"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

De turmalina, brilhantes e liquidificadores queimados...


Para ouvir a música clicar no canto esquerdo da faixa...



Brasília, neste dia 08 do 12 amanheceu ameaçando chuvas, ventos e tempestades. Mas foram todos sinais falsos.  Aos poucos tudo voltou ao normal e uma neblina de mediocridade cobriu tudo.
Encontrei o mendigo K. em plena euforia. Lembrou-me que hoje é comemorado o dia da justiça. Fez uma pausa e concluiu: Deu para ver ontem lá no STF! Gostaria imensamente de saber o que os milhares de presidiários pensaram ao ver as negociatas entre juízes e senadores... E gargalhou.
Em seguida falou-me da baixa generalizada de testosterona nos três poderes e dos velhinhos que estão apavorados com as novas regras da aposentadoria. Eu, que interpretei literalmente a Lei da Princesa Isabel, me disse com orgulho, estou aposentado desde os 18 anos.  Mas preste atenção, completou, quem está mais chocado com esse aumento do tempo de escravidão e com a diminuição dos salários dos aposentados são os donos das farmácias. E explodiu em outra gargalhada.
Depois tirou do bolso da camisa um par de brincos que ele próprio fez com tampinhas de garrafas e disse que será o presente de aniversário de sua senhora, fazendo referência aos de turmalina com diamantes que a mulher do Cabral colecionava quando estava solta. Agora é a primeira dama em Bangú, cochichou.
Comunicou-me, quase oficialmente, que nesses dias de natal e de fim de ano a cidade, como sempre, será invadida por um exército de indigentes que, como um bando de abutres, vem para cá recolher porcarias, trapos, remédios vencidos, cobertores, óculos de grau, liquidificadores queimados e sobras de comida que os filantropos burocratas e suas beatas esposas lhes dão para esvaziar suas geladeiras, limpar suas garagens e exorcizar suas culpas...
Sabia de cor os estados que mais participam dessa indigência nacional e os caminhos através dos quais se realiza essa insólita e épica loucura.
Com uma página de jornal onde estava a manchete a respeito dos venezuelanos que estão fugindo da Venezuela para o Brasil, ironizou: estão fugindo de um inferno castelhano para um inferno lusitano...
Coçou de maneira indiscreta o saco e saiu cantarolando Dingo bel... dingo belll... dingo bellll
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Obs: Desesperados com a situação do país, numa das últimas manifestações de rua além de gente pedindo intervenção militar havia gente pedindo intervenção divina. Haja hospícios! 

2 comentários:

  1. A Praça dos Três Poderes: se murar vira presidio, se cobrir com lona vira circo, se botar luz vermelha vira puteiro e se der descarga não sobra ninguém!

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  2. Las piedras preciosas frecuenteme
    mente ocultan la miseria que tie
    nen en el alma los que las portan.

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