sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

E já que falei de cemitérios...


"Arrête: c'est ici l'empire de la mort!"
(numa catacumba de Paris)






518 anos de surrealismo... (e de picaretagem...) Quando é que os crematórios substituirão os cemitérios?

Apesar de que, "Daqui há um século a gente falará de nossa época como o paraíso terrestre. Quando toda a terra será povoada, o homem não encontrará esperança alguma a não ser no passado..." E.M.C. (Cahiers, p. 235)


Placa de túmulo cede e três mulheres caem em cova no Campo da Esperança  (no Correio Braziliense de hoje)





Três mulheres ficaram feridas durante um sepultamento no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, após uma das placas que cobria um túmulo ceder e elas caírem na cova.
O acidente aconteceu nesta tarde de terça-feira (11/1), informou o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Ainda segundo a corporação, nenhuma das mulheres, com idades de 31, 35 e 52 anos, ficou gravemente ferida, sofrendo algumas luxações nos ombros e nos pés.
As vítimas foram atendidas pelos bombeiros e encaminhadas para o Hospital de Base. Elas estavam "conscientes, orientadas e estáveis". O Correio tentou contato com a administração do Campo da Esperança, mas não obteve retorno. 
*Estagiária sob supervisão de Humberto Rezende

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

E em Paris, LA BELLE DE JOUR considera as denuncias de assédio sexual como uma nova onda de ódio e de puritanismo...E Danusa Leão diz que as mulheres deveriam ser assediadas 3 vezes por semana...


"-Y usted, señorita, qué hace?
-Dirijo el tráfico en la Vía Láctea..."
Alfonsina Storni (1892-1938)




Para ouvir a música clicar no canto esquerdo da faixa...



Cem artistas francesas contra o “puritanismo” sexual em Hollywood (Texto publicado no EL PAIS de hoje)




"Em Hollywood, o movimento Time’s Up, apoiado por mais de 300 atrizes, conseguiu tingir de preto a cerimônia do Globo de Ouro, em protesto contra as agressões sexuais. Na França, um grupo formado por uma centena de artistas e intelectuais tomou nesta terça-feira a direção contrária ao assinar um manifesto criticando o clima de “puritanismo” sexual que o caso Harvey Weinstein teria desencadeado. O texto, publicado no jornal Le Monde, é assinado por conhecidas personalidades da cultura francesa, como a atriz Catherine Deneuve, a escritora Catherine Millet, a cantora Ingrid Caven, a editora Joëlle Losfeld, a cineasta Brigitte Sy, a artista Gloria Friedmann e a ilustradora Stéphanie Blake.

“O estupro é um crime. Mas a sedução insistente ou desajeitada não é um crime nem o galanteio uma agressão machista”, afirmam as autoras deste manifesto. “Desde o caso Weinstein houve uma tomada de consciência sobre a violência sexual exercida contra as mulheres, especialmente no âmbito profissional, onde certos homens abusam de seu poder. Isso foi necessário. Mas esta liberação da palavra se transforma no contrário: nos intima a falar como se deve e nos calar no que incomode, e os que se recusam a cumprir tais ordens são vistos como traidores e cúmplices”, argumentam as signatárias, que lamentam que as mulheres tenham sido convertidas em “pobres indefesas sob o controle de demônios falocratas”.
Entre as promotoras do manifesto estão personalidades que já haviam expressado opinião oposta a esse movimento, quando não abertamente contrárias a certas lutas do feminismo. Por exemplo, a filósofa Peggy Sastre, autora de um ensaio intitulado A Dominação Masculina Não Existe, ou a escritora Abnousse Shalmani, que em setembro assinou um artigo onde descrevia o feminismo como um novo totalitarismo. “O feminismo se transformou em um stalinismo com todo seu arsenal: acusação, ostracismo, condenação”, disse na revista Marianne. Por sua vez, a jornalista Élisabeth Lévy qualificou como “abjeto” o movimento iniciado com rótulos como #MeToo ou #balancetonporc (“denuncia teu porco”). Em um tom mais moderado, Deneuve também se opôs a este fenômeno no final de outubro. “Não acho que seja a forma mais adequada de mudar as coisas. O que virá depois? Denuncia tua puta? São termos muito exagerados. E, sobretudo, acho que não resolvem o problema”, declarou na época. Também Millet, crítica de arte e autora do relato autobiográfico A Vida Sexual de Catherine M., se opôs repetidamente a um feminismo “exacerbado e agressivo”.
As signatárias dizem que as denúncias registradas nas redes sociais se assemelham a “uma campanha de delações e acusações públicas contra indivíduos aos quais não se deixa a possibilidade de responder ou de se defender”. “Esta justiça expeditiva já tem suas vítimas: homens punidos no exercício de seu ofício, obrigados a se demitirem [,,,] por terem tocado um joelho, tentado dar um beijo, falado de coisas íntimas em um jantar profissional ou enviado mensagens com conotações sexuais a uma mulher que não sentia uma atração recíproca”, dizem no texto. Também alertam para o retorno de uma “moral vitoriana” oculta sob “esta febre por enviar os porcos ao matadouro”, que não beneficiaria a emancipação das mulheres, mas que estaria a serviço “dos interesses dos inimigos da liberdade sexual, como os extremistas religiosos”.

Efeitos na cultura

O manifesto alerta também para as repercussões que este novo clima poderia ter na produção cultural. “Alguns editores nos pediram [,,,] que façamos nossos personagens masculinos menos ‘sexistas’, que falemos de sexualidade e amor com mais comedimento ou que convertamos ‘os traumas sofridos pelas personagens femininas’ em mais explícitos”, denunciam as signatárias, opondo-se também à recente censura de um nu de Egon Schiele no metrô de Londres, ao pedido de retirada de um quadro de Balthus de uma mostra do Metropolitan de Nova York e às manifestações contra uma retrospectiva dedicada à obra de Roman Polanski em Paris.
“O filósofo Ruwen Ogien defendeu a liberdade de ofender como algo indispensável para a criação artística. Da mesma maneira, nós defendemos uma liberdade de importunar, indispensável para a liberdade sexual”, subscrevem as cem signatárias do manifesto. “Como mulheres, não nos reconhecemos nesse feminismo que, para além da denúncia dos abusos de poder, assume o rosto do ódio aos homens e à sexualidade”, concluem. O texto provocou nesta terça-feira mal-estar entre as associações feministas na França, que o atacaram nas redes sociais. “Ultrajante. Na contracorrente da tomada de consciência atual, algumas mulheres defendem a impunidade dos agressores e atacam as feministas”, declarou a associação Osez le féminisme (Ouse o feminismo)".

O mendigo K e os deuses do Olimpo...



10 janeiro de 2018 - Encontrei o mendigo K nas imediações de uma escolinha fajuta de filosofia que se espalhou pelo Brasil afora e que tem recrutado vinte ou trinta otários semi-afabetizados: estava furioso e indignado. Com quê? perguntei-lhe. Ele remexeu a barba e fuzilando-me com um olhar quase assassino retrucou: indignado com a condição precária e vagabunda da espécie, com esse comportamento tosco e generalizado. Com a impossibilidade de fazer uma relação e um diálogo sóbrio, adulto e real com quem quer que seja. Enfim, com o mau caratismo, o complexo de impostura e o cabotinismo sem fim e vigente... 
Não entendi muito bem a que ele se referia e ele, com um ar cínico completou: Bazzo, lembrando a Cioran, não foi por acaso que os deuses do Olimpo, quando vinham à terra, vinham em forma de animais... isto pode nos dar uma idéia da visão e da estima que tinham pelos homens... (explodiu numa gargalhada)...

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Um discurso inspirado do "bispo" Arnaldo contra o ateu Duvivier...

A segunda-feira do "feliz ano novo!"... "A alma tem o corpo que merece"...

"Toute ville, qui, à un moment, devient le centre de l'univers, en est 
l'égout - par là-même..."
E.M.Cioran
(Cahiers, p.224)


Como já mencionei aqui várias vezes, quando a lenga-lenga do Le Goff sobre a Idade Média já não me satisfaz mais, tomo um calmante e vou passar uma meia hora na rodoviária que fica aqui no "coração" da cidade. 
O circo Garcia (lembram?) ou o Nono Círculo do inferno de Dante perto do que se vê por aqui perdem todo o sentido. Há, antes de tudo, mendigos de todos os gêneros e categorias, vendedores de baterias para celulares, de botões, de chapéus, de pastéis, de viagra, de pen-drives, de sucos, picolés, chinelos, bíblias, calcinhas, marmitas, castanhas, CDs piratas, passagens falsificadas, medalhas, uma jovem mendiga  disfarçada de grávida, relógios, perfumes made in Chine, ágio de dízimos, meias, bilhetes de loteria e do bicho, planos de saúde, da TIM, da OI, da NEXTEL e da Claro, Óleo santo de Israel, camisas de times de futebol e até uma do PT, raquetes caça-mosquitos, trouxinhas de frango e daquela erva que foi legalizada lá na California, fedores, a viúva de um dos maiores corruptos da cidade vendendo escapulários trazidos de Fatima... etc, etc, etc. E, claro, meninas encostadas aqui e ali como se estivessem esperando a avó que estaria lá na fila do PROCON... Homens sentados sobre malas de madeira com a expressão melancólica de quem foi expulso do mundo... Trapaças de todos os tipos, desde as mais conhecidas até as ainda não catalogadas. Por mais ignorante que o sujeito seja, impossível não lembrar da Divina Comédia do florentino e do juízo final de Bosch. Quando estacionei no andar de cima, um sujeito com tipo de quem recém havia saído de um sanatório gritou para um velhote de chapéu cinza que estava no outro lado do estacionamento. - "Tu é ou não é corno?
O velhinho riu, olhou para os lados e disfarçou. O cara gritou-lhe novamente e num tom ainda mais ameaçador a mesma pergunta: "- Tu é ou não é corno?"
Não ouvi a resposta pois me distraí com a passagem de uma senhora de uns 90 anos que também circulava por lá sem destino, a espera de Godot, numa penúria fdp e que enquanto fungava murmurava com insistência para a moça que a arrastava por um braço. "- Aqui, depois de uma chuva, quando sai o sol, levanta esse cheiro desgraçado de mijo!"
Mas, o mais fascinante aconteceu lá junto às escadas rolantes (que, como o governador bem sabe, não funcionam desde 1976). Um sujeito que tinha a barriga e a cara indisfarçável de trapaceiro, atacava uma vendedora de toalhas (com obesidade mórbida) com esta frase de um tal Orígines de Alexandria, que na verdade era um cínico padre grego: "a alma tem o corpo que merece!"