quarta-feira, 9 de maio de 2018

O mendigo K, Machado de Assis, o Diabo... e o Sermão da montanha...

Encontrei o Mendigo K nesta quarta-feira de maio em frente ao Palácio da Justiça. Estava com um casaco marrom, uma gravata preta e o volume II das Obras Completas de Machado de Assis, publicada em 1959 que, segundo ele próprio, foi roubada por sua mulher em uma casa de livros usados. 
Como é de costume, colocou a mão no meu ombro e foi falando: Eu que sempre menti para todo mundo que havia lido a obra completa de Machado de Assis ainda na adolescência o estou fazendo só agora... E veja que maravilha este texto de 1893 chamado  O Sermão do diabo. Encostou-se numa das colunas de granito daquele palácio e foi lendo:
"1. E vendo o diabo a grande multidão de povo, subiu a um monte, por nome Corcovado, e, depois de se ter sentado, vieram a ele os seus discípulos.
2. E ele, abrindo a boca, ensinou dizendo as palavras seguintes.
3. Bem-aventurados aqueles que embaçam, porque eles não serão embaçados.
4. Bem aventurados os afoitos, porque eles possuirão a terra.
5, Bem-aventurados os limpos das algibeiras, porque eles andarão mais leves.
6. Bem-aventurados os que nascem finos, porque eles morrerão grossos.
7. Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem  e disserem todo o mal, por meu respeito.
8. Folgai e exultai, porque o vosso galhardão é copioso na terra.
9. Vós sois o sal do money market. E se o sal perder a força, com que outra coisa se há de salgar?
10. Vos sois a luz do mundo. Não se põe uma vela acesa debaixo de um chapéu, pois assim se perdem o chapéu e a vela.
11. Não julgueis que vim destruir as obras imperfeitas, mas refazer as desfeitas.
12. Não acrediteis em sociedades arrebentadas. Em virtude vos digo que todas se consertam, e se não for com remendo da mesma cor, será com remendo de outra cor.
13. Ouvistes que foi dito aos homens: Amai-vos uns aos outros. Pois eu digo-vos: Comei-vos uns aos outros; melhor é comer que ser comido; o lombo alheio é muito mais nutritivo que o próprio.
14. Também foi dito aos homens: Não matareis a vosso irmão, nem a vosso inimigo, para que não sejais castigados. Eu digo-vos que não é preciso matar o vosso irmão para ganhardes o reino da terra; basta arrancar-lhe a última camisa.
15. Assim, se estiverdes fazendo as tuas contas, e te lembrar que teu irmão anda meio desconfiado de ti, interrompe as contas, sai de casa, vai ao encontro de teu irmão na rua, restitui-lhe a confiança, e tira-lhe o que ele ainda levar consigo.
16. Igualmente ouviste que foi dito aos homens: não jurareis falso, mas cumpri ao Senhor os teus juramentos.
17. Eu, porém, vos digo que não jureis nunca a verdade, porque a verdade nua e crua, alem de indecente, é dura de roer; mas jurai sempre e a propósito de tudo, porque os homens foram feitos para crer antes nos que juram falso, do que nos que não juram nada. Se disseres que o sol acabou, todos acenderão velas.
18. Não façais as vossas obras diante de pessoas que possam ir contá-lo à polícia,
19. Quando, pois, quiserdes tapar um buraco, entendei-vos com algum sujeito hábil, que faça treze de cinco e cinco.
20. Não queirais guardar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e donde os ladrões os tiram e levam.
21. Mas remetei os vossos tesouros para algum banco de Londres, onde a ferrugem, nem a traça os consomem, nem os ladrões os roubam, e onde ireis vê-los no dia do juízo.
22, Não vos fieis uns aos outros. Em verdade vos digo, que cada um de vós é capaz de comer o seu vizinho, e boa cara não quer dizer  bom negócio.
23. vendei gato por lebre, e concessões ordinárias por excelentes, a fim de que a terra se não despovoe das lebres, nem as más condições pereçam nas vossas mãos.
24. Não  queirais julgar para que não sejais julgados; não examineis os papéis do próximo para que ele não examine os vossos, e não resulte irem os dois para a cadeia, quando é melhor não ir nenhum.
25. Não tenhais medo às assembléias de acionistas, e afagai-as de preferência às simples comissões, porque as comissões amam a vanglória e as assembléias as boas palavras.
26.  As porcentagens são as primeiras flores do capital; cortai-as logo, para  que as outras flores brotem mais viçosas e lindas.
27. Não deis conta das contas passadas, porque passadas são as contas contadas, e perpétuas as contas que se não contam.
28. Deixai falar os acionistas prognósticos; uma vez aliviados, assinam de boa vontade.
29. Podeis excepcionalmente amar a um homem que vos arranjou um bom negócio; mas não até o ponto de o não deixar com as cartas na mão, se jogardes juntos.
30. Todo aquele que ouve estas minhas palavras, e as observa, será comparado ao homem sábio, que edificou sobre a rocha e resistiu aos ventos; ao contrário do homem sem consideração, que edificou sobre a areia, e fica a ver navios...
Aqui fica o manuscrito que me foi trazido pelo próprio diabo, ou alguém por ele; mas eu creio que era o próprio. Alto, magro, barbicula ao queixo, ar de Mefistófeles. Fiz-lhe uma cruz com os dedos e ele sumiu-se. Apesar de tudo, não respondo pelo papel, nem pelas doutrinas, nem pelos erros de cópia..."
Terminou a leitura, deu um tapa  vigoroso sobre o livro, uma imensa gargalhada e arrematou com uma pergunta: O mundo é ou não é um grande circo? E sumiu, como o diabo de Machado. (Ver Obra Completa, volume II, pp. 624,625,626)

terça-feira, 8 de maio de 2018

Enquanto isso...


"Todos sabem que a sociedade não passa de um vasto orfanato em que os internos procuram inutilmente adotar uns aos outros..."
Fréderic Schiffter




domingo, 6 de maio de 2018

No rabo do cometa halley...

Meu cachorro acordou-me às 3 da madrugada dizendo que era hora de sair para ver a chuva de meteoritos, aqueles fragmentos que o cometa halley foi deixando em sua passagem lá por 1986. 
Quando percebeu que eu estava quase em estado cataléptico, preveniu-me: Bazzo, depois desta, só daqui a uns 60 anos, quando então já estaremos prá lá de Marrakesh!!! E quando nós mesmos seremos menos que um fragmento! 
Diante de tal argumento, pulei do meio dos lençóis.
A cidade estava deserta. Saímos com um mapa estelar nas mãos, um guía das constelações daqueles construídos pelos chineses ainda no tempo de Chen Zhuo, e rumamos para o fundo da noite esperançosos de ver alguma coisa, pelo menos no espaço, algo que diminuísse, pelo menos momentaneamente, a mediocridade e o tédio secular da condição humana. Claro que além dessa vã ilusão íamos também convictos de que poderíamos levar uma facada ou um tiro na primeira esquina (mas Brasília nem sequer tem esquinas!) 
No 'céu', apenas uma meia lua cercada por aquela aura que só é vista pelos delirantes e pelos míopes. 
Quatro ou cinco casais de fotógrafos se mordiscavam neuroticamente na Praça dos Três Poderes. Dois guardas que haviam exagerado na cachaça, com as mãos direitas apoiadas sobre os coldres, juravam estar vendo pedaços de meteoritos por todos os lados. Um dos casais que havia acabado de dar uns tragos numa garrafinha de Ayahuasca (o chá sagrado dos amazônicos) apontava para os lados da Papuda e jurava estar vendo além de meteoritos em zigue-zague, uma procissão de ancestrais que dançavam e que se banhavam na nascente do Rio Amazonas... Os que ainda estavam com o nariz manchado por uma farinha branca diziam ver o Cometa fazendo piruetas, soltando fogo pelo rabo e voltando, fazendo o caminho tortuoso do Eterno Retorno. 
Só nós que por mais que nos animássemos, não víamos nada. Para nós, em nossa cegueira, nem sequer as pobres Três Marias estavam visíveis... Tudo era neblina, o céu estava distante demais, tudo era silêncio e escuridão! 
Voltando para casa, meu cachorro, bocejando e visivelmente decepcionado, olhou para os quatro cantos do mundo e resmungou esta frase de Livingstone: "Um vasto corpo com uma alma esquálida..."

sábado, 5 de maio de 2018

Sobre os trocadores de figurinhas...


"Que me dêem somente alguém que compreenda o que escrevi; que me dêem um homem honesto e inteiro, que tenha o desejo de entender, e não a idéia preconcebida da calúnia..."
Erasmo de Rotterdam



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Hoje, sábado, dia em que, de madrugada, haverá uma chuva de estrelas cadentes, encontrei o mendigo K. ali numa banca de jornais, no meio de uma multidão que se esfregava e que trocava pequenos pedaços de papel. Que porra é essa? perguntei-lhe.
Ele ficou de costas para o bando e cochichou: estão discutindo Kropotkin e Malatesta! e explodiu numa gargalhada para, em seguida, diminuindo a voz esclarecer:
trata-se de um bando de idiotas trocando figurinhas de jogadores de futebol... Acredite se quiser, mas estão todos os dias aqui. 
E era verdade, estavam ali, todos os dias naquela promiscuidade democrática: remediados e pobres, novos ricos e fodidos se acotovelando & trocando figurinhas de jogadores de futebol. Acreditem! É verdade. E não eram crianças ou mesmo adolescentes! Não! A turba era composta basicamente de velhos ou de velhotes. (fascistas, marxistas, comunistas, capitalistas, zés-ninguém e almofadinhas, bacharéis e analfabetos), quarentões, cinquentões, setentões com as barrigas despencando sobre os pentelhos e sobre os quadris... Uma miséria. E havia também mulheres, meninas, velhas. Umas até maquiadas, outras, enfezadas como as bruxas de Salem. Com caras de supersticiosos abriam pequenos envelopes  e com a respiração contida conferiam se havia lá a foto do Messi, do Neimar ou daquele português que de vez em quando aparece sentado no colo de um marroquino... e que não lembro o nome. Inacreditável! E se emocionavam! E se decepcionavam! E tremiam as barrigas e  quando encontravam o que buscavam olhavam para as árvores ao redor numa espécie de gratidão e de agradecimento animista. Repito: quase todos adultos que durante a semana estão fantasiados de terno e gravata na presidência  da república, no STF ou na superintendência dos Ministérios. Que são diretores de estatais, chefes de garagem, assistentes de vigarios, investigadores, limpadores de espingardas, militantes de partidos, assessores parlamentares, "doutores" disto ou daquilo,.. Inacreditável! E o mendigo ria, um riso de desespero e de melancolia vendo aquele bando de cretinos naquele ritual deprimente... E de vez em quando me perguntava: O que se pode esperar dessa gente? E pior: são eles que pedem a soltura do Lula, que  apoiam a intervenção militar; que acham o Joaquim Barbosa um grande nome para governar o país... e a Marina Silva a reencarnação de Madre Teresa de Calcutá; São eles que pretendem reeleger o Temer, votar no  ancião Meireles, transformar o Bolsonaro num Napoleão III...
Enquanto ele ia lançando maldições sobre aqueles retardados eu ia pensando no livro de Marc Augé sobre o futebol, esse fenômeno religioso, essa obsessão de broxas por uma bola... sobre essa religião de cabotinos e de otários, com mais crentes e adeptos que o cristianismo, o judaísmo e o islamismo juntos... Bah! Que miséria!



Enquanto isso...


terça-feira, 1 de maio de 2018

DIA DO TRABALHO!?... Uma bibliografia para os escravos... (inclusive para os convictos)


[... Queremos as estruturas a serviço do homem e não o homem a serviço das estruturas... 
Queremos ter o 'prazer de viver' e não o 'sofrimento de viver'...]
Nos muros de Paris, maio de 1968