"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 22 de maio de 2016

Assédio assexual (um artigo de Tati Bernardi - Publicado na Folha de ontem)

Assédio assexual

Os mais conservadores diriam "ela sai de casa com uma roupa dessas e agora reclama?", os mais machistas diriam "você deve ter feito algo pra merecer isso", mas o fato é que estamos em 2016 e eu gostaria de reforçar o meu direito a usar blusa de lã com gola alta, moletom um tamanho maior e calça saruel (e tênis) sem ter que ouvir o que eu ouvi.
Ele marcou um jantar. Veja bem: não foi café da manhã ou almoço ou chá da tarde. Foi um jantar. E tem mais: não era pizzaria com luz de interrogatório policial e nem mesa compartilhada no Bar Balcão ao lado de artista global fazendo teatro cabeça pra equilibrar o carma. Era luz de velas, Nina Simone, vinho, a porra toda.
Foi horrível. Ele pegou na minha mão, lá pras 11 da noite, naquele momento em que toda boa moça espera ouvir "estou doido de tesão e essa calça tá me matando, não quer ir lá pra casa me ajudar a tirá-la" e disse: "Eu tenho um avô extraordinário e adoraria que alguém escrevesse a história dele".
Achei desrespeitoso, grosseiro, pensei em explicar que não estava lá pra isso, quem ele pensa que é, mas na hora, imobilizada pelo susto, soterrada pela vergonha (a gente sempre acha que a culpa é nossa, não tem jeito), só consegui me sentir muito fraca e com medo. É muito cansativo ter que provar o tempo todo que sou uma mulher bonita com uma vagina quando os homens só conseguem ver livros, roteiros, colunas, vendas e bilheterias. Olha esse decote, benzinho. Espera, vamos discutir aqui o capítulo oito. Sabia que eu tenho um alongamento impressionante e. Você acha que entrega até agosto? O alongamento? Não, o texto.
Estou cansada. Talvez eu vá pra Paulista com uma faixa "empoderada eu já sou, agora preciso é ser encoxada no tanque" ou use uma cabeça de Teletubbies com uma camiseta: "Pare de prestar atenção lá em cima, eu também tenho outras partes do corpo que são bem divertidas!".
Mas o macho branco opressor continuou: só você pode contar a história desse imigrante pobre e lutador que chegou aqui sem ter o que comer e construiu um império. Zzzzzzzzz. Deixa eu te contar a história de uma mulher pobre e lutadora que, depois de duas intermináveis reuniões, correu pra fazer uma depilação a laser em lugares só alcançáveis mediante posturas bem humilhantes, tirar os pelos do buço com linha (pior dor já sentida em vida) e se besuntar tal qual uma palhaça num maravilhoso e caríssimo óleo de lavanda Weleda. Tudo isso pra gente discutir, vestidos, a saga de um velhote? Hashtag chega de trabalhar! Minha vaidade não suporta mais ser violentada em silêncio todos os dias.
Tentei lutar. Mordi o braço dele, fui contar um segredo em sua orelha e aproveitei pra dar uma pequena lambidinha (que tava amarga, homem não sabe lavar a orelha). Ops, caiu meu guardanapo. Ops, desculpa, meu cotovelo encosta em cada lugar. Mas não teve jeito. Ele segurou meu antebraço, aquela mão mole, aquela passividade intragável do intelectual cordial. E riu. Eles sempre riem. "Ah como você é engraçada". Ah se você soubesse como posso ser muitas outras coisas. E usou o argumento que, por fim, mesmo sendo tão ofensivo, sempre me fazia ceder: escreve vai, escreve gostoso, eu pago bem.

Um comentário:

  1. Bazzo,
    As mulheres passaram décadas rejeitando, afastando e criminalizando o macho, acusando-os de tarados, fdp, perversos, assediadores, bucetófilos e etc, e agora querem que eles ainda sintam tesão por elas. Se foderam. Agora que trepem entre elas. Como, aliás, está na moda.

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