"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

PANGLOSS, A SÍFILIS E O MENSALÃO...


 
Durante a sessão de ontem no STF onde estão sendo julgados os atores do mensalão ouve um genuíno momento de transcendência quando uma das excelências, pouco antes de lançar seu voto condenatório sobre todos os réus, mencionou com certo asco ao Dr. Pangloss, personagem doentiamente otimista de uma obra de Voltaire.  Quem é que poderia imaginar que iríamos ouvir naquela casa e da boca de uma ministra, uma menção ao velho e maldito Voltaire? Daquele que passou boa parte de sua vida fugindo da Lei e que, sem pudor, apregoava: [O público é uma besta feroz. Deve-se enjaulá-lo ou fugir dele]? 
Apenas para aguçar a curiosidade dos leitores, reproduzo abaixo um dos pequenos capítulos da obra Cândido ou o otimismo desse pensador genial...
  

CAPÍTULO IV

(De como Cândido encontrou o seu antigo mestre de filosofia, o doutor Pangloss, e do que sucedeu)


     Cândido, mais tocado ainda de compaixão que de horror, deu àquele espantoso mendigo os dois florins que recebera do bom anabatista. O fantasma olha-o fixamente, derrama lágrimas, e salta-lhe ao pescoço. Cândido, horrorizado, recua.
     — Ai! – diz o miserável ao outro miserável, – então não reconheces mais o teu caro Pangloss?
     — Que ouço? Tu, o meu querido mestre! Tu, nesse horrendo estado! Que desgraça te aconteceu? Por que não estás ainda no mais lindo dos castelos? Que foi feito da senhorita Cunegundes, a pérola das donzelas, a obra-prima da natureza?
     — Não posso mais comigo – gemeu Pangloss.
     Cândido o levou para o estábulo do anabatista, onde lhe deu a comer um pouco de pão. E, depois que Pangloss se refez:
     — Então – disse ele, – e Cunegundes?
     — Morreu.
     A esta palavra, Cândido perdeu os sentidos; o amigo o fez voltar a si com um pouco de mau vinagre que havia por acaso no estábulo. Cândido reabre os olhos:
     — Cunegundes morta! Oh! onde é que estás, ó melhor dos mundos? Mas de que morreu? Não seria por me ter visto expulsar a pontapés do castelo do senhor seu pai?
     — Não – disse Pangloss. – Ela foi estripada por soldados búlgaros, depois de ter sido violada o mais possível; rebentaram a cabeça do senhor barão, que queria defendê-la; a senhora baronesa foi cortada em pedaços; o meu pobre pupilo, tratado precisamente como a irmã e quanto ao castelo, não ficou pedra sobre pedra, nem uma granja, nem um carneiro, nem um pato, nem uma árvore; mas fomos bem vingados, pois os abaros fizeram o mesmo em uma baronia vizinha que pertencia a um senhor búlgaro.
     Ao ouvir tais coisas, Cândido desmaiou outra vez; mas, voltando a si, e tendo dito tudo o que devia dizer, Indagou da causa e do efeito, e da razão suficiente que pusera Pangloss em tão lastimável estado.
     — Ai! – suspirou o outro. – Foi o amor; -, amor, o consolador do gênero humano, o conservador do universo, a alma de todos os seres sensíveis, o terno amor.
     — Ai! – disse Cândido. – Eu o conheci, esse amor, esse soberano dos corações, essa alma da nossa alma: nunca me rendeu mais que um beijo e vinte pontapés por detrás. Como pôde essa bela causa produzir, na tua pessoa, tão abominável efeito?
     Pangloss respondeu nos seguintes termos:
     — Ó meu caro Cândido! Bem conheceste Paquette, a linda criadinha da nossa augusta baronesa; gozei nos seus braços as delícias do paraíso, que produziram em mim estes tormentos do inferno de que me vês devorado; ela estava infetada e talvez tenha morrido disso. Paquette ganhara esse presente de um franciscano muito erudito, que havia remontado à fonte, pois o adquirira de uma velha condessa, que o recebera de um capitão de cavalaria, que o devia a uma marquesa, que a tinha de um pajem, que o tomara de um jesuíta que, quando noviço, o herdara em linha reta de um dos companheiros de Cristóvão Colombo. Quanto a mim, não o passarei a ninguém, pois estou para morrer. Ó Pangloss! – exclamou Cândido. – Que, estranha genealogia! Não seria o diabo que foi o tronco?
     — Qual! – replicou o grande homem. – Era uma coisa indispensável no melhor dos mundos, um ingrediente necessário: pois, se Colombo não tivesse apanhado em uma ilha da América essa doença que envenena a fonte da geração, e que é evidentemente o oposto da grande finalidade da natureza, nós não teríamos nem chocolate nem cochonilha; cumpre observar que até hoje, no nosso continente, esta doença nos é peculiar, como a controvérsia, os turcos, os hindus, os pernas, os chins, os siameses, os nipônicos, ainda não a conhecem; mas há uma razão suficiente para que a conheçam, por sua vez, em alguns séculos. Enquanto isto, vai ela fazendo um maravilhoso progresso entre nós, e principalmente nesses grandes exércitos compostos de honrados mercenários, tão bem educados, que decidem do destino das nações; pode-se assegurar que, quando trinta mil homens combatem em formação contra tropas iguais em número, há cerca de vinte mil contaminados em cada campo.
     — Admirável disse Cândido, mas é preciso que te cures.
     — Mas como? Não tenho um vintém, meu amigo; e, em toda a extensão deste globo, não me pode nem fazer uma sangria, nem tomar uma lavagem, sem pagar, ou sem que haja alguém que pague por nós.
     Estas últimas palavras decidiram Cândido; foi lançar-se aos pés do caridoso anabatista Jaques e fez-lhe uma pintura tão comovente do estado a que se achava reduzido o seu amigo, que o nosso homem não hesitou em recolher o doutor Pangloss; mandou-o tratar à sua custa. Pangloss, com a cura, só perdeu um olho e uma orelha. Como tinha boa letra e sabia aritmética, o anabatista empregou-o como guarda-livros. Dois meses depois, sendo obrigado a ir a Lisboa a negócios, embarcou consigo os dois filósofos. Pangloss explicou-lhe como tudo marchava o melhor possível. Jaques não era dessa opinião.
     — Está visto – dizia ele – que os homens corromperam um pouco a natureza, pois não nasceram lobos, e tornaram-se lobos. Deus não lhes deu nem canhões nem baionetas, e eles fabricaram baionetas e canhões para se aniquilarem. Eu poderia ainda levar em conta as falências, e a justiça, que se apodera dos bens dos falidos para ludibriar os credores.
     — Tudo isso era indispensável – replicava o doutor caolho, – e os males particulares constituem o bem geral, de sorte que, quanto mais males particulares houver, tanto melhor irão as coisas.
     Enquanto assim arrazoava, o céu escureceu, os ventos sopraram dos quatro cantos do mundo, e o navio foi assaltado pela mais tremenda tempestade, à vista do porto de Lisboa.

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