"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Pasmosos viajeros! Y qué nobles historias leo en vuestra mirada, profunda como el mar! (C.B)


As turbinas continuam rugindo com a mesma fúria e po­tên­cia. Agora já posso ver Dakar constando no mapa e também Abidjan, com seu Centro hospitalar de Fann. Um pouco mais em cima estão Casablanca, as costas marí­timas inteiras do Marrocos, Funchal, as Ilhas Espanholas e Santiago de Compostela... Na direção do Oriente Médio, a Síria, com seus bîmâristâns locais não apenas de loucura, mas também de sabedoria. As viagens va­lem por estes mo­mentos em que se está levitando e transitando entre um mundo e outro.

Já me surpreendi desejando que a viagem fosse um fim em si mesmo. Que o avião apenas desse razantes sobre o mundo e voltasse para o meio das nuvens, para o meio da noite, da solidão este­lar, para que assim não ti­vesse que in­ter­romper meus devaneios nem minha vagabundagem ir­remediá­vel. "O louco não é aquele que perdeu a razão - escrevia Chesterton - mas, pelo contrário, é aquele que perdeu tudo, menos a razão". As ci­dades, as vilas, os reinos, os estados, os mares tenebrosos, as gelei­ras glaciais, as nuvens carregadas de raios vistas aqui de cima, se revelam de uma conotação e de um sentido que lá em baixo não se en­contra. Aqui de cima posso dar-me ao luxo de olhar para a Iuguslávia em guerra, para os mísseis que caem sobre a tabacaria da família Miselovich; para os ju­deus e os pa­lestinos tomados pela desconfiança mútua, e ser ora esoté­rico, ora cartesiano, ora metafísico, ora pragmático e até mesmo um filósofo de araque, sem ter que prestar contas de meus devaneios ecléticos a nenhum espia e a nenhum guardião, seja do judaísmo, do islamismo, do cristia­nismo ou do paganismo. Ah, desde este lugar aqui entre as nu­vens é que se pode experi­mentar verdadeiramente o prazer da invencionice, da irreve­rência e, principalmente, da liberdade de não pertencer a nenhuma confraria de pés sujos. “O homem da modernidade é efetivamente um homem frágil, desarmado e isolado. É o homem da tecnologia fria e dos afetos fragmentados. É o homem do exílio interior. Esquizóide fora dos muros do hospital psiquiátrico; esquizofrênico no interior dos muros”. Basta um raio ou uma turbulência para despedaçá-lo.

Cheiro de café, as luzes se acendem, as aeromoças trocaram de roupa e parecem tão ansiosas quanto os passageiros. Uma fila quase interminável para a toalete e um odor desagradável no ar. Entramos em território francês. Lá está Marseille, mais acima a cidade de Chartres com sua catedral cigana e logo de­pois, Paris. Se lá por cima das nuvens o dia já havia amanhe­cido e um sol vermelho e manhoso esculpia desenhos dalinianos no meio do aparentemente infinito, aqui no Charles de Gaule, chuvisca e faz 12 graus. Sinto que voltar a Paris é sempre um desas­sossego. Essa aparên­cia de imutabili­dade impressa em tudo coloca ainda mais em evi­dência a nossa triste efeme­ridade. A primeira vez que desem­bar­quei aqui, tinha vinte e um anos, cinco dólares no bolso e, na ca­beça, todas as ficções que um homem da­quela idade podia ter: es­tradas, tocas, música, pequenos trabalhos, albergues, ilhas, Wilhelm Reich, heroísmos, mar­quises, estações, amores fugidios, espeluncas, jejuns, Herman Hesse, as praças, Sartre, Marcuse, a liturgia dos intelectuais da Escola de Francfurt, o sol, o arroz integral, George Oshawa, na­vios e até uns tragos de Lacrima Christi, o melhor vinho da re­gião do Vesúvio.

Pouco depois, enquanto ia caminhando em dire­ção ao me­trô tomava consciência de que o mundo e as coisas daquela época ainda permaneciam integralmente gravados e ar­quivados na biblioteca ar­queoló­gica de meus sonhos... Apesar do deleite pelos himalaias-do-prazer, a consciência da inevitável transitoriedade de tudo me obrigava a fechar as asas e descer o mais rápido possível para o território pobre e inóspito da realidade, onde as palavras - por sorte - não conseguiam ser mais sedutoras, nem mais misteriosas e nem mais terríveis que os fatos.

(fragmento do livro: Dymphne, a santa protetora dos loucos)

Ezio Flavio Bazzo

3 comentários:

  1. Este é um texto essencialmente poético. Busquei em Rilke sua melhor definição: pensar as coisas com o olho. Olhar as coisas com o pensamento. Fazer visíveis as relações do ser com o mundo. Registrar o instante , dando-lhe permanência, sabendo que nada é definitivo... Impregnar de permanência a fluida realidade. Desvendar a alma secreta das coisas e ouvir na concha, vozes de nossos mares interiores. Um outro sistema ordenador chamado poética.

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  2. O Bazzo, ao descrever situações: deleite, verossimilhança, idiossincrasia, reminiscências de grandes como Dostoiévski...

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  3. sim, aos aviões que transitam entre a ponte aérea brasil-paris: "Basta um raio ou uma turbulência para despedaçá-lo". o parido da poesia é a ironia, o duplo da tragédia. mas de vez por outra o trágico, ou como os italianos dizem, o "sinistro", vem nos lembrar que não são só os pobres e ferrados que o experimentam. Fez-se materializar uma tempestade, anarquista ou mesmo nihilista, e sua dança no azul do céu logo varreu dos radares, e do mapa, um regente de orquestra, o príncipe da família imperial brasileira, o chefe de gabinete da prefeitura do rio de janeiro, a acessora da presidência da petrobrás, altos executivos nacionais e franceses da michelin, um cirurgião plástico e outros membros da aritoscracia brasileira e internacional. para alguém, como eu, que já perdeu familiares nas mãos de ditaduras e em outras ações de terrorismo de estado ao redor do mundo, só posso dizer uma coisa à comoção televisivas deste último desastre: a morte não é uma tragédia, a tragédia só acontece enquanto se vive.

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