o Código Civil e oito ou dez cartas, abertas, com frases sublinhadas em amarelo... O sofá de couro, apesar de cômodo, grudava exageradamente em nosso corpo suado e identifiquei nele, de imediato, o cheiro inconfundível de políticos e de correligionários de todas as naturezas... Ela estava praticamente desfalecida... Já como uma ave ferida, ia e vinha por todos os continentes de meu corpo mas como quem já não tem mais comando de si mesma... De minha parte, se ainda não tinha gozado, o devia, até certo ponto, àquele ambiente mórbido... e, basicamente, àquela foto... Do sofá para o piso, na vertical, na horizontal, de joelhos, de costas, 69, cadeira chinesa...

Depois, completamente fora de mim, tomei-a nos braços e a levei delicadamente até a mesa do Senador... Lembro que seu corpo branco, nu, suado e excitado contrastava inteiro com aquela mesa de mogno... Ela mordia minhas mãos e depois as levava para o meio de suas pernas. Abria com meus dedos a porta de seu tesouro para que eu sorvesse suas riquezas... Dizia frases perdidas, apaixonadas e desconexas... Ah, e foi naquele momento que descobri que as mãos não foram, em hipótese nenhuma, feitas para o trabalho... Pedia, implorava, suplicava minha língua... E quando eu a atendia pronta-mente, ela implorava a penetração... mas, com um pormenor: queria que eu o fizesse recitando uma poesia da portuguesa Florbela Espanca... Senti horror dessa idéia. Não que eu seja radical, mas a poesia da Espanca era, para mim, algo horrível, carola, incompatível com qualquer trepada...

O senador estava atento. Assistia incólume um eleitor anônimo enrabando sua neta, ali, justamente ali sobre suas pastas e agendas republicanas... O silêncio era absoluto, não fosse a fúria de nossos músculos que se chocavam. Estou em pé na beira da mesa... entro e saio de seu corpo como um meteoro que sabe o dia e a hora que chegará ao seu destino. Não era possível que alguém já tivesse sentido tanta felicidade....Ela geme, me faz elogios inesquecíveis, reclama uma poesia... Neguei-me rotundamente a recitar a poetisa lusitana... Pensei em Octavio Paz... em Borges... em Jalal Rumi... Mas e se ela tivesse preferência pela poesia de uma mulher? Cora Coralina?... Alma Mahler?

Sinto que vou gozar... Porra! Por quê toda ejaculação é precoce?Por quê o gozo não é lento como as filas do INSS? E isto será um MAL ou um BEM? Não importa. Só queria que este, pelo menos este, se prolongasse até o ano 2000. Em meio à loucura orgásmica, seis linhas ficam de prontidão em minha garganta. Começo a gritá-las, para ela, para mim, para o cataléptico, reacionário e corrupto Congresso Nacional:

O Amor? Ele usa duas falsas asas.

Suas flechas são garras.
A coroa encobre pequeninos cornos.
Ele é, também, sem dúvida alguma,
Como todos os deuses da Grécia,
Um demônio disfarçado.

Disritmia! Prolapso da válvula mitral... Esperei o tempo suficiente para recuperar-me, bebi os restos de vinho que havia nos copos, enquanto ela permanecia inerte, os olhos bem abertos, as pernas encolhidas sobre a mesa vazia. Tudo o que havia ali, quando chegamos, agora estava jogado e disperso pelo piso. A Constituição junto com meus sapatos, o Código Civil completamente desfigurado, as cartas, como se sobre elas tivesse sido derramado um tubo de cola... No meio dos oito ou nove livros impecavelmente arrumados no armário, curiosamente, identifiquei o Segundo Sexo, da Simone de Beauvoir. Procurei por quase meia hora o cortador de papel em puro ouro, enfiei-o no bolso, pisquei para o Senador e saí para a Esplanada dos Ministérios, sob o sol tórrido das 15 horas, cantarolando aquele slogan hipócrita do governo: "não dê esmolas, dê cidadania!"

Ezio Flavio Bazzo

Extraído do livro Lênin nos subterrâneos do CONIC

Dymphne: a santa dos loucos e a comunidade psiquiátrica de Geel


[Meus pesadelos mais terríveis são aqueles onde me vejo
refletido num espelho - com uma máscara no rosto]
J.L.Borges

A comunidade psicoterapêutica de Geel, situada a uns quarenta quilômetros de Antwerpen, na Bélgica, e em funcionamento desde o século XII, é conhecida tanto como o "paraíso dos loucos" como a "cidade misericordiosa", cuja padroeira é a santa Dymphne, aquela que e que conforta os "insensatos". Atualmente com seus trinta mil habitantes, Geel é a mais antiga colônia familiar que se tem notícia, dedicada ao acolhimento e tratamento de doentes mentais. Apesar de hoje não se encontrar, aqui quase nenhum vestígio virtual daquela época, época em que os "loucos" vinham em peregrinação de todos os lados, em carroças ou a pé, acorrentados ou soltos, aos gritos ou em total mutismo, quase sempre "enfeitiçados" ou "possuídos pelo demônio", etc., o sistema de acolhimento, de relacionamento e de tratamento, apesar de modernizado e institucionalizado, ainda conserva a mesma filosofia daqueles tempos. Aqui os doentes mentais ao invés de confinados em instituições fechadas, ficam alojados em casas de familias no interior da própria comunidade. Como norma, esse internamento familiar é temporário, mas tornou-se comum os pacientes acabarem vivendo por aqui para sempre. Considerado até pouco tempo atrás como o único local do mundo, onde os pacientes dispunham de um internamento familiar, o sistema de Geel tem ultimamente servido como modelo para aqueles países que lutam para oferecer condições mais "humanas" e mais "dignas" às pessoas que sofrem de algum tipo de transtôrno mental.

A lenda de Dymphne, surgiu por primeira vez em latim, em um documento datado em 1247. Cheia de significados incestuosos, edipianos e místicos, a lenda parece não ter ainda sido explorada como era de se esperar. Dymphne, filha de um rei irlandes, viveu no final do século VII. Apesar de seu pai ser pagão, ela, através da mãe, foi batizada e educada na fé cristã. Após a morte da esposa, decidido a encontrar uma mulher tão linda como ela, mas não encontrando em seu reino ninguém que o satisfaça, o rei resolve casar-se com a própria filha. Quando Dymphne toma conhecimento do desejo incestuoso do pai, fica escandalizada e foge para a Bélgica juntamente com um padre de nome Gerebernus (o mesmo que a havia batizado), o violinista do reino e a esposa deste. Chegando a Antwerpem, por precaução, vão refugiar-se no campo, numa cabana que eles próprios constroem, próximos ao vilarejo de Geel, local onde mais tarde é descoberta e decapitada pelo pai.. Seu corpo foi enterrado ali mesmo, próximo a uma capela dedicada a São Martin. Mais tarde quando os nativos desenterraram seu corpo para transferí-lo para a igreja, perceberam que os ossos estavam protegidos e recobertos por um material desconhecido na região. Da conclusão de que Dymphne havia sido enterrada ou pelo menos protegida pelos anjos, advém tanto a necessidade de considerá-la Santa como a de invocar sua proteção, principalmente contra as doenças mentais, já que ela havia sido vítima do
, seu pai. A partir de então, começam a chegar peregrinos de todos os lados para suplicar cura à Santa Dymphne. Os doentes chegavam a Geel e eram conduzidos a um pequeno barracão construído ao lado da igreja, conhecido por quarto dos doentes ou Liber Innocentium onde permaneciam por nove dias, sob "tratamento": penitências, rezas, expiações religiosas, exorcismos. etc,. Terminada a novena, independente do doente estar ou não, ele voltava para sua família ou permanecia alojado, albergado ou internado junto às famílias e aos próprios moradores da vila. Em muitos casos, os pacientes passaram a viver definitivamente em Geel, criando assim, de maneira espontânea, uma alternativa para os então tenebrosos tratamentos que eram aplicados aos enfermos da mente. Pela dedicação e compreensão que Geel, sob forte influência e domínio religioso dispensa aos doentes mentais, passa a ser considerada a "cidade misericordiosa", e inaugura assim o que hoje se conhece por tratamento familiar terapêutico, uma maneira interessante e eticamente digna de se lidar com a controvertida questão da "loucura". E é importante notar que o sistema psiquiátrico implantado em Geel naquele tempo, antecedeu, e em muito, a revolução psiquiátrica levada a cabo mais tarde, pelo Dr. Pinel, na Salpêtriere. É evidente que a realidade de Geel deve tê-lo influenciado.

Podem ser internados em Geel pacientes de toda a Bélgica, uma vez que as normas básicas exigidas pela comunidade sejam atendidas. Vejamos os passos principais para o acolhimento de um doente:

(a) A admissão dos pacientes:
As instituições que desejam fazer o encaminhamento, devem antes avaliar se o comportamento social do candidato é conciliável com as normas de tolerância da comunidade local; as questões de seguro/saúde do paciente devem estar em dia, para que questões financeiras não venham interferir na importante integração do doente com a família que o aloja. Ao chegar no Hospital Central, o paciente passa por uma seleção e por um contrôle rigoroso antes de ser encaminhado para o internamento familiar. Os relatórios enviados pelo hospital psiquiátrico ou pelas instituições que estão encaminhando o paciente a Geel, relativos à situação psicológica, médica e comportamental do doente, constituem o ponto de partida da seleção. Quando isto não é suficiente, o paciente fica sob a observação do "Comitê de Internamento", composto por médicos, sociólogos, psicólogos e psiquiátras. Após a indicação favorável ao internamento familiar, é ouvido o paciente e seus familiares. Em seguida o paciente e a família que o alojará são apresentados, entram em acordo e o internamento é imediatamente efetuado. Quando necessário, é colocado em prática um processo de integração.

(b) As famílias que alojam os doentes:
As famílias que se propõem a alojar um ou mais doentes mentais em suas casas são famílias comuns da região e das origens sociais mais variadas. Frequentemente são pessoas acostumadas, desde a sua infância, a visitar ou até mesmo a conviver com pessoas portadoras de algúm tipo de doença mental, e que não vêem nenhum tipo de impedimento nem de risco nesse tipo de convivência. São famílias que normalmente dispõem de um quarto para alugar, que necessitam complementar sua renda financeira ou mesmo que estão dispostas a tornar menos monótono o seu cotidiano. Depois de candidatar-se junto ao hospital, a família passa por uma entrevista onde vai se verificar a localização e as condições de sua casa, o seu comportamento social, a presença ou não de eventuais doenças transmissíveis, sua vida familiar, etc.

(c) Como é feito o atendimento:
O município de Geel é dividido em 15 bairros e cada um deles é atendido por equipes específicas, que se deslocam diariamente em transporte particular ou coletivo para supervisionar e dar assistência aos 800 pacientes que vivem distribuídos por todos os bairros. A esta supervisão feita pelo médico e pelo enfermeiro cabe fundamentalmente observar o modo de coabitação do doente no seio da família bem como seu estado de saúde, tanto física como mental. Os medicamentos necessários são fornecidos pela instituição central, bem como quaisquer outras formas de terapias que sejam recomendadas, tais como: terapia da motricidade, kinésiterapia, logopedia, ergoterapia e terapia criativa. Também podem ser recomendadas psicoterapias, em grupo ou individuais, que podem ser ministradas no hospital central ou em uma das casas do bairro. Os pacientes podem solicitar assistência ao hospital central durante as 24 horas do dia, tanto para uma simples consulta como para um internamento de urgência. Enfim: ações integradas, uma política e uma filosofia de saúde parecem, por si só, facilitar o
e, como escreveu Pierre Morel, fazer com que o destino trágico da pobre Dymphne não tenha sido em vão.
Para nós, no Brasil, que ainda não conseguimos nos livrar completamente de nossos manicômios medievais, é impossível conhecer a comunidade terapêutica de Geel sem sentir por ela um imenso respeito. E ela pode até nem ser o
e muito menos a , como a denominaram durante centenas de anos, mas é, sem sombra de dúvidas, um modelo de atendimento público em saúde mental digno de qualquer país verdadeiramente civilizado.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 23 de janeiro de 1997

Intelectuais e o truque da mistificação mutua


"Não é o homem que é desprezível,

mas aquilo que ele pensa"


(Cioran)


Num planeta praticamente dominado por brutamontes e especialmente num país cuja população básica é de analfabetos, ninguém deve se horrorizar ao perceber que aqueles sujeitos que possuem um conhecimento mediano, que falam idiomas e que sabem recitar Adam Smith, Marx ou Santo Agostinho sejam considerados pequenas divindades, gênios, estadistas, intelectuais etc. Foi assim nos tempos das cavernas, no período negro do medievalismo, nos séculos mais recentes e, o pior, o é ainda hoje e com a mesma ingenuidade.



Um caso clássico e exemplificador do que escrevo, pode ser o daquele simpático senhor e ex-presidente que, apesar de ser um caso típico de inteligência mediana, continua sendo exibido por seu staf como sendo um superdotado, como um herói do poliglotismo e como um honoris causa das principais universidades modernas do mundo. Para que esse espetáculo tenha êxito, todos sabemos, basta dispor de um ator com boa memória, da cumplicidade dos meios de comunicação e, lógico, das chaves do poder. 

Se entre os gangsters regionais e internacionais existe uma visível conivência, um corporativismo militante e uma cumplicidade incondicional, no mundo intelectualóide da política e principalmente do politicismo, existe algo ainda pior: um pacto de promoção mútua. O presidente da Argentina, por exemplo, queima incenso ao presidente da Venezuela; o da Venezuela, por sua vez, faz panegírico ao da Bolívia; o da Colômbia diz que o do Brasil tem um passado honrado e que é um sábio, enquanto este reverencia submisso o da Alemanha ou o dos EE.UU. etc, etc. Filósofos elogiam filósofos; governadores aplaudem governadores; doutores defendem doutores, bispos santificam outros bispos e assim se eterniza o espetáculo nas esferas da diplomacia-vaselina e da politicagem mais vomitiva, enquanto o populacho e a manada, destruídos pelo inferno da ignorância, ruminam utopias ou despencam na depressão.


Quem tem a mínima vivência acadêmica internacional sabe muito bem como funciona esse marketing e como os intelectuais-políticos ou os políticos-intelectuais agem para mistificarem-se mutuamente. 


-Fulano de tal da Sorbonne convida o Sicrano de tal da USP para «dar uma conferência», para que logo em seguida o Sicrano da USP convide o fulano da Sorbone para um «simpósio». Nos tais eventos artificiais ou fictícios, como era de se esperar, não aparece ninguém, mas como o que importa para os dois lados é o «teatro em sí», o curricullum Lattes e o folclore do saber, tudo é devidamente vivenciado como se fosse algo sério, uma praxis ética e até revolucionária... 


Beltrano de tal do centro X de pesquisa publica uma resenha do fulano de tal do Instituto Y, para logo em seguida receber deste uma bolsa de pesquisa, honorários, títulos, promoções, passagens etc. Se não produzem praticamente nada de aproveitável para a ciência, para seus países e muito menos para as manadas silenciosas, pelo menos passam bons momentos nos melhores hotéis, restaurantes e aviões do mundo, faturando em Euros e sempre fazendo de conta que estão dedicando a vida a um projeto humanista. 


Um filósofo escreve no Le Monde que outro filósofo é uma genialidade e logo em seguida o Outro lhe retribui com gratidão na "Folha de São Paulo" afirmando que aquele é a revelação do século... 


E assim, numa espécie de ping-pong pederástico, esses sabichões vão driblando as massas distraídas e sugando até o último centavo dos cofres nacionais e internacionais, supostamente destinados aos programas científicos e culturais. E depois, quando se cansam dessa mamata, então se aposentam: um pé na igreja e outro na universidade; uma nádega num ministério e outra numa multinacional. Com um capital suculento e com aposentadorias compatíveis com a deslealdade exercida durante tanto tempo, é evidente que não ficam vivendo aqui. Vão imediatamente viver em Genebra ou em Washington. Abandonam a África, o Leste Europeu, a Ásia ou a América Latina que lhes pagou ou que pelo menos justificou seus privilégios e vão viver no frescor suíço ou na viadagem de Nova Iorque, certos de que "cumpriram com sua missão". E o pior: nos jornais dessas nações pobres, míopes e miseráveis que sustentaram esses gatunos, os articulistas-filósofos da ativa, numa demonstração clara de corporativismo e de fidelidade classista, de vez em quando ainda usam uma página de seus jornais para clamar devotamente:


-No tempo do Fulano de tal!

-Que barbaridade! O Brasil continua perdendo seus melhores talentos!

-Estamos indignados! O terceiro mundo não valoriza os seus mais bem dotados cidadãos!

-Meu Deus! Que triste é ver o êxodo de todas essas genialidades! etc, etc.

E as massas de leitores semi-analfabetos deliram! Amam o cinismo posto em prática. Admiram essa troupe facínora que cita de cor tanto o velho Golbery como o Papa Pio XII e que enquanto embolsa propinas ou comunga, jura que dedicará toda sua vida à emancipação cultural e econômica dos fodidos e dos alucinados da terra.


Sim, a classe média, os assalariados e os licenciados se identificam com esses furúnculos da sapiência, se prostram ao ouvir uma frase em inglês, um versículo em hebraico ou uma citação de Hegel em alemão. Adoram as gravatas coloridas, os topetes grisalhos, os gestos teatrais do covil.


E o pior, é que ainda em pleno século XXI, o que se observa verdadeiramente na praxis de todo esse circo de quinta qualidade é, por um lado, que nenhuma força parece ser suficiente para coibir essa farsa generalizada, esse blefe sobre a sociedade e sobre si mesmo, e por outro, que o mundo, esse planeta desvairado, vai rapidamente tomando a forma de um imenso e lúgubre sanatório, que se distrai apenas com o cacarejar insano de seus dementes.

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 23 de janeiro de 1996

O trabalho como ilusão e como perversão


"A cada porcaria que sai de minha boca
eu me sinto mais limpo"
Pierre Louys


O desemprego, longe de caracterizar um problema social, bem que poderia ser o sinal ou o signo de que, finalmente, a humanidade caminha para sua emancipação. Mas não.

Os próprios desempregados, manipulados e mobilizados pela TV, pelos sindicatos, associações e igrejas de todos os matizes, vão às ruas exigir nada mais nada menos do que trabalho. Queremos trabalhar! Queremos trabalhar! Queremos trabalhar!!! Já os que trabalham, quando fazem greve, a intenção não é a conquista do lazer, mas pelo contrário, o fortalecimento dos vínculos com o trabalho e a solidificação das garantias de que estarão empregado por toda a vida. A grande maioria, para o cúmulo da perversidade, faz de tudo para permanecer trabalhando depois de aposentada, dando a impressão de que a própria escravidão se torna vício, de que o ócio sufoca e, por fim, de que o homem faz de tudo para e com os outros, no intuíto de jamais deparar-se consigo mesmo. De tudo o que os gregos e romanos escreveram, o que mais fascina ee exatamente o desprezo que (de Heródoto e Xenofonte a Cícero) sempre expressaram pelo trabalho. Para eles, que haviam herdado esse saber dos egípcios, o trabalho pertencia por direito aos escravos, e eram tão rigorosos nisto, que não permitiam nem mesmo que suas mulheres costurassem, ou tecessem, para não rebaixar sua nobreza. Em sua famosa «Econômica», Xenofonte afirma que as pessoas que se entregam ao trabalho manual não alcançam jamais uma boa posição. Cícero, por sua vez, falando dos ofícios, estava seguro que aqueles que ofereciam seu trabalho em troca de dinheiro, além de vender a si mesmos como prostitutos, se colocavam na categoria de párias. Na obra de Marx (desse homem que recopilou sutilmente os gregos), o que existe de mais interessante é o projeto que prevê não apenas uma melhora nas relações de trabalho (como entendem os sectários), mas a possibilidade de suprimi-lo e de riscá-lo definitivamente do mapa. Nesse particular, por mais ridículo que pareça, é necessário reconhecer que grande parte da elite e da aristocracia mundial, sem necessariamente ser marxista, parece ter conquistado o que ele tanto teorizava, já que não trabalha há mil anos. Já que não fazem nada. Conquistaram o direito de permanecer afastados do trabalho para sempre, mergulahos no ócio, na preguiça, nas banheiras e nas pilhas de dólares. Quando fazem alguma coisa, é mais para exercer o poder ou para desatrofiar a memória. Investem em relojoarias, em lojinhas, em clínicas, em criações de vacas, em garimpos, em frotas de caminhões, em bazares, jóias, fábricas, fazendas, imóveis e outras porcarias que o populacho necessita. Investem sem sair de suas mansões e ficam de longe computando os dividendos, privatizando os mais variados bens do planeta, jogando baralho e vivenciando na prática, o marxismo utópico. Para esses barões do ócio, as duas instituições que na contemporaneidade são o símbolo máximo de toda filosofia greco-romana se chamam: Bolsa de valores e Club Mediterrané. Oito, sete, seis, cinco horas da manhã!

O mundo proletário acorda o mais cedo possível para ligar as turbinas de sua servidão, preso e iludido pelos antigos dogmas e pelo antigo moralismo de que só o trabalho enobrece e dignifica. Mas enobrece como, se a própria nobreza nunca trabalhou? Dignifica como, se na imensidão da turba trabalhadora só se pode perceber humilhação e escravismo? É imensamente doloroso passar pelos fundos das construções, lá pelas três horas da tarde, na hora em que o sol derrete o cérebro, e ver a dedicação e o martírio desses homens que dão suas vidas em troca de uns grãos de arroz e da promessa falsa de que o trabalho eleva.
No Conjunto Nacional, apesar do tipo dos trabalhadores ser outro, o drama é o mesmo: chefetes, subalternos, autônomos e outros gêneros de escravos, com roupas de mórmons, que correm em alta velocidade, que desfilam de lá para cá como se fossem donos de alguma coisa ou como se o planeta estivesse em chamas. As calças suadas no traseiro, olheiras de abatimento e uma falsa serenidade na fala enquanto lá na calçada, um carro forte espera, para transportar ao banco os lucros do dia... Nos ministérios o tédio e a solidão tornam a jornada de oito horas ainda mais vil. O relógio, o calendário, a folha de ponto, a cumplicidade com os governos de turno que, de tão tenebrosos, nem sequer permanecem na história... E a tudo isto se costuma chamar trabalho. Os ônibus chegam de longe trazendo homens e mulheres sonolentos que exibem um crachá no peito e que entram monotonamente nos prédios, em filas, marchando, como se estivessem a caminho do matadouro, e que vão consagrar seu tempo e sua vida na edificação de um mundo absurdo que não lhes diz respeito em nada... E é impressionante observar que praticamente todas as sociedades ditas modernas, padecem desse mal. Do mal de trabalhar e de fazer trabalhar.

Hoje são oito horas, mas ontem chegaram a ser vinte. As correntes foram substituídas pelos relógios e a náusea trabalhista pela ilusão ingênua de que o trabalho, além de tudo é também um truque terapêutico. Para isto, lógico, existem os sociólogos, os psicólogos, os administradores e os vigias que garantem o condicionamento e a ordem, para que o teatro produtivo não se degenere em «vagabundagem».

No lugar da paixão a produção.

E depois, por mais sutil que seja seu funcionamento, a ordem repressiva tem no trabalho e nas regras que o regulamentam o melhor de seus instrumentos. Para quem aceita servil o peso das 44 horas semanais, alguém sem rosto e sem identidade lhe concederá um título de cidadania. Aos outros, aos que, pela razão que for, descambarem para a preguiça e para o ócio, a mesma entidade se apressará em sufocá-los. Ah, o trabalho, o suor e a fadiga!

No campo de Concentração Nazi de Theresienstadt, na Bohème, os prisioneiros podiam ler: Le travail c¹est la liberté.

Mentira. Quem trabalha o faz sempre para um patrão, seja ele pessoa física ou jurídica. Num extremo o antigo opressor feudal, no outro o santo Estado moderno. Apesar dos disfarces, o discurso é o mesmo.

Entre os antigos regimes com campos de trabalho forçado e os governos neo-liberais da atualidade não há nada que seja verdadeiramente diferente. Confúcio, Nero, Mao-Tsé-Tung, Kennedy, a Encíclica Papal, o Fugimore e o Fernando Henrique, todos são sal de um mesmo saco, continuadores da mesma política e da mesma idiossincracia escravocrata. Para todos eles, de Poncio Pilatos a Strossner, o trabalho entra no cotidiano da existência invariavelmente como uma necessidade primordial. Mas todo mundo percebe que por debaixo de suas idéias e de seus discursos diplomáticos subjace sempre e sempre tanto a neurose da produção como a apologia da fadiga. Na essência, o trabalhador, por mais bronco que seja, intui que nada é mais abjeto e mais vil do que o trabalho... mas, estranhamente, permanece nele e em sua jaula, como se estivesse perdido num transe hipnótico. Precisa comer! E esta compulsão pela comida faz do estômago o precursor de todas as escravidões. É por isso que a passagem dos alimentos, da natureza para os armazéns, foi o golpe definitico contra todas as possibilidades de autogestão.

E assim, século após século o inferno do trabalho não cessa, fazendo com que o circo da honradez laboral permaneça intacto, mesmo quando os sujeitos já não possuem mais nem sequer um nome, onde o tempo é tudo e onde cada um só vale pelos músculos que tem. Como não existem mais parâmetros éticos, ficam reduzidos a tolos alienados e cansados que sentem-se extremamente felizes com os sábados e com os domingos, quando podem, finalmente, repousar e esconder-se de um mundo que, sempre que pode, os degusta e os cospe...

Daí a importância de lembrar ­entre uma jornada e outra-, que o trabalho é a raíz de um mundo desenraizado; o crack do povo e o espírito capitalista de uma época decapitada, cujo paradoxo mais cínico é a tentativa de enriquecer toda a humanidade pauperizando todos os seus elementos.

Ezio Flávio Bazzo