terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Poeira de cocaína, pedregulhos de crack e raízes de arruda IV

Sinceramente, a marcha dos trinta ou quarenta advogados em direção à Câmara Legislativa para protocolar mais um pedido de impeachment contra o governador e seu vice, causou-me muito mais espanto e indignação do que ver aquela série de vídeos onde os pés de chinelo barrigudinhos e esperançosos exibiam bravatas e os larápios embolsavam pacotes de dinheiro. Se não estivessem engravatados e se a marcha deles não fosse tão artificialmente marcial, talvez não tivesse me impactado tanto. Que motivos e quê segredos os impediram de fazer o mesmo no mensalão anterior lá na outra Câmara? Ora, dizer que a faixa nos olhos da estátua de justiça é o símbolo da imparcialidade é um blefe. É bem provável que seus olhos tenham sido interditados para que ela não veja tantas bobagens e tantas imposturas travestidas de lei. E depois, neste país bacharelesco, desde o primeiro dia da República até ontem foram eles que engendraram praticamente todos os imbróglios das leis, todas as veredas obscuras dos códigos, as artimanhas e os truques dos processos para culpabilizarem os inimigos e beneficiarem os cupinchas e a si próprios. Saber – por exemplo - que posso assassinar estúpida e covardemente a uma criança ou a um velho ali na esquina e que, prontamente, qualquer um dos advogados da cidade estará disponível para defender-me, para mentir em meu nome, para justificar meu crime e até para colocar a culpa no defunto, isto é o fim da picada e a essência da desgraça de um povo.

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O futebol e a reunião de Copenhague

Bandeiraços, tiros, gritos, trombetas, hinos e buzinas. Sujeitos extremamente jovens e sujeitos extremamente velhos, sujeitos esclarecidos e sujeitos analfabetos igualmente alucinados nas esquinas sacudindo o esqueleto, a camisa de seu time ou a foto de seu herói. A demência foi geral. Aliás, a demência é geral. O que deve acontecer verdadeiramente no cérebro dessa gente? Quem realmente compreender um desses fanáticos fará mais pela psicopatologia do que Kraepelin. Da varanda, meu cachorro assistia apavorado àquela gritaria e aquele tiroteio descabido. Sentei-me a seu lado e cochiche-lhe no ouvido a frase dos velhos moralistas roubada - como todo mundo sabe - dos textos orientais pelo cristianismo: “esses coitados não sabem o que fazem!”

Seria oportuno que a reunião de Copenhague não ficasse apenas nos banquetes e no blábláblá das emissões de carbono, dos peidos das vacas do Mato Grosso, das motos-serra do Amazonas, das chaminés das fábricas, dos agrotóxicos, do lixo hospitalar, da poluição dos carros etc., mas que incluísse o futebol entre os venenos que acabarão imbecilizando ainda mais e degradando gravemente o planeta e a espécie.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 6 de dezembro de 2009

ALFONSINA Y EL MAR...

Ontem foi a terceira vez que ouvi o carteiro de minha quadra passar assoviando a música de Ariel Ramirez e Félix Luna: Alfonsina y el mar. Vinha por debaixo dos blocos com um pacote de cartas nas mãos, uma bolsa imensa a tiracolo e ar melancólico. Parecia mais do que distante. Quis perguntar-lhe alguma coisa sobre a música, mas ele dobrou bruscamente para a esquerda e sumiu. Quase todos os poetas e literatos da cidade conhecem a história de Alfonsina Storni, a poetisa argentina que se suicidou no Mar Del Plata em 1938. A música que o carteiro assoviava foi uma homenagem a ela. No endereço abaixo, uma das inúmeras e melhores versões.

http://www.youtube.com/watch?v=M_3Xcym37fE&feature=fvw


Ezio Flavio Bazzo