sábado, 25 de outubro de 2025

Lula, as palavras e a reação do Mercado alucinógeno...






"... De todas as leituras é a leitura trágica que é a mais perversa: tenho prazer em me ouvir contar uma história 
cujo fim eu conheço" (...) Nossa sociedade parece ao mesmo tempo calma e violenta; de toda maneira: frígida..."
R. Barthes

Não só a "direita folclórica", mas inclusive a "esquerda, igualmente folclórica" estão bombardeando a declaração-oratória que o Lula fez ontem, la em Jacarta, (logo na Indonésia), sobre a interdependência entre drogadictos e traficantes: "Os usuários - disse o Lula, num linguajar meio estranho - são responsáveis pelos traficantes que são suas vítimas dos usuários também..." E concluiu, usando a simplória e secular dialética das donas de casa: "tem gente que vende porque tem gente que compra!".  A velha lenga lenga do Sujeito/Objeto. Do Ativo/Passivo. Do morto/vivo... Mais ou menos como a lorota do leitor sem defesas diante do texto... E já que falei em esquerda e em direita aproveito para citar a Barthes: "A luta social não pode se reduzir à luta de duas ideologias rivais: é a subversão de toda ideologia que está em causa". E que nos interessa!
Depois, naturalmente, foi pressionado a negar sua fala e a desculpar-se. Ora! Se tivesse lido a Barthes e conhecesse o 'simulador de Bacon', saberia: que o texto jamais se desculpa, jamais se explica. Ele nunca nega nada: "desviarei meu olhar, será doravante a minha única negação..."

Claro que essa fala "filosófica" não poderia ter sido levada a cabo lá, no meio daqueles energúmenos internacionais de Primeiro Escalão, (todos subservientes ao Trump, manipulados pela mídia e pelos fotógrafos)... Mas se tivesse sido colocada em debate num ambiente acadêmico, ou mesmo entre a turma da Cracolândia, teria sido bem melhor acolhida e teria material para ser discutido por um bom tempo. E nem precisa ter cheirado ou fumado para desconfiar que o raio que cai duas vezes sobre o mesmo telhado indica que o problema não é só do raio, mas que há algum tipo de interdependência e de cumplicidade entre aquele telhado e as descargas elétricas. Ou não?

E depois, nessa Babel de lunáticos, cheia de controles e de medos (penso em Hobbes que confessava que a única paixão de sua vida foi o medo), falar de improviso, qualquer um, (mesmo não tendo 80 anos e nem tentando iludir-se que tem 30), mesmo o homem da cobra que fica ali na esquina da rodoviária com seu apito de carnaval na boca, seu chapéu avermelhado na cabeça e suas sandálias de plástico importadas de Hongkong, vendendo suas raízes afrodisíacas, mesmo ele corre o risco de falar merda...

Ah! O lado dark e escuro da lua!

Enfim, pensando bem, a fala do Lula não foi de todo tresloucada e descabida como querem seus hipócritas adversários. Foi, digamos, por um lado, uma espécie de insight platônico e por outro, um inconsciente e  tímido aceno de solidariedade para com os milhões de desterrados, fodidos e expulsos do mundo que foram transformados em traficantes pelo próprio Estado que agora quer varre-los do mapa... 
E é bem provável que o Lula, soltando aquela bomba lá entre aqueles trapaceiros, estaria querendo confidenciar-lhes que sabe, e muito bem, que as verdadeiras relações entre Deus e o Diabo, são muito mais cordiais do que o populacho imagina. Ou não?

A propósito da tese do 'viciado e do traficante' serem as duas caras da mesma moeda, lembram das eternas campanhas estatais a respeito da corrupção, aquelas que afirmavam que havia 'vasos comunicantes', para não dizer uma simbiose entre os corruptos e o corruptores e que portanto, o mal estava nas duas pontas e que, para o bem e para a salvação da humanidade ambos deveriam ser igualmente responsabilizados e combatidos?






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