"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A segunda-feira do "feliz ano novo!"... "A alma tem o corpo que merece"...

"Toute ville, qui, à un moment, devient le centre de l'univers, en est 
l'égout - par là-même..."
E.M.Cioran
(Cahiers, p.224)


Como já mencionei aqui várias vezes, quando a lenga-lenga do Le Goff sobre a Idade Média já não me satisfaz mais, tomo um calmante e vou passar uma meia hora na rodoviária que fica aqui no "coração" da cidade. 
O circo Garcia (lembram?) ou o Nono Círculo do inferno de Dante perto do que se vê por aqui perdem todo o sentido. Há, antes de tudo, mendigos de todos os gêneros e categorias, vendedores de baterias para celulares, de botões, de chapéus, de pastéis, de viagra, de pen-drives, de sucos, picolés, chinelos, bíblias, calcinhas, marmitas, castanhas, CDs piratas, passagens falsificadas, medalhas, uma jovem mendiga  disfarçada de grávida, relógios, perfumes made in Chine, ágio de dízimos, meias, bilhetes de loteria e do bicho, planos de saúde, da TIM, da OI, da NEXTEL e da Claro, Óleo santo de Israel, camisas de times de futebol e até uma do PT, raquetes caça-mosquitos, trouxinhas de frango e daquela erva que foi legalizada lá na California, fedores, a viúva de um dos maiores corruptos da cidade vendendo escapulários trazidos de Fatima... etc, etc, etc. E, claro, meninas encostadas aqui e ali como se estivessem esperando a avó que estaria lá na fila do PROCON... Homens sentados sobre malas de madeira com a expressão melancólica de quem foi expulso do mundo... Trapaças de todos os tipos, desde as mais conhecidas até as ainda não catalogadas. Por mais ignorante que o sujeito seja, impossível não lembrar da Divina Comédia do florentino e do juízo final de Bosch. Quando estacionei no andar de cima, um sujeito com tipo de quem recém havia saído de um sanatório gritou para um velhote de chapéu cinza que estava no outro lado do estacionamento. - "Tu é ou não é corno?
O velhinho riu, olhou para os lados e disfarçou. O cara gritou-lhe novamente e num tom ainda mais ameaçador a mesma pergunta: "- Tu é ou não é corno?"
Não ouvi a resposta pois me distraí com a passagem de uma senhora de uns 90 anos que também circulava por lá sem destino, a espera de Godot, numa penúria fdp e que enquanto fungava murmurava com insistência para a moça que a arrastava por um braço. "- Aqui, depois de uma chuva, quando sai o sol, levanta esse cheiro desgraçado de mijo!"
Mas, o mais fascinante aconteceu lá junto às escadas rolantes (que, como o governador bem sabe, não funcionam desde 1976). Um sujeito que tinha a barriga e a cara indisfarçável de trapaceiro, atacava uma vendedora de toalhas (com obesidade mórbida) com esta frase de um tal Orígines de Alexandria, que na verdade era um cínico padre grego: "a alma tem o corpo que merece!"

Um comentário:

  1. http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2018/01/11/interna_cidadesdf,652741/eua-pede-que-americanos-evitem-quatro-cidades-do-df-devido-a-violencia.shtml

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