"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 8

Um espetáculo interessante e gratuíto está garantido para todas as tardes de domingo ao Hyde Park, próximo a estação Marble Arc, onde fica o pessoal do Speaker corner discutindo até a exaustão sobre assuntos “transcendentes”. Com algumas exceções os papos e as discussões mais acaloradas são só sobre Deus, Jesus, Jeová, Maomé, Buda, etc, etc. Os árabes – que são a maioria – tendem a misturar politica e negócios com islamismo, mas no geral cada um (judeus, católicos, muçulmanos, budistas, milenaristas, o diabo-a-quatro) está com seu “livro sagrado” aberto, confrontando trechos “sagrados” com os dos outros, interpretando virgulas, inventando bobagens históricas, mostrando contradições, ridicularizando o “adversário”, garantindo que só ele tem a chave do Reino dos céus etc. O que é mais impressionante nessa turma é a capacidade de suportar a critica. Em alguns momentos tem-se a impressão que irão partir irremediavelmente para pauladas ou facadas, que acontecerá irremediavelmente um crime religioso naquele final de dia, mas logo tudo se esvazia e voltam ao início da discussão dando um show de tolerância e de dialética, mas só até que outro tome a palavra e tudo recomece. Se colocam mutuamente o dedo na cara, fazem bocas, abrem os braços em desespero e em deboche, exibem um trecho sublinhado do Talmud, do Corão ou de outros livretos que nem identifico  e todos se amontoam imediatamente para lê-lo. Silêncio por um segundo, logo dez falam ao mesmo tempo. Quem está sobre a escada, sobre um poste ou sobre um caixote ouve atentamente e depois fulmina uma por uma as contestações dos adversários...  Quem está a favor do palestrante num momento, alguns minutos depois, por uma palavra a mais ou a menos, já não está mais. Pronunciam My GOD com uma certeza e com uma prepotência invejavel. Cada elemento de nossa espécie desenvolve em si, como desenvolve um braço, um pulmão etc, um “caráter”, uma “personalidade”, um “carma”, um “ego” ao redor do qual passará moendo e remoendo a vida inteira, tentando justificar-se, defender-se, provar-se, convencer-se de que seu mal tem algum sentido e alguma razão. Observem a expressão de um morto (antes das maquiagens funerárias), o rosto é como se fosso o hard disc onde estão contidas todas suas frustradas batalhas. Algumas discussões descambam para o idioma árabe, outras para um inglês africano, outras nem sei para qual dialeto. Mas isto não atrapalha em nada, não é necessário entender o que dizem, só a coreografia e a mise-en-scene dos personagens já é uma prova de que alguma coisa não deu certo nesta espécie. A multidão se aglutina ora ao redor de um, depois passa para o outro, participa aqui, participa acolá, sempre com argumentos e com expressões corporais veementes. Curiosamente, não vi nenhum nativo (inglês)  branco e luterano metido nessas intermináveis exegeses. Os próprios policiais, mesmo quando os gritos aumentam e as discussões descambam para o caso da Libia, da Siria etc., ficam só olhando de longe, cheios de tecnologias repressivas e com aquele jeitão de patetas, como se soubessem que todo aquele blábláblá acabará em dois beijinhos nas faces, e que Deus, o Deus de todos os oradores está mesmo é lá nas caixas fortes do Thomas Cok...  E depois, - agora me vem esse insigth - pode até ser que toda essa “liberdade” de expressão seja um truque monárquico para dar chances a essa turma de apátridas fazer semanalmente sua santa catarse. Ou não? Quando dá 18:00 horas em ponto os muçulmanos se jogam no chão para a tradicional oração, ficam ali uns segundos, logo se limpam os joelhos e voltam para a defesa do Corão e de Maomé. E lá estão os judeus prontos para contestá-los, os católicos para defender a santificação do prepúcio, uma velhinha demente distribuindo folhetos da virgem, os hare krishnas com seus sininhos infantis, os milenaristas jurando que o mundo irá acabar mesmo, agora dia 21 de maio, um vietnamita que não teve público, e uma senhora elegante e defensora dos animais ela, pelo menos, ao invés de GOD fala soberbamente em DOG. Vejam que descoberta, as letras são as mesmas!!!  Um negro com um chifre no alto da cabeça, um velho anarquista, um grupo de misóginos, um representante dos homeless, dois padres com longos crucifixos sobre a barriga e outros loucos de Deus. Se aqui em Londres é assim hoje, na Era do Macintosh, imaginem como deve ter sido essa discussão lá na época que compilaram o Velho e o Novo Testamento onde reinava a mais absoluta ignorância! Imaginem como deve ter sido lá na época em que Noé enfiou um elefante e um búfalo numa gôndola, na época em que inventaram a balela do Messias, na época que Buda, com aquela barriga, foi abortado das entranhas de um lótus, na época em que Caim (o primeiro macho da humanidade) eliminou um quinto da população com uma única bordoada e na época em que Satã saiu abrindo zonas e sex shops pelo mundo a fora...








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